sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Aumento dos roubos em São Paulo


Vem merecendo bastante destaque no noticiário o aumento intenso dos roubos no Estado de São Paulo nos últimos meses. As taxas de crescimento com relação ao ano anterior giram ao redor de 30% no Estado e superam os 42% na Capital.


Antes de tudo, é preciso observar que há uma tendência generalizada de aumento de roubos na maioria dos Estados, desde cerca de março de 2013, tomando a média dos oito estados observados. A tabela abaixo traz as taxas de crescimento dos roubos, com relação ao mesmo período do ano anterior, para oito estados (trabalhamos com médias móveis de 3 períodos, alisando a série para tornar o fenômeno mais visível).
A inversão do ciclo de baixa para o de alta começa em novembro de 2012 no RS, dezembro de 2012 em GO, janeiro de 2013 em Minas, em abril de 2013 no Rio de Janeiro, em maio de 2013 em São Paulo, em julho de 2013 no MS, em setembro de 2103 no MT. Com exceção de Santa Catarina, que deixou de divulgar os dados mais recentes, todos os demais tiveram crescimento acelerado dos roubos. Como discutimos e ilustramos em vários artigos anteriores, em geral os ciclos criminais, especialmente os ligados aos crimes patrimoniais, estão vinculados aos busines cycles e diversos indicadores corroboram a desaceleração da economia nos últimos meses.





Note-se que o pico de crescimento parece ter sido atingido por volta de março ou abril de 2014 e a partir daí começamos a observar ligeiras diminuições no ritmo de crescimento. A exceção parece ter sido São Paulo, que continuou a apresentar taxas crescentes de roubos.
O que explica porque em SP, diferentemente dos demais estados, a tendência de crescimento não apenas não estancou mas, ao contrário, continuou subindo acentuadamente?
O gráfico de controle de qualidade abaixo traz a série histórica mensal de roubos absolutos em São Paulo, desde 2001. Ele mostra tanto a tendência de crescimento, através da linha de tendência, quanto uma clara mudança de patamar a partir de janeiro de 2014. Os aumentos foram superiores a 3 desvios padrões com relação à média, o que dispara um alerta de que algo significativo deve ter acontecido.






Conforme se tem alegado, a melhor candidata para explicar a quebra de nível da série histórica é a hipótese de que mudanças nos sistemas de registros das estatísticas em dezembro tenham aumentado a notificação de crimes, impactando nas estatísticas de roubo.
Como separar o joio do trigo e distinguir o que se deve à tendência histórica de aumento e o que se deve às mudanças no sistema de registro?
Uma maneira de isolar estes impactos é comparar os níveis observados com os níveis esperados, utilizando um modelo ARIMA e a série histórica pré 2014 para projetar qual teria sido a trajetória dos dados, caso nenhuma mudança no sistema de registro tivesse sido efetuada em dezembro de 2013.
Na tabela abaixo vemos os números esperados e observados de roubos no estado, de janeiro a maio de 2014. A última coluna, por sua vez, mostra a diferença percentual entre as duas séries, ao redor de 18%.






Sendo correta a projeção, deveríamos ter observado um aumento de 12% nos roubos do Estado, baseado na tendência histórica anterior. No entanto, observamos um aumento de 32,8%, comparando os cinco primeiros meses de 2014 com o mesmo período de 2013. Como o impacto da mudança no sistema de registro foi de aproximadamente 18%, podemos dizer que a maior parte do aumento observado nos roubos nos últimos 5 meses deveu-se à mudanças de metodologia de coleta, embora haja de fato uma tendência de crescimento dos roubos. O crescimento maior na Capital é natural neste contexto pois a demora do atendimento nas delegacias físicas dos grandes centros urbanos incentiva o uso mais intensivo do registro on-line. De toda forma o governo acerta ao incentivar o aumento da notificação de crimes, facilitando as formas de registro, pois a informação correta é a matéria prima para um bom planejamento policial.
Não se trata de minimizar a tendência de crescimento dos roubos mas apenas de colocá-lo na sua devida dimensão. Qualquer erro de interpretação neste contexto pode levar ao abandono de políticas de segurança que vem sendo tentadas, como o criativo sistema de metas, e a adoção de medidas populistas para lidar com a pretensa explosão da criminalidade.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

8º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Programação Preliminar 8º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Dia 28/07 – Segunda-feira MANHÃ E TARDE 9h – 18h: Reunião do Comitê Gestor do SINESP (Evento fechado, apenas para gestores) ­­­Dia 29/07 – Terça-feira MANHÃ E TARDE 9h – 18h: Reunião do Comitê Gestor do Sistema Regional de Indicadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) (Evento fechado, apenas para gestores) 9h – 18h: Reunião do Comitê Gestor do SINESP (Evento fechado, apenas para gestores) 9h30 – 12h: Reunião do Conselho de Administração do Fórum (Evento fechado, apenas para conselheiros) 14h30 – 17h30: Assembleia Geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Evento fechado, apenas para Associados do FBSP) NOITE 19h30: Abertura Solene ­­ Dia 30/07 – Quarta-feira MANHÃ 9h – 10h30: Conferência Internacional 1 Como prevenir crimes e policiar multidões: a experiência da Polícia de Boston Conferencista: Edward F. Davis (Polícia de Boston - EUA) Moderação e comentários: Elizabeth Leeds (FBSP) e Cel. José Maurício Weisshaupt (PM/SP) 10h30 – 11h: Coffee-break 11h – 12h30: a confirmar TARDE 14h – 18h: Painel 1 – Pacto Federativo e Financiamento da Segurança Pública Moderador: Marco Antonio Carvalho Teixeira (FGV) Debatedores: Daniel Cerqueira (IPEA), Fernando Abrúcio (FGV/SP), Ursula Peres (EACH/USP), Eduardo Batitucci (FJP), Eduardo Pazinato (Fidedigna) 14h – 18h: Painel 2 – Sistema Prisional e Justiça Criminal Moderador: Humberto Vianna (FBSP) Debatedores: Almir Oliveira (Ipea), Bruno Langeani (Sou da Paz), Fábio Sá e Silva (Ipea), José de Jesus (Pastoral Carcerária/FGV), Jacqueline Sinhoretto (UFSCar), Marta Machado (FGV), Rodrigo Azevedo (PUC-RS) 14h – 18h: Painel 3 – Arranjos Institucionais, integração e articulação de políticas de segurança pública Moderação: Jésus Trindade (PC/MG) e Luiz Antonio Brenner (Instituto Guayi/RS) Debatedores: Carolina Ricardo (Instituto Sou da Paz), Cristina Villanova (SENASP), Jacqueline Muniz (UCAM), Lenin Pires (UFF), Luciana Guimarães (Instituto Sou da Paz)*, Robson Sávio (PUC-MG), Silvia Ramos (UCAM), Olaya Hanashiro; André Zanetic (NEV-USP), Paulo Sette Câmara (PF-PA) 14:30h – 18h: Painel 4 – O Papel do Ministério Público na Segurança Moderador: Arthur Trindade Maranhão Costa (UNB)* Participantes: Representante do Ministério Público Estadual, Representante do Ministério Público da União, Representante do Tribunal de Contas da União, Julio Cesar Fernandes Neves (Ouvidoria de Polícia/SP)*, Ignácio Cano (UERJ), Theodomiro Dias Neto (FGV) 14h – 18h: Painel 5 – Transparência e Accountability Moderação: Luciane Patrício (SESEG/RJ) Debatedores: Samira Bueno (FBSP/FGV), Nívio Nascimento (UNODC)*, Ana Paula Miranda (UFF), Ludmila Ribeiro (UFMG), Paulina Duarte (OEA), Rodrigo Serrano-Berthet (Banco Mundial), Dino Caprirolo (BID), Ana Maria San Juan (CAF), Tulio Kahn (FBSP), Aline Kerber (Fidedigna) 14h – 18h: Painel 6 – Relatos de Pesquisas Moderação: Michel Misse (UFRJ)* e Guaracy Mingardi (FBSP) Debatedores: Glauco Carvalho (PM/SP)*, Moacyr Duarte (COPE- UFRJ)*, Ana Rosa (PWC), Rafael Alcadipani (FGV), Cristiane Lima (SENASP), Eduardo Paes Machado (UFBA), Haydée Caruso (UNB), Letícia Godinho (FJP), Marlene Spaniol (BM/RS), João Trajano (UERJ), Marcos Veloso (PC-MT) ­­­­­­­­­­­­­­­­­­Dia 31/07 – Quinta-feira MANHÃ 9:00h – 12h30: Plenária – Pacto pela reforma das polícias no Brasil (reunião com associações, movimentos sociais, colegiados, universidades e gestores para sugestões de pontos prioritários para os próximos governantes, que assumirão em 2015) Moderação: Renato Sérgio de Lima (FBSP) Debatedores: Oscar Vilhena (FGV)*, Regina Miki (SENASP)*, Sérgio Roberto de Abreu (FBSP), Thais Bilenky (Folha de São Paulo)*, Guilherme Almeida (USP)*, José Vicente Tavares dos Santos (UFRGS) TARDE 14h30 – 18h: Painel 7: Qual o legado da Copa do Mundo de 2014 para a segurança pública? Moderador: Rob Muggah (Instituto Igarapé) e nome a confirmar Participantes: Danilo Ferreira (PM/BA), Roberto Sá (SESEG/RJ), Bruno Manso (NEV/USP), Tânia Pinc (FGV), Atila Roque (Anistia Internacional), Letícia Osório (Fundação Ford), Lucia Nader (Conectas) 14h30 – 18h: Painel 8 – Redução de crimes violentos Moderação: José Luiz Ratton (UFPE) e Roberto Maurício Genofre (FBSP) Debatedores: Cássio Rosa (PC/DF), Diogo Santana (SGP)*, Isabel Figueiredo (SENASP), Sérgio Roberto de Abreu (FBSP), Elizabeth Sato (PC/SP)*, Fernanda Bestetti de Vasconcelos (PUC/RS), Camila Dias (UFABC), Norma Bonaccorso (SPTC/SP)* NOITE 19h30 – 21h: Debate sobre segurança pública e sistema prisional com os coordenadores de campanha dos candidatos à Presidência da República Moderação: Mário César Carvalho (Folha de S. Paulo) *a confirmar

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Ainda sobre a redução da violência em São Paulo

Publicado em 22 de maio de 2014 por Joana Monteiro No meu último post, escrevi sobre a influência da demografia na redução da violência em São Paulo. Entretanto, a demografia não foi a única coisa que mudou em São Paulo nos últimos 20 anos, nem é o único fator apontado por especialistas como causas da redução da violência no estado. Também contribuíram: a redução de fatores de risco e as melhoras na gestão da polícia. Dentre as medidas para reduzir fatores de risco, destacam-se: A campanha do desarmamento. São Paulo implementou pioneiramente uma campanha do desarmamento em 1997, exigindo recadastramento de armas, aumentando o rigor na concessão de novas licenças e aumentando a apreensão de armas. Além disso, o estado foi destaque na campanha nacional de desarmamento iniciada em 2004, após a aprovação do estatuto do desarmamento. O estudo “Menos Armas, Menos Crimes” de Daniel Cerqueira e João De Mello estima que para cada 1% de redução nas armas em circulação no estado de São Paulo devido ao estatuto do desarmamento, houve uma redução média de 2% na taxa de homicídios. — Fonte da imagem: http://jornalocapixaba.com.br/2013/12/campanha-do-desarmamento-chega-a-pinheiros/ Lei Seca. Entre 2001 e 2004, vigorou em 16 municípios da região metropolitana de São Paulo uma Lei Seca que determinava o fechamento de bares entre 11 da noite e 6 da manhã, com o objetivo de limitar a venda e consumo de álcool. O estudo “Dry Laws and Homicides: evidence from the São Paulo Metropolitan Area” de Ciro Biderman, João De Mello e Alexandre Schneider estima que a Lei Seca contribuiu para uma queda de 10% dos homicídios na região metropolitana de São Paulo. O estado também liderou inúmeras inovações na área de segurança pública. Tulio Kahn lista inúmeras medidas que o estado implementou no livro “É Possível. Gestão de Segurança Pública e Redução da Violência em São Paulo”, organizado por Fernando Veloso e Sérgio Ferreira. Dentre as medidas que ele descreve, destacam-se as inovações tecnológicas e gerenciais. As primeiras são no sentido de aumentar a qualidade da informação que polícia possui sobre crimes e criminosos. Neste grupo, Tulio ressalta a criação de três ferramentas: ■O Copom-online, que é um sistema que permite disponibilizar em tempo real informações sobre a dinâmica da criminalidade em mapas, permitindo que os comandantes realoquem policiais de acordo com as demandas do momento. ■O Infocrim, que centraliza dados sobre crime e permite a identificação geográfica de manchas criminais, por tipo de crime, dia e hora. ■O Fotocrim, um cadastro de mais de 300 mil criminosos procurados, cumprindo pena ou presos em flagrante, permitindo a identificação fotográfica, modus operandi e região de atuação dos suspeitos de crimes e facções criminosas. Tulio Kahn lista muitas outras medidas em seu blog, mas acredita que essas ferramentas não teriam sido bem utilizadas se não tivesse havido o segundo conjunto central de inovações, que envolvem a gestão da polícia. Nesse grupo, inclui-se a adoção de critérios técnicos e padronizados nas operações policiais; e a organização de reuniões periódicas nas quais os principais gestores da polícia se reúnem para verificar as grandes tendências de criminalidade em cada região do estado. Em certa medida, essas reformas seguem o modelo do Compstat, implementado pioneiramente em Nova Iorque, e que busca uma gestão por resultados, que se baseia fortemente em informações e dados para orientar a ação da polícia. Com tantas mudanças implementadas ao mesmo tempo, é muito difícil identificar a contribuição de cada uma delas na redução da violência em São Paulo. Mas o número de inovações listadas acima no mínimo sugere que a polícia não ficou parada observando a queda da violência no estado. De todo modo, a experiência de São Paulo exemplifica a mensagem do livro do Fernando Veloso e do Sergio Guimarães: é possível reduzir a violência usando de forma mais eficiente os recursos existentes.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Blog do Roldão Arruda resume debate sobre política de drogas

14.abril.2014 22:00:45 Para secretário nacional, diferença entre usuário e traficante de maconha ainda não está clara Em debate realizado nesta segunda-feira, 14, sobre a descriminalização da maconha, o titular da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, Vitore Maximiano, observou que até hoje “não estão claras no Brasil as balizas entre quem porta drogas para consumo próprio e para comercializar”. Essa indefinição, na avaliação dele, “tem levado a um número exagerado de prisões”. O debate, denominado Maconha Livre: Problema ou Solução foi organizado pelo Espaço Democrático, fundação do PSD para formação política, com transmissão pela internet. Apesar do tema estar bem definido, na maior parte do tempo os debatedores evitaram dar opiniões claras e diretas sobre a descriminalização. Preferiram tratar de temas gerais, como a prevenção do consumo de drogas entre adolescentes, problemas de segurança e de saúde pública. As duas intervenções mais diretas foram as da ex-vice-prefeita de São Paulo, Alda Marco Antonio (PSD), cotada para ser a vice de Gilberto Kassab (PSD) na disputa para o governo de São Paulo, e a do sociólogo Túlio Kahn, coordenador do Conselho Temático de Segurança Pública do Espaço Democrático. “Se legalizar, como vou dizer a um adolescente para que não use maconha? Ele vai me responder que é legal”, disse Alda. “É por essa razão que sou absolutamente contra a liberação. Quero ajudar os grandes contingentes de jovens que ainda não provaram a droga. Quem defende a descriminalização está preocupado com redução de danos, enquanto eu me preocupado com a prevenção.” Kahn lembrou que a maconha já foi liberada em alguns países para uso recreativo e até mesmo economistas de tendência liberal vêm aprovando a ideia, na medida em que beneficia a economia, com o recolhimento de impostos sobre uma atividade antes ilegal. “O mercado existe e atualmente só beneficia o traficante. A mudança poderia beneficiar também o Estado, que teria mais recursos para o tratamento de dependentes de drogas”, disse o sociólogo. Kahn contestou o argumento de que a maconha é a porta de entrada para outras drogas, consideradas mais pesadas. “Países que liberaram não tiveram impacto significativo no aumento de usuários”, afirmou. O estudioso observou ainda que a maconha, embora ocupe 80% do mercado de drogas, é responsável por uma fatia de 20% dos lucros. O médico Januário Montone, que chefiou a Secretaria Municipal de Saúde na gestão de Kassab à frente da Prefeitura de São Paulo, defendeu a realização de um plebiscito sobre a descriminalização. O PSD é o terceiro maior partido País em número de deputados, atrás do PMDB e do PT. Acompanhe o blog pelo Twitter – @Roarruda

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Debate em 14/4 sobre política de drogas, na Fundação Espaço Democrático

É possível acompanhar on-line o programa, a partir das 19:00 Detalhes no link abaixo: http://www.psd.org.br/noticia/debate-no-espaco-democratico-maconha-livre-e-problema-ou-solucao/

terça-feira, 1 de abril de 2014

Copa vai pegar auge dos roubos no pais

Em agosto de 2013 publicamos um post neste blog mostrando o início de um ciclo de alta dos crimes patrimoniais em diversos Estados, ciclo que teve início por volta de dezembro de 2012. As estatísticas divulgadas neste início de 2014 mostram que o ciclo está longe de se esgotar, que ainda não atingiu seu pico e em alguns Estados o crescimento dos roubos está acelerando. Em Goias tivemos aumentos em janeiro e fevereiro - sempre com relação ao mesmo período do ano anterior, de 42 e 40,3% nos roubos. Em Minas de 32,6 e 36,8% nos crimes patrimoniais violentos, no Mato Grosso de 41,4 e 51,4%. No Mato Grosso do Sul os números foram 28,9 e 29,4% de crescimento (apenas Capital). Em São Paulo de 32,4% em janeiro e 37,2% em fevereiro. No Rio de Janeiro, o aumento foi de 55,7% ! comparando janeiro com janeiro de 2013. A tabela abaixo traz as variações dos roubos, alisadas em médias trimestrais para tornar o fenômeno mais visivel:
Como sugere a generalidade do crescimento dos roubos em diversos Estados, o fenômeno não se deve apenas a problemas individuais de gestão, mas a causas comuns relacionadas aos ciclos econômicos: baixo crescimento do PIB, queda na confiança do consumidor, crescimento dos cheques sem fundo, etc. - ainda que as taxas de emprego estejam em patamares elevados. Os turistas estrangeiros precisam estar preparados para este cenário, alertados sobre como se comportar numa situação de roubo, que os brasileiros já conhecem bem: não carregar bens e não reagir. É um escândalo que um pais que não resolveu seus problemas básicos de segurança gaste dinheiro público com estádios e desloque seus parcos recursos policiais para a proteção do evento. Salve a seleção e salve-se quem puder!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Número de roubos no Estado em janeiro é suspeito pois está além do esperado

A SSP informa para janeiro 26987 roubos no Estado, quantidade que está acima de 3 desvios padrão da média...Era esperado um aumento pois os crimes patrimoniais estão crescendo em outros estados e apresentava tendência de crescimento em SP. Tendência agravada pela deterioração da economia no período, como se vê, entre outros indicadores, pela queda no ICC - índice de confiança do consumidor - que costuma ter uma relação inversa com os roubos. Mas suspeito que o crescimento apontado pode eventualmente se dever a erro de cálculo pois o crescimento foi demasiado. Se não foi erro de cálculo, a situação é bem pior do que imaginávamos...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quer saber a tendência de roubo de veículos? Pergunte ao Google !

A análise do chamado “big data” é uma tendência crescente no setor privado. A ideia básica é buscar correlações ocultas entre fenômenos usando bases de dados gigantescas de informações coletadas junto aos consumidores e usuários, complementando-as ou não com informações de outras fontes. O Big Data não pretende fazer ciência ou discutir causalidade (embora os profissionais se denominem data scientists), pois o mercado não tem tempo nem vocação para isso. Correlação, como sempre se diz, não é causação; significa apenas que dois fenômenos variam juntos no tempo (ou no espaço), mesmo que a ligação entre eles seja espúria. Conhecendo a correlação você pode fazer boas previsões e talvez obter algum insight sobre porque algumas variáveis se comportam de maneira parecida. Neste campo ninguém está muito preocupado em saber porque a previsão funciona: basta que funcione, abordagem aliás compartilhada por muitos epidemiologistas, com sucesso na área da saúde. Big Data não serve somente pra aumentar as vendas e pode ser usado para outras finalidades mais nobres: um exemplo interessante e bastante citado é o da previsão de epidemia de gripe feita pela Google, com base nas buscas dos usuários usando palavras chave ligadas a sintomas e tratamento da doença. Evidências comparando as previsões do google flu com os dados epidemiológicos oficiais da saúde mostraram que o sistema produz previsões acuradas, mais rápidas e baratas sobre surtos de gripe nos Estados Unidos. E como anda a discussão sobre big data no campo da segurança pública? Os departamentos de polícia lidam com bases de dados gigantescas com informações sobre eventos criminais, vítimas e suspeitos, veículos e armas, entre outras. Apenas algumas unidades de análise contam com recursos mais sofisticados para ficar buscando correlações estatísticas; na prática, na maioria das unidades o máximo que se faz é usar as informações passadas para mapear hot spots criminais no espaço e no tempo, ou seja, ruas e horários de maior incidência criminal. Fazer perfis de vítimas e autores são outro uso comum mas a cultura do big data é ainda incipiente. Inspirado em Big Data, há um aperfeiçoamento das técnicas para estimar hot spots, que são as análises preditivas, com novos softwares e algoritmos, como o Predpol que, tal como no filme Minority Repport, promete refinar as sugestões de locais e horários para operações policiais. Seu uso vem se disseminando nos departamentos de polícia e é algo para se monitorar de perto. Há pouco tempo, o Google disponibilizou um recurso chamado google correlate, que, como o nome sugere, permite correlacionar dados inseridos pelo usuários com buscas feitas pelos usuários do google na internet, para um dado período e país. A lógica subjacente é a do big data: buscar correlações elevadas, sem preocupações causais, para prever eventos ou obter insights para melhor compreendê-los. Como um experimento, inserimos no google correlate a série histórica de roubo de veículos no Estado de São Paulo entre janeiro de 2004 e junho de 2013. Inserida a série, o sistema busca automaticamente as palavras e expressões dos usuários que mais se “parecem” com ela, usando coeficientes de correlação de Pearson. O analista pode também escolher períodos específicos e defasar ou adiantar a série por quantos períodos desejar, uma vez que nem sempre a correlação temporal entre fenômenos é simultânea. O experimento, apesar das limitações ( por exemplo, temos apenas as buscas para Brasil e não especificamente para São Paulo; o sistema mostra a correlação mas não a quantidade de casos usada para obtê-la, etc) trouxe alguns resultados bastante interessantes: o sistema não tem como saber sobre o que trata a série de dados inserida (no caso, roubo de veículos) mas mesmo assim encontrou correlações com vários fenômenos relacionados a veículos. Além disso, as palavras chave que apareceram estão associadas ao problema do desmanche de veículos, uma das motivações principais para roubo de veículos em São Paulo. Assim, por exemplo, as variações mensais nos roubos de carros entre 2004 e 2013 coincidem com as consultas dos usuários, no mesmo mês, para as expressões “peça” (R=0,79) e “nacional wolksvagen” (r=0.73). A correlação com a busca “nacional wolksvagen” cresce para 0.78, se defasarmos a série em um mês (t-1), ou seja: o volume de roubo de veículos num determinado mês está associado a buscas no google usando esta expressão, no mês anterior. Igualmente interessante é que quando defasamos a série para outros períodos encontramos correlações elevadas em t-2 com a expressão “multa Detran” (r-0.76) e em t-3 com a procura no google por “auto som” (r=0.79). Obviamente que não se pode tirar grandes conclusões desses achados mas não deixa de ser interessante notar que, sem saber do que se tratavam os números, que poderiam ser sobre produção de rosquinhas, o google correlate sugere que a variação mensal do roubo de veículos em São Paulo está altamente correlacionada a buscas de usuários brasileiros usando as palavras chave peças, nacional wolksvagen, multa Detran e auto som no mesmo mês ou nos meses anteriores. Parece sugerir que o roubo de veículo está relacionado a demandas no mercado ilegal de peças e equipamentos automotivos e talvez a fraudes (falsos registros de roubos em veículos com multas elevadas). Conhecer a causa por traz dos fenômenos é sempre importante. Diz se que no período da Peste Negra na Europa acreditava-se que os ratos transmitissem a doença, quando na verdade era a pulga presente nos ratos. Esta correlação espúria peste-ratos provavelmente causou a morte de milhares de pessoas pois ao eliminar os ratos, as pulgas mais facilmente proliferavam entre os seres humanos... Os adeptos do big data não lidam com temas tão cruciais quanto a peste negra e seu maior interesse é aumentar as vendas. Não importa se a correlação é espúria ou não mas que a correlação exista e seja forte. Se o seu interesse não é combater o roubo de veículos mas calcular valor de seguro ou estimar riscos e tendências, não é preciso esperar pelas estatísticas oficiais de criminalidade. Vá ao Google Trends munido de algumas palavras chave que se correlacionam ao fenômeno de interesse e terás uma excelente previsão das tendências associadas a ele. O estudo das causas precisa de técnicas e análises mais sofisticadas e ai não há substituto para o bom e velho método científico mas, como vimos, big data e correlações podem dar boas pistas pra começar!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um retrato dos roubos em SP

Um retrato dos roubos em SP 30 de janeiro de 2014 | 2h 09 Notícia O Estado de S.Paulo Levantamento inédito da Coordenadoria de Análise e Planejamento da Secretaria da Segurança Pública, com base nos Boletins de Ocorrência (BOs) registrados entre janeiro de 2001 e julho de 2013, aponta um aumento alarmante dos índices de "reiteração criminal" no Estado de São Paulo. Essa expressão foi usada pelos autores da pesquisa para diferenciá-la do conceito de reincidência criminal, que é aplicado aos crimes transitados em julgado com, no máximo, cinco anos de intervalo. Divulgada na mesma semana em que a Secretaria da Segurança anunciou que o número de veículos roubados no Estado em dezembro foi o maior dos últimos 12 anos, a pesquisa não abrangeu as Varas de Execução Penal. A análise limitou-se apenas às estatísticas da Secretaria, que só no ano passado registrou uma média mensal de 29.320 BOs de roubos. A média vem aumentando em velocidade preocupante. Entre 2011 e 2013, ela foi de 27.440 BOs desse tipo de delito. Segundo o levantamento da Secretaria da Segurança Pública, de cada dez acusados de roubo no período analisado, sete voltaram a praticar o mesmo tipo de crime. Os autores do levantamento alegam que, como falta um padrão na redação dos BOs e muitos deles contêm erros de preenchimento, o índice de reiteração pode ser mais alto. A pesquisa da Secretaria da Segurança Pública também mostra que, dos ladrões que voltaram a delinquir, 41% tinham menos de 18 anos quando roubaram pela primeira vez. Entre os ladrões que reiteraram no mesmo tipo de delito, 98% realizaram pelo menos três outros roubos e os 2% restantes repetiram o crime mais quatro ou cinco vezes. Já o intervalo entre a primeira e a última reiteração é mais bem distribuído. Foi de um ano em 22% dos casos, de dois anos em 29%, de três a quatro anos em 32%, de cinco a sete anos em 15% e de oito anos ou mais em cerca de 2% dos casos. O levantamento mostra ainda que, quanto maior o número de reiterações desses ladrões, menor é a idade com que cometeram o primeiro ilícito. O estudo identificou criminosos que entraram no mundo do crime aos 12 anos. O secretário Fernando Grella Vieira ficou surpreso com os resultados do estudo. "Sabíamos que tinha reiteração, mas não sabíamos o porcentual. Não é possível que uma pessoa apareça com porcentual tão elevado de reiterações sem resposta efetiva", afirmou. "Os dados parecem confirmar um fato evidenciado na literatura de carreiras criminais: um número pequeno de criminosos 'produtivos' é responsável por uma parcela desproporcional de crimes", afirma o ex-diretor do Departamento Nacional de Segurança Pública e ex-chefe da Coordenadoria de Análise e Planejamento da Secretaria da Segurança, Túlio Kahn. Os resultados do levantamento mostram a baixa produtividade do sistema estadual de segurança pública. Em matéria de esclarecimento de roubos, por exemplo, o índice não chega a 2% ou 3%, diz Grella Vieira, depois de cobrar maior articulação entre o Executivo, o Ministério Público, a Justiça Criminal e o Congresso, onde tramitam vários projetos de reforma da legislação penal e da legislação processual penal. Como o estudo mostrou que é muito alto o número de ladrões que começam a delinquir aos 16 anos, em vez de aumentar o rigor das punições no Código Penal, a Câmara e o Senado deveriam reformar a Lei de Execuções Penais, revendo o regime de progressão da pena, e o Estatuto da Criança e do Adolescente, ampliando o tempo de internação de infratores que estão chegando à maioridade penal. "É preciso investir em medidas aplicáveis ao adolescente, principalmente quando completa 18 anos. Não resolve o problema pegar um adolescente de 16 anos e jogar na prisão", afirma. De fato, quanto maior é a impunidade, maiores tendem a ser os índices de reiteração e de reincidência, como aponta a pesquisa, realimentando continuamente um cenário de violência e insegurança, em que as normas legais são ineficazes e sua violação, a regra. Fruto da melhoria da qualidade das estatísticas no setor, o levantamento é fundamental para embasar políticas destinadas a mudar esse cenário.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Carreiras criminais Juvenis: fatores de risco e de proteção para a entrada dos jovens no mundo do crime

Os criminólogos se dedicam já há algumas décadas a investigação das trajetórias criminais juvenis, procurando entender em que idade e circunstâncias pessoais e contextuais os jovens enveredam para o mundo do crime, como a frequência e modalidade criminal variam com o tempo, bem como os fatores que fazem com que alguns continuem esta carreira até a idade adulta enquanto outros a abandonem. Alguns autores denominam esta linha de pesquisa como criminologia desenvolvimental ou de curso de vida (DLC, na sigla inglesa), que parte do pressuposto de que as mudanças na atividade criminal conforme a faixa etária ocorrem de um modo relativamente ordenado no tempo.(Piquero, Farrington e Blumstein, 2007). Entre os principais temas desta linha de pesquisa estão a questão dos delinquentes crônicos, da variação da frequência criminal com o avanço da idade, da especialização ou versatilidade criminal, da influência dos colegas, da duração das carreiras criminais, entre outras. Neste percurso analítico, baseado frequentemente em pesquisas longitudinais, alguns achados parecem consolidados e consistentes e são resumidos abaixo, seguindo o elenco proposto por Piquero, Farrington e Blumstein: • a cada geração, apenas uma pequena parcela dos jovens envereda pelo crime e esta pequena parcela responde por uma quantidade desproporcional de crimes e sentenças juvenis; os delinquentes crônicos tendem a começar cedo no crime e a ter longas carreiras criminais; • a idade da entrada na criminalidade ocorre tipicamente entre os 8 e 14 anos de idade e a idade da desistência ocorre entre os 20 e 29 anos. • a prevalência da delinquência tem seu pico no final da adolescência, entre os 15 e 19 anos; • uma entrada precoce na delinquência prediz uma carreira criminal de longa duração e o cometimento de relativamente mais crimes; • existe uma continuidade clara na delinquência e no comportamento anti social desde a infância para a adolescência e o mundo adulto. O comportamento é estável no tempo e pessoas que cometem muitos crimes durante uma fase da vida tem uma grande probabilidade de também cometer muitos atos criminais posteriormente; • a delinquência é mais versátil do que especializada: delinquentes violentos, particularmente, parecem delinquir frequentemente em outras modalidades de delinquência; • os tipos de atos definidos como delinquência são elementos de uma ampla síndrome de comportamento anti-social que incluem consumo pesado de bebidas, direção perigosa, sexo promiscuo, entre outros; esta personalidade antissocial surge na infância e persiste até a idade adulta (Farrington, 1996) • a exposição a amigos delinquentes tipicamente precede o início do próprio comportamento delinquente. Independente da ordem cronológica, o comportamento delinquente de um indivíduo está positivamente relacionado com o comportamento delinquente – real ou percebido – dos amigos (Elliot e Menard, 1996); • com o avanço da idade, a delinquência grupal muda progressivamente para a individual. Até o final da adolescência o crime tende a ser cometido em grupo mas ao redor dos 20 anos a maioria das ofensas são cometidas individualmente; a co-delinquência parece mais comum em alguns tipos de crimes (arrombamentos, roubos) do que em outros; • os motivos da delinquência até o final da adolescência são variáveis, incluindo excitação e diversão, tédio e ou razões emocionais e utilitárias. A partir dos 20 anos os motivos utilitários transformam-se progressivamente em motivo predominante; • diferentes tipos de delinquência tendem a ser iniciadas em diferentes idades. Este tipo de progressão é tal que furtos tendem a ser cometidos antes do que arrombamentos, estes antes dos roubos e assim por diante. Em geral, a diversificação da delinquência cresce até cerca de 20 anos e depois diminui, aumentando a especialização; • nos criminosos crônicos, o patamar de 4 condenações é um bom previsor de reincidência criminal pois a partir de 4 condenações a taxa de reincidência permanece relativamente estável e elevada. Os delinquentes crônicos diferem dos demais delinquentes em diversas dimensões, incluindo precocidade da atividade criminal e violência; • a probabilidade de desistência na trajetória criminal diminui em função do aumento no número de sintomas antissociais. Em outras palavras, uma grande variedade de comportamentos desruptivos prediz a persistência do comportamento desviantes (Loeber) Embora estes achados sejam partilhados de forma comum entre diferentes grupos de criminólogos, pesquisas sugerem que talvez não exista um caminho único para o crime mas caminhos distintos, que explicam, por exemplo, porque alguns jovens enveredam para crimes que envolvem agressão física e social e outros enveredam para o caminho dos crimes patrimoniais. (Loeber) Além destas características levantadas pela linha de pesquisa de trajetórias criminais, outros estudos criminológicos levantaram inúmeros fatores de risco e proteção para o envolvimento no crime. Os fatores de risco são condições ou variáveis que estão associadas à alta probabilidade de ocorrência de resultados negativos ou indesejáveis ao desenvolvimento humano, sendo que dentre tais fatores encontram-se os comportamentos que podem comprometer a saúde, o bem-estar ou o desempenho social do indivíduo (WEBSTER-STRATTON, 1998). São fatores de ordem pessoal, familiar, escolar, de vizinhança, etc. que estão correlacionados com maior ou menor envolvimento criminal. Estão baseados em teorias que entendem o crime como fruto do reduzido auto-controle, cuidados ineficazes dos pais com as crianças durante o processo de crescimento, diferenças de oportunidades, contextos ecológicos de vizinhança (que implicam em diferenças econômicas, sociais e culturais), influência dos pares, tendências anti-sociais gerais subjacentes e teorias fundadas na adaptação genética e biológica, entre outras. (Hawkins, 1996). Farrington afirma que, tomando estas diferentes teorias, existem literalmente milhares de variáveis que diferenciam significativamente os delinquentes dos não delinquentes e que é difícil diferenciar entre os fatores de risco os que são sintomas e os que são causas. Entre estes fatores podemos mencionar: nível de inteligência, assiduidade escolar, personalidade e temperamento, impulsividade psicomotora, hiperatividade, irritabilidade, renda familiar, tamanho da família, histórico de emprego familiar, histórico de tratamento psiquiátrico, práticas de supervisão e disciplinamento, separações temporárias ou permanentes dos pais, agressividade na escola, baixa concentração, rendimento escolar, faltas e repetências, idade da mãe no nascimento do primeiro filho, problemas comportamentais dos irmãos, registro criminal dos pais e irmãos, desarmonia familiar, baixa estatura, baixo QI não verbal, baixo peso ao nascer, níveis de testosterona, grau de desonestidade, grau de popularidade, trauma crânio encefálico, nível de renda da vizinhança, uso de substâncias pelo indivíduo, uso de substâncias pela mãe durante a gravidez, reduzidas habilidades sociais, entre dezenas de outros fatores investigados. Em contrapartida, existem também alguns conhecidos fatores de proteção, tais como a presença do pai biológico na infância, QI elevado, mães atenciosas, o abandono de grupos e amigos delinquentes, a obtenção de um emprego estável, o casamento, mudança de contexto, maturidade etária, etc. – que aumentam a probabilidade de desistência da carreira criminal. São fatores que, mesmo em situações adversas, podem afastar o indivíduo do envolvimento criminal. Com efeito, boa parte dos fatores de risco, com sinal inverso, pode atuar como fatores protetivos. Levantar as informações e responder a estas questões tem como foco a possibilidade de auxiliar a construir novas estratégias para lidar com a questão. Assim, é também objetivo discutir as possíveis formas de prevenção que podem ser postas em prática no contexto estudado, à luz dos achados levantados nesta pesquisa. Entre os poucos trabalhos sistemáticos já realizados sobre a prevenção criminal voltada a jovens no país Assis e Constantino (2005), em artigo voltado a discutir as conexões entre os principais fatores de risco e as estratégias de prevenção primária, secundária e terciária, apontam algumas iniciativas existentes que têm demonstrado impacto significativo na redução das infrações. Pautando-se tanto em estudos realizados no contexto internacional quanto nacional sobre os projetos preventivos, as autoras encontraram que entre os principais aspectos eficazes nas práticas de prevenção de jovens estão: intervenções na gravidez e infância precoce para famílias em situação de risco, treinamento para pais de jovens e adolescentes envolvidos com o crime, intervenções precoces para jovens infratores, programas realizados em escolas que buscam a prevenção primária dos crimes e da violência e programas realizados em comunidades. No Brasil, entretanto, a maioria dos projetos são recentes, realizados em poucas localidades e pouco avaliados para que se possa dizer com clareza o real impacto de suas medidas. Como sempre na criminologia, o objetivo é não apenas conhecer o fenômeno mas também propor políticas públicas eficientes para atenuá-lo. Os estudos das trajetórias criminais podem ter impacto direto não apenas para a tomada de decisão do sistema de justiça criminal, mas também de diversos outros setores de políticas públicas (de saúde, urbanísticas, de assistência social, de educação) que lidam com a evolução de aspectos cruciais da vida que estão também relacionados a possível deflagração de ocorrências criminais.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

No Maranhão não tem disso, não (artigo de Roberto Macedo no Estadão)

Roberto Macedo* - O Estado de S.Paulo O Maranhão destacou-se no noticiário recente quando veio à tona a chocante situação do presídio de Pedrinhas, na capital. Essa prisão é recordista nacional de presos assassinados por outros detentos, no que houve até torturas e decapitações enaltecidas por seus autores. Não se pode dizer que houve uma crise. Ela estava lá e apenas aflorou dramaticamente ao evidenciar a situação calamitosa do sistema penitenciário do Estado e a responsabilidade do seu governo pelo que ali se passa. Superlotação, desconforto, más condições sanitárias, domínio de detentos por facções criminosas e outros problemas também atingem presídios em outros Estados. No Maranhão, contudo, um dos mais pobres do País, governado há tempos por uma oligarquia familiar desatenta a questões como essa, o presídio de Pedrinhas acabou tendo projeção nacional como símbolo do desleixo governamental. A governadora Roseana Sarney, com um semblante que não escondia a situação constrangedora a que foi levada, veio com explicações para os acontecimentos, ainda que sem se deter na própria falta de ações que, se tomadas corretiva e preventivamente no passado, poderiam ter impedido a eclosão do que de nefasto ocorreu em Pedrinhas. Nesse escapismo, uma das razões que apontou para o aumento da criminalidade foi que o Maranhão se vem tornando "mais rico". Essa afirmação soou estranha para muitos e recebeu várias críticas. Entre elas, a do jornalista Alberto Dines. Primeiro, ele criticou José Sarney, pai da governadora, por ter afirmado que a violência nas prisões do Estado estava contida pela filha. Mas, logo depois, "(...) a violência ganhou as ruas de São Luís, num claro desafio ao imortal ficcionista (...)", referindo-se ao incêndio de um ônibus que levou à morte de uma criança por queimaduras, as quais alcançaram também familiares que a acompanhavam. Em seguida, Dines disse que Roseana, no dia 9, "(...) ao lado de um ministro da Justiça envergonhado com aquela despudorada exibição de cinismo, teve o desplante (...)" de fazer a referida afirmação. Sem me ater primeiramente à apontada relação entre o Estado estar "mais rico" e o aumento da violência local, logo estranhei a referência à maior riqueza maranhense. O que ela poderia ter dito é que o Maranhão está ficando menos pobre, o que é outra coisa. De fato, o PIB estadual vem crescendo mais do que a média nacional. Segundo levantamentos do IBGE, o PIB do Maranhão aumentou sua participação no do País, de 0,9% em 1995 para 1,3% em 2011. Uma das razões é o florescimento do agronegócio no sul do Estado, o mesmo ocorrendo com a mesma região de seu vizinho, também muito pobre, o Piauí. Em ambos o sul apresenta condições similares às que em Mato Grosso permitiram o forte aumento da produção de grãos. Aliás, hoje já se fala da região denominada Mapitoba, que reúne essa área daqueles dois Estados, juntamente com o norte de Tocantins e o oeste da Bahia. Passando à relação entre menor pobreza e aumento da criminalidade, esta também soa estranha, mas pode ocorrer. Fui despertado para essa possibilidade por mensagem de Tulio Kahn, um sociólogo que se vem destacando por seus estudos sobre segurança pública. O texto da mensagem tratava, entre outros aspectos, de dados que indicam um aumento da criminalidade patrimonial em 12 países da América Latina entre 2003 e 2011, período em que aumentaram as taxas de crescimento do PIB e da renda na região, paralelamente à melhoria de vários de seus indicadores sociais. Segundo Kahn, o crescimento da economia amplia o volume de bens em circulação e isso abre espaço para crimes estimulados pelas maiores oportunidades de cometê-los. Em outras palavras, quem passa a ter mais renda e bens disponíveis se torna alvo de maior interesse de ladrões. Estendendo a conversa, Kahn trouxe-me à lembrança um economista que estudou aspectos econômicos da criminalidade, o americano Gary Becker, Nobel da área em 1992. Este argumentou que os seres humanos são racionais e movidos por interesses econômicos. Assim, ladrões também agem desse modo por entenderem que como resultado sua condição econômica será melhor ou não tão ruim. Mas, ainda que sem fazer cálculos precisos, eles também ponderam os benefícios do crime relativamente a seus custos, como o risco envolvido na própria ação ou a punição depois dela. E a avaliação se dá com relação a alternativas de melhorar sua condição econômica, se existirem. Nesse contexto, na formulação de políticas públicas para combater a criminalidade pondera-se que esta nunca poderá ser reduzida a zero, dados os imensos custos que isso envolveria. Mas pode-se fazer muito em contrário, aumentando os custos percebidos pelos criminosos, como os envolvidos na captura e punição. Voltando ao Maranhão, quanto aos custos seria abjeto acenar com a perspectiva de cadeias como a de Pedrinhas. E li que no Estado há mais criminosos foragidos que detidos, revelando que mesmo se ela e outras aprimorarem suas condições, e mais forem criadas, o desestímulo da perspectiva prisional não funcionará se muitos mais criminosos não forem capturados. Ou seja, não há como a governadora, ou quem lhe suceder, retirar o problema de seu colo. Outra saída importante, também de agenda governamental e nada sólida no Maranhão, é oferecer alternativas à criminalidade, em particular na forma de uma educação efetivamente adequada, inclusive profissionalizante, e mais oportunidades no mercado de trabalho. Mas, parodiando canção gravada em 1950 por Luiz Gonzaga e voltada para o Ceará, o que se pode dizer repetidamente, mais do que sobre muitos outros Estados, é que no Maranhão não tem disso, não. E de novo recorrendo a Gonzagão: quem não gostar que me "adesculpe", porque essa é a minha percepção. *Roberto Macedo é economista (UFMG, USP E HARVARD) e consultor econômico e de ensino superior.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Segurança Pública: questão continental

O aumento da preocupação com a delinquência e a segurança pública é um fenômeno não apenas brasileiro, mas latino americano. Há uma década a pesquisa Latinobarômetro pergunta aos habitantes do continente quais são suas maiores preocupações: a porcentagem de preocupados com a delinquência e a segurança pública cresceu nada menos do que 239% na média da região entre 2004 e 2011. Em 2004, apenas 8% dos entrevistados citavam o problema criminal entre as maiores preocupações, porcentagem que se elevou a 27% em 2011. Como sempre, as medias escondem grandes diferenças individuais, tanto em termos de magnitude quanto de variação. A crescente preocupação com a violência parece refletir antes as mudanças relativas e recentes, ao invés dos níveis absolutos de criminalidade em cada país. Isto explica, por exemplo, porque no Uruguai, Chile e Argentina, onde as taxas de criminalidade são relativamente baixas, existe maior preocupação com a delinquência do que no Brasil ou Colômbia, onde a criminalidade elevada é já antiga conhecida e dessensibiliza os sentidos. Analisando longitudinalmente, o Brasil, entre os países pesquisados, é o único país onde a preocupação com a criminalidade parece ter regredido (embora na média a preocupação com segurança pública tenha se mantido relativamente estável ao redor de 10% das menções e a aparente queda possa dever-se antes a uma flutuação artificial, em função dos períodos selecionados). Esta mudança ao nível das percepções tem fundamento no aumento da criminalidade “real, medida pelas estatísticas oficiais”? Difícil responder pois faltam nos séries históricas de dados criminais comparativos para fazer a correlação com os indicadores subjetivos. Os poucos indicadores existentes, contudo, parecem corroborar um aumento generalizado da criminalidade patrimonial na A.L. na última década – com exceção da pequena Guiana Francesa. Entre 2003 e 2011 observamos crescimento dos roubos na Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Perú, Suriname e Uruguai, com variações entre 17,5% (Chile) a 157% (Suriname). É interessante notar que a variação na preocupação com a segurança pública cresce a taxas muito mais elevadas do que a dos roubos. O aumento da insegurança e de alguns indicadores ocorre simultaneamente ao período de crescimento econômico e melhora de indicadores sociais na região, que impacta nos crimes “opportunity driven”, como roubos e furtos. Fenômeno semelhante observamos na região Nordeste brasileira na última década, que convive simultaneamente com aceleradas taxas de crescimento econômico e criminal. Em suma, crescimento econômico acelerado, num contexto de desorganização social e institucional, tem efeitos criminógenos conhecidos. Desacelerar o passo do crescimento econômico não é obviamente uma alternativa para o problema criminal latino americano e brasileiro, de modo que só é possível amenizar o problema criando políticas públicas que alterem as outras variáveis: aperfeiçoamento do sistema de justiça criminal e transformação da riqueza em investimentos sociais.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Violência nos Eventos Esportivos

O tema da violência nos estádios esportivos sempre foi motivo de preocupação num país onde os campeonatos de futebol são importantes e geram disputas acirradas, envolvendo grandes e fervorosas torcidas, que por vezes extrapolam para fora dos campos suas animosidades.

Com a proximidade da Copa do mundo de 2014 o interesse na questão aumentou: torcedores de outros países querem saber os riscos que correm, organizadores querem garantir a paz nos espetáculos assim como os órgãos públicos envolvidos, todos preocupados com a preservação da ordem pública e a segurança dos eventos de grande porte, que serão mostrados e repercutidos em todo o mundo.

 Um levantamento feito pelo sociólogo Maurício Murad de casos relatados pela imprensa entre 1999 e 2009 contabilizou 42 mortes de torcedores no período, o que, segundo o autor, faria o Brasil liderar o ranking dos países com maior número de mortes de torcedores, superando Itália e Argentina, que figuravam no topo da lista no início do período. E um ponto interessante, diz Murad, é que “grande parte desses torcedores mortos não tinham relação com outros eventos violentos ou torcidas organizadas.”

 Uma análise mais recente, cuja fonte também utilizou artigos de jornal, foi realizada pelo jornal Lance, dedicado a assuntos esportivos. O levantamento contabiliza 155 mortes de torcedores desde 1988 até início de 2012. São Paulo é o recordista com 32 mortes, seguido do Rio de Janeiro com 19.

O levantamento da Lance sugere também que os casos estão aumentando anualmente, embora não se possa dizer se é o fenômeno que cresce ou apenas a cobertura jornalística dos fatos. O levantamento sugere que em apenas 27 casos (17,4%) houve a prisão do autor, impunidade que acaba por estimular outros casos de violência. Cerca de 40% dos casos ocorre fora de dias de jogos, dificultando a prevenção, pois a polícia não está no local. E, tanto nos dias de jogo quanto nos dias sem jogos, a violência ocorre basicamente nas ruas, fora dos estádios.

Do ponto de vista do local dos incidentes, é digno de nota que apenas cinco cidades (São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Fortaleza e Belo Horizonte) concentram mais da metade das mortes (54,8%). Estudo feito pela FGV a respeito do público nos estádios de futebol mostra que, em termos percentuais, o campeonato brasileiro é o que menos atrai torcedores aos estádios.

Obviamente que o preço dos ingressos em relação aos salários afeta esta equação, mas é possível especular que tanto a violência quanto as questões de desordem tenham efeitos independentes neste fenômeno do afastamento do público dos estádios. O primeiro levantamento, realizado por Murad, nos deixa com uma média de 4,2 mortes por ano e o segundo, feito pela Lance, com uma média de 6,4. Do ponto meramente quantitativo o número é inexpressivo num pais onde ocorrem cerca de 36,3 mil homicídios por ano (Mapa da violência 2012, Instituto Sangari).

Mas a questão não é a quantidade e sim o simbolismo: as pessoas vão aos estádios para se divertir e o esporte é uma atividade ligada ao lazer, saúde e ‘a vida, não a morte. O que choca a sociedade é a morte neste contexto e a banalidade da motivação.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"Pibinho" e "Crimão"

Lá fora há uma grande discussão acadêmica sobre o quanto a situação da economia afeta a criminalidade, com algumas pesquisas comprovando as correlações entre os fenômenos e outras não.

Sempre argumentei que o Brasil é um caso apropriado pra observar esta relação entre economia e crime pois aqui os efeitos são mais diretos e visíveis: grande parcela da população trabalhando no mercado informal e reduzida rede de proteção social estatal durante as crises são alguns dos muitos fatores que nos diferenciam dos países mais desenvolvidos, sem falar dos menores riscos de punição e da maior desigualdade.

 Estes fatores atenuam os efeitos dos “business cycles” sobre o crime nos países desenvolvidos e acentuam estes mesmos efeitos no Brasil e outros países em desenvolvimento. Na tabela abaixo analisamos as variações do PIB nacional durante 68 trimestres (desde o 3º de 1996), subdividindo os trimestres em 9 grupos, listados na primeira coluna.

Report
Mean
DOMESTIC GDP (Binned)
CRIME INDEX
MEAN VARIATION OF 8 CRIMES
INDEX OF VIOLENT CRIMES
INTENTIONAL HOMICIDE SAO PAULO
ROBBERY SAO PAULO
CAR ROBBERY SAO PAULO
<= -,70
10,5109
11,3200
23,5524
5,3800
22,5633
33,3200
-,69 - ,80
9,0635
11,0700
17,2601
5,3080
16,8240
23,1680
,81 - 1,46
7,6428
6,8771
9,8323
-1,7557
11,7414
10,1643
1,47 - 2,95
3,5518
5,2700
7,2838
6,5733
6,4640
11,0207
2,96 - 3,70
3,3204
-1,0200
3,4137
-8,7756
5,0156
,7467
3,71 - 4,73
1,2936
-1,2925
,2107
-7,1475
,2131
2,7863
4,74 - 5,00
-2,3764
-1,9590
-,7925
-13,6900
1,6270
-4,6610
5,01 - 6,41
-5,0169
-5,8400
-6,4875
-14,6350
-2,1750
-8,9550
6,42+
-9,9400
-7,3700
-11,9500
-1,6000
-12,8050
-10,3600
Total
2,6164
2,0381
4,7005
-3,3872
5,3017
6,0626

Como se pode observar, os trimestres estão ordenados na tabela pela magnitude, começando com os que apresentaram queda no PIB (em relação ao mesmo período do ano anterior) e terminando com os que apresentaram forte crescimento. As demais colunas trazem, por sua vez, as variações de diversos indicadores de criminalidade no Estado de São Paulo.

Como se observa, na maioria dos casos há uma relação linear entre o desempenho do PIB no trimestre e a evolução da criminalidade. O crime cresce muito nos trimestres onde há queda do PIB e cai moderadamente nos trimestres com elevado crescimento do PIB. (em outros termos, os ciclos são assimétricos). Com “Pibão” temos “criminho” e vice-versa!

Sem estender muito a análise, o que esta correlação sugere é que o “pibinho” dos últimos trimestres é um dos principais culpados pelo crescimento da criminalidade patrimonial observada em vários estados nos últimos tempos. Largar o mundo do crime, pelo que sugerem os dados, só é uma opção racional para os criminosos quando a economia cresce a taxas superiores a 3%, o que faz tempo não observamos no país.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A eficiência do sistema prisional na redução da criminalidade

Mostrando visões diferentes sobre a eficiência do sistema prisional na redução da criminalidade, o Espaço Democrático – fundação do PSD para estudos e formação política – realizou no início da noite de segunda-feira (11) seu 13º debate sobre o tema “Desatando os nós que atrasam o Brasil”. Participaram do encontro – que foi transmitido ao vivo pela internet – dois especialistas no tema segurança: a socióloga Camila Dias, da Universidade Federal do ABC, e o cientista político Leandro Piquet Carneiro, professor da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da mesma universidade. A socióloga Camila Dias Para a socióloga, as prisões brasileiras não tem resolvido os problemas de segurança e também não têm contribuído para a recuperação dos presos. Segundo ela, “é muito importante que esse tema seja debatido, pois o sistema prisional sempre foi o primo pobre da questão da segurança”. Em sua opinião, “a melhor forma de melhorar esse sistema é com a adoção de uma política de desencarceramento, pois nenhum Estado pode arcar com tantos custos e é preciso reservar as prisões para quem de fato precisa ser afastado da sociedade”. O cientista político Leandro Piquet Carneiro Leandro Piquet Carneiro, por sua vez, afirmou que ”o Brasil hoje enfrenta dificuldades nessa área que exigem investimento significativo, tanto em recursos financeiros quanto no aprimoramento do processo de gestão”. Ele defendeu as parcerias com o setor privado para se aumentar o número de vagas nas prisões de todo o País e um choque de gestão em todo o sistema de segurança pública, gerando mais qualidade nos inquéritos e na administração das unidades prisionais. “As políticas de segurança pública de alguns Estados têm demonstrado que é possível obter bons resultados com a adoção de boas práticas de gestão”, concluiu.

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