quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Cidades maiores são mais violentas?

 Conhecimento URBIK · Estudo 06


Uma análise dos 645 municípios paulistas mostra que tamanho não produz um efeito único: crimes patrimoniais crescem com a escala urbana, enquanto violência interpessoal e sexual seguem trajetórias diferentes.

A pergunta parece simples: cidades maiores são mais violentas? Em números absolutos, a resposta seria quase inevitavelmente positiva. Uma cidade com centenas de milhares de habitantes tende a registrar mais crimes do que outra com poucos milhares. Mas isso não significa que seus moradores enfrentem necessariamente maior risco.

Para responder de maneira adequada, é preciso comparar taxas e separar modalidades. Quando fazemos isso, a conclusão muda: o efeito do porte depende do crime observado. As maiores cidades paulistas concentram taxas muito superiores de roubos, furtos e crimes contra veículos. Já estupro e lesão corporal dolosa apresentam taxas medianas mais elevadas nos municípios pequenos. O homicídio descreve uma curva própria e instável nas menores populações.

Como o estudo foi realizado

Analisamos os registros disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo para os anos completos de 2024 e 2025. Foram considerados os 645 municípios e sete grupos: homicídio doloso, estupro — incluindo estupro de vulnerável —, lesão corporal dolosa, furto, roubo, furto de veículo e roubo de veículo.

Boletins repetidos dentro da mesma modalidade foram deduplicados. A verificação mostrou duplicidade residual inferior a 0,5% em todas as categorias e praticamente nula na maior parte delas. Para reduzir oscilações anuais, calculamos a média anual dos dois anos. As taxas utilizam a população municipal do Censo Demográfico de 2022.

Os municípios foram divididos em seis faixas de porte. Em cada faixa, usamos a mediana das taxas, menos sensível a valores extremos do que a média. Em seguida, estimamos modelos de escala urbana, ajustados pelas mesorregiões do IBGE. O ajuste regional reduz, embora não elimine, a confusão entre tamanho da cidade e localização no estado.

O porte muda principalmente os crimes patrimoniais

O contraste mais expressivo aparece nos roubos. Nos municípios com menos de 10 mil habitantes, a mediana foi de aproximadamente 12 roubos por 100 mil habitantes ao ano. Nas nove cidades com 500 mil habitantes ou mais, chegou a 380: uma taxa cerca de 31 vezes maior.

O furto também cresce de maneira contínua: de 482 por 100 mil na menor faixa para 1.212 na maior. No furto de veículos, a mediana passa de 27 para 293. No roubo de veículos, muitos municípios pequenos não registram casos em um ano típico, enquanto a maior faixa alcança 98 por 100 mil habitantes.

PorteFurtoRouboFurto de veículoRoubo de veículoEstuproLesão dolosa
Até 10 mil4821227047447
10–20 mil5962235545424
20–50 mil6523644739399
50–100 mil72076821838386
100–500 mil8591151272932350
500 mil ou mais1.2123802939828317

Leitura da tabela: medianas das taxas anuais por 100 mil habitantes, calculadas com a média das ocorrências de 2024 e 2025. O homicídio foi examinado separadamente por ser um evento raro e mais instável.

Violência interpessoal não segue a mesma direção

As taxas medianas de lesão corporal dolosa diminuem à medida que o porte cresce: aproximadamente 447 por 100 mil habitantes nos municípios com menos de 10 mil moradores e 317 nas cidades com 500 mil ou mais. Para o estupro, a queda vai de 47 para 28 por 100 mil.

Esses resultados não demonstram que pequenas cidades sejam intrinsecamente mais violentas. A composição etária e de gênero, relações de proximidade, acesso aos serviços, disposição para registrar ocorrências, distância até a delegacia e práticas locais de classificação podem afetar as taxas. No caso da violência sexual, a subnotificação é especialmente relevante. O dado mede registros policiais conhecidos, não todos os eventos ocorridos.

O que significa crescer mais que a população?

A análise de escala compara o crescimento das ocorrências com o crescimento populacional. Um coeficiente igual a 1 significa crescimento proporcional: dobrar a população estaria associado a dobrar o número de registros. Acima de 1, o crescimento é superlinear e a taxa tende a aumentar. Abaixo de 1, o crescimento é sublinear e a taxa tende a diminuir.

ModalidadeElasticidadePadrãoLeitura
Roubo1,31SuperlinearAs ocorrências aumentam mais rapidamente que a população.
Furto de veículo1,23SuperlinearA taxa cresce fortemente com o porte; há também sinal de não linearidade.
Furto1,16SuperlinearO crescimento das ocorrências supera o crescimento populacional.
Lesão corporal dolosa0,97Quase proporcionalO volume acompanha a população, mas a taxa mediana diminui com o porte.
Estupro0,90SublinearAs ocorrências crescem menos que a população; a taxa mediana é maior nas cidades pequenas.
Homicídio doloso0,80Não linearEvento raro nos pequenos municípios; a curva não é bem resumida por um único coeficiente.
Roubo de veículo0,89Não linearA taxa sobe sobretudo nas faixas maiores; um único expoente seria enganoso.

Mesmo depois do ajuste por mesorregião, furto, roubo e furto de veículo permaneceram superlineares. O resultado é compatível com mecanismos urbanos conhecidos: cidades maiores reúnem mais circulação de pessoas, veículos, comércio, terminais, atividades noturnas e encontros entre desconhecidos. Isso amplia simultaneamente alvos, oportunidades e anonimato.

O roubo apresentou a maior elasticidade, 1,31. Em termos aproximados, um aumento de 10% na população esteve associado a aumento de cerca de 13% nos registros, mantida a mesorregião. Isso descreve uma associação estrutural; não significa que o crescimento populacional, isoladamente, cause o crime.

Por que o homicídio exige cautela adicional

A mediana de homicídios dolosos é zero entre os municípios com menos de 10 mil habitantes. Isso não quer dizer ausência permanente: significa que, em pelo menos metade dessas cidades, a média anual do biênio foi inferior ao necessário para produzir um registro estável. Um único caso pode elevar muito a taxa de um município pequeno.

Nas faixas intermediárias, as medianas ficam próximas de 5 a 6 homicídios por 100 mil; nas maiores cidades, em torno de 4,5. A relação, porém, é curva e não deve ser resumida como simples queda. Somente 26 municípios apresentaram média de pelo menos 20 homicídios dolosos por ano no biênio, muito menos do que nos crimes de maior frequência.

Quanto mais raro o evento e menor a população, maior a necessidade de trabalhar com vários anos, intervalos de incerteza e comparação com municípios semelhantes.Rankings anuais de pequenas cidades podem mudar profundamente por causa de um ou dois registros.

O IC Urbik também cresce com o porte

Aplicamos ainda a versão publicada do Índice de Criminalidade do URBIK, composta por lesão corporal dolosa, furto, roubo e estupro. A mediana do IC por 100 mil habitantes passou de aproximadamente 2.516 na menor faixa para 7.488 nas cidades com 500 mil habitantes ou mais.

O crescimento ocorre porque o peso dos roubos e dos furtos nas cidades maiores supera a redução observada em lesões e estupros registrados. O IC, portanto, reforça que a carga criminal registrada muda com a escala urbana, mas não substitui a leitura separada das modalidades.

O que o gestor municipal pode concluir

Primeiro, não existe uma política de segurança definida apenas pelo tamanho da cidade. Municípios grandes precisam dedicar atenção especial a crimes patrimoniais relacionados à mobilidade, à circulação de pessoas e à concentração de atividades. Municípios pequenos não devem interpretar suas baixas quantidades absolutas como ausência de violência interpessoal ou sexual.

Segundo, a comparação correta deve combinar taxa, volume e porte. Uma cidade pode ter muitos crimes porque é grande, apresentar taxa elevada em razão de poucos casos ou efetivamente registrar desempenho pior do que municípios semelhantes. O benchmark mais útil não é apenas o ranking estadual, mas a posição dentro de um grupo comparável.

Terceiro, o porte é um ponto de partida, não uma explicação completa. Renda, desigualdade, densidade, urbanização, população flutuante, estrutura etária, localização metropolitana, atividade econômica, qualidade dos registros e políticas públicas também influenciam os resultados. Este estudo identifica padrões de escala; não estima o efeito causal de cada mecanismo.

Uma resposta menos simples — e mais útil

Cidades maiores não são uniformemente mais violentas. Elas apresentam, sobretudo, mais crimes patrimoniais por habitante. Roubos, furtos e furtos de veículos crescem mais rapidamente do que a população. Lesões corporais dolosas e estupros registrados seguem direção oposta. Homicídios exigem uma análise própria, especialmente nos municípios pequenos.

A resposta mais adequada, portanto, não é “sim” ou “não”. É: depende do crime, da medida utilizada e do grupo de comparação. Para a gestão municipal, essa distinção é decisiva. Ela permite abandonar diagnósticos genéricos e comparar cada cidade com aquilo que seria razoável esperar de seu porte e contexto regional.

Fontes e método: microdados de boletins de ocorrência da SSP-SP, anos estatísticos de 2024 e 2025; população municipal do Censo Demográfico 2022 — IBGE. A SSP-SP adverte que os boletins disponíveis no portal não equivalem automaticamente à estatística criminal oficial e que boletins com mais de uma natureza podem aparecer em mais de uma categoria. Referências conceituais: Gomez-Lievano, Youn e Bettencourt, 2012, sobre inferência em leis de escala urbana; Alves et al., 2013, sobre homicídios e desvios das leis de escala; e Oliveira et al., 2017, sobre escala e concentração criminal.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O crime está em toda parte?

 Conhecimento URBIK · Estudo 04

O crime está em toda parte?

Os dados do URBIK mostram que a criminalidade se concentra em uma parcela relativamente pequena da cidade — e que muitos desses lugares permanecem prioritários ao longo do tempo

Quando se olha para o mapa de uma cidade, é natural imaginar a segurança pública como um problema distribuído por todo o território. Há crimes no centro, nos bairros residenciais, nas áreas comerciais, nas periferias e nos corredores viários. Para o gestor municipal, essa percepção pode levar a uma conclusão aparentemente razoável: se o problema está em toda parte, os recursos também deveriam ser distribuídos de maneira relativamente uniforme.

Os dados do URBIK mostram uma realidade diferente. A criminalidade não se distribui igualmente pelo espaço urbano. Uma parcela relativamente pequena dos lugares concentra uma parte muito maior das ocorrências. Mais importante: muitos desses lugares continuam aparecendo entre os prioritários de um ano para outro.

Esse fenômeno é conhecido há décadas pela criminologia. A literatura sobre crime and place mostra que crimes tendem a se concentrar em determinados endereços, segmentos de rua e pequenos espaços urbanos. Essa constatação deu origem, entre outras estratégias, ao chamado hot spots policing: em vez de pensar apenas em grandes bairros ou regiões, procura-se identificar os pequenos lugares nos quais os problemas efetivamente se acumulam.

O URBIK permite testar essa ideia com dados dos municípios paulistas que integram sua base. Os resultados de 2024 e 2025 sugerem que a concentração espacial não é apenas uma hipótese teórica. Ela aparece de maneira clara nas cidades analisadas.

Olhar para a cidade em pequenas células

Para estudar o fenômeno, o URBIK não utilizou bairros. A opção por microterritórios é importante. Os nomes de bairros nos registros policiais apresentam variações de grafia, abreviações e subdivisões, além de serem unidades muito diferentes em tamanho e população. Um bairro pode reunir áreas residenciais, comerciais e industriais com padrões criminais completamente distintos.

Em vez disso, o URBIK divide o território em uma grade de pequenas células, da ordem de aproximadamente 250 metros, e associa cada ocorrência georreferenciada ao respectivo microterritório. A mesma metodologia já é utilizada pela plataforma para identificar áreas persistentes e emergentes. Para evitar células baseadas em eventos isolados, foram consideradas na análise apenas aquelas com pelo menos quatro registros.

A pergunta feita aos dados foi simples: que proporção dos microterritórios ativos é necessária para concentrar metade das ocorrências de uma cidade? A resposta varia entre os municípios, mas o padrão geral é bastante claro.

Município20242025
Botucatu18,1%19,9%
Jundiaí20,7%20,7%
Araras22,3%21,2%
Santos21,1%21,5%
Guarujá22,4%22,8%
Marília23,4%23,2%
Assis23,0%24,0%
Caraguatatuba24,8%23,3%
Carapicuíba24,9%24,8%
Vinhedo24,6%25,0%
Várzea Paulista21,2%25,3%
Louveira27,3%27,0%

Os números revelam algo concreto. Em boa parte dos municípios, aproximadamente um quinto a um quarto dos microterritórios ativos concentra metade das ocorrências criminais.

Em Botucatu, por exemplo, 18,1% dos microterritórios concentravam metade das ocorrências em 2024. Em 2025, eram 19,9%. Em Jundiaí, a proporção foi exatamente 20,7% nos dois anos. Em Santos, 21,1% em 2024 e 21,5% em 2025. Araras apresentou 22,3% e 21,2%.

O que chama atenção não é apenas a concentração, mas também a estabilidade dos resultados. Carapicuíba registrou 24,9% em um ano e 24,8% no seguinte. Marília, 23,4% e 23,2%. Guarujá, 22,4% e 22,8%. Louveira, 27,3% e 27,0%.

A distribuição espacial da criminalidade, portanto, não parece se reorganizar completamente a cada ano.

Isso não significa que 20% da área física da cidade concentre metade dos crimes. Estamos falando de 20% dos microterritórios ativos, isto é, das pequenas células que apresentaram quantidade suficiente de registros para entrar na análise. A distinção é importante. Ainda assim, para o planejamento municipal, o resultado é expressivo.

Quando a gravidade entra na conta

Contar ocorrências, porém, não é a única maneira de medir a concentração. Um microterritório com muitos furtos não representa necessariamente a mesma carga criminal de outro com menor número de ocorrências, mas maior presença de roubos, homicídios ou crimes sexuais.

Por isso, repetimos o exercício utilizando o Índice de Criminalidade do URBIK (IC), apresentado em estudo anterior do Conhecimento URBIK. Em vez de simplesmente contar os registros, o IC pondera diferentes crimes segundo sua gravidade relativa.

Em várias cidades, a carga criminal ponderada mostrou-se ainda mais concentrada do que o número bruto de ocorrências. Em Botucatu, em 2025, eram necessários 19,9% dos microterritórios para concentrar metade das ocorrências, mas apenas 16,2% para concentrar metade do IC. Em Jundiaí, a diferença foi de 20,7% para 17%. Em Araras, de 21,2% para 17%. Em Guarujá, de 22,8% para 20,7%.

Isso significa que a concentração espacial encontrada não é simplesmente consequência de muitos delitos de menor gravidade ocorrerem nos mesmos locais. A carga criminal mais grave também tende a se concentrar territorialmente.

O resultado não é idêntico em todas as cidades — e não deveria ser. Há municípios nos quais volume e gravidade apresentam praticamente a mesma concentração e outros nos quais o IC se distribui de maneira um pouco diferente. Para o gestor, justamente aí está a utilidade da análise: conhecer não apenas onde há muitas ocorrências, mas onde se concentra a combinação entre frequência e gravidade.

Muitos dos lugares prioritários permanecem prioritários

Para testar a persistência, identificamos em 2024 o conjunto de microterritórios que, começando pelos de maior incidência, acumulava aproximadamente metade das ocorrências. Em seguida verificamos quantos desses locais continuavam pertencendo ao mesmo grupo prioritário em 2025.

MunicípioPrioritários de 2024 que permanecem em 2025
Santos79,6%
Várzea Paulista72,2%
Carapicuíba71,1%
Araras70,0%
Louveira66,7%
Marília66,2%
Jundiaí64,1%
Guarujá63,2%
Botucatu61,9%
Caraguatatuba60,0%
Assis53,1%

Os resultados mostram considerável permanência. Santos é um exemplo particularmente claro. Em 2024, 93 microterritórios eram suficientes para concentrar aproximadamente metade das ocorrências georreferenciadas. Em 2025, novamente eram 93. Setenta e quatro deles estavam presentes nos dois grupos, o que representa uma permanência de quase 80%.

Em Carapicuíba, 90 microterritórios formavam o grupo de maior concentração em cada ano e 64 permaneciam entre os prioritários, uma taxa de 71%. Em Araras, 40 microterritórios compunham o grupo em 2024, 34 em 2025 e 28 estavam presentes nos dois anos, correspondendo a 70% de permanência.

O Índice de Criminalidade acrescenta outra informação interessante. Em Botucatu, 61,9% dos microterritórios prioritários pelo número de ocorrências permaneceram no ano seguinte. Quando o critério passa a ser a carga criminal ponderada pelo IC, a permanência chega a 73,7%. Nesse caso, os locais que concentram os crimes de maior peso parecem ainda mais persistentes do que aqueles definidos apenas pela quantidade de registros.

Isso não significa que o mapa do crime seja imutável. Se 60% ou 70% dos microterritórios permanecem, uma parcela relevante também deixa o grupo prioritário e outros lugares entram nele. A conclusão correta não é que “o crime acontece sempre nos mesmos lugares”. É mais interessante:

Grande parte da concentração criminal persiste nos mesmos lugares, mas novos focos também surgem ao longo do tempo.

O que o gestor pode fazer com essa informação?

Se os crimes fossem distribuídos de maneira aproximadamente uniforme pela cidade, faria sentido distribuir atenção e recursos também de maneira uniforme. Mas quando uma parcela relativamente pequena dos microterritórios concentra metade das ocorrências, tratar todos os lugares da mesma maneira pode significar desperdiçar capacidade de prevenção.

Isso não quer dizer simplesmente colocar mais viaturas nos pontos com mais registros. O primeiro passo é diagnosticar por que aquele microterritório concentra problemas.

Um hotspot em torno de um terminal de transporte pode exigir medidas diferentes de outro situado numa região de bares. Uma concentração de furtos em área comercial não pede necessariamente a mesma resposta de um microterritório marcado por violência interpessoal. Iluminação, desenho urbano, fiscalização, ordenamento, controle de acesso, horários de funcionamento, videomonitoramento, presença de agentes públicos, articulação com comerciantes e intervenções em estabelecimentos reincidentes são exemplos de respostas que dependem do diagnóstico do lugar.

A análise espacial permite, assim, uma sequência de planejamento:

Identificar o microterritório → compreender o problema → escolher a intervenção → acompanhar o resultado.O foco deve ser o mecanismo que produz o problema em cada lugar.

A persistência acrescenta outra dimensão. Um lugar que aparece repetidamente entre os prioritários merece uma investigação estrutural. Pode existir alguma característica do ambiente que continuamente produz oportunidades para o crime. Já um microterritório que surge recentemente exige outra pergunta: o que mudou?

Uma nova atividade comercial, alteração no transporte, evento, abandono de imóvel, mudança na circulação de pessoas ou simples deslocamento de um problema de uma área próxima podem produzir um hotspot emergente.

Por isso, o URBIK procura distinguir microterritórios persistentes de focos recentes. A análise de 2024 e 2025 mostra por que essa distinção é importante: existe uma estrutura territorial relativamente estável, mas ela não elimina o surgimento de novos problemas.

Há ainda uma cautela essencial. Um microterritório com alta concentração criminal não deve ser confundido com uma população “criminosa” ou com moradores mais perigosos. O dado descreve lugares onde eventos são registrados, não características das pessoas que vivem ali. Áreas comerciais, terminais, hospitais, escolas e regiões de lazer podem concentrar ocorrências justamente porque recebem grande população flutuante.

A unidade de intervenção é o problema do lugar, não o perfil de seus moradores.

Concentrar atenção para ampliar resultados

A principal mensagem deste estudo é simples: o crime não está igualmente em toda parte.

Nos municípios analisados pelo URBIK, uma parcela relativamente pequena dos microterritórios concentra uma parcela muito maior das ocorrências. Em boa parte das cidades, cerca de 20% a 25% das células ativas são suficientes para reunir metade dos registros. Quando consideramos também a gravidade dos crimes, em vários municípios a concentração torna-se ainda maior.

Além disso, boa parte desses lugares permanece prioritária de um ano para outro. Em Santos, quase 80% dos microterritórios responsáveis pela maior concentração em 2024 continuaram no grupo em 2025. Em Carapicuíba e Araras, aproximadamente 70%. Em diversas outras cidades, mais de 60%.

Para o gestor municipal, isso representa uma oportunidade. Recursos de segurança são sempre limitados. Tempo de equipes, fiscalização, iluminação, monitoramento e capacidade de intervenção não podem ser empregados com a mesma intensidade em todos os lugares.

A gestão baseada em evidências não significa abandonar o restante da cidade. Significa reconhecer que problemas diferentes exigem intensidades diferentes de atenção.

Se poucos lugares concentram grande parte da carga criminal e muitos deles permanecem problemáticos ao longo do tempo, esses microterritórios são candidatos naturais a diagnósticos mais aprofundados e intervenções focalizadas. Ao mesmo tempo, a renovação parcial dos hotspots exige monitoramento contínuo para identificar áreas emergentes.

Essa talvez seja a principal contribuição da análise territorial para a segurança municipal. Em vez de perguntar apenas “quanto crime existe na cidade?”, o gestor passa a fazer uma pergunta muito mais útil:

Onde exatamente está o problema — e ele continua no mesmo lugar?

Responder bem a essa pergunta pode ser o primeiro passo para concentrar melhor os esforços e produzir resultados maiores com os recursos que o município já possui.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK. Os resultados utilizam dados de 2024 e 2025, dependem de registros georreferenciados e devem ser atualizados à medida que novos períodos e municípios forem incorporados.

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