sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Cada crime tem sua própria geografia?

 


Uma análise espacial dos furtos, roubos, homicídios dolosos e crimes sexuais nos 645 municípios paulistas mostra que a proximidade importa — mas de maneira diferente para cada crime.

Quando os indicadores criminais de um município pioram, uma das primeiras perguntas feitas pelos gestores é se o problema está restrito à cidade ou se acompanha um movimento regional. A pergunta parece simples, mas contém uma dificuldade: de qual crime estamos falando? A região relevante para compreender os roubos pode não ser a mesma dos homicídios. Uma cidade pode integrar um corredor de furtos e, ao mesmo tempo, estar fora das áreas de maior violência letal.

Este estudo examina a distribuição de furtos, roubos, homicídios dolosos e violência sexual nos 645 municípios do Estado de São Paulo em 2024 e 2025. O objetivo é verificar se municípios vizinhos apresentam taxas semelhantes e, sobretudo, se as regiões de maior incidência coincidem entre diferentes crimes.

Resultado principal

Todos os quatro crimes possuem estrutura espacial, mas cada um desenha um mapa diferente. Furtos e roubos são os mais próximos entre si. Os homicídios formam um corredor próprio. A violência sexual apresenta outra geografia, praticamente independente dos crimes patrimoniais e da violência letal.

Dois anos completos e quatro naturezas criminais

A análise utiliza os registros individuais disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo para 2024 e 2025. Foram contabilizados 1.287.124 registros de furto, 411.688 de roubo, 4.955 de homicídio doloso e 29.022 de estupro e estupro de vulnerável, reunidos sob a denominação violência sexual.

As taxas municipais foram calculadas por 100 mil habitantes. Para homicídios e violência sexual foi aplicada suavização empírica bayesiana, reduzindo o peso de flutuações aleatórias em cidades pequenas. A relação entre cada município e seus vizinhos foi representada por uma matriz de contiguidade territorial. Os resultados também foram confrontados com contiguidade queen e com os cinco municípios de sede mais próxima.

O I de Moran global mostra se taxas semelhantes tendem a se agrupar no Estado. Os indicadores locais LISA identificam onde estão os agrupamentos alto–alto, baixo–baixo e os municípios que destoam de sua vizinhança. A significância foi estimada com 9.999 permutações, acompanhada do procedimento de Benjamini–Hochberg para controlar falsos resultados em centenas de testes locais.

A criminalidade paulista não se distribui ao acaso

NaturezaI de Moranp por permutaçãoLeitura
Furto0,1980,0005Dependência espacial moderada
Roubo0,3860,0001Forte padrão metropolitano e regional
Homicídio doloso0,4100,0001Forte concentração regional específica
Violência sexual0,3920,0001Estrutura regional distinta dos demais crimes

As quatro modalidades apresentam autocorrelação espacial positiva e estatisticamente significativa. Municípios próximos tendem a se parecer mais do que municípios escolhidos aleatoriamente. Os resultados permanecem praticamente iguais nas três definições de vizinhança; o que muda substancialmente é onde cada estrutura aparece.

Furtos: metrópoles, litoral e oportunidades móveis

Mapa LISA das taxas municipais de furtos em São Paulo no biênio 2024–2025
Furtos apresentam o padrão espacial mais fragmentado, combinando agrupamentos metropolitanos, litorâneos e turísticos.

Os furtos possuem o mapa mais fragmentado. Os agrupamentos alto–alto encontrados pelo teste nominal abrangem Barueri, Carapicuíba e Cajamar na área metropolitana, mas também Bertioga, Caraguatatuba e Cananéia no litoral, além de Américo Brasiliense no interior.

Essa combinação sugere que a geografia dos furtos não é exclusivamente metropolitana. O crime depende de oportunidades: circulação intensa, atividade comercial, turismo, veículos, imóveis temporariamente desocupados e concentração de bens disponíveis. Municípios litorâneos podem apresentar taxas elevadas porque recebem uma população muito maior do que aquela registrada como residente.

Depois da correção para múltiplos testes, nenhum município permanece individualmente significativo. Isso não contradiz o resultado global. Existe dependência espacial no conjunto do Estado, mas não há evidência suficiente para transformar um município específico em polo excepcional depois do controle rigoroso de centenas de comparações.

Roubos: uma geografia metropolitana persistente

Mapa LISA das taxas municipais de roubos em São Paulo no biênio 2024–2025
Os roubos formam o núcleo regional mais claramente metropolitano e persistente.

Os roubos apresentam o desenho mais claramente metropolitano. O agrupamento alto–alto abrange Arujá, Atibaia, Barueri, Caieiras, Cajamar, Campo Limpo Paulista, Carapicuíba e Cotia, acompanhado por Bertioga no litoral.

Mais importante do que a fotografia do biênio é a persistência: os nove municípios classificados como alto–alto em 2024 permaneceram nessa condição em 2025. Barueri, Cotia e Caieiras continuam significativas mesmo depois da correção de Benjamini–Hochberg.

Furtos e roubos são as modalidades mais parecidas. A correlação de Pearson entre as taxas municipais é 0,565 e a de Spearman chega a 0,604. Ainda assim, os mapas não são equivalentes. O roubo depende de interação coercitiva e tende a responder mais diretamente à densidade de alvos, à mobilidade cotidiana, aos corredores viários e à integração urbana.

Homicídios: um corredor próprio

Mapa LISA das taxas municipais suavizadas de homicídios dolosos em São Paulo no biênio 2024–2025
Os homicídios formam um corredor no Vale do Paraíba e Litoral Norte, separado dos principais polos patrimoniais.

Os homicídios dolosos desenham outro mapa. O agrupamento alto–alto concentra-se em Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas e Caraguatatuba. Campos do Jordão surge como baixo–alto: possui taxa relativamente baixa diante de uma vizinhança mais elevada.

Aparecida e Cachoeira Paulista continuam significativas depois do controle de falsos descobrimentos. A correlação entre homicídio e furto é apenas 0,103; entre homicídio e roubo, 0,081. Nenhum dos principais polos de homicídio coincide com o núcleo metropolitano de roubos.

O resultado contraria a ideia de que a violência letal seria apenas a forma mais grave de uma criminalidade geral. Homicídios podem estar associados a conflitos interpessoais, violência doméstica, disputas locais, mercados ilícitos, armas de fogo e redes sociais que não seguem a distribuição das oportunidades de furto ou roubo.

Violência sexual: uma terceira geografia

Mapa LISA das taxas municipais suavizadas de violência sexual em São Paulo no biênio 2024–2025
A violência sexual apresenta concentração própria, sobretudo no Vale do Ribeira e sudoeste paulista.

A violência sexual apresenta forte dependência espacial em regiões diferentes das demais modalidades. Os agrupamentos alto–alto se concentram principalmente no Vale do Ribeira e sudoeste paulista. Aparecem Apiaí, Barra do Chapéu, Barra do Turvo, Bom Sucesso de Itararé, Cajati, Cananéia, Capão Bonito e Coronel Macedo, além de municípios da região de Avaré.

Barra do Turvo, Cajati e Cananéia permanecem significativas depois da correção de Benjamini–Hochberg. A correlação com furto é 0,077; com roubo, −0,098; com homicídio, 0,016. Não há coincidência entre os agrupamentos alto–alto de violência sexual e os de roubo ou homicídio.

A interpretação exige cautela. Registros policiais de violência sexual são influenciados pelo acesso à delegacia, confiança nas instituições, disponibilidade de serviços de saúde e assistência e atuação da rede de proteção. Uma região com registros mais altos pode possuir maior incidência, melhor detecção ou ambas as coisas. O mapa mostra a geografia dos fatos conhecidos pelo poder público, não uma medida perfeita da prevalência real.

Não existe uma única geografia criminal

Furtos e roubos possuem uma base comum ligada à metropolização e à circulação, mas os furtos se estendem com maior facilidade a polos turísticos e oportunidades dispersas. Os homicídios concentram-se em outro corredor regional. A violência sexual forma um terceiro padrão, com peso do Vale do Ribeira e sudoeste paulista e possível influência das diferenças de notificação.

Comparações regionais específicasO município deve ser comparado com vizinhos diferentes conforme o crime analisado.
Alertas separados por naturezaO crescimento de roubos nos vizinhos pode antecipar risco local de roubo, mas oferece pouca informação sobre homicídios ou violência sexual.
Cooperação orientada pelo problemaFluxos metropolitanos, corredores de violência letal e redes de proteção exigem arranjos regionais distintos.
População efetivamente expostaTurismo, deslocamentos pendulares e centralidade regional precisam complementar as taxas baseadas apenas em residentes.

O mapa é um ponto de partida, não uma explicação

O LISA identifica concentrações e outliers, mas não determina suas causas. Municípios próximos podem apresentar taxas semelhantes porque compartilham urbanização, redes viárias, economia, turismo, características demográficas ou padrões de registro. A autocorrelação espacial não demonstra que o crime se espalhou de uma cidade para outra.

Também é necessário distinguir significância global e local. Os quatro crimes apresentam dependência espacial global robusta nas três matrizes testadas. A identificação de municípios isolados, porém, envolve 645 testes simultâneos. Por isso, os mapas apresentam os agrupamentos nominais, enquanto o texto destaca separadamente os núcleos que resistem ao controle de falsos descobrimentos.

O próximo passo científico é acrescentar densidade, urbanização, população flutuante, deslocamentos pendulares, renda, estrutura etária e regiões metropolitanas, além de ampliar a série histórica. Mesmo com essas limitações, a conclusão é consistente: a proximidade importa, mas importa de maneira diferente para cada crime. Reconhecer essa diversidade é condição para diagnósticos mais precisos e políticas regionais adequadas ao problema que se pretende enfrentar.

Fontes e referências

ANSELIN, L. Local Indicators of Spatial Association—LISA. Geographical Analysis, v. 27, n. 2, p. 93–115, 1995. DOI.
LAW, J.; QUICK, M.; CHAN, P. Bayesian spatio-temporal modeling for analysing local patterns of crime over time at the small-area level. Journal of Quantitative Criminology, v. 30, p. 57–78, 2014.
QUICK, M.; LI, G.; BRUNTON-SMITH, I. Crime-general and crime-specific spatial patterns. Journal of Criminal Justice, v. 58, p. 22–32, 2018.
SÃO PAULO. Secretaria da Segurança Pública. Microdados estaduais de criminalidade, 2024–2025.
IBGE. Malha municipal digital e população dos municípios paulistas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O calendário muda o crime?

 


O que os dados do URBIK revelam sobre Natal, Ano Novo, Carnaval e outras datas especiais — e como essas informações podem ajudar o gestor municipal a planejar melhor a segurança

Datas especiais mudam a rotina das cidades. No Natal, famílias se reúnem e o comércio altera seu funcionamento. No Réveillon, festas avançam pela madrugada e milhares de pessoas celebram simultaneamente. No Carnaval, eventos e encontros ocupam ruas e espaços públicos. Em outros feriados, parte da população viaja, estabelecimentos fecham e a circulação de pessoas diminui. Se as oportunidades e as atividades cotidianas mudam, é razoável perguntar: o crime também acompanha o calendário?

Os dados disponíveis no URBIK indicam que sim, mas não da maneira mais simples. Não encontramos evidências de que datas especiais produzam, indistintamente, “mais criminalidade”. O que aparece é algo mais interessante para a gestão da segurança: algumas celebrações modificam o perfil dos crimes registrados, e diferentes tipos de crime respondem de maneiras diferentes ao calendário.

Como fizemos a comparação

A análise utilizou os registros de ocorrências dos municípios acompanhados pelo URBIK nos anos completos de 2024 e 2025. Para evitar que diferenças normais entre os dias da semana fossem confundidas com efeitos das comemorações, cada data especial foi comparada com dias equivalentes das semanas anteriores e posteriores. Um feriado que caiu em um domingo, por exemplo, foi comparado com outros domingos próximos, e não com a média indiscriminada de todos os dias.

Foram examinados inicialmente Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Corpus Christi, Dia das Mães, Dia dos Namorados e Dia das Crianças. A análise estatística concentrou-se principalmente em furto, roubo e lesão corporal dolosa, crimes com volume suficiente para produzir estimativas mais estáveis. Homicídios, tentativas de homicídio e crimes sexuais também foram examinados, mas não foram utilizados como base das principais conclusões: com apenas duas repetições de cada feriado, poucos casos adicionais poderiam produzir variações percentuais muito grandes.

Também adotamos uma precaução importante. Como muitas datas e diferentes crimes foram testados simultaneamente, aumenta a possibilidade de encontrar alguma diferença significativa apenas por acaso. Por isso, os resultados foram submetidos a correção para múltiplas comparações. Finalmente, verificamos se as tendências apareciam em diferentes municípios e nos dois anos, em vez de dependerem de uma única cidade ou de um episódio isolado.

Essa última verificação revelou-se especialmente importante.

O que acontece nos principais feriados

Data especialFurtoRouboLesão corporal dolosaPrincipal conclusão
Ano Novo↑ 30%↑ 43%↑ 188%Forte aumento, sobretudo da violência interpessoal
Carnaval↑ 30%Aumento concentrado nas lesões
Natal↓ 21%*↓ 19%↑ 74%Mudança do perfil em direção à violência interpessoal
PáscoaNenhuma alteração consistente

Nota: valores representam a comparação agregada com dias equivalentes próximos. Setas em negrito indicam diferenças que permaneceram estatisticamente significativas após a correção dos testes. *A redução agregada dos furtos no Natal foi estatisticamente significativa, mas não apresentou a mesma consistência entre municípios e entre 2024 e 2025; por isso, deve ser interpretada com cautela.

O primeiro resultado que chama atenção é o Ano Novo. Considerando os dois anos conjuntamente, as lesões corporais dolosas ficaram aproximadamente 188% acima do nível observado nos dias comparáveis. Furtos aumentaram cerca de 30% e roubos, 43%.

Em 1º de janeiro de 2024, todos os 12 municípios comparáveis apresentaram mais lesões corporais do que o esperado. Foram 54 ocorrências, diante de aproximadamente dez que seriam esperadas a partir dos dias de controle. Em 2025, o padrão se repetiu: 11 dos 12 municípios apresentaram aumento, com 59 ocorrências diante de cerca de 22 esperadas.

Portanto, o crescimento das lesões no Ano Novo não parece resultar de uma cidade particularmente violenta ou de um único ano excepcional. É um fenômeno bastante disseminado na amostra do URBIK.

Os crimes patrimoniais exigem interpretação mais cuidadosa. Embora furtos e roubos tenham apresentado crescimento significativo no agregado, a distribuição entre municípios é menos uniforme. No caso dos roubos, inclusive, o aumento total está bastante concentrado em algumas cidades. Para o gestor, isso significa que o Ano Novo merece atenção especial, mas o componente mais generalizável do fenômeno é claramente o crescimento da violência interpessoal.

O Carnaval apresenta uma história ainda mais específica. Não encontramos aumento estatisticamente significativo dos furtos ou dos roubos. As lesões corporais, entretanto, ficaram aproximadamente 30% acima do padrão de comparação. Nove dos 12 municípios apresentaram aumento em 2024 e exatamente nove dos 12 em 2025.

Quando examinamos separadamente os dias do Carnaval, a terça-feira apresenta uma elevação particularmente expressiva das lesões. O resultado sugere que falar genericamente em “aumento da criminalidade no Carnaval” seria impreciso. Nos municípios analisados, o sinal mais claro está na violência interpessoal, não nos crimes patrimoniais.

No Natal, menos patrimônio e mais conflitos?

O Natal apresenta talvez o contraste mais interessante do estudo. No agregado dos dois anos, os furtos ficaram aproximadamente 21% abaixo dos dias de comparação, enquanto as lesões corporais dolosas ficaram 74% acima. Os roubos também aparecem em nível inferior, embora a diferença agregada não tenha alcançado a mesma robustez estatística.

A redução dos furtos precisa ser vista com cautela. Ela foi bastante evidente em 2024, quando oito de 12 municípios apresentaram queda, mas não se repetiu da mesma maneira em 2025. Portanto, ainda não temos evidência suficiente para afirmar que “o Natal reduz os furtos”.

Com as lesões corporais, a história é muito diferente. Em 2024, nove dos 12 municípios apresentaram crescimento. Em 2025, o aumento ocorreu em todos os 12 municípios analisados. Naquele ano foram observadas 52 lesões no Natal, diante de aproximadamente 13 esperadas segundo o padrão dos dias equivalentes próximos.

Os roubos apresentaram tendência predominantemente descendente: nove de 11 municípios comparáveis registraram redução em 2024 e oito de dez em 2025.

A interpretação mais prudente, portanto, não é dizer que o Natal produz mais ou menos crime. É dizer que o perfil das ocorrências parece mudar. A criminalidade patrimonial perde importância relativa, enquanto a violência interpessoal aumenta de forma bastante consistente.

Por que isso acontece? Os dados do URBIK não permitem responder diretamente. Reuniões familiares, festas, maior convivência social e consumo de álcool são mecanismos plausíveis e compatíveis com mudanças nas atividades rotineiras, mas não dispomos de informações que permitam demonstrar que sejam as causas das ocorrências observadas. O que podemos afirmar empiricamente é que a mudança existe e é especialmente forte para lesões corporais.

Nem todo feriado muda o crime

A Páscoa oferece um contraponto particularmente útil. Furtos ficaram aproximadamente 9% abaixo do nível de comparação, roubos praticamente não mudaram e lesões corporais ficaram cerca de 5% acima. Nenhuma dessas diferenças foi estatisticamente significativa.

Quando restringimos a análise especificamente ao domingo de Páscoa e o comparamos com outros domingos, o resultado fica ainda mais claro: furto −3%, roubo −9% e lesão corporal −2%. Em termos práticos, o domingo de Páscoa se parece bastante com outros domingos próximos.

Corpus Christi, Dia das Mães, Dia dos Namorados e Dia das Crianças também foram examinados. Surgiram algumas diferenças pontuais — como uma possível redução dos roubos no Dia das Mães —, mas elas não apresentaram robustez suficiente depois de considerados conjuntamente os testes estatísticos e a consistência dos resultados. Por isso, não são tratadas neste estudo como padrões consolidados.

Essa talvez seja uma das lições metodológicas mais importantes do exercício: nem toda diferença observada é uma diferença relevante.

O que isso significa para o gestor municipal?

Os resultados sugerem que o planejamento da segurança para datas especiais não deveria começar simplesmente com a ideia de “reforçar o policiamento porque haverá um feriado”. Feriados diferentes produzem contextos sociais diferentes e, consequentemente, podem exigir estratégias distintas.

O Ano Novo merece atenção especial. É a data em que encontramos a mudança mais ampla e o maior crescimento das lesões corporais. A prevenção de conflitos e da violência interpessoal deveria ocupar posição central no planejamento, sem desconsiderar que determinados municípios também podem apresentar crescimento dos crimes patrimoniais.

No Carnaval, os dados sugerem uma orientação ainda mais específica. Não encontramos evidência de aumento generalizado de furtos e roubos, enquanto o crescimento das lesões se repete nos dois anos e em grande parte das cidades. A prevenção de conflitos em locais de concentração de pessoas e a articulação com serviços municipais ligados a eventos, fiscalização, saúde e ordenamento urbano podem ser mais importantes do que uma estratégia baseada exclusivamente na proteção patrimonial.

O Natal também merece atenção à violência interpessoal. O crescimento das lesões é um dos resultados mais consistentes de todo o estudo, enquanto os roubos tendem a diminuir na maioria dos municípios. Isso significa que simplesmente repetir no Natal a mesma estratégia adotada em períodos de grande movimento comercial pode deixar de contemplar justamente o problema que mais se altera na data.

Já a Páscoa, pelo menos com os dados atualmente disponíveis, não apresenta mudança suficientemente importante para justificar o mesmo diagnóstico aplicado às grandes festas de final de ano e ao Carnaval.

Há, portanto, uma mensagem simples por trás dos números: o calendário importa, mas importa de maneiras diferentes para crimes diferentes.

Para a gestão municipal, conhecer essas regularidades permite substituir parte do planejamento baseado em impressões por planejamento baseado em evidências. À medida que novas séries anuais forem incorporadas ao URBIK, será possível verificar se esses padrões permanecem, identificar diferenças entre tipos de município e aumentar a precisão das estimativas.

Os resultados apresentados aqui ainda correspondem a dois anos completos de observação e, por isso, devem ser entendidos como evidências iniciais, não como leis imutáveis do comportamento criminal. Mesmo assim, a repetição de alguns padrões em 2024 e 2025 e em diferentes municípios — sobretudo o crescimento das lesões corporais no Natal, Ano Novo e Carnaval — é suficientemente clara para merecer atenção.

A principal conclusão talvez seja justamente que perguntar “a criminalidade aumenta nos feriados?” não é a melhor pergunta. Para quem precisa planejar a segurança de uma cidade, a pergunta mais útil é outra:

Que tipo de problema tende a mudar em cada data — e como podemos nos preparar para ele?

É essa mudança, de uma preocupação genérica com “mais crime” para um diagnóstico específico do que muda, quando muda e com que consistência, que permite transformar dados criminais em decisões de gestão.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK. A análise utiliza os anos completos de 2024 e 2025 e deverá ser atualizada à medida que novos anos forem incorporados.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Afinal, como medir a criminalidade?

 

SEGURANÇA PÚBLICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS


Por que contar ocorrências não basta para comparar tendências e prioridades territoriais

Túlio Kahn  |  Agosto de 2026  |  Seis naturezas criminais · séries temporais e comparação territorial

Quando se afirma que “a criminalidade aumentou” em uma cidade, a frase parece simples, mas esconde um problema importante de medição. Homicídios podem cair enquanto roubos aumentam. Furtos podem crescer ao mesmo tempo que lesões corporais diminuem. Crimes sexuais podem seguir uma trajetória diferente dos crimes contra o patrimônio. Nas estatísticas policiais não existe uma variável chamada simplesmente “criminalidade”: existem diferentes tipos de crime, medidos separadamente.

Para o gestor municipal, isso cria uma dificuldade concreta. Prefeitos, secretários de segurança e comandantes de Guardas Municipais precisam acompanhar muitos indicadores, mas frequentemente precisam responder a perguntas mais simples: a situação geral da cidade melhorou ou piorou? Quais bairros deveriam receber maior atenção?

O índice ponderado de criminalidade (IC) oferece uma alternativa entre usar um único delito e simplesmente somar todas as ocorrências. Sua lógica combina frequência e gravidade: quanto maior o número de ocorrências, maior o índice, mas crimes mais graves contribuem mais para seu valor. A metodologia recupera uma proposta desenvolvida originalmente nos anos 1990 para a análise da criminalidade na Região Metropolitana de São Paulo e a adapta às naturezas atualmente existentes na base do estudo.

Os pesos utilizados pelo IC


 

Evidências em síntese

Indicador

Resultado

Lesão corporal

peso 0,625

Furto

peso 3,5

Roubo

peso 8

Estupro

peso 8

Referência temporal

média da série = 100

Fonte: elaboração do autor com dados públicos indicados na bibliografia.

Os pesos acompanham a legislação vigente. Furto e roubo tiveram suas penas modificadas em 2026. O estupro de vulnerável também teve sua pena elevada recentemente, razão pela qual seu peso médio atualmente é 14, ligeiramente superior aos 13 do homicídio simples. Isso não estabelece uma hierarquia própria do estudo: adota como régua externa de gravidade a valoração expressa pelo legislador.

A pena não é uma medida perfeita do dano social provocado por cada delito. Sua vantagem é oferecer um critério transparente, replicável e independente da frequência com que cada crime ocorre. O índice não substitui os indicadores individuais. Se o IC aumenta, a pergunta seguinte deve ser quais crimes explicam o aumento. Ele funciona como um termômetro: oferece uma leitura geral e permite abrir seus componentes para compreender o diagnóstico.

Uma medida para acompanhar a cidade

A primeira aplicação do IC desenvolvida no estudo mede o nível geral de criminalidade do município. As ocorrências são transformadas em taxas populacionais e ponderadas pelos pesos de gravidade, permitindo comparar cidades de diferentes tamanhos. Nos dados disponíveis para 2024 e 2025, Guarujá apresentou IC médio de 1.689,5, Carapicuíba 1.625,6, Santos 1.567,0 e Botucatu 743,5.


 

Indicadores sintéticos são úteis porque resumem dimensões diferentes em uma mesma escala, mas sua construção envolve escolhas normativas. Um furto e um homicídio não possuem o mesmo impacto social; ao mesmo tempo, pesos excessivamente arbitrários podem produzir rankings pouco transparentes. A solução adotada foi explicitar cada peso e permitir que o leitor reconstrua o resultado.

O índice possui duas aplicações distintas. Na série temporal municipal, mostra se a carga criminal ponderada está acima ou abaixo da média histórica da própria cidade. Na comparação interna, reorganiza prioridades territoriais ao considerar simultaneamente volume e gravidade. As duas leituras não devem ser confundidas com risco individual.

O ganho analítico não está em declarar um número definitivo de criminalidade, mas em tornar explícita a decisão sobre o que conta mais. Contagens simples continuam importantes e devem ser apresentadas ao lado do índice, funcionando como teste de transparência e sensibilidade.

Essa medida sintética simplifica a primeira leitura sem esconder o que existe por trás dela. Os indicadores individuais mostram se a mudança veio de furtos, roubos, homicídios, crimes sexuais ou lesões.

Uma segunda aplicação: dentro do município

A segunda aplicação leva a mesma lógica para dentro do município. A pergunta passa a ser: em quais bairros está concentrada a maior carga de criminalidade? O estudo calcula a quantidade de ocorrências de cada território e aplica os mesmos pesos de gravidade.

O que muda quando olhamos os bairros de Botucatu

Um teste com dados reais de Botucatu em 2024 e 2025 mostra a diferença entre simplesmente contar ocorrências e considerar também sua gravidade. Antes do cálculo, os nomes dos bairros foram padronizados para evitar que diferentes grafias fossem tratadas como territórios distintos.

No sentido inverso, Vila Paulista possui 105 ocorrências e aparece na 11ª posição pelo volume, mas cai para a 22ª pelo IC. Entre os seis crimes considerados predominam furtos e lesões, sem registros de homicídio, estupro ou estupro de vulnerável no período analisado.

Medir, priorizar, intervir e avaliar


 

O IC pode ser integrado à gestão por resultados. A prefeitura acompanha o IC municipal, identifica quais crimes explicam sua evolução, verifica quais bairros concentram maior carga, estabelece prioridades e avalia se as intervenções foram acompanhadas de redução do índice. Forma-se uma sequência simples: medir, priorizar, intervir e avaliar.

O IC não elimina os problemas conhecidos das estatísticas policiais. Subnotificação, alterações administrativas e diferenças na propensão das vítimas a registrar ocorrências continuam afetando os dados. Também não seria correto apresentar o ranking territorial como uma lista dos “bairros mais perigosos”. O indicador mede a carga de criminalidade registrada ponderada pela gravidade, e não o risco individual de cada morador.

Sua principal vantagem é gerencial. A segurança pública produz grande quantidade de informação, enquanto o tempo disponível para analisá-la é limitado. O índice permite começar por perguntas compreensíveis: a criminalidade está aumentando ou diminuindo? Quais crimes explicam a tendência? Onde estão concentrados os problemas? Os bairros prioritários continuam os mesmos?

Esse é o papel do Índice de Criminalidade no estudo: transformar a complexidade da segurança pública em uma medida que possa ser acompanhada, explicada e utilizada para tomar decisões.

Fonte dos dados: base consolidada do estudo. Os resultados são descritivos e podem ser atualizados com a incorporação de novos municípios e períodos.

Referências

SELLIN, T.; WOLFGANG, M. The Measurement of Delinquency. New York: Wiley, 1964.

SHERMAN, L. W. Causes of police behavior: the current state of quantitative research. Journal of Research in Crime and Delinquency, 1980.

RATCLIFFE, J. Intelligence-Led Policing. 2. ed. London: Routledge, 2016.

SÃO PAULO. Secretaria da Segurança Pública. Microdados estaduais de ocorrências criminais, 2024–2026.

Bases públicas: Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, https://www.ssp.sp.gov.br/estatistica/consultas; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, quando indicado.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O lugar importa: como o perfil criminal varia entre os ambientes urbanos

 


A análise de 140.048 registros mostra que residências, estacionamentos, escolas, bares, comércios e terminais não concentram os mesmos problemas. Reconhecer essas diferenças permite substituir respostas genéricas por diagnósticos e intervenções ajustados ao contexto.

Quando um gestor observa o mapa criminal de sua cidade, a primeira pergunta costuma ser territorial: onde estão as maiores concentrações? Esta pergunta é indispensável, mas incompleta. Dois hotspots com volumes semelhantes podem exigir respostas inteiramente diferentes. Um estacionamento dominado por furtos de veículos, uma escola com registros de agressão e um bar associado a conflitos interpessoais não constituem o mesmo problema apenas porque aparecem como pontos no mapa.

Este estudo investiga uma segunda dimensão: a relação entre a natureza das ocorrências e o tipo de ambiente em que foram registradas. O objetivo não é afirmar que um hospital, uma escola ou um bar “cause” crimes. Busca-se identificar associações que ajudem o município a formular hipóteses, selecionar parceiros institucionais, observar fatores de risco e escolher indicadores apropriados para avaliar suas respostas.

1. O que foi analisado

Foram utilizados 140.048 registros criminais disponíveis no URBIK, referentes a 13 municípios paulistas e ao período de janeiro de 2024 a junho de 2026. Os registros foram classificados por tipo geral e subtipo de local. Para reduzir ruído, a análise principal excluiu categorias genéricas — como “outros”, “ignorado” e “não informado” — e somente destacou subtipos com pelo menos 200 ocorrências. Crimes considerados distintivos também precisaram apresentar um número absoluto mínimo de casos.

A padronização foi feita na camada analítica, preservando o dado original. Variações equivalentes foram reunidas, como Casa/Casas, Apartamento/Apartamentos e diferenças de capitalização em Estacionamento Particular. A futura rotina deve ampliar essa tabela canônica e manter, para cada valor, o rótulo original, a categoria padronizada e a regra aplicada.

Duas medidas diferentes

O percentual responde qual crime compõe os registros daquele ambiente. A razão de sobrerrepresentação compara o observado com o esperado segundo o perfil criminal de cada município. Uma razão de 4,0 indica presença proporcional quatro vezes maior, mas não demonstra causalidade.

Tipo de localCrime mais frequenteParticipaçãoCrime distintivoSobrerrepresentação
ResidênciasLesão corporal dolosa50,3%Estupro de vulnerável4,56×
Comércio e serviçosFurto — outros69,3%Furto — outros1,51×
Estacionamentos e garagensFurto de veículo46,9%Furto de veículo6,35×
Estabelecimentos de ensinoLesão corporal dolosa55,2%Estupro de vulnerável4,31×
Restaurantes e afinsFurto — outros51,9%Lesão corporal dolosa1,99×
SaúdeFurto — outros45,1%Lesão culposa — outras8,83×
Rodovias e estradasLesão culposa no trânsito35,5%Homicídio culposo no trânsito19,32×
Terminais e estaçõesFurto — outros50,1%Furto de carga30,63×

2. Instalações de risco, geradores e atratores

A criminologia ambiental diferencia ambientes que geram oportunidades pelo grande fluxo de pessoas daqueles conhecidos por oferecer oportunidades criminais. Terminais, centros comerciais e eventos podem funcionar como geradores: atraem usuários por razões legítimas e, com eles, alvos e oportunidades. Outros locais podem tornar-se atratores quando passam a ser reconhecidos por infratores como ambientes favoráveis.

Há ainda o conceito de instalações de risco. Dentro de uma mesma categoria, poucos estabelecimentos costumam concentrar parcela desproporcional dos problemas. Isso significa que o município não deve tratar todos os bares, escolas, parques ou estacionamentos como igualmente problemáticos. A comparação correta é entre unidades semelhantes: quais cinco estacionamentos concentram mais furtos e o que os diferencia dos demais? O Center for Problem-Oriented Policing recomenda exatamente essa comparação entre instalações da mesma classe, pois diferenças de gestão, desenho, clientela, localização e controle podem apontar respostas preventivas.

3. O que os padrões sugerem

Residências: violência interpessoal e proteção de vítimas

Nas residências, a lesão corporal dolosa correspondeu a 50,3% dos registros. O estupro de vulnerável representou 5,6%, mas apareceu 4,56 vezes acima do esperado. Em casas, essa proporção chegou a 6,1%; em apartamentos, o estupro apareceu 5,73 vezes acima da referência municipal.

Esses resultados não devem produzir patrulhamento indiscriminado em áreas residenciais. Eles sugerem integração entre segurança, saúde, educação, assistência social e rede de proteção. O gestor deve observar reincidência de endereços, vínculos entre vítima e autor, presença de crianças, pedidos de medida protetiva e intervalos entre episódios. Visitas preventivas, encaminhamento protegido e protocolos de compartilhamento institucional são mais coerentes do que respostas exclusivamente ostensivas.

Perguntas de diagnósticoHá repetição contra a mesma vítima ou domicílio? Os episódios aumentam após medidas protetivas, separações ou conflitos familiares?
IndicadoresReincidência em 30, 90 e 180 dias; tempo de resposta; encaminhamentos efetivados; novos episódios após atendimento.

Estacionamentos e garagens: concentração excepcional de furto de veículos

Os estacionamentos apresentaram o padrão mais claro. O furto de veículo respondeu por 46,9% dos registros no tipo geral e ocorreu 6,35 vezes acima do esperado. Em estacionamentos públicos, alcançou 62,9%; em garagens ou abrigos residenciais, 74,9%; e em frente à residência da vítima, 36,6%.

A resposta deve começar pela comparação entre instalações: iluminação, controle de entradas e saídas, visibilidade, cercamento, registro de placas, permanência média, conexão com terminais e facilidade de evasão. Câmeras podem contribuir quando há cobertura adequada, monitoramento e capacidade de resposta, mas sua simples instalação não substitui a análise das oportunidades. Mudanças de desenho, controle de acesso e remoção de pontos cegos devem ser avaliadas conjuntamente.

Comércio, mercados e farmácias: furto predominante, roubo seletivo

Furtos responderam por 69,3% dos registros em comércio e serviços, 76,2% em mercados, 83,7% em lojas e 88,7% em obras. Farmácias apresentaram composição distinta: embora os furtos fossem majoritários, roubos chegaram a 29,7% e ocorreram 3,38 vezes acima do esperado.

O município pode formar grupos de trabalho com associações comerciais para mapear produtos mais visados, horários, formas de entrada e fuga e estabelecimentos reincidentes. Em mercados e lojas, a prevenção pode combinar posicionamento de mercadorias, treinamento de equipes, desenho de caixas e gestão de acessos. Em farmácias, devem ser examinados produtos controlados, disponibilidade de numerário, funcionamento noturno e rotas de evasão.

Bares e restaurantes: conflitos e economia noturna

Nos bares e botequins, furtos foram o evento mais frequente, com 44,8%, mas a tentativa de homicídio apareceu 6,75 vezes acima da referência. Em restaurantes e afins, lesões corporais dolosas representaram 32,8% e ocorreram quase duas vezes acima do esperado.

O padrão recomenda olhar além da presença policial. Horário de fechamento, superlotação, consumo excessivo de álcool, atuação de seguranças, filas, iluminação externa, transporte na dispersão do público e histórico do estabelecimento podem influenciar os conflitos. A literatura sobre economia noturna favorece medidas direcionadas aos estabelecimentos mais problemáticos e coordenação entre fiscalização, licenciamento, saúde, mobilidade e segurança.

Escolas: agressões, proteção e diferenças por etapa

Lesões corporais dolosas representaram 55,2% dos registros em estabelecimentos de ensino. No ensino fundamental, chegaram a 58,5%, enquanto o estupro de vulnerável apareceu 3,72 vezes acima do esperado. No ensino médio, lesões alcançaram 61,4% e o porte de entorpecentes, embora correspondesse a 7,2%, ocorreu 5,26 vezes acima da referência.

É necessário distinguir ocorrências dentro da escola, nas entradas e saídas e aquelas apenas comunicadas pela instituição. A resposta pode incluir análise de horários, pontos de conflito, mediação, protocolos de revelação de violência, proteção no trajeto e articulação com famílias e rede de atendimento. Comparar escolas semelhantes é preferível a classificar toda a rede como igualmente vulnerável.

Praças, praias e transportes: fluxo, oportunidade e vigilância

Furtos predominaram em praças, praias, ônibus e sistemas metroferroviários. Nos transportes sobre trilhos, corresponderam a 79,2%; no interior do transporte coletivo, 81,6%. Praças combinaram furtos com porte de entorpecentes, que apareceu 3,64 vezes acima da referência.

Nesses ambientes, é preciso relacionar ocorrências com fluxo de usuários. Ações possíveis incluem melhorar iluminação e visibilidade, eliminar barreiras visuais, ajustar pontos de embarque, orientar usuários em horários críticos e posicionar equipes segundo a concentração temporal. Sem dados de passageiros ou frequentadores, o volume bruto não deve ser interpretado como taxa de risco.

Rodovias, porto e postos: circulação, cargas e atribuição territorial

Em rodovias e estradas, lesões culposas no trânsito foram 35,5% dos registros e homicídios culposos apareceram 19,32 vezes acima do esperado. Acostamentos mostraram sobrerrepresentação de roubo de carga de 28,87 vezes; postos de gasolina, de 15,02 vezes. Na categoria portuária, o furto de carga apareceu 36,36 vezes acima da referência.

As razões elevadas exigem cautela porque alguns crimes são raros na base geral e porque instalações portuárias estão concentradas em poucos municípios. Ainda assim, indicam a necessidade de integração com concessionárias, polícia rodoviária, operadores logísticos, autoridade portuária e fiscalização municipal. Áreas de parada, iluminação, rotas de acesso, horários de espera e locais de transbordo devem compor o diagnóstico.

4. Como transformar associação em decisão

O primeiro passo não é escolher uma intervenção, mas converter o padrão estatístico em um problema específico. “Furtos em estacionamentos” ainda é amplo. É necessário saber em quais instalações, horários, setores, tipos de veículo e condições de vigilância eles ocorrem. Em seguida, o gestor compara unidades de alto e baixo risco, identifica diferenças plausíveis e define uma resposta testável.

1 · DelimitarDefina crime, instalação, período, vítimas, horários e área de influência.
2 · CompararCompare instalações semelhantes com alta e baixa incidência, preferencialmente usando denominadores de fluxo.
3 · DiagnosticarExamine desenho físico, gestão, rotina, produtos, controle, transporte e condições do entorno.
4 · ResponderCombine medidas ambientais, administrativas, sociais e de segurança compatíveis com o mecanismo identificado.
5 · AvaliarRegistre data, local, intensidade e indicadores; acompanhe deslocamento e compare com locais não tratados.

5. Limitações e agenda de aprimoramento

A análise estima a distribuição de crimes condicionada ao tipo de local, e não o risco por usuário ou estabelecimento. Faltam denominadores como número de clientes, estudantes, passageiros, vagas ou horas de funcionamento. Também há possíveis erros de preenchimento: hospitais podem aparecer como local de atendimento, escolas como local de comunicação e áreas portuárias como ponto genérico de geocodificação.

As categorias de local ainda requerem auditoria contínua. A padronização inicial reúne duplicidades evidentes, mas não deve apagar distinções substantivas: pronto-socorro não é equivalente a clínica odontológica; terminal rodoviário não é porto; bar não é restaurante. O próximo avanço é criar um dicionário canônico versionado, calcular resultados por município e incorporar medidas de exposição quando disponíveis.

Os achados devem ser lidos como um mapa de hipóteses. Seu valor está em orientar investigações locais mais precisas e respostas que possam ser avaliadas. O lugar importa, mas não de maneira uniforme: são as diferenças entre instalações semelhantes, seus usuários, sua gestão e seu desenho que oferecem os melhores caminhos para prevenção.

Referências

Clarke, R. V. e Eck, J. E. Understanding Risky Facilities. Center for Problem-Oriented Policing.

Groff, E. Exploring the Spatial Configuration of Places Related to Homicide Events. National Institute of Justice.

Clarke, R. V. Thefts of and From Cars in Parking Facilities. Problem-Oriented Guides for Police.

College of Policing. Reducing violence in the night-time economy.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK, consultada em 12 de agosto de 2026. Os resultados são descritivos e podem ser atualizados com a incorporação de novos municípios e períodos.

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