Conhecimento URBIK · Estudo 06
Uma análise dos 645 municípios paulistas mostra que tamanho não produz um efeito único: crimes patrimoniais crescem com a escala urbana, enquanto violência interpessoal e sexual seguem trajetórias diferentes.
A pergunta parece simples: cidades maiores são mais violentas? Em números absolutos, a resposta seria quase inevitavelmente positiva. Uma cidade com centenas de milhares de habitantes tende a registrar mais crimes do que outra com poucos milhares. Mas isso não significa que seus moradores enfrentem necessariamente maior risco.
Para responder de maneira adequada, é preciso comparar taxas e separar modalidades. Quando fazemos isso, a conclusão muda: o efeito do porte depende do crime observado. As maiores cidades paulistas concentram taxas muito superiores de roubos, furtos e crimes contra veículos. Já estupro e lesão corporal dolosa apresentam taxas medianas mais elevadas nos municípios pequenos. O homicídio descreve uma curva própria e instável nas menores populações.
Como o estudo foi realizado
Analisamos os registros disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo para os anos completos de 2024 e 2025. Foram considerados os 645 municípios e sete grupos: homicídio doloso, estupro — incluindo estupro de vulnerável —, lesão corporal dolosa, furto, roubo, furto de veículo e roubo de veículo.
Boletins repetidos dentro da mesma modalidade foram deduplicados. A verificação mostrou duplicidade residual inferior a 0,5% em todas as categorias e praticamente nula na maior parte delas. Para reduzir oscilações anuais, calculamos a média anual dos dois anos. As taxas utilizam a população municipal do Censo Demográfico de 2022.
Os municípios foram divididos em seis faixas de porte. Em cada faixa, usamos a mediana das taxas, menos sensível a valores extremos do que a média. Em seguida, estimamos modelos de escala urbana, ajustados pelas mesorregiões do IBGE. O ajuste regional reduz, embora não elimine, a confusão entre tamanho da cidade e localização no estado.
O porte muda principalmente os crimes patrimoniais
O contraste mais expressivo aparece nos roubos. Nos municípios com menos de 10 mil habitantes, a mediana foi de aproximadamente 12 roubos por 100 mil habitantes ao ano. Nas nove cidades com 500 mil habitantes ou mais, chegou a 380: uma taxa cerca de 31 vezes maior.
O furto também cresce de maneira contínua: de 482 por 100 mil na menor faixa para 1.212 na maior. No furto de veículos, a mediana passa de 27 para 293. No roubo de veículos, muitos municípios pequenos não registram casos em um ano típico, enquanto a maior faixa alcança 98 por 100 mil habitantes.
| Porte | Furto | Roubo | Furto de veículo | Roubo de veículo | Estupro | Lesão dolosa |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Até 10 mil | 482 | 12 | 27 | 0 | 47 | 447 |
| 10–20 mil | 596 | 22 | 35 | 5 | 45 | 424 |
| 20–50 mil | 652 | 36 | 44 | 7 | 39 | 399 |
| 50–100 mil | 720 | 76 | 82 | 18 | 38 | 386 |
| 100–500 mil | 859 | 115 | 127 | 29 | 32 | 350 |
| 500 mil ou mais | 1.212 | 380 | 293 | 98 | 28 | 317 |
Leitura da tabela: medianas das taxas anuais por 100 mil habitantes, calculadas com a média das ocorrências de 2024 e 2025. O homicídio foi examinado separadamente por ser um evento raro e mais instável.
Violência interpessoal não segue a mesma direção
As taxas medianas de lesão corporal dolosa diminuem à medida que o porte cresce: aproximadamente 447 por 100 mil habitantes nos municípios com menos de 10 mil moradores e 317 nas cidades com 500 mil ou mais. Para o estupro, a queda vai de 47 para 28 por 100 mil.
Esses resultados não demonstram que pequenas cidades sejam intrinsecamente mais violentas. A composição etária e de gênero, relações de proximidade, acesso aos serviços, disposição para registrar ocorrências, distância até a delegacia e práticas locais de classificação podem afetar as taxas. No caso da violência sexual, a subnotificação é especialmente relevante. O dado mede registros policiais conhecidos, não todos os eventos ocorridos.
O que significa crescer mais que a população?
A análise de escala compara o crescimento das ocorrências com o crescimento populacional. Um coeficiente igual a 1 significa crescimento proporcional: dobrar a população estaria associado a dobrar o número de registros. Acima de 1, o crescimento é superlinear e a taxa tende a aumentar. Abaixo de 1, o crescimento é sublinear e a taxa tende a diminuir.
| Modalidade | Elasticidade | Padrão | Leitura |
|---|---|---|---|
| Roubo | 1,31 | Superlinear | As ocorrências aumentam mais rapidamente que a população. |
| Furto de veículo | 1,23 | Superlinear | A taxa cresce fortemente com o porte; há também sinal de não linearidade. |
| Furto | 1,16 | Superlinear | O crescimento das ocorrências supera o crescimento populacional. |
| Lesão corporal dolosa | 0,97 | Quase proporcional | O volume acompanha a população, mas a taxa mediana diminui com o porte. |
| Estupro | 0,90 | Sublinear | As ocorrências crescem menos que a população; a taxa mediana é maior nas cidades pequenas. |
| Homicídio doloso | 0,80 | Não linear | Evento raro nos pequenos municípios; a curva não é bem resumida por um único coeficiente. |
| Roubo de veículo | 0,89 | Não linear | A taxa sobe sobretudo nas faixas maiores; um único expoente seria enganoso. |
Mesmo depois do ajuste por mesorregião, furto, roubo e furto de veículo permaneceram superlineares. O resultado é compatível com mecanismos urbanos conhecidos: cidades maiores reúnem mais circulação de pessoas, veículos, comércio, terminais, atividades noturnas e encontros entre desconhecidos. Isso amplia simultaneamente alvos, oportunidades e anonimato.
O roubo apresentou a maior elasticidade, 1,31. Em termos aproximados, um aumento de 10% na população esteve associado a aumento de cerca de 13% nos registros, mantida a mesorregião. Isso descreve uma associação estrutural; não significa que o crescimento populacional, isoladamente, cause o crime.
Por que o homicídio exige cautela adicional
A mediana de homicídios dolosos é zero entre os municípios com menos de 10 mil habitantes. Isso não quer dizer ausência permanente: significa que, em pelo menos metade dessas cidades, a média anual do biênio foi inferior ao necessário para produzir um registro estável. Um único caso pode elevar muito a taxa de um município pequeno.
Nas faixas intermediárias, as medianas ficam próximas de 5 a 6 homicídios por 100 mil; nas maiores cidades, em torno de 4,5. A relação, porém, é curva e não deve ser resumida como simples queda. Somente 26 municípios apresentaram média de pelo menos 20 homicídios dolosos por ano no biênio, muito menos do que nos crimes de maior frequência.
O IC Urbik também cresce com o porte
Aplicamos ainda a versão publicada do Índice de Criminalidade do URBIK, composta por lesão corporal dolosa, furto, roubo e estupro. A mediana do IC por 100 mil habitantes passou de aproximadamente 2.516 na menor faixa para 7.488 nas cidades com 500 mil habitantes ou mais.
O crescimento ocorre porque o peso dos roubos e dos furtos nas cidades maiores supera a redução observada em lesões e estupros registrados. O IC, portanto, reforça que a carga criminal registrada muda com a escala urbana, mas não substitui a leitura separada das modalidades.
O que o gestor municipal pode concluir
Primeiro, não existe uma política de segurança definida apenas pelo tamanho da cidade. Municípios grandes precisam dedicar atenção especial a crimes patrimoniais relacionados à mobilidade, à circulação de pessoas e à concentração de atividades. Municípios pequenos não devem interpretar suas baixas quantidades absolutas como ausência de violência interpessoal ou sexual.
Segundo, a comparação correta deve combinar taxa, volume e porte. Uma cidade pode ter muitos crimes porque é grande, apresentar taxa elevada em razão de poucos casos ou efetivamente registrar desempenho pior do que municípios semelhantes. O benchmark mais útil não é apenas o ranking estadual, mas a posição dentro de um grupo comparável.
Terceiro, o porte é um ponto de partida, não uma explicação completa. Renda, desigualdade, densidade, urbanização, população flutuante, estrutura etária, localização metropolitana, atividade econômica, qualidade dos registros e políticas públicas também influenciam os resultados. Este estudo identifica padrões de escala; não estima o efeito causal de cada mecanismo.
Uma resposta menos simples — e mais útil
Cidades maiores não são uniformemente mais violentas. Elas apresentam, sobretudo, mais crimes patrimoniais por habitante. Roubos, furtos e furtos de veículos crescem mais rapidamente do que a população. Lesões corporais dolosas e estupros registrados seguem direção oposta. Homicídios exigem uma análise própria, especialmente nos municípios pequenos.
A resposta mais adequada, portanto, não é “sim” ou “não”. É: depende do crime, da medida utilizada e do grupo de comparação. Para a gestão municipal, essa distinção é decisiva. Ela permite abandonar diagnósticos genéricos e comparar cada cidade com aquilo que seria razoável esperar de seu porte e contexto regional.
Fontes e método: microdados de boletins de ocorrência da SSP-SP, anos estatísticos de 2024 e 2025; população municipal do Censo Demográfico 2022 — IBGE. A SSP-SP adverte que os boletins disponíveis no portal não equivalem automaticamente à estatística criminal oficial e que boletins com mais de uma natureza podem aparecer em mais de uma categoria. Referências conceituais: Gomez-Lievano, Youn e Bettencourt, 2012, sobre inferência em leis de escala urbana; Alves et al., 2013, sobre homicídios e desvios das leis de escala; e Oliveira et al., 2017, sobre escala e concentração criminal.