Quando um gestor observa o mapa criminal de sua cidade, a primeira pergunta costuma ser territorial: onde estão as maiores concentrações? Esta pergunta é indispensável, mas incompleta. Dois hotspots com volumes semelhantes podem exigir respostas inteiramente diferentes. Um estacionamento dominado por furtos de veículos, uma escola com registros de agressão e um bar associado a conflitos interpessoais não constituem o mesmo problema apenas porque aparecem como pontos no mapa.

Este estudo investiga uma segunda dimensão: a relação entre a natureza das ocorrências e o tipo de ambiente em que foram registradas. O objetivo não é afirmar que um hospital, uma escola ou um bar “cause” crimes. Busca-se identificar associações que ajudem o município a formular hipóteses, selecionar parceiros institucionais, observar fatores de risco e escolher indicadores apropriados para avaliar suas respostas.

1. O que foi analisado

Foram utilizados 140.048 registros criminais disponíveis no URBIK, referentes a 13 municípios paulistas e ao período de janeiro de 2024 a junho de 2026. Os registros foram classificados por tipo geral e subtipo de local. Para reduzir ruído, a análise principal excluiu categorias genéricas — como “outros”, “ignorado” e “não informado” — e somente destacou subtipos com pelo menos 200 ocorrências. Crimes considerados distintivos também precisaram apresentar um número absoluto mínimo de casos.

A padronização foi feita na camada analítica, preservando o dado original. Variações equivalentes foram reunidas, como Casa/Casas, Apartamento/Apartamentos e diferenças de capitalização em Estacionamento Particular. A futura rotina deve ampliar essa tabela canônica e manter, para cada valor, o rótulo original, a categoria padronizada e a regra aplicada.

Duas medidas diferentes

O percentual responde qual crime compõe os registros daquele ambiente. A razão de sobrerrepresentação compara o observado com o esperado segundo o perfil criminal de cada município. Uma razão de 4,0 indica presença proporcional quatro vezes maior, mas não demonstra causalidade.

Tipo de localCrime mais frequenteParticipaçãoCrime distintivoSobrerrepresentação
ResidênciasLesão corporal dolosa50,3%Estupro de vulnerável4,56×
Comércio e serviçosFurto — outros69,3%Furto — outros1,51×
Estacionamentos e garagensFurto de veículo46,9%Furto de veículo6,35×
Estabelecimentos de ensinoLesão corporal dolosa55,2%Estupro de vulnerável4,31×
Restaurantes e afinsFurto — outros51,9%Lesão corporal dolosa1,99×
SaúdeFurto — outros45,1%Lesão culposa — outras8,83×
Rodovias e estradasLesão culposa no trânsito35,5%Homicídio culposo no trânsito19,32×
Terminais e estaçõesFurto — outros50,1%Furto de carga30,63×

2. Instalações de risco, geradores e atratores

A criminologia ambiental diferencia ambientes que geram oportunidades pelo grande fluxo de pessoas daqueles conhecidos por oferecer oportunidades criminais. Terminais, centros comerciais e eventos podem funcionar como geradores: atraem usuários por razões legítimas e, com eles, alvos e oportunidades. Outros locais podem tornar-se atratores quando passam a ser reconhecidos por infratores como ambientes favoráveis.

Há ainda o conceito de instalações de risco. Dentro de uma mesma categoria, poucos estabelecimentos costumam concentrar parcela desproporcional dos problemas. Isso significa que o município não deve tratar todos os bares, escolas, parques ou estacionamentos como igualmente problemáticos. A comparação correta é entre unidades semelhantes: quais cinco estacionamentos concentram mais furtos e o que os diferencia dos demais? O Center for Problem-Oriented Policing recomenda exatamente essa comparação entre instalações da mesma classe, pois diferenças de gestão, desenho, clientela, localização e controle podem apontar respostas preventivas.

3. O que os padrões sugerem

Residências: violência interpessoal e proteção de vítimas

Nas residências, a lesão corporal dolosa correspondeu a 50,3% dos registros. O estupro de vulnerável representou 5,6%, mas apareceu 4,56 vezes acima do esperado. Em casas, essa proporção chegou a 6,1%; em apartamentos, o estupro apareceu 5,73 vezes acima da referência municipal.

Esses resultados não devem produzir patrulhamento indiscriminado em áreas residenciais. Eles sugerem integração entre segurança, saúde, educação, assistência social e rede de proteção. O gestor deve observar reincidência de endereços, vínculos entre vítima e autor, presença de crianças, pedidos de medida protetiva e intervalos entre episódios. Visitas preventivas, encaminhamento protegido e protocolos de compartilhamento institucional são mais coerentes do que respostas exclusivamente ostensivas.

Perguntas de diagnósticoHá repetição contra a mesma vítima ou domicílio? Os episódios aumentam após medidas protetivas, separações ou conflitos familiares?
IndicadoresReincidência em 30, 90 e 180 dias; tempo de resposta; encaminhamentos efetivados; novos episódios após atendimento.

Estacionamentos e garagens: concentração excepcional de furto de veículos

Os estacionamentos apresentaram o padrão mais claro. O furto de veículo respondeu por 46,9% dos registros no tipo geral e ocorreu 6,35 vezes acima do esperado. Em estacionamentos públicos, alcançou 62,9%; em garagens ou abrigos residenciais, 74,9%; e em frente à residência da vítima, 36,6%.

A resposta deve começar pela comparação entre instalações: iluminação, controle de entradas e saídas, visibilidade, cercamento, registro de placas, permanência média, conexão com terminais e facilidade de evasão. Câmeras podem contribuir quando há cobertura adequada, monitoramento e capacidade de resposta, mas sua simples instalação não substitui a análise das oportunidades. Mudanças de desenho, controle de acesso e remoção de pontos cegos devem ser avaliadas conjuntamente.

Comércio, mercados e farmácias: furto predominante, roubo seletivo

Furtos responderam por 69,3% dos registros em comércio e serviços, 76,2% em mercados, 83,7% em lojas e 88,7% em obras. Farmácias apresentaram composição distinta: embora os furtos fossem majoritários, roubos chegaram a 29,7% e ocorreram 3,38 vezes acima do esperado.

O município pode formar grupos de trabalho com associações comerciais para mapear produtos mais visados, horários, formas de entrada e fuga e estabelecimentos reincidentes. Em mercados e lojas, a prevenção pode combinar posicionamento de mercadorias, treinamento de equipes, desenho de caixas e gestão de acessos. Em farmácias, devem ser examinados produtos controlados, disponibilidade de numerário, funcionamento noturno e rotas de evasão.

Bares e restaurantes: conflitos e economia noturna

Nos bares e botequins, furtos foram o evento mais frequente, com 44,8%, mas a tentativa de homicídio apareceu 6,75 vezes acima da referência. Em restaurantes e afins, lesões corporais dolosas representaram 32,8% e ocorreram quase duas vezes acima do esperado.

O padrão recomenda olhar além da presença policial. Horário de fechamento, superlotação, consumo excessivo de álcool, atuação de seguranças, filas, iluminação externa, transporte na dispersão do público e histórico do estabelecimento podem influenciar os conflitos. A literatura sobre economia noturna favorece medidas direcionadas aos estabelecimentos mais problemáticos e coordenação entre fiscalização, licenciamento, saúde, mobilidade e segurança.

Escolas: agressões, proteção e diferenças por etapa

Lesões corporais dolosas representaram 55,2% dos registros em estabelecimentos de ensino. No ensino fundamental, chegaram a 58,5%, enquanto o estupro de vulnerável apareceu 3,72 vezes acima do esperado. No ensino médio, lesões alcançaram 61,4% e o porte de entorpecentes, embora correspondesse a 7,2%, ocorreu 5,26 vezes acima da referência.

É necessário distinguir ocorrências dentro da escola, nas entradas e saídas e aquelas apenas comunicadas pela instituição. A resposta pode incluir análise de horários, pontos de conflito, mediação, protocolos de revelação de violência, proteção no trajeto e articulação com famílias e rede de atendimento. Comparar escolas semelhantes é preferível a classificar toda a rede como igualmente vulnerável.

Praças, praias e transportes: fluxo, oportunidade e vigilância

Furtos predominaram em praças, praias, ônibus e sistemas metroferroviários. Nos transportes sobre trilhos, corresponderam a 79,2%; no interior do transporte coletivo, 81,6%. Praças combinaram furtos com porte de entorpecentes, que apareceu 3,64 vezes acima da referência.

Nesses ambientes, é preciso relacionar ocorrências com fluxo de usuários. Ações possíveis incluem melhorar iluminação e visibilidade, eliminar barreiras visuais, ajustar pontos de embarque, orientar usuários em horários críticos e posicionar equipes segundo a concentração temporal. Sem dados de passageiros ou frequentadores, o volume bruto não deve ser interpretado como taxa de risco.

Rodovias, porto e postos: circulação, cargas e atribuição territorial

Em rodovias e estradas, lesões culposas no trânsito foram 35,5% dos registros e homicídios culposos apareceram 19,32 vezes acima do esperado. Acostamentos mostraram sobrerrepresentação de roubo de carga de 28,87 vezes; postos de gasolina, de 15,02 vezes. Na categoria portuária, o furto de carga apareceu 36,36 vezes acima da referência.

As razões elevadas exigem cautela porque alguns crimes são raros na base geral e porque instalações portuárias estão concentradas em poucos municípios. Ainda assim, indicam a necessidade de integração com concessionárias, polícia rodoviária, operadores logísticos, autoridade portuária e fiscalização municipal. Áreas de parada, iluminação, rotas de acesso, horários de espera e locais de transbordo devem compor o diagnóstico.

4. Como transformar associação em decisão

O primeiro passo não é escolher uma intervenção, mas converter o padrão estatístico em um problema específico. “Furtos em estacionamentos” ainda é amplo. É necessário saber em quais instalações, horários, setores, tipos de veículo e condições de vigilância eles ocorrem. Em seguida, o gestor compara unidades de alto e baixo risco, identifica diferenças plausíveis e define uma resposta testável.

1 · DelimitarDefina crime, instalação, período, vítimas, horários e área de influência.
2 · CompararCompare instalações semelhantes com alta e baixa incidência, preferencialmente usando denominadores de fluxo.
3 · DiagnosticarExamine desenho físico, gestão, rotina, produtos, controle, transporte e condições do entorno.
4 · ResponderCombine medidas ambientais, administrativas, sociais e de segurança compatíveis com o mecanismo identificado.
5 · AvaliarRegistre data, local, intensidade e indicadores; acompanhe deslocamento e compare com locais não tratados.

5. Limitações e agenda de aprimoramento

A análise estima a distribuição de crimes condicionada ao tipo de local, e não o risco por usuário ou estabelecimento. Faltam denominadores como número de clientes, estudantes, passageiros, vagas ou horas de funcionamento. Também há possíveis erros de preenchimento: hospitais podem aparecer como local de atendimento, escolas como local de comunicação e áreas portuárias como ponto genérico de geocodificação.

As categorias de local ainda requerem auditoria contínua. A padronização inicial reúne duplicidades evidentes, mas não deve apagar distinções substantivas: pronto-socorro não é equivalente a clínica odontológica; terminal rodoviário não é porto; bar não é restaurante. O próximo avanço é criar um dicionário canônico versionado, calcular resultados por município e incorporar medidas de exposição quando disponíveis.

Os achados devem ser lidos como um mapa de hipóteses. Seu valor está em orientar investigações locais mais precisas e respostas que possam ser avaliadas. O lugar importa, mas não de maneira uniforme: são as diferenças entre instalações semelhantes, seus usuários, sua gestão e seu desenho que oferecem os melhores caminhos para prevenção.

Referências

Clarke, R. V. e Eck, J. E. Understanding Risky Facilities. Center for Problem-Oriented Policing.

Groff, E. Exploring the Spatial Configuration of Places Related to Homicide Events. National Institute of Justice.

Clarke, R. V. Thefts of and From Cars in Parking Facilities. Problem-Oriented Guides for Police.

College of Policing. Reducing violence in the night-time economy.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK, consultada em 12 de agosto de 2026. Os resultados são descritivos e podem ser atualizados com a incorporação de novos municípios e períodos.