Tulio Kahn
Há pouco mais de um século, uma das maiores controvérsias da antropologia opôs dois modos completamente distintos de produzir conhecimento científico. De um lado estava James George Frazer, autor de O Ramo de Ouro, uma das obras mais influentes da história das ciências sociais. A partir de milhares de relatos produzidos por missionários, viajantes e administradores coloniais, Frazer identificou padrões recorrentes em sociedades espalhadas por todos os continentes. Entre eles, chamou atenção para a recorrência de rituais envolvendo reis sagrados, deuses que morrem e renascem e sacrifícios destinados a restaurar a fertilidade da natureza. Sua ambição era monumental: descobrir leis gerais da evolução da religião e da cultura humana.
A crítica veio algumas décadas depois. Bronisław Malinowski sustentou que nenhuma coleção de relatos seria capaz de substituir o trabalho de campo. Era necessário viver durante anos entre os povos estudados, aprender sua língua, compreender seus costumes e observar diretamente sua organização social. Nascia a etnografia moderna, transformando o trabalho de campo na principal marca metodológica da antropologia do século XX.
Durante muito tempo, a disciplina pareceu escolher definitivamente o lado de Malinowski. Frazer passou a ser lembrado como um "antropólogo de gabinete", cuja enorme capacidade comparativa seria comprometida pela ausência de observação direta. Contudo, passadas muitas décadas, percebeu-se que ambos possuíam parte da razão. A etnografia permite compreender mecanismos sociais invisíveis às estatísticas, enquanto a comparação sistemática entre muitas sociedades é indispensável para avaliar se esses mecanismos realmente explicam fenômenos mais amplos.
Essa antiga discussão continua extremamente atual quando observamos uma das principais controvérsias da criminologia brasileira contemporânea: qual foi o papel desempenhado pelo PCC na extraordinária redução dos homicídios observada no Estado de São Paulo e, posteriormente, em boa parte do país.
Nas últimas duas décadas, diversos antropólogos realizaram pesquisas etnográficas extremamente valiosas sobre o PCC. Entrevistaram integrantes da organização, frequentaram comunidades onde ela exerce influência e documentaram detalhadamente seu funcionamento interno. Essas pesquisas revelaram aspectos fundamentais do fenômeno criminal brasileiro. Demonstraram que a facção desenvolveu mecanismos próprios de resolução de conflitos, criou os chamados "tribunais do crime", estabeleceu normas para o uso da violência e passou a controlar disputas entre criminosos, reduzindo homicídios considerados desnecessários para seus interesses.
Essas contribuições dificilmente podem ser contestadas. A existência desses mecanismos encontra respaldo em múltiplos estudos independentes e em diversas investigações policiais. Sob o ponto de vista antropológico, trata-se de um avanço importante para compreender como organizações criminosas exercem formas de governança em territórios onde o Estado é pouco presente.
O problema começa quando essa descrição qualitativa é convertida em uma explicação causal para tendências nacionais dos homicídios.
Existe uma diferença metodológica fundamental entre afirmar que o PCC possui mecanismos internos capazes de reduzir conflitos e afirmar que esses mecanismos explicam a redução dos homicídios observada em milhares de municípios brasileiros ao longo da última década. A primeira proposição decorre diretamente da observação etnográfica. A segunda exige um tipo completamente diferente de evidência.
O método etnográfico possui enorme capacidade para revelar processos sociais complexos, mas apresenta limitações importantes para estimar efeitos causais de grande escala. Os entrevistados não constituem uma amostra representativa da população criminal; suas narrativas podem conter racionalizações, omissões ou interesses estratégicos; diferentes pesquisadores dificilmente observarão exatamente o mesmo contexto; e, sobretudo, a etnografia não dispõe naturalmente de grupos de comparação que permitam isolar o efeito específico da atuação das facções.
Nas ciências experimentais e em parte crescente das ciências sociais quantitativas, explicações causais procuram responder a uma pergunta simples: o que teria acontecido na ausência do fator investigado? Em outras palavras, seria possível estimar qual teria sido a trajetória dos homicídios caso o PCC não tivesse exercido influência sobre determinado território? Essa pergunta exige desenhos de pesquisa muito diferentes daqueles utilizados na etnografia clássica, como modelos de efeitos fixos, métodos de controle sintético, diferenças-em-diferenças, séries temporais e outras estratégias capazes de construir contrafactuais plausíveis.
Quando esses métodos são aplicados ao caso brasileiro, os resultados tornam-se bem mais cautelosos do que parte da literatura qualitativa sugere. Alguns estudos encontram evidências de que o monopólio exercido pelo PCC em determinados mercados ilegais reduziu conflitos entre grupos criminosos e diminuiu a violência em áreas específicas. Outros, entretanto, não encontram apoio empírico suficiente para atribuir à facção a extraordinária redução dos homicídios observada em São Paulo como um todo.
Essa divergência não significa que um conjunto de pesquisadores esteja necessariamente errado. Ela revela, sobretudo, que diferentes métodos respondem a perguntas diferentes.
A etnografia mostra que o PCC regula conflitos. A análise quantitativa pergunta quanto dessa regulação é capaz de explicar a redução agregada dos homicídios.
Essa distinção torna-se ainda mais importante quando observamos a evolução recente da violência no Brasil. Os dados mostram que a redução dos homicídios ocorrida desde 2017 apresenta caráter amplamente nacional. Ela alcança estados com forte presença de facções, estados onde predominam organizações diferentes e milhares de pequenos municípios onde a presença do crime organizado é inexistente ou extremamente limitada.
Esse padrão territorial levanta uma dificuldade importante para explicações exclusivamente centradas nas facções. Um mecanismo localizado dificilmente explicaria uma tendência que se manifesta simultaneamente em contextos sociais, econômicos e criminais muito distintos.
Ao mesmo tempo, existem situações em que as facções parecem desempenhar papel decisivo. Explosões de homicídios observadas em diversos estados do Norte e do Nordeste coincidem frequentemente com rupturas de alianças entre organizações criminosas, disputas por rotas do tráfico e fragmentação dos mercados ilegais. Nesses casos, a literatura etnográfica dialoga de forma bastante consistente com os dados quantitativos.
A conclusão mais compatível com o conjunto das evidências disponíveis talvez seja menos espetacular, mas cientificamente mais sólida. As facções provavelmente exercem forte influência sobre a dinâmica local da violência. Monopólios criminosos tendem a reduzir conflitos internos; guerras entre organizações tendem a elevá-los. Contudo, esses mecanismos parecem explicar sobretudo surtos localizados e temporários de homicídios, não necessariamente a tendência nacional de queda observada na última década.
Outros fatores de natureza estrutural permanecem igualmente compatíveis com os dados disponíveis. Mudanças demográficas, melhoria das condições educacionais, alterações nos mercados ilícitos, evolução das políticas públicas de segurança, crescimento da capacidade investigativa em alguns estados, transformações econômicas e mesmo a migração parcial da criminalidade para modalidades digitais podem estar atuando simultaneamente. Aliás, a própria queda nacional dos crimes patrimoniais tradicionais e a explosão dos estelionatos digitais desafiam interpretações excessivamente centradas na governança territorial das facções.
Essa discussão ilustra uma transformação mais ampla ocorrida na própria antropologia nas últimas décadas. A disciplina deixou de depender exclusivamente da autoridade interpretativa do pesquisador e passou a incorporar triangulação de fontes, métodos mistos, bancos de dados comparativos e análises quantitativas. O trabalho de campo continua indispensável para compreender significados, normas e mecanismos sociais, mas passou a conviver com estratégias destinadas a testar empiricamente até que ponto esses mecanismos explicam fenômenos observados em larga escala.
Nesse sentido, a antiga controvérsia entre Frazer e Malinowski permanece extraordinariamente atual. A etnografia continua sendo insubstituível para compreender como o PCC funciona. Mas compreender o funcionamento de uma organização criminosa não equivale, automaticamente, a demonstrar que ela explica a dinâmica nacional dos homicídios. A primeira conclusão decorre da observação direta; a segunda exige comparação sistemática, desenhos causais robustos e análise quantitativa em grande escala.
Talvez a principal lição epistemológica seja justamente esta: nas ciências sociais, a qualidade de uma explicação depende menos do prestígio da teoria do que da adequação do método à pergunta formulada. Estudos etnográficos e estudos quantitativos não são concorrentes, mas complementares. A etnografia identifica mecanismos; a estatística estima sua magnitude; e somente a convergência entre diferentes métodos permite afirmar, com elevado grau de confiança, que determinado fator explica um fenômeno tão complexo quanto a evolução dos homicídios em um país continental como o Brasil. A antropologia contemporânea parece caminhar exatamente nessa direção: preservar a riqueza interpretativa do trabalho de campo sem abrir mão dos critérios de validação que hoje orientam as melhores pesquisas empíricas nas ciências sociais.
Referências
Frazer, James George. The Golden Bough: A Study in Magic and Religion. London: Macmillan, 1890; 3ª ed., 1906–1915. Obra central da antropologia comparativa evolucionista, posteriormente criticada como exemplo de “antropologia de gabinete”.
Malinowski, Bronisław. Argonauts of the Western Pacific. London: Routledge, 1922. Marco da etnografia moderna e da defesa do trabalho de campo intensivo.
Feltran, Gabriel de Santis. “Crime e castigo na cidade: os repertórios da justiça e a questão do homicídio nas periferias de São Paulo.” Caderno CRH, v. 23, n. 58, 2010. Analisa os “tribunais do crime” nas periferias paulistas.
Dias, Camila Caldeira Nunes. PCC: hegemonia nas prisões e monopólio da violência. São Paulo: Saraiva, 2013. Referência sobre expansão prisional do PCC e controle da violência.
Biderman, Ciro; De Mello, João M. P.; Lima, Renato Sérgio de; Schneider, Alexandre. “Pax Monopolista and Crime: The Case of the Emergence of the Primeiro Comando da Capital in São Paulo.” CAF Working Paper, 2014/2019. Encontra evidências de redução de violência associada à entrada do PCC em favelas da cidade de São Paulo.
Justus, Marcelo; Cerqueira, Daniel; Kahn, Tulio; Moreira, Gustavo. “The São Paulo Mystery: The role of the criminal organization PCC in reducing homicide in the 2000s.” EconomiA, 2018. Testa quantitativamente a hipótese PCC e encontra resultados mais cautelosos.
Alvarenga, Bruno Freitas. “PCC ou políticas públicas? Uma análise da redução dos homicídios em São Paulo.” Cadernos Gestão Pública e Cidadania, 2024. Reavalia criticamente a hipótese PCC como explicação principal da queda.
Kahn, Tulio. “Observações sobre Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025.” Manuscrito, 2025. O texto destaca que a queda dos homicídios desde 2017 é praticamente nacional e ocorre também em municípios sem presença relevante de crime organizado, sugerindo fragilidade das explicações centradas exclusivamente em facções.
