quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A gangorra dos roubos de veículos e tráfico de drogas



Trabalhando há muitos anos com dados criminais, notei que parece existir uma espécie de relação inversa, ainda que tênue, entre os registros de tráfico de droga e de roubo de veículos: em outras palavras, quando as ocorrências de tráfico sobem as de roubo de veículos caem, e vice-versa. Este achado empírico é  confirmado em parte quando averiguamos as estatísticas recentes de São Paulo e Rio de Janeiro. (Pegando os últimos 28 meses, a relação em São Paulo é de R =-.67 e do Rio de R= -.58)

A questão é como interpretar este resultado: o que existe por traz desta relação invertida? Vejamos em primeiro lugar o que significam na prática estes registros. O roubo de veículos não guarda grandes ambiguidades. Trata-se na maioria esmagadora dos casos de uma vítima, que pessoalmente ou através da internet, comunica o roubo à polícia, por diversos motivos: ressarcimento do seguro, tentativa de recuperar o bem, evitar que o mau uso do veículo traga consequências legais e financeiras, etc. Existe uma pequena parcela de fraudes contra seguradoras neste meio e alguma subnotificação, mas de modo geral, o roubo de veículos é considerado um dos indicadores criminais mais robustos, com taxas de notificação em torno de 97%. Temos aqui (no mínimo) um autor, uma vítima, um bem subtraído, um caso típico de crime patrimonial. Existem os casos que os americanos chamam de “joy riding”, em que o carro é roubado apenas por diversão e depois abandonado, mas a motivação mais frequente é sem dúvida patrimonial. Os carros mais antigos ou populares para desmanche de peças e os mais modernos e potentes para uso em outras atividades criminais.

Os registros de tráfico de droga ou de apreensão de droga no caso carioca, são mais complexos de interpretar. Não existe aqui uma vítima específica, exceto se pensarmos na sociedade como um todo. Tanto o traficante quanto o consumidor estão em conluio para não serem detectados. Ninguém vai à delegacia para registrar uma queixa de tráfico de drogas. Existem sim denúncias de terceiros: quase metade dos registros recebidos pelos serviços de Disque Denúncia anônimos diz respeito ao tráfico. São vizinhos incomodados, concorrentes, alguém que quer que a polícia vá ao local por variados motivos, etc. Mas em que pesem as denúncias, na maioria das vezes o registro de tráfico e apreensão de drogas é o resultado de uma atividade policial. Assim, sabemos que estes registros são em pequena parte uma medida do fenômeno em si (no caso das denúncias) e em grande parte um indicador de produtividade da polícia. Aumentos e diminuições significam quase sempre que a polícia agiu ou deixou de agir e, eventualmente, aumento ou diminuição do consumo.

Certa vez na SSP me dei ao trabalho de georeferenciar os endereços das denúncias de tráfico recebidas pelo serviço de Disque Denúncia e comparar com os registros feitos pelas polícias. Como esperado, os mapas eram bastante diferentes, com as denúncias espalhadas pelas periferias e os registros oficiais dos B.O.s concentrados nas áreas centrais. Mais uma evidência de que estamos falando de dois fenômenos diferentes.

Não dá para medir automaticamente a quantidade de tráfico de drogas, o nível de consumo ou se o fenômeno está aumentando ou diminuindo apenas com base nos registros oficiais de tráfico ou apreensão de drogas. Para isto existem outras ferramentas, como as pesquisas de uso auto reportadas, tais como as realizadas esporadicamente pela Unifesp, que medem anonimamente a incidência e prevalência do uso de álcool e drogas entre estudantes, no último mês, último ano ou alguma vez na vida. Este é o motivo pelo qual hoje, muitos órgãos de segurança, colocam as estatísticas de drogas entre os indicadores de atividade policial e não mais entre os indicadores criminais.[1]

Agora que temos uma noção um pouco melhor do significado destes indicadores, como interpretar que exista uma relação inversa entre eles? Será que temos uma migração de criminosos entre estas modalidades criminais, de modo que quando um mercado está em baixa eles passam a se dedicar a outro? Ou é o cerco policial ao tráfico que força esta suposta “migração”?  Quem conhece o universo criminal sabe que a migração entre crimes, especialmente os que exigem alguma organização, não é tão simples como aparenta. Cada crime exige o conhecimento de locais apropriados, receptadores, lavadores de recursos, modus operandi, parceiros certos, etc. Não dá para simplesmente começar uma nova atividade a cada oscilação no “mercado”: o estelionatário não virá ladrão de banco, o latrocida não vira ladrão de carga e assim por diante. Obviamente que existem migrações e adaptações conhecidas na literatura criminal: quando um local fica ruim o criminoso parte para outro, quando uma forma de agir é detectada muda-se para outra, quando um alvo é reforçado busca-se uma alternativa. Mas tais mudanças não são tão fáceis e é por isso que uma política de segurança com foco consistente consegue efetivamente diminuir crimes e não apenas deslocá-los.

A polícia também adapta parcialmente sua atuação em função dos indicadores criminais. Ao notar o crescimento sistemático de uma modalidade criminal é possível alocar recursos para novas áreas e tipos de crime. Mas estas reorientações são lentas e raras enquanto as mudanças observadas aqui são de curto prazo e cíclicas. Novamente, quem trabalha com os órgãos de segurança sabe o quanto é difícil modificar comportamentos, táticas e orientações costumeiras. Tanto crime quanto policiamento são “atividades de rotina”. Provavelmente, estes ciclos invertidos entre roubo de veículos e tráfico não se devem nem a migração criminal nem a realocação de efetivos e recursos policiais.

A resposta deve ser procurada em outro lugar. A interpretação mais provável é que ambos os fenômenos respondem a um mesmo fator subjacente, qual seja, o contexto econômico. Como sugerimos em diversas ocasiões, existem evidências robustas de que as variações nos roubos de veículos seguem de perto os ciclos econômicos: crescem nas recessões e caem nas fases de crescimento.

É bastante provável que os ciclos econômicos afetem também o consumo de drogas, mas com o sinal inverso: como qualquer outra mercadoria, o consumo de drogas diminuiria durante as crises econômicas e voltaria a crescer na recuperação. Isto explicaria a relação invertida entre roubo de veículos e tráfico de drogas, conforme o esquema.

No exemplo abaixo usamos uma pequena série histórica de 27 meses cobrindo o período de julho de 2014 a setembro de 2016. Como indicador de ciclo econômico pegamos o número de cheques sem fundo por milhão (Serasa), além do número apreensão de drogas e os registros de roubo de veículos divulgados mensalmente pela ISP para o Rio de Janeiro, onde o fenômeno é mais nítido.




 









** correlação significativa ao nível 0.01

Conforme aventado, o contexto econômico recessivo faz aumentar os roubos de veículos (.74) e diminuir as apreensões de drogas (-0.56), tomada aqui hipoteticamente como uma variável substituta do consumo em baixa. Assim, a explicação para relação inversa entre roubo de veículos e tráfico seria dada pelo fator comum subjacente (ciclo econômico), tendo pouca relação com migração criminal ou atuação policial. Quando calculamos o coeficiente de correlação parcial entre registos de roubo de veículos e apreensão de drogas, controlando por cheque sem fundos, a correlação cai de -.058 para -.30 e deixa de ser significativa, o que é uma evidência adicional de que o contexto econômico pode estar por traz da relação invertida entre roubo de veículos e drogas.

A conclusão é precária e para corroborá-la precisaríamos de séries históricas mais longas, incluir outros Estados, usar outros indicadores de ciclo econômico e principalmente encontrar uma boa medida de consumo de drogas, pois como discutido apreensão é contaminada pela atividade policial. Em todo caso, é interessante notar que as séries de roubo de veículos em São Paulo e Rio variem concomitantemente e que em ambos os Estados, com todas as suas diferenças, roubo de veículos e tráfico apareçam invertidos. Algo provoca isso. Como de costume, desconfio da economia.







[1] Todavia, se considerarmos, por hipótese, que a atuação policial é constante no tempo, então as variações no registro de tráfico refletiriam variações no consumo. Para isso precisaríamos de evidências de que a atuação policial com relação ao tráfico é aproximadamente constante no tempo.

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