quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Estagflação e criminalidade


Estagflação e criminalidade


Já mencionamos diversas vezes em outros artigos que a criminalidade patrimonial no Brasil responde cedo ou tarde aos ciclos econômicos: os criminosos frequentemente alternam entre o mercado de trabalho formal, informal e o mundo do crime, num processo decisório que leva em conta a cada momento o cenário macro. Quase sempre eles são os primeiros a sentir a crise e o desemprego, uma vez que ocupam lugares precários no mundo do trabalho e no Brasil as garantias trabalhistas – como seguro desemprego – são poucas e aplicáveis apenas aos que tem carteira assinada.
No gráfico abaixo vemos na linha horizontal a variação trimestral do roubo de veículos em São Paulo, com relação ao mesmo trimestre do ano anterior e nas linhas verticais o início dos ciclos de retração econômica, conforme datação sugerida pelo CODACE da FGV. Observe-se como o roubo de veículos acelera durantes os ciclos recessivos iniciados nos quartos trimestres de 1997 e 2002, primeiro trimestre de 2001 e principalmente terceiro de 2008, última retração econômica do país.
É curioso observar, portanto, que o roubo de veículo em São Paulo continue em queda neste início de 2015, apesar da desaceleração do PIB iniciada em 2014: já estamos no terceiro trimestre consecutivo de queda do PIB, de modo que podemos falar de uma tendência, ainda que o CODACE não tenha rotulado oficialmente esta fase como “recessão” mas os crimes patrimoniais continuam caindo no Rio e em São Paulo.





Em parte esta queda se explica pelo elevado patamar de roubo de veículos observado em 2014: como falamos de uma variação com relação ao período anterior, falamos de um número relativo, que é tanto maior quanto mais elevado o patamar anterior. Em outras palavras, cai muito agora porque subiu muito antes.
Mas trata-se de uma exceção, como mostram as séries históricas trimestrais de variação do PIB e variação criminal, de 1996 a 2015. Nos dois próximos gráficos constatamos a regra: PIB em baixa = crime em alta (gráfico de dispersão), associação que se mantem mesmo quando fazemos a correlação cruzada das séries diferenciadas em t-1. Neste último vemos que no Lag 0, ou seja, efeitos no próprio trimestre, a correlação é de .58 e negativa.  Novamente, quando o Pib cai o crime cresce e versa e vice.



Max Weber dizia que os sociólogos já têm bastante com o que se ocupar tratando do presente e que o futuro deveria ser deixado aos astrólogos. Mas os sociólogos tirados a criminometristas ousam desafiar a recomendação do mestre alemão, com base em suas equações e observação do passado...Quando deixamos as séries trimestrais e olhamos para as mensais no gráfico abaixo é possível ver a primeira desaceleração mais significativa na queda do roubo de veículos, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. Ainda em queda, mas numa velocidade menor, comparando julho de 2015 com julho de 2014.



É cedo para falarmos em tendência. A etiqueta estatística e o bom senso recomendam que se tenham dois ou três pontos consecutivos numa mesma direção para que se possa vaticinar com segurança. Mas sou capaz de apostar uma boa garrafa de vinho como a partir de agosto ou setembro veremos a confirmação desta inversão de tendência na queda dos crimes patrimoniais em São Paulo e Rio de Janeiro. É o que as quatro recessões anteriores sugerem. É um padrão. E não há porque ser diferente desta vez. Alguém aceita o desafio?

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