sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Brasil passa por ciclo de alta moderada da criminalidade

Em outra ocasião descrevemos os oito ciclos criminais no Estado de São Paulo, nos últimos anos. A intenção agora é descrever os ciclos “gerais” baseados na evolução criminal mensal de quatro estados brasileiros – São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, uma vez que são raras ainda as polícias que disponibilizam dados mensais.

Para isso precisamos inicialmente de um índice agregado de criminalidade. Para compor este Índice Geral acompanhamos mensalmente 17 variáveis criminais nestes estados, desde 2001, contemplando tanto homicídios dolosos quanto os principais crimes patrimoniais. Como a ideia é identificar ciclos de maior duração, transformamos os números absolutos em variações com relação aos últimos 12 meses, que foram somadas dentro de cada estado. Finalmente, o índice geral é extraído de uma variação médias das variações destes quatro sub-índices estaduais.

No período de 115 meses analisados discernimos 10 ciclos, sendo cinco de alta e cinco de baixa. Os ciclos duram de 8 a 17 meses e são assimétricos: na fase de alta a criminalidade tende a aumentar 16% enquanto na fase de baixa as quedas são mais acentuadas, em torno de 44%. (tomando as variações médias de Hubber, onde são expurgados os valores muito discrepantes).



Isto significa que nos últimos anos há uma tendência de queda da criminalidade nestes estados, pois embora tenham aproximadamente a mesma duração, as quedas são mais intensas do que as elevações.
A tabela abaixo sintetiza as principais características de cada ciclo, com datação, duração e variação média da criminalidade em cada um.




O último ciclo, de alta, começou por volta do segundo semestre de 2010 e ainda não terminou, apesar de já perdurar 12 meses. Note-se que, diferente dos demais, ele é antes uma desaceleração da queda do que um aumento da criminalidade, ao menos até este momento. São as quedas sistemáticas de criminalidade no Rio de Janeiro nos últimos dois anos que tem puxado o índice para baixo, pois em São Paulo e Rio Grande do Sul já notamos crescimento da criminalidade.

O gráfico abaixo, por sua vez, traz o índice geral no eixo horizontal e nas linhas verticais o turning point de cada um dos dez ciclos. Note-se como os picos têm sido menores e os fossos mais aprofundados, sugerindo queda da criminalidade no tempo.





O que faz com que a criminalidade varie ciclicamente? Como temos insistido e mostramos em artigo recente em Londres, o contexto econômico explica em boa parte estas variações, embora seja possível atenuar seus efeitos com uma política consistente de segurança. Tome-se por exemplo os cheques sem fundo divulgados mensalmente pelo Serasa como indicador do contexto econômico. O gráfico abaixo traz a variação no volume de cheques devolvidos com relação aos últimos 12 meses na horizontal e na vertical, novamente, os turning points dos nossos dez ciclos criminais. Alguma semelhança? (a correlação visual sugerida pelo gráfico é corroborada pelos coeficientes significativos de correlação cruzada entre as duas séries, diferenciadas em 1° ordem, nos lags -1, 0 e 1, mas não quero matar o leitor de tédio).




Em resumo, estamos vivenciando um ciclo de alta criminal moderada mas que ainda não terminou. Que intensidade terá e quando acabará dependem, entre outros fatores, da situação econômica e da qualidade das políticas de segurança adotadas.

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