quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Teoria da dependência ou teoria da incompetência?

Tulio Kahnsociólogo e colaborador do Espaço Democrático

Como bom comunista, Vladimir Ilyich Ulyanov, o Lenin, estava na Suíça quando escreveu O imperialismo, fase superior do Capitalismo, em 1916, em meio à Primeira Grande Guerra. Revelando a mais absoluta falta de consciência de classe, proletários de todo o mundo matavam-se mutuamente nas trincheiras europeias. E operários de elite dos países capitalistas adiantados, subornados com bons salários garantidos pelos superlucros auferidos das colônias e semicolônias, uniam-se às suas burguesias nacionais para explorar operários dos países atrasados. Para complicar ainda mais o cenário, a revolução socialista parecia mais provável na atrasada Rússia do que nos países capitalistas avançados, como Inglaterra e França, onde se deveria esperá-la.


O marxismo precisava, de algum modo, explicar esta nova e complexa realidade em que as classes não se comportavam do modo como deveriam se portar. O conceito de Imperialismo procurava dar uma explicação coerente para as guerras nacionais, para o aburguesamento da aristocracia operária e outros fenômenos não previstos originariamente.
O século 20 se iniciava e o capitalismo não entrara em crise. As empresas se expandiram dando origem a grandes monopólios, trustes e carteis. Lançando mão das estatísticas burguesas, Lenin mostra o fenômeno da concentração da produção nas mãos de poucas empresas, cada vez maiores. A mudança da quantidade gerava uma mudança de qualidade e o monopólio surgia inevitavelmente nesta fase superior do capitalismo, obedecendo a uma lei inexorável. O monopólio enterrava o capitalismo clássico da época da livre-concorrência, estabelecendo acordos de venda, partilhando os mercados, fixando a produção e estabelecendo preços.
Os bancos passavam pelo mesmo processo de concentração e assumiam um novo papel na economia, passando de meros intermediários a aceleradores dos processos de concentração de capital e constituição de monopólios. O entrelaçamento dos bancos com a indústria dava origem ao capital financeiro, que predomina sobre as demais formas de capital.
Mas nem tudo era negativo. Assim como Marx reconheceu o caráter revolucionário do capitalismo, Lenin enxerga nos trustes da fase imperialista uma forma superior de produção, que gera economias de escala e inovações tecnológicas. Em última análise, o monopólio promovia o progresso na socialização da produção, planificada por alguns poucos capitalistas.
De particular interesse para os latino-americanos é a explicação desenvolvida por Lenin sobre como o imperialismo cria uma rede internacional de dependências entre os países. Esta explicação inspirou posteriormente a criação da conhecida Teoria da Dependência, nos anos 1960, numa tentativa de compreender os entraves ao desenvolvimento dos países latino-americanos, pretensamente originados dessa situação de dependência. Curiosamente, a teoria atingiu seu auge de influência nos anos 1970, precisamente enquanto o Brasil crescia a taxas chinesas… Note que Lenin não fala que os países atrasados, colônias e semicolônias, tornam-se dependentes dos países mais avançados, mas fala de uma rede de dependências, pois os países desenvolvidos, neste mercado mundial criado pelo capitalismo, também dependem dos países atrasados para matérias-primas, mão de obra barata, mercado de consumo, envio dos excedentes de população e outras necessidades.
O capitalismo monopolista moderno, lembrava o camarada Lenin, não exporta apenas mercadorias, mas também precisa exportar capitais excedentes para os países atrasados. Nestes países, os lucros são maiores, pois os capitais são escassos e os salários, matérias-primas e fatores de produção são mais baixos.
Não se tratava necessariamente de uma exportação por vias violentas! Como descreve Lenin, “um bom número de Estados, desde a Espanha até os Balcãs, desde a Rússia até à Argentina, Brasil e China, apresentam-se, aberta ou veladamente, perante os grandes mercados de dinheiro, exigindo, por vezes com extraordinária insistência, a concessão de empréstimos” (p. 82). Isto criava relações especiais de transação econômica entre credores e devedores, relações especiais que corroíam as bases da livre-concorrência, criticava Lenin.
O mundo inteiro estava já partilhado entre as grandes potências – sejam elas velhas, como Inglaterra e França, potências capitalistas jovens, como Alemanha, Estados Unidos e Japão, ou países pré-capitalistas, como a Rússia de 1916 – e o capitalismo monopolista financeiro não fazia mais do que exacerbar esta partilha. As grandes potências tornavam-se, aos poucos, países rentistas e parasitários, que viviam às custas dos países atrasados, enredados por sua vez numa teia de dependências financeiras e diplomáticas. Assim, embora a rede de dependência envolva países avançados e atrasados, há uma relação de subordinação dos últimos, principalmente no caso das colônias, onde a subordinação tomava por vezes a forma de violência e perda de independência política.
O ano era 1916, um ano antes da Revolução Russa, e Lenin estava prestes a trocar “as armas da crítica pela crítica das armas”. Isto provavelmente explique a perigosa mistura de análise científica e exortação política existente no texto. A militância talvez tenha forçado o autor a adotar algumas falsas premissas e ofuscado sua visão do processo histórico. Entre elas as premissas de que a subalimentação das massas é uma pré-condição básica para o modo de produção capitalista. De que o capitalismo monopolista é incompatível com a esperança de paz entre os povos ou que o capital financeiro implica na perda de independência política dos povos submetidos a ele.
Lendo o livro um século depois, parece que o verde da vida superou o cinza da teoria leninista e que o social-chauvinista Kautsky tinha lá seus lampejos de razão. O capitalismo não precisa de massas esfomeadas, que produzem pouco e não consomem. Tampouco precisa da guerra entre os povos ou da subordinação política das colônias. Estes foram antes ciclos históricos do que necessidades intrínsecas ao modo de produção capitalista.
Apesar da concentração industrial e bancária, a concorrência continuou sendo a base do funcionamento do sistema. Sistema que gera riqueza crescente, de modo que não se trata de um jogo de soma zero onde o enriquecimento de um pais ou camada social se faz às expensas de outro país ou camada social. Existe “extração do excedente”, mas ele é grande o bastante para ser repartido e, de resto, não seria gerado sem o aporte de capital e tecnologia externos. Os países atrasados não estavam condenados eternamente ao atraso e a subordinação política, econômica e diplomática e de fato neste século as taxas de crescimento econômico e social em muitos deles foram superiores às dos países adiantados.
Talvez a culpa pelo subdesenvolvimento latino-americano não se deva tanto aos obstáculos externos, como as esquerdas imaginavam nos anos 1960 e 1970 e deva ser buscada também nas opções políticas e econômicas desastrosas tomadas pelas elites nacionais, inclusive as operárias. Embora sejamos todos “dependentes” de tecnologia e capitais e passando pela mesma conjuntura internacional, a taxa de crescimento do PIB em 2017 é de 3,7% na Bolívia, 2,8% no Uruguai, 2,7% na Argentina, 2,4% no Peru, enquanto no Brasil a expectativa gira em torno de 0,3% e na Venezuela ao redor de -18%. Talvez uma “teoria da incompetência” explique melhor nossas mazelas do que o imperialismo. O imperialismo é um tigre de papel. Somos nós mesmos os maiores culpados pelo nosso subdesenvolvimento e jogar a culpa no “imperialismo” e na “exploração dos países desenvolvidos” é uma forma de escamotear esta incompetência.
O imperialismo, fase superior do Capitalismo foi um dos livros relacionados na bibliografia do artigo A visão dependentista, do economista Luiz Alberto Machado.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Falaram a verdade pra mim sobre o desarmamento


Reunião de artigos e pesquisas sobre armas de fogo no Brasil, escritos de 1999 pra cá.
Link para o livro na Amazon:




https://www.amazon.com/Falaram-verdade-sobre-desarmamento-Portuguese-ebook/dp/B0767Z92QN/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1507548829&sr=8-1&keywords=tulio+kahn

Prefácio


O título deste livro faz uma alusão óbvia ao livro “Mentiram para mim sobre o desarmamento”, livro de Benedito Barbosa Junior (Vide Ed, 2015), com quem dialogo democraticamente sobre a questão das armas de fogo desde os anos 90. Nosso último encontro foi em setembro de 2015, no Espaço Democrático, fundação na qual sou conselheiro e onde mais uma vez o Estatuto do Desarmamento e seus efeitos foram discutidos de forma cavalheiresca e respeitosa, como deve ser. A íntegra do encontro pode ser lida aqui: http://espacodemocratico.org.br/a-sociedade-armada-e-mais-segura/

Graças ao big data e ao algoritmo de recomendações, quem entrar no site da Amazon para procurar por seu livro, verá que os leitores que o compraram também compraram os livros: “Pare de acreditar no governo”, “Não, Sr. Comuna”, “Como ser um conservador”, “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, “Maquiavel pedagogo”, “O jardim das aflições”, “As ideias conservadoras”, “A nova era e a revolução cultural” e “Ponerologia – psicopatas no poder”. Todos eles, como sugerem os títulos, tratam do pensamento conservador e são claramente contra as esquerdas e o pensamento de esquerda.

Existem várias outras evidências desta associação espúria entre defesa das armas e pensamento conservador. O livro tem uma fanpage no Facebook, de onde extrai 2184 comentários de posts publicados entre maio e outubro de 2017. A preocupação com a segurança pessoal e pública estava presente, é claro, mas em nada menos que 265 vezes encontramos a presença nos comentários de termos como: ESQUERDA, COMUNISTA, SOCIALISTA, LULA, VENEZUELA, ESQUERDISTA, COMUNISTAS, MST, COMUNISMO, DILMA, ESQUERDISTAS, MARXISTA, BOLIVARIANA, ESQUERDOPATAS, MORTADELA                S, SOCIALISTAS, CENTRO-ESQUERDA, CHAVEZ, VERMELHOS, FREIXO, FHC e outros do mesmo teor. Sem incluir ai as dezenas de mensagens favoráveis a Bolsonaro e outras lideranças e ideias conservadoras. O que fazem estas expressões num debate sobre desarmamento? Alguém acredita seriamente que há um complô comunista em andamento e que o desarmamento civil é uma estratégia para que o golpe não encontre resistência da população?

Eu, que politicamente considero-me um centrista radical e que filosoficamente advogo pela separação entre ciência e política, fico sempre me perguntando por que raios a questão do desarmamento – que em boa parte envolve um debate técnico sobre seus efeitos individuais e coletivos – foi polarizada desta forma: defensores do desarmamento seriam invariavelmente “de esquerda”, tiranos que conspiram contra o direito de defesa para chegar ao poder. A própria ideia do título, “mentiram para mim”, passa uma ideia de conspiração. Mentir é ato planejado, com objetivos claros. E, além disso, envolve a questão de saber “quem mentiu”? Quem são “eles”? O governo? A ONU? Os institutos de pesquisa? Os Russos? A CIA?
Esta associação entre liberação das armas e pensamento conservador e restrição às armas e pensamento de esquerda se explica por algumas razões: basicamente, ela foi importada para o Brasil do debate norte americano e das divergências entre Republicamos e Democratas na forma de tratar a questão. Encontramos ecos nítidos deste debate na campanha do referendo de 2005, onde os defensores da liberação das armas lançaram mão dos mesmos argumentos utilizados nos Estados Unidos pela NRA (National Rifle Association) e pelos grupos conversadores para combater a regulação das armas de fogo, embora não tenhamos aqui nada parecido com a Segunda Emenda: tratar-se-ia de um direito individual inalienável, de uma interferência indevida do Estado, da defesa contra a tirania, etc. Acrescente-se a isso o fato do Estatuto do Desarmamento ter sido aprovado, por acaso, no primeiro ano da gestão Lula. E adicionalmente o fato das entidades de defesa dos direitos humanos terem se engajado neste debate em favor do controle das armas de fogo. Em conjunto, este contexto ajuda a entender porque o debate sobre as armas fugiu das mãos dos especialistas e das questões técnicas e metodológicas e extrapolou para o debate político, onde raramente prevalecem os argumentos científicos e racionais.

Apesar do título do livro, não pretendo argumentar que o que apresento seja “a verdade” e os argumentos e evidências contrárias sejam todas “mentirosas”. Diferente da política, verdade em ciência é sempre probabilística e provisória, baseada nas melhores evidências disponíveis. Os esforços dos acadêmicos convergem para o falseamento das próprias hipóteses e para discussões sobre validade e confiabilidade dos dados enquanto a lógica do pensamento  político busca apenas argumentos e evidências que suportem suas hipóteses. Na esfera política o que interessa é vencer o debate e não estabelecer a veracidade dos fatos. Esta é a grande diferença entre o debate na academia e na política e um dos motivos pelos quais não existe um verdadeiro diálogo entre armamentistas e desarmamentistas.

Meu ponto aqui é que a discussão deve ser feita em outras bases, levando em consideração argumentos factuais sobre o impacto das armas de fogo na segurança pública e não argumentos político ideológicos. Não existe nenhum complô comunista para tomar o poder à força. O que existe são 60 mil mortos por ano no país, a maioria com uso das armas. É ai que o debate deve se concentrar, baseado em evidências empíricas e não numa cruzada anticomunista ou contra a tirania, que explora medos imaginários.

Os artigos aqui apresentados procuram analisar a questão das armas numa perspectiva técnica ou a mais técnica possível, uma vez que neutralidade axiológica é sempre um ideal a ser buscado, embora fique claro meu posicionamento e militância em favor das restrições às armas de fogo.  Não se trata de uma questão de direita ou de esquerda, mas de saber o que é melhor, do ponto de vista da sociedade como um todo, para a segurança pública.

Os textos são apresentados em ordem cronológica, cobrindo o período de 1999 a 2017 e mostram alguma evolução no tratamento e entendimento do tema. O material é variado, incluindo artigos de jornal, entrevistas, trechos de pesquisas acadêmicas, posts de blogs e outros. Acredito que no conjunto dão uma boa visão de como tem ocorrido o debate sobre as armas nas últimas duas décadas no Brasil e apresentam dados que em sua maioria corroboram sistematicamente o impacto da regulação das armas na diminuição dos homicídios e os efeitos positivos trazidos pelo Estatuto. É apenas neste sentido que o livro pode ser considerado uma resposta ao “Mentiram pra mim sobre o desarmamento”. Uma resposta significa que alguém do outro lado está ouvindo, o que nem sempre é o caso. Se as evidências apresentadas conseguirem convencer alguns da importância de restringir a quantidade de armas em circulação para a segurança, já terá valido o esforço.

São Paulo, outubro de 2017

Arquivo do blog

Follow by Email

Seguidores