quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O custo de viver entre operações policiais


Por Túlio Kahn

Quando começa um tiroteio, o prejuízo não se resume ao que aparece no balanço policial. O comerciante pode baixar as portas, a criança perder a aula, o paciente faltar à consulta e o trabalhador deixar de receber pelo dia. Quando os episódios se repetem, a interrupção deixa de ser excepcional e passa a organizar a vida. Sair de casa, manter um negócio ou levar o filho à escola tornam-se decisões condicionadas pela possibilidade do próximo confronto.

Uma análise dos registros do Instituto Fogo Cruzado em Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Belém e São Gonçalo ajuda a dimensionar essa recorrência. Foram examinados 7.883 registros de violência armada de 2024 e 2025, dos quais 2.671 tinham ação policial assinalada. As cidades foram selecionadas por população, entre os municípios monitorados. Os dados não abrangem todas as operações policiais, pois ações sem disparos ficam fora desse universo. Tampouco permitem afirmar que cada registro corresponda a uma operação independente ou a uma troca de tiros entre policiais e criminosos.

O cruzamento das coordenadas com os limites de favelas e comunidades urbanas do IBGE encontrou 60,2% dos episódios com ação policial dentro dessas áreas em Salvador e 61% em Belém. No Rio, a proporção foi de 34,1%, mas outros 26,3% estavam fora dos polígonos e a até cem metros de suas bordas. Esses pontos próximos não podem ser automaticamente classificados como internos, mas mostram como a delimitação cartográfica interfere no diagnóstico.

Recife apresentou somente 58 episódios com ação policial no período, número que recomenda cautela nas comparações. Em São Gonçalo, apenas 5,9% coincidiram com os polígonos oficiais. Esse resultado exige revisão das coordenadas e dos limites territoriais antes de concluir que episódios em comunidades sejam raros. O estudo não calculou taxas por moradores nem comparou a exposição de pobres e ricos. Portanto, não estima, por si só, o grau de desproporcionalidade social das operações.

A repetição no tempo, entretanto, aparece com clareza em alguns territórios. Em Beiru/Tancredo Neves, em Salvador, foram encontrados 42 episódios distribuídos por 20 dos 24 meses analisados. Valéria e Nordeste de Amaralina tiveram registros em 16 meses. No Rio, a unidade identificada pelo IBGE como Chico Mendes, no Morro do Chapadão, apresentou episódios em 13 meses. Em Belém, Baixadas da Estrada Nova Jurunas teve nove registros em nove meses distintos.

Não se trata apenas de contar mais ou menos tiros. Morro dos Macacos e Jacarezinho, no Rio, tiveram 15 episódios cada, mas distribuídos por nove e quatro meses, respectivamente. No Jacarezinho, 12 registros concentraram-se em um único mês. Uma crise aguda e uma exposição prolongada podem produzir o mesmo total, mas impõem experiências diferentes aos moradores e exigem respostas distintas do poder público.

Essa análise territorial não mediu diretamente perdas de renda, interrupções de serviços ou adoecimento. Outras pesquisas, porém, mostram que esses custos precisam entrar na avaliação da segurança pública.

Em artigo publicado na revista Civitas, Ignacio Cano e colaboradores examinaram os impactos econômicos das ações policiais em áreas dos complexos da Penha e de Manguinhos, no Rio. A pesquisa ouviu uma amostra representativa de 800 moradores e comerciantes e prestadores de serviços de duas favelas. Mais da metade dos moradores relatou ter ficado impedida de trabalhar ou utilizar transporte em algum momento do ano por causa das ações policiais. Aproximadamente um terço não conseguiu comparecer a uma consulta médica. Entre os estabelecimentos pesquisados, o prejuízo estimado correspondeu a 34% do faturamento. São resultados daqueles territórios, não percentuais que possam ser generalizados para todas as comunidades brasileiras. Ainda assim, revelam uma dimensão frequentemente ausente dos balanços operacionais.

Para quem depende da renda diária, a possibilidade de interromper o trabalho tem consequências imediatas. O aluguel continua vencendo, a mercadoria pode estragar e o fornecedor precisa ser pago. A capacidade de absorver essas perdas também é desigual. Uma interrupção semelhante pode representar um transtorno para uma família com reservas e uma ameaça à subsistência para outra. Quando a violência se instala em territórios socialmente vulneráveis, seus custos encontram moradores com menor proteção econômica.

Na educação, o dano pode ultrapassar o calendário de aulas suspensas. Um estudo de Cano, Tiago Bartholo, Mariane Koslinski e colaboradoras, publicado na revista Dados, encontrou perdas de aprendizagem em português e matemática entre alunos do quinto ano expostos a tiroteios decorrentes de operações policiais. A pesquisa utilizou diferentes modelos e comparações entre escolas; os efeitos não foram estatisticamente significativos para o nono ano. Essa diferença importa, mas não reduz a gravidade do resultado: a exposição à violência pode comprometer o aprendizado, além de interromper a presença física na escola.

Na saúde, os efeitos também vão além dos ferimentos. A pesquisa Saúde na linha de tiro, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, documentou sintomas como falta de sono, tremores, falta de ar e aceleração dos batimentos entre moradores expostos a tiroteios. O medo recorrente merece ser tratado como parte do problema de saúde pública, e não como um efeito secundário inevitável.

Reconhecer esses danos não significa minimizar o domínio territorial de facções e milícias. A coerção exercida por grupos armados também restringe direitos, ameaça moradores e prejudica a prestação de serviços. O relatório Educação sob cerco, produzido pelo UNICEF e instituições parceiras, examina justamente a exposição das escolas ao controle territorial armado e à violência, incluindo tiroteios com e sem ação policial. A população precisa ser protegida das organizações criminosas e dos riscos produzidos durante seu enfrentamento.

O problema está em transformar a incursão armada recorrente no eixo quase exclusivo da resposta. A volta frequente ao mesmo território deve provocar uma pergunta: o que mudou de maneira duradoura depois da operação anterior? A repetição, isoladamente, não prova fracasso — pode refletir a persistência da ameaça ou diferentes objetivos policiais. Mas tampouco comprova controle territorial ou melhoria da segurança. O número de operações realizadas é uma medida de atividade; não é, por si só, uma medida de resultado.

Uma estratégia mais consistente precisa ampliar o peso da inteligência e da investigação. Isso inclui identificar redes financeiras, fornecedores de armas, responsáveis por extorsões e conexões entre organizações criminosas e agentes públicos. O objetivo deve ser reduzir a capacidade de comando, financiamento e reposição dos grupos, com ações orientadas por alvos e objetivos verificáveis. Quando o emprego da força for necessário, o planejamento deve incorporar a proteção de moradores e policiais, a redução de riscos para escolas e unidades de saúde e a apuração das mortes e dos danos produzidos.

A prevenção também precisa integrar essa estratégia. Permanência escolar, proteção de jovens ameaçados, atendimento a vítimas e funcionamento regular dos serviços públicos são componentes de uma presença estatal capaz de disputar o território sem depender apenas de incursões. Ações sociais não substituem a investigação criminal; investigação e força policial, por sua vez, não substituem educação, saúde e oportunidades.

Avaliar a segurança pública exige acompanhar o que acontece depois que as equipes deixam o local. Houve redução dos tiroteios e das extorsões? Os moradores passaram a circular com mais liberdade? As escolas e os serviços de saúde funcionaram com maior regularidade? A capacidade de atuação do grupo armado diminuiu? Esses resultados precisam ocupar posição central, ao lado das prisões e apreensões.

Quem vive em uma comunidade dominada por criminosos tem direito à proteção do Estado. Tem também direito a que essa proteção preserve sua vida, sua renda e o futuro de seus filhos. Enfrentar o poder das facções exige firmeza, mas também continuidade, inteligência e prevenção. A recuperação de um território deve ser medida pela liberdade e pela segurança de quem mora nele.

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