Um mapa de hotspots responde onde as ocorrências se concentram em determinado período. Ele não responde, sozinho, se as mesmas áreas continuam críticas no período seguinte. Essa diferença é decisiva para a gestão pública.

Este estudo pergunta se a criminalidade registrada nos municípios paulistas permanece nas mesmas células territoriais de um ano para o outro ou se apresenta maior deslocamento. A análise compara 2024 e 2025, separadamente, para furtos, roubos, furtos de veículo, roubos de veículo e homicídios dolosos.

Resultado principal

Furtos apresentam a maior persistência média. Roubos permanecem parcialmente nos mesmos lugares, mas com renovação importante. Crimes de veículos mostram estabilidade menor, especialmente os roubos de veículo. Homicídios não sustentam uma comparação estadual estável nesta especificação.

O que foi comparado

Foram utilizados registros geocodificados da base consolidada do URBIK para os 72 municípios carregados na extração: 495.484 registros em 2024 e 483.645 em 2025. A comparação foi feita apenas quando o município possuía pelo menos 30 registros geocodificados da natureza analisada em cada ano. Esse critério melhora a estabilidade sem eliminar os municípios da base.

Grupo criminalMunicípios elegíveisJaccard médioMedianaTop 10%: 2024 / 2025
Furto560,4980,50048,9% / 46,9%
Roubo280,3550,34836,6% / 35,8%
Furto de veículo290,2910,30034,1% / 33,6%
Roubo de veículo140,2050,18128,8% / 27,5%
Homicídio doloso1———

Como medir persistência

Os pontos foram organizados em uma grade regular com células de aproximadamente 500 metros, reduzindo o risco de que bairros administrativos de tamanhos diferentes contaminem a comparação. Em cada município, crime e ano, as células foram ordenadas pelo número de ocorrências. Hotspots foram definidos como os 10% mais carregados entre as células ocupadas, com pelo menos uma célula incluída em cada caso.

A persistência foi medida pelo índice de Jaccard: J = células hotspot presentes nos dois anos ÷ células hotspot presentes em pelo menos um dos anos. Zero significa nenhuma coincidência; um significa conjuntos exatamente iguais. O indicador mede estabilidade do conjunto de áreas mais carregadas, não causalidade.

Furtos são os mais persistentes

Entre as 56 combinações município–crime que atenderam ao critério mínimo para furtos, a similaridade média foi 0,498, com mediana de 0,500. Em média, as células mais carregadas concentraram 48,9% dos furtos de 2024 e 46,9% de 2025. São Paulo apresentou Jaccard de 0,742, acima da média observada.

Roubos permanecem, mas se renovam mais

Para roubos, foram identificadas 28 combinações elegíveis. A similaridade média foi 0,355, com mediana de 0,348. As células mais carregadas concentraram, em média, 36,6% dos roubos de 2024 e 35,8% de 2025. Em São Paulo, o Jaccard foi 0,602. A melhor descrição é uma estrutura parcialmente persistente, sujeita a renovação.

Crimes de veículos mostram maior mobilidade territorial

Os furtos de veículo apresentaram similaridade média de 0,291; nos roubos de veículo, o índice caiu para 0,205. São Paulo teve Jaccard de 0,555 para furtos de veículo e 0,281 para roubos de veículo. A diferença entre naturezas no mesmo município reforça que não existe uma única geografia dos crimes de veículos.

A persistência não é uma propriedade fixa do crime

GrupoHotspots nos 5%Hotspots nos 10%Hotspots nos 20%
Furto0,5600,4980,491
Roubo0,3740,3550,334
Furto de veículo0,3770,2910,286
Roubo de veículo0,2130,2050,210

A ordem é estável: furto é o grupo mais persistente; roubo ocupa posição intermediária; crimes de veículos apresentam menor estabilidade territorial. O nível do índice muda conforme a escala escolhida e deve ser lido junto com a regra de construção do hotspot.

O que isso muda para a gestão

Para furtos, a repetição parcial dos hotspots favorece intervenções territoriais de médio prazo, como diagnóstico de locais, melhoria do ambiente urbano, iluminação, ordenamento de áreas comerciais e proteção de equipamentos. Para roubos, a política precisa manter uma base de atuação nos pontos persistentes, mas reservar capacidade para identificar renovação territorial.

Para crimes de veículos, é importante observar estacionamentos, corredores viários, acessos e áreas de transferência. Em todos os casos, a continuidade de uma área no ranking não prova que uma intervenção falhou ou que o local produz o crime por si mesmo: o mapa indica onde aprofundar a investigação.

Persistência territorial é uma propriedade parcial e específica. O mesmo município pode apresentar hotspots estáveis para furto e instáveis para roubo de veículo.

Conclusão

Os resultados mostram que a criminalidade não é inteiramente transitória nem permanentemente fixa. Há uma base territorial mais estável nos furtos, renovação maior nos roubos e mobilidade ainda mais acentuada nos crimes de veículos. O município ganha precisão quando acompanha cada natureza criminal em sua própria escala e trajetória.

Fontes e referências

BRAGA, A. A.; PAPACHRISTOS, A. V.; HUREAU, D. M. The effects of hot spots policing on crime: an updated systematic review and meta-analysis. Justice Quarterly, 2014.
WEISBURD, D. et al. Trajectories of crime at places: a longitudinal study of street segments in the city of Seattle. Criminology, 2004.
LAW, J.; QUICK, M.; CHAN, P. Bayesian spatio-temporal modeling for analysing local patterns of crime over time at the small-area level. Journal of Quantitative Criminology, 2014.

1 Limitações. A análise cobre apenas os municípios e períodos disponíveis, depende da qualidade da geocodificação e usa registros policiais, sujeitos a notificação, classificação e práticas de registro. A grade de 500 metros é uma convenção analítica. O critério de 30 registros melhora a estabilidade, mas não elimina a incerteza. O índice de Jaccard mede coincidência de células, não deslocamento causal, e dois anos não distinguem mudanças permanentes de oscilações temporárias. Homicídios exigem séries mais longas e modelos específicos.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK; registros criminais da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, estatísticas de 2024 e 2025.