Conhecimento URBIK · Estudo 12
Uma análise em grade regular mostra que a concentração territorial existe, mas varia substancialmente entre furtos, roubos, crimes de veículo e homicídios.
Quando se afirma que uma cidade tem muitos crimes, ainda falta responder a uma pergunta essencial para a gestão: esses crimes estão espalhados por todo o município ou se concentram em poucos lugares?
A literatura de criminologia ambiental encontrou repetidamente que uma parcela pequena dos lugares responde por uma parcela grande dos crimes. Essa regularidade está na base da criminologia do lugar e das estratégias de prevenção orientadas por pontos críticos. Mas a concentração não deve ser tratada como uma constante universal. Ela depende da natureza criminal, da escala espacial, do período observado e do volume de registros.
Este estudo examina essa questão nos dados paulistas. A pergunta não é apenas onde há mais ocorrências, mas qual parcela do espaço ativo é necessária para reunir 25%, 50% e 75% dos registros.
O crime se concentra em poucos lugares, mas não existe uma única geografia da concentração. Furtos são os mais concentrados; homicídios dolosos, os menos concentrados na grade analisada. Roubo e crimes de veículo ocupam posições intermediárias.
Como fizemos a comparação
A análise utiliza registros geocodificados de 2024 e 2025, dois anos completos escolhidos para produzir uma fotografia espacial mais estável. O ano de 2026 não foi incluído porque ainda estava incompleto no momento da extração.
Em vez de usar bairros ou divisões administrativas, os pontos foram atribuídos a uma grade regular de células quadradas de 1 km. A transformação para um sistema métrico permite comparar municípios com unidades espaciais constantes, reduzindo o risco de confundir diferenças administrativas com diferenças reais de concentração.
Foram analisadas separadamente cinco categorias: furto, roubo, furto de veículo, roubo de veículo e homicídio doloso. Em cada município, as células com ocorrências foram ordenadas da maior para a menor quantidade. Calculou-se então quantas células eram necessárias para alcançar 25%, 50% e 75% do volume municipal.
Os municípios foram preservados na base descritiva mesmo quando apresentavam poucos registros. Para as comparações estáveis, foram usados limiares analíticos de 100 ocorrências para furto e roubo, 50 para crimes de veículo e 20 para homicídio. Esses limiares não transformam registros baixos em zeros nem excluem municípios da base; apenas evitam que as medianas comparativas sejam dominadas por pequenas contagens.
O denominador principal é o conjunto de células ativas, isto é, aquelas que registraram pelo menos uma ocorrência. Células vazias não foram usadas para medir dispersão, pois sua inclusão faria a medida refletir principalmente a extensão territorial do município.
Os resultados em uma visão geral
| Natureza | Municípios | Ocorrências | Base estável | 25% | 50% | 75% |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Furto | 72 | 492.457 | 52 | 3,9% | 9,7% | 25,5% |
| Roubo | 63 | 213.270 | 26 | 5,8% | 17,1% | 40,0% |
| Furto de veículo | 69 | 87.520 | 35 | 10,3% | 18,1% | 45,5% |
| Roubo de veículo | 54 | 25.777 | 19 | 15,5% | 21,1% | 60,0% |
| Homicídio doloso | 60 | 1.274 | 13 | 25,0% | 33,3% | 76,0% |
A tabela mostra a parcela mediana de células necessária para reunir cada fração das ocorrências entre os municípios da base estável. No caso dos furtos, metade dos registros aparece em aproximadamente 9,7% das células ativas. Para roubos, a proporção sobe para 17,1%. Nos crimes de veículo, fica em 18,1% para furto e 21,1% para roubo. Nos homicídios dolosos, chega a 33,3%.
Diferenças entre crimes
Furtos. Apresentaram o padrão mais concentrado. Em Amparo, metade dos furtos apareceu em cerca de 3,3% das células ativas; em Carapicuíba, a proporção ficou acima de 20%. A diferença mostra que municípios com volumes e estruturas urbanas distintas exigem estratégias territoriais diferentes.
Roubos. Também se concentram, mas em uma parcela maior do espaço. A mediana para reunir metade dos registros foi de 17,1% das células. A geografia pode refletir corredores viários, deslocamentos cotidianos, integração entre municípios e oportunidades distribuídas por áreas maiores.
Crimes de veículo. Furtos e roubos de veículo foram menos concentrados que furto e roubo em geral. O diagnóstico deve considerar estacionamentos, polos comerciais, áreas industriais, terminais e vias de entrada e saída, não apenas os hotspots de outros crimes patrimoniais.
Homicídios dolosos. Apresentaram a menor concentração relativa: 33,3% das células para alcançar metade das ocorrências na base estável. A baixa frequência torna o indicador mais sensível a eventos isolados. A leitura deve combinar vários anos, taxas populacionais e análise qualitativa.
Volume e concentração não são a mesma coisa
Um município pode ter muito crime distribuído por uma área ampla; outro pode ter menos ocorrências reunidas em poucos lugares. São Paulo registrou grande volume absoluto, mas precisou de aproximadamente 16,7% das células ativas para reunir metade dos roubos e 10,3% para reunir metade dos furtos.
O ranking de volume identifica onde há mais ocorrências. A medida de concentração identifica onde o problema pode ser territorialmente focalizado. Os dois indicadores devem ser apresentados juntos.
O que isso significa para a gestão
Não existe uma política territorial única para “o crime”. A prioridade deve ser construída por natureza criminal, volume, concentração, persistência e contexto.
Concentração paulista e literatura
Uma revisão recente encontrou mediana de aproximadamente 50% dos crimes concentrados em 4,5% dos segmentos de rua. Os resultados deste estudo são menos concentrados, especialmente para roubos e crimes de veículo, mas a comparação deve considerar que segmentos de rua e células de 1 km são unidades distintas.
A grade utilizada é mais ampla e foi escolhida para permitir comparação entre municípios. O resultado mais seguro é que a concentração permanece presente mesmo em uma unidade espacial comum, mas sua intensidade não é constante entre os crimes.
Conclusão
O crime se concentra em poucos lugares, mas não da mesma maneira em todos os municípios nem em todas as naturezas. Furtos apresentaram a concentração mais forte; roubos também revelaram concentração relevante; crimes de veículo foram mais dispersos; homicídios dolosos apresentaram a menor concentração aparente.
A distinção entre volume e concentração é o principal resultado. Para a gestão municipal, essa diferença muda o tipo de resposta possível.
Fontes e referências
WEISBURD, D. The Law of Crime Concentration and the Criminology of Place. Criminology, v. 53, p. 133–157, 2015. DOI.
WEISBURD, D. et al. Crime Concentrations at Micro Places: A Review of the Evidence. Journal of Quantitative Criminology, 2024.
BRAGA, A. A.; PAPACHRISTOS, A. V.; HUREAU, D. M. Hot spots policing of small geographic areas effects on crime. Campbell Systematic Reviews, 2019. DOI.
SÃO PAULO. Secretaria da Segurança Pública. Microdados estaduais de criminalidade, 2024–2025.
IBGE. População municipal e referências territoriais.
1 Limitações. A base contém apenas ocorrências com geocodificação disponível; ausência de registro geocodificado não equivale a ausência de crime. A grade de 1 km pode diluir padrões de rua. Os resultados representam crimes registrados, sujeitos a subnotificação e diferenças de registro. Os limiares são critérios de estabilidade analítica, não regras de exclusão. A análise é descritiva e não demonstra causalidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário