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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Não dá pra brincar de mocinho e bandido ao mesmo tempo.
Sim, todo mundo é inocente até que se prove o contrário. E todo mundo
tem direito a defesa. São princípios elementares do estado democrático de
direito e é com base nestas justificativas que advogados e defensores públicos
aceitam a defesa de pessoas, empresas e causas pouco populares. Suspeitos de
assassinato, corrupção, estupro, empresas poluidoras, industrias cancerígenas, etc.
podem e devem contar com a expertise profissional dos melhores do mercado e
defenderem-se de acusações, muitas vezes infundadas. O risco é deixar
criminosos escaparem de acusações verídicas, mas não comprovadas e inabilmente
conduzidas, mas é o preço que se paga pelas vantagens do Estado de Direito. Já
fui obrigado a me defender judicialmente de acusações infundadas e tive a
excelente ajuda de um ótimo criminalista! Faz parte das regras do jogo, embora
as pessoas comuns tenham alguma dificuldade em digerir a ideia de que “gente
ruim” acusada pela imprensa mereça ser defendida.
Desta dificuldade digestiva vem a celeuma em torno da indicação de
Alexandre de Moraes ao STF, por ter defendido no período em que advogou, o
ex-deputado Eduardo Cunha, Chalita ou uma empresa supostamente ligada ao PCC. É
curioso que esta lista de clientes famosos não foi impedimento ético para sua
indicação para a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo nem para o
Ministério da Justiça. Mesmo sabendo-se que como chefe do executivo, as
polícias civil e federal, sob seu comando formal, poderiam por ventura estar
conduzindo investigações sobre aqueles que até bem pouco tempo faziam parte da
lista de clientes do seu escritório de advocacia. Espera-se nestes casos
(talvez um tanto ingenuamente) que o titular da pasta mantenha estrita
neutralidade e não interfira na condução destas investigações, mesmo sabendo
que o cargo público é provisório e que talvez volte em breve ao mundo das
bancas privadas. Mas a bola foi levantada quando se tratou de indica-lo ao
Supremo.
O caso de Moraes está longe de ser exclusivo. Em todos os últimos
governos tivemos advogados criminalistas famosos indicados para secretarias de
segurança estaduais ou Ministério da Justiça. Por algum motivo pouco
compreensível, imagina-se que o conhecimento do Código Penal ou da Constituição
sejam critérios suficientes para gerir estruturas gigantescas que lidam com
tecnologias de ponta, orçamentos vultosos, contratação e formação de quadros, convênios
internacionais, uso eficiente de recursos públicos, compras e contratações, segredos
de estado, operações de policiamento e investigações complexas, políticas de
longo prazo, avaliação de experiências exitosas, etc. Em alguns estados a
condução da SSP é dada a Delegados da PF. Em outros a ex-membros das Forças
Armadas. Em São Paulo o cargo é quase sempre monopolizado pelos membros do
Ministério Público, monopólio quebrado vez por outra por algum jurista de
plantão. Isto explica em parte a situação da segurança pública no país.
Fazendo uma rápida listagem tivemos o advogado José Carlos Dias no
Ministério de FHC, cujo escritório defendeu Naji Nahas, Kátia Rabelo ou a Odebrecht, além de Miguel Reale Junior. No governo Lula
tivemos Marcio Thomas Bastos, defensor, entre outros, de Jose Roberto Salgado, Roger
Abdelmassih, Carlinhos Cachoeira, Edir Macedo, Wagner Canhedo e Ângelo Calmon
de Sá. E mais recentemente vimos a indicação no governo Temer do advogado
Antonio Claudio Mariz de Oliveira, defensor, entre outros, de Celso Pita, Paulo
Cesar Farias, Camargo Corrêa, Duda Mendonça, Paulo Maluf, etc.
Geralmente estes
advogados famosos se negam veemente, por "questões morais", a defender agressores
ou violadores de crianças, normalmente gente pobre. Os demais, pagando bem, que
mal tem? Afinal, pouco importa que os honorários milionários possam estar sendo
pagos com recursos de origem duvidosa. Todos têm direito a defesa, mas em
especial os que podem pagar muito! Mas, como dito, são as regras do mercado,
não há ilegalidade e nada impede que advogados de qualquer espécie aceitem os casos
que desejarem. São contratos privados e enquanto tais ninguém tem nada a ver
com isso. E os melhores profissionais, em qualquer área, custam caro.
O problema moral, me parece, surge com as indicações recorrentes destes
profissionais para chefes do executivo, nas secretarias estaduais ou
ministérios, para o exercício de funções públicas. Não é apenas a questão de
que bons juristas – acostumados com processos individuais, rotina de tribunais e
ao comando de no máximo duas secretárias, Dona Clotilde e Dona Mercedes - nem
sempre dão bons gestores públicos. Alguns tiveram surpreendentemente um bom
desempenho. Mas imaginem a saia justa quando as policias, sob seu controle
formal, devem investigar ex (e talvez futuros) clientes.
Não obstante a
“independência” das instituições, é no mínimo um constrangimento e uma tentação
que deveria ser evitada. Mariz se deu conta da obviedade e abdicou do convite,
mas nem sempre isto ocorre. Uma rápida passagem como Secretário ou Ministro dá
uma visibilidade enorme ao titular, status, informações privilegiadas e uma rede
de contatos que mesmo os mais renomados advogados criminalistas têm dificuldade
em resistir. Mesmo perdendo dinheiro – os salários do executivo são irrisórios
diante dos honorários recebidos no setor privado – em longo prazo trata-se de
um convite quase irrecusável.
É claro que diante da massa de contraventores que compõem a classe
política brasileira, é muito melhor ter nestes cargos importantes os advogados
do que seus clientes. Mas mesmo assim, esta promiscuidade entre a defesa
privada de suspeitos de corrupção e outros crimes e o exercício de cargos
públicos ou magistratura, para dizer o mínimo, pega mal. Deixemos os advogados
criminalistas nos tribunais, garantindo o direito de defesa (e que o Senhor nos
livre também dos sociólogos e cientistas políticos no poder). Quando
convocados, que tenham o bom senso de recusar. Uma nódoa de suspeição sempre
rodeará suas ações e intenções no governo. É melhor para a República evitá-las.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Link para a matéria da Globo News sobre roubo de celulares
http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/roubos-de-celulares-aumentam-63-no-rj-em-2017.ghtml
Roubos de celulares aumentam 63% no RJ em 2017
Dados foram informados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). Polícia Militar do Rio informouque faz regularmente operações para tentar evitar ações criminosas.
Por Globonews
Roubo de celulares dispara em vários estados brasileiros, aponta levantamento
O número de roubos de celulares no estado do Rio aumentou 63% em 2017 em relação ao ano anterior. Conforme mostrou a Globonews, os dados foram informados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP).
O especialista em segurança Tulio Kahn afirmou que a estimativa é perigosa, mas reproduz apenas metade da realidade. Ainda de acordo com ele, 50% dos casos de pequenos furtos não são registrados.
“A polícia tem o mapeamento dos locais[com incidência de crimes]. Esses casos que aparecem nas estatísticas oficias eles são metade porque a taxa de subnotificação de roubos em geral é de 50%. Além dos números serem absurdos, eles representam metade da realidade. Provavelmente, a estimativa real é muito maior que essa”, disse.
Uma moradora do Rio de Janeiro, em entrevista para a Globonews, afirmou nesta quarta-feira (15) que o marido foi assaltado enquanto trabalhava. “O meu marido me ligou a cobrar porque ele foi assaltado e levaram o celular dele. Ele pediu para ele não ligar para ele porque ele pegou o telefone do colega dele e ligou para avisar. Foi aqui em Queimados, ele é caminhoneiro e faz entrega em mercados. Ele estava parado esperando para descarregar no mercado e o cara foi lá e falou ‘passa o celular’”, disse uma moradora do Rio de Janeiro.
A Polícia Militar do Rio informou, através de uma nota, que faz regularmente operações no Centro da cidade para tentar evitar ações criminosas.
O especialista em segurança Tulio Kahn afirmou que a estimativa é perigosa, mas reproduz apenas metade da realidade. Ainda de acordo com ele, 50% dos casos de pequenos furtos não são registrados.
“A polícia tem o mapeamento dos locais[com incidência de crimes]. Esses casos que aparecem nas estatísticas oficias eles são metade porque a taxa de subnotificação de roubos em geral é de 50%. Além dos números serem absurdos, eles representam metade da realidade. Provavelmente, a estimativa real é muito maior que essa”, disse.
Uma moradora do Rio de Janeiro, em entrevista para a Globonews, afirmou nesta quarta-feira (15) que o marido foi assaltado enquanto trabalhava. “O meu marido me ligou a cobrar porque ele foi assaltado e levaram o celular dele. Ele pediu para ele não ligar para ele porque ele pegou o telefone do colega dele e ligou para avisar. Foi aqui em Queimados, ele é caminhoneiro e faz entrega em mercados. Ele estava parado esperando para descarregar no mercado e o cara foi lá e falou ‘passa o celular’”, disse uma moradora do Rio de Janeiro.
A Polícia Militar do Rio informou, através de uma nota, que faz regularmente operações no Centro da cidade para tentar evitar ações criminosas.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Tendências criminais nacionais: dados ruins, gestão ruim
Tendências criminais nacionais
Imagine como seria desenvolver políticas econômicas usando as taxas de
inflação de 2014. Pois é mais ou menos o que acontece na área da
segurança pública no Brasil. Embora o Governo Federal tenha dados mais
recentes, o site do SINESP disponibiliza para a sociedade informações sobre 6
naturezas criminais, desagregadas apenas em nível estadual, para o período 2011
a 2014. De lá para cá os crimes diminuíram ou aumentaram? Quanto? Onde? São
perguntas essenciais para avaliarmos as políticas de segurança adotadas pelos
governos e entendermos as mais recentes “crises da segurança”. A ausência de
dados básicos sobre criminalidade já é uma indicação dos problemas de gestão
que existem na área e porque as tais crises na segurança são recorrentes.
Existem dados mais atualizados? O Fórum Brasileiro de Segurança Pública,
que publica o Anuário Brasileiro de Segurança Pública a partir de dados
coletados junto à Senasp e as SSPs estaduais, publicou este ano em seu site
informações mais atualizadas, até 2015, para alguns indicadores criminais
selecionados. Mas ainda nada para o ano de 2016, muito embora diversas
Secretarias estaduais publiquem dados criminais mensais em seus sites.
A análise de tendências que apresentaremos aqui está baseada numa
amostra destes dados publicados pelas SSPs estaduais e traz informações
relativas a 2016. (que podem ser consultados neste blog: http://tuliokahn.blogspot.com.br/p/taxas-criminais-estados.html)
A intenção é acompanhar alguns indicadores principais e cujos conceitos são razoavelmente compartilhados entre os Estados: homicídios, roubos, furtos, latrocínios e estupros. Os dados desta amostra são sabidamente enviesados, pois os Estados mais ricos do Sudeste e Sul são também aqueles que mantem uma tradição na coleta, qualidade e divulgação de informações criminais, em contraste com os Estados do Nordeste e Norte, que quase nada disponibilizam. A quantidade de Estados que fornecem as estatísticas varia também de crime para crime. É problemático portanto comparar estes dados da amostra 2012/2016 com os dados absolutos divulgados pelo Ministério da Justiça até 2014 ou pelo FBSP para o período 2011 a 2015, que usam informações de todos os Estados.
A intenção é acompanhar alguns indicadores principais e cujos conceitos são razoavelmente compartilhados entre os Estados: homicídios, roubos, furtos, latrocínios e estupros. Os dados desta amostra são sabidamente enviesados, pois os Estados mais ricos do Sudeste e Sul são também aqueles que mantem uma tradição na coleta, qualidade e divulgação de informações criminais, em contraste com os Estados do Nordeste e Norte, que quase nada disponibilizam. A quantidade de Estados que fornecem as estatísticas varia também de crime para crime. É problemático portanto comparar estes dados da amostra 2012/2016 com os dados absolutos divulgados pelo Ministério da Justiça até 2014 ou pelo FBSP para o período 2011 a 2015, que usam informações de todos os Estados.
Não obstante as diferenças metodológicas, acreditamos que é possível
identificar algumas macrotendências recentes, que possibilitam por seu turno verificar
não apenas as tendências gerais como também, mais interessante, os Estados que
tem conseguido escapar destas forças. Exceções que são úteis aprofundar, afim
de identificar que fatores podem explicar porque foram melhor ou pior sucedidos
do que os demais no confronto da criminalidade.
O site do FBSP traz dados de roubo de veículos até 2015 e sugere
crescimento desta modalidade criminal no País. Note-se que o pico parece ter
ocorrido em 2014 caindo ligeiramente em 2015. Alguns Estados apenas escaparam
desta tendência de crescimento, merecendo destaque São Paulo e Amazonas. Por
sua vez, a amostra de 8 Estados, já com dados de 2016, mostra tendência de alta
dos roubos de veículos entre 2012 e 2016, sendo o Estado de São Paulo a exceção
entre os que disponibilizam informações sobre roubo de veículos. Ambos apontam
para o crescimento generalizado do roubo de veículos. Resta saber se já
atingimos o pico ou se continua subindo.
Para furto de veículos o site do FBSP traz informações apenas para o
período 2013 a 2015, cuja análise mostra o crescimento do fenômeno de 2013 para
2014 seguido de ligeira queda no ano seguinte. Note-se que a diminuição em São
Paulo em 2015 foi a maior responsável que desaceleração observada em nível
nacional, embora tenha havido quedas menores em 2015 também em AL, BA, DF, ES,
MT, RJ e RR. A amostra das taxas médias de furto de veículos para 7 estados que
disponibilizam a informação, por sua vez, sugere ter havido crescimento linear anual
durante o período 2012 a 2016. Observe-se, contudo, que GO e PR explicam boa
parte do crescimento em 2016 e que os demais Estados mostram comportamento
praticamente estável comparando os dois últimos anos. SP é o único dos 6 onde
registrou-se leve queda.
Infelizmente nem o site do FBSP nem o Sinesp trazem estatísticas
isoladas para roubos em geral no período analisado. Por outro lado, uma amostra
das taxas médias de 10 Estados que publicam estatísticas de roubo sugere
crescimento linear entre 2012 e 2016. Esta tendência parece estar em linha com
as demais observadas com relação aos crimes patrimoniais e é coerente com o
cenário de crise econômica nacional, que tende a acirrar a criminalidade
patrimonial. Todos os Estados, sem exceção, mostram um cenário de crescimento
dos roubos no período.
Também inexistem estatísticas isoladas de furtos em geral nos sites do
FBSP ou do Sinesp, de modo que é possível recorrer apenas a uma amostra de 9
Estados que publicam este indicador pela internet. Aqui não podemos falar de
tendência nacional. AM, RJ, SP e RS mostram estabilidade ou mesmo pequena queda
nos furtos, enquanto GO, MS, MT e PR indicam crescimento de furtos, de modo que
o padrão nacional é uma resultante de tendências distintas. De todo modo, é
preciso ser bastante cuidadoso ao falar de furtos pois o indicador é bastante
sujeito a flutuações devido à notificação.
Coerente com o observado nos roubos, os números absolutos trazidos pelo
site do FBSP apontam um crescimento dos casos de latrocínio no país entre 2011
e 2015. Os números absolutos pequenos dificultam a análise desagregada mas a
tendência parece ser generalizada. Observe-se, contudo, que tanto no RJ quanto
em SP e GO o pico ocorreu em 2014, seguido de leve queda no ano seguinte. Os
dados da amostra de 10 Estados, por sua vez, indicam crescimento linear dos
latrocínios entre 2012 e 2016. Em SP as taxas ficaram estáveis e no DF
apresentam queda, mas no restante da amostra a tendência foi de crescimento no
período.
Em contraste com os crimes patrimoniais, as lesões corporais dolosas
parecem estar em queda, pelo menos a nos fiarmos nas taxas divulgadas por 5
estados no período. A média da amostra passa de 532: 100 mil em 2012 para
396:100 mil em 2016. Infelizmente não existem dados sobre este indicador no
Sinesp ou no site do FBSP para permitir uma aferição. A queda das lesões
corporais pode explicar em parte a estabilidade nos homicídios em muitos
Estados, não obstante o agravamento do desemprego e da crise social.
Os Estados do AC, PI e SE não forneceram ao FBSP dados de homicídios
dolosos para 2014 e 2015. Contudo, se para efeitos de comparação estimarmos que
repetiram a tendência do último ano disponível, teríamos nacionalmente uma
elevação dos homicídios entre 2011 e 2014, seguidos de uma queda em 2015. Os
responsáveis pela queda dos homicídios em 2015 seriam AL, AP, BA, CE, DF, ES,
MG, MS, MT, PB, PR, RJ, RN, e SP. Trata-se, portanto de uma queda generalizada
entre os Estados e não de artifício estatístico provocado por algum caso
desviante. Aparentemente, 2014 teria sido o auge dos homicídios no período
analisado, coincidindo com o pico observado em alguns indicadores de crimes
patrimoniais.
Quanto aos dados amostrais que incluem informações sobre homicídios em 2016,
dezenove dos vinte sete Estados publicam estatísticas de homicídios ou CVLIs. É
digno de nota que os dados da amostra sugerem igualmente que 2014 tenha sido o
pico do histórico recente de homicídios, seguido de leves queda em 2015 e 2016.
Mais uma vez é preciso ser cuidadoso pois a tendência nacional é uma junção de
tendências opostas, com tendências estaduais de aumento e queda anulando-se
mutuamente. De todo modo, aparentemente não houve um aumento generalizado dos
homicídios após 2014, diferentemente do que sugere a sensação de segurança, com
as crises do sistema penitenciário e do Espirito Santo.
Finalmente, no que diz respeito aos estupros – também bastante sujeitos
a subnotificação – observamos um aumento entre 2011 e 2013, seguido de queda
nos números absolutos em 2014 e 2015, segundo os dados do FBSP. É preciso tomar
cuidado com os dados de MG, muito irregulares, mas na maioria dos Estados os
dados se conformam ao formato de sino sugerido. Para o ano de 2016, 7 das 27
Ufs divulgaram dados de estupro. Ao contrário dos dados absolutos, as taxas
médias sugerem uma queda acentuada dos estupros entre 2012 e 2015, seguido de
quase estabilidade em 2016. Diferente dos demais estados, GO e AM mostram
ligeiras tendências de crescimento.
Lembre-se que as diferenças entre os números do FBSP e as taxas da
amostra são várias: no primeiro caso trabalhamos com números absolutos de todos
os Estados, cobrindo o período 2011 a 2015 e na amostra com um número menor de
Estados, cobrindo taxas médias, do período 2012 a 2016. Isto explica em parte
porque as fontes podem mostrar tendências incongruentes.
O mais significativo é que, não obstante as diferenças de cobertura,
ambas as fontes mostrem tendências similares para a maioria dos crimes:
crescimento de quase todos os crimes patrimoniais, em particular roubos e
latrocínios, concomitantemente ao acirramento da crise econômica herdada. São
Paulo aparentemente tem se saído relativamente melhor do que os demais estados
durante a crise.
Por outro lado, vemos relativa estabilização dos homicídios após 2014 e
queda das lesões corporais dolosas e provavelmente dos estupros.
Assim, ao
contrário do que os episódios nas prisões e no Espírito Santo sugerem, não
estamos vivenciando um crescimento de todos os crimes em todos os lugares. Ha
crimes em queda e Estados melhorando em alguns indicadores. O próprio Espírito
Santo vinha mostrando melhoras nos roubos de veículos, homicídios e estupros. Mas
é difícil visualizar isso, entender o
fenômeno e colocar em prática políticas de segurança apropriadas, trabalhando com informações criminais parciais
e desatualizadas. Os economistas, os profissionais da área de saúde e educação
já perceberam isso há muito tempo. Os juristas geniais “gestores” da nossa
segurança, infelizmente, não.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Picasso não pichava
A nova
administração municipal de São Paulo deu início ao projeto Cidade Linda, que,
entre outras iniciativas, está repintando muros da cidade, onde antes existiam
pichações e grafites. Desde o início da gestão, 42 pichadores foram detidos e a
pedido do executivo, a câmara municipal prepara uma nova lei com multa de 5 mil
reais e ressarcimentos aos cofres públicos para aqueles condenados por
vandalismo e crime ambiental.
A iniciativa
tem causado bastante polêmica na imprensa e nas redes sociais pois a nova
gestão limpou não apenas “pichações” como também diversas obras de grafiteiros
renomados, que receberam incentivos da gestão anterior para realização de seus
trabalhos. A maior crítica é de que a prefeitura não fez a distinção entre
pichação, grafite e arte urbana: o consenso aparentemente é de que a primeira
deveria ser banida enquanto as demais, de caráter artístico, deveriam ser
incentivadas. Seguindo esta lógica, “Picasso não pichava”, por exemplo, era o
nome de um projeto da secretaria de segurança do Distrito Federal que buscava
transformar jovens pichadores em grafiteiros e artistas de rua, com o auxílio
do poder público.
“Consenso”
aparente, como dito, pois muita gente acha grafite lindo, desde que seja no
muro dos outros; acha lindo, mas que não deve ser incentivado e pago com
recurso público (Haddad gastou 1 milhão com os grafites da 23 de maio em 2014);
tem também quem não acha lindo e pensa que quem quiser ver arte que vá a um
museu, etc. etc. Além disso, quanto à suposta superioridade da pichação sobre o
grafite, há os que avaliam que boas frases e reflexões nos muros podem ser
tanto ou mais conscientizadoras e divertidas do que desenhos. Seria
interessante uma pesquisa para saber se a população diferencia as diferentes
formas de manifestações e seu apoio ou rejeição a elas.
Sem entrar no
mérito do que é ou não arte ou manifestação cultural dos jovens das periferias,
algo que é bastante subjetivo, o fato é que a teoria que embasa a relação entre
o ambiente e a criminalidade tem evidências bastante sólidas. A conhecida
teoria das Janelas Quebradas já corroborou através de inúmeras pesquisas o
efeito deletério da degradação física e social sobre a sensação de insegurança
da população, bem como sobre a atração sobre outros crimes e contravenções. Um
espaço degradado, visto como terra de ninguém, sujo, mal iluminado, pichado,
atrai a mendicância, prostituição, venda de drogas, furtadores e uma miríade de
pequenos contraventores e eventualmente aumenta a oportunidade para o
cometimento de crimes mais graves. Foi uma das estratégias inovadoras de
combate à criminalidade em Nova Iorque nos anos 90, retomando a cidade dos
contraventores, bloco a bloco, começando pelas deterioradas estações de metrô.
O Cidade
Linda, ao menos no que diz respeito à segurança pública, está baseado em teoria
convincente, lastreado em dados que o corroboram. Trata-se, aliás, de uma
versão do programa Belezura da administração Marta Suplicy e principalmente do
Cidade Limpa da gestão Kassab, que também focou na recuperação dos ambientes
urbanos e no combate às pequenas contravenções para melhorar a segurança da
cidade, através da Operação Delegada contra o comércio ambulante ilegal e da
proibição dos outdoors, regulamentando a propaganda na cidade. Trata-se de um
rol amplo de iniciativas de zeladoria, como iluminação, jardinagem, pintura,
consertos, poda de árvores, remoção de veículos abandonados, limpeza, combate
ao comércio ambulante ilegal, recuperação asfáltica, etc. – iniciativas que
foram relaxadas na gestão Haddad, percebida como leniente com relação à
degradação física da cidade, que culminou com uma praga de pernilongos na zona
Oeste. A intenção destas iniciativas contra a degradação é mostrar que o espaço
tem dono e é fiscalizado pelo poder público. É mais do que uma questão
estética, apenas de embelezamento da cidade, pois tem consequências sobre
segurança e outras esferas.
De modo geral,
faltou esclarecimento da prefeitura e diálogo com a sociedade a respeito do
tema e sobrou ideologia na avaliação da iniciativa da prefeitura. Sob fogo
pesado, até de seus eleitores, Dória já pensa em abrir novamente a Av. 23 de
maio para novos grafites e criar um Museu de Arte de Rua em São Paulo. É
preciso conciliar aqui diversos valores e o aspecto da segurança é apenas um
entre muitos outros a serem considerados. Encontrar uma solução equilibrada
entre o “qualquer coisa” em “qualquer lugar” de hoje e o grafitódromo, apenas
com projetos pré-aprovados. Particularmente sou fã dos grafites e prefiro uma
cidade um tanto mais rebelde, mesmo que tenhamos que pagar um preço por isso.
Trata-se como sempre de um equilíbrio delicado entre liberdade, libertinagem e
repressão. Se a prefeitura errar na dose, #a lata se vinga.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
Considerações sobre o novo Plano Nacional de Segurança Pública.
Em 1999
Fernando Henrique era o Presidente e José Gregory Ministro da Justiça, que
convidou para comandar a Senasp o ex-delegado geral paulista José Osvaldo
Vilhena Vieira. Que por sua vez, vinha a ser pai do Oscar Vilhena Vieira, com
quem trabalhava no Ilanud na ocasião.
Para ajudar na
formulação de algumas políticas para a Senasp, reunimos no Ilanud um grupo de
colegas do qual faziam parte originariamente, salvo algum esquecimento, eu,
Oscar, Guaracy Mingardi, o falecido Paulo Mesquista Neto do NEV e o advogado Theodomiro
Dias, filho do Ministro José Carlos Dias. A ideia de um Plano Nacional de
Segurança surgiu da inspiração da África do Sul, que um ano antes tinha
elaborado o seu plano e nos enviara uma cópia em CD. Nenhuma relação com o
episódio do ônibus 174, posterior, que alguns apontam erroneamente como
episódio desencadeador do Plano. Na melhor das hipóteses, o incidente provocou uma
aceleração na divulgação, assim como a crise carcerária acelerou a divulgação
do Plano atual.
As condições
para a elaboração estavam longe de ser ideais e como sempre, baseava-se na boa
vontade dos participantes. Ninguém ganhou um centavo; ao contrário, gastamos
muitas horas de trabalho e muito dinheiro de estacionamento nas reuniões
semanais no escritório que o MJ mantinha na Av. Prestes Maia. Não tínhamos
recursos para pesquisa, reuniões ou viagens e por isso todos eram de São Paulo:
com base na experiência dos participantes e leituras, juntamos ali umas dezenas
de propostas e concepções sobre o papel do governo federal na segurança. Feito o esboço original, a Senasp e o MJ
assumiram a coordenação e redação final do documento, colhendo subsídios junto a
outros especialistas, ao Gabinete de Segurança Institucional, Depen, Secretaria
Nacional de Justiça, Polícia Federal, Abin e outros órgãos do Governo Federal. Mesmo
improvisado, o Plano Nacional de Segurança Pública de 2000, com seus 15
compromissos e 124 ações, foi um marco histórico. Antes de tudo pelo simbolismo
pois pela primeira vez um governo federal deixava clara sua intenção de assumir
maiores responsabilidades nesta esfera. Segurança virou tema prioritário, com
novos projetos, concepções inovadoras e orçamento reforçado. Importantes
iniciativas foram criadas nos anos seguintes, até a mudança de governo em 2003,
que deu continuidade a algumas das propostas e deixou de lado outras tantas.
Não vou me
deter aqui nos planos posteriores, em especial o SUSP de 2003 e o Pronasci de
2007. Minha avaliação geral é de que foram documentos bem elaborados no campo
teórico, mas pouco práticos e precariamente implementados. Salvo poucas
exceções, a gestão da segurança nestes anos foi tão sofrível quanto a gestão
econômica. As principais ações “estruturantes”, para usar um termo caro aos
gestores petistas, vieram dos períodos anteriores: criação da Senasp, Senad,
Depen, dos Fundos Nacionais de segurança, penitenciário, Infoseg, Central de
Penas Alternativas, Estatuto do Desarmamento[1],
etc. Dos últimos 14 anos de governo, muito pouco pode ser mencionado, neste
nível de relevância e durabilidade institucional. Não houve nem “reforma nas
instituições de segurança” nem “redução da violência”.
Passados 17 anos
do primeiro PNSP, vemos uma nova proposta de Plano Nacional de Segurança. Como
todos os planos anteriores, o Plano Temer tem pontos positivos e negativos. Creio
que independente dos méritos do documento, o mais relevante é propor alguma
coisa, qualquer coisa, elevando novamente o status
do tema segurança pública na agenda nacional. Envolver os demais órgãos – STF,
Ministérios da Defesa e Relações Exteriores, governos estaduais, etc. – também
é um dos méritos. Analistas estimam que 78% das propostas foram requentadas dos
planos anteriores. Não vejo isto como um demérito, mas também como algo
positivo tentar recuperar boas ideias dos programas anteriores que não foram colocadas
integralmente em prática. Estaria muito mais preocupado se houvessem muitas
ideais novas e mirabolantes. [2]
Minha lista de
equívocos, já assinalados por outros: muitas ações dependem da colaboração com
outros órgãos ou de mudanças na legislação; muitas são de caráter emergencial;
há omissões importantes, como a questão da tipificação e prevenção às drogas ou
do Ministério da Segurança; a escolha dos indicadores apreensão de armas e
drogas para medir metas é equivocada, pois são indicadores de output e não
input; ampliar o efeito da Força Nacional, que ainda não disse ao que veio, é
questionável; algumas ações listadas já estavam em andamento; não se mexe em
temas estruturais, como unificação das polícias, etc., etc.
Mas de maneira
geral, a escolha dos eixos, dos temas, dos princípios da integração entre
órgãos e com a sociedade, do foco territorial, etc., são basicamente acertadas,
para um governo de duração limitada e que assumiu o país no meio de uma forte
crise econômica e política. Sempre
poderia ser melhor e é fácil criticar as omissões. Todos especialistas têm sua
lista pessoal de preferências e lembranças de centenas de sugestões que não
foram contempladas. Mas é o temos no momento e bem ou mal o Plano tem virtudes,
independente de quem as propõe e de nossas opiniões pessoais sobre o governo em
geral e ministros em particular. Se existem erros e omissões, o papel dos
analistas é aponta-las e aperfeiçoá-las sine
ira et studio, como recomendava Weber. Como todas as propostas apresentadas
pelo governo atual, as opiniões sobre o Plano de Segurança são bastante
politizadas. [3]
A maior
virtude de todas do novo Plano de Segurança é sair na inanição dos anos
anteriores, co-responsavel pela crise atual do sistema penitenciário e pelos
recordes sucessivos no número de homicídios. Uma nação com 60 mil mortos e onde
o crime organizado domina as prisões não pode se dar ao luxo de rechaçar uma
iniciativa que pode ser relevante para a área com argumentos ad hominem ou enviesados. É preciso
fazer na segurança o que se fez na saúde com a vacinação: inciativas
fundamentais tem que ser continuadas, não importa que pessoa ou partido foi o
mentor. A segurança estaria melhor se as iniciativas propostas em 2000 tivessem
sido colocadas em prática sem descontinuidade.
Acho o Plano
de 2000, com todas as suas falhas, melhor e mais completo do que os posteriores
e o atual, embora minha opinião seja suspeita. Muita coisa que havia nele foi
retomada em 2003 e 2007 pelo PT e neste último Plano de 2017. Redução do
homicídio, combate ao crime organizado e modernização do sistema penitenciário
fazem tanto sentido agora quando faziam em 2000. O Plano traz boas iniciativas
e se a administração atual conseguir avançar na agenda, melhor para todos. Dados
os fins, aos especialistas cabe opinar se os meios são adequados para
atingi-los. O mais é ideologia. Quando não se gosta do governo de plantão, é preciso
um esforço sobre humano para não confundir conhecimento e crença.
Anexo:
Abaixo faço um
breve resumo do Plano, pelo que pude recolher do material disperso na imprensa,
para quem quiser avaliar as medidas de forma independente.
Plano Nacional
– Temer
Eixo 1- redução de homicídios dolosos e de feminicídios
Princípios: valorizar a prevenção por meio da
capacitação dos agentes envolvidos, da aproximação da polícia com a sociedade,
da inserção e proteção social, além da otimização de medidas administrativas.
Meta: reduzir
em 7,5% o número anual de homicídios dolosos nas capitais do país em 2017. A
partir de 2018, a meta será ampliada para cerca de 200 cidades no entorno das
capitais.
Meta: redução dos índices de violência doméstica
Ações:
·
Mapeamento dos locais onde ocorrem homicídios, que começará pelas
capitais e depois será expandido para as regiões metropolitanas.
·
Criação de forças-tarefa no Ministério Público para investigações de
homicídios
·
Dar celeridade às investigações e aos processos envolvendo crimes de
violência doméstica
·
Implementar cursos de mediação de conflitos, solução pacífica de
conflitos e cultura de paz.
·
Instalação de grupos da Patrulha Maria da Penha, que deverão fazer
visitas periódicas a mulheres em situação de violência doméstica
·
Criação de um fluxo de comunicação entre os órgãos de segurança e
municipais com presença nos centros de inteligência
·
Verificar lugares com iluminação ruim, verificar veículos abandonados,
fiscalizar estabelecimentos irregulares e a venda indiscriminada de bebida
alcóolica.
·
Implementar normas mais rígidas na guarda e no depósito de armas de fogo
de empresas de segurança privadas.
·
Criação de um laboratório central de perícia criminal em Brasília em
apoio aos estados
·
Investimentos nas perícias criminais nos estados
·
Apoio aos estados pelos laboratórios da PF que serão ampliados.
Eixo 2 - combate integrado à criminalidade organizada internacional (em especial
tráfico de drogas e armas) e crime organizado dentro e fora dos presídios
Meta: aumento de 10% na quantidade de armas e drogas
apreendidas, em 2017, e de 15% em 2018
Ações:
·
Implantação de centros de inteligência integrados das polícias nas
capitais
·
Implantar e interligar sistemas de videomonitoramento, a exemplo do que
foi feito nas cidades que sediaram a Copa e os Jogos Olímpico
·
Comunicação
por rádio digital
·
Fortalecimento do combate ao tráfico de armas e drogas nas fronteiras
·
Força Nacional: ampliar de forma gradativa o efetivo da corporação para
realizar mais operações conjuntas com as polícias Federal, Rodoviária Federal e
estaduais
·
Polícia Rodoviária Federal (PRF): acordos de cooperação com as polícias
militares rodoviárias para otimizar a fiscalização em rodovias e principais
rotas viárias brasileiras.
·
Atuação conjunta com países vizinhos (fronteiras, inteligência e
informação e operações)
·
Fiscalização, proteção e operações nas fronteiras
·
Atuação conjunta com as policiais estaduais
·
Ampliação da inserção dos perfis genéticos no banco de dados de DNA
·
Compartilhamento, em âmbito nacional, do banco de dados de impressões
digitais.
·
Identificação de armas de fogo e de munições - "DNA das Armas”.
·
Ampliação dos radares Alerta Brasil com mais 837 câmeras da PRF nas
rodovias, totalizando 935 unidades. O sistema do programa deverá ser integrado
com as redes estaduais de identificação de veículos.
·
Nova matriz curricular para a formação policial
·
Elaboração de estatísticas de mensuração da eficácia da atividade de
Polícia Judiciária
Eixo 3 - racionalização e modernização do sistema
penitenciário.
Meta: reduzir
a superlotação em 15% em dois anos
Ações:
·
Centralização de informações: com módulo que agregará dados sobre os
estabelecimentos prisionais com informações sobre vagas gerais, regimes das
penas, instalações de saúde, de educação. O segundo abrangerá informações
pessoais dos presos e dados sobre o crime praticado. O terceiro terá
informações relativas ao processo criminal do detento.
·
Separação dos presos condenados por crimes graves e do crime organizado
em diferentes alas
·
Proporcionalidade na progressão do regime com mais benefícios aos crimes
praticados sem violência
·
Necessidade de cumprimento de pelo menos metade da pena no caso de
ameaças graves
·
Mutirão em execução da pena.
·
Mutirão de audiências de custódia para presos provisórios por crimes sem
violência.
·
Investimento de R$ 200 milhões para a construção de cinco presídios
federais, um em cada uma das regiões do país, com capacidade para 220 presos de
alta periculosidade
·
Fortalecimento de medidas alternativas ao encarceramento, como o uso de
tornozeleiras eletrônicas e restrição de direitos.
[1] O Estatuto foi aprovado no primeiro ano do governo Lula, em 2003, apenas
em função da dinâmica legislativa. Toda concepção é do período anterior, pelos
menos desde 1997.
[2] Acho bastante curioso que muitos dos
especialistas chamados a avaliar as atuais propostas – muitas vezes as mesmas
que fizeram em períodos anteriores – sejam críticos a elas agora, apenas porque
propostas pelo “governo golpista”. De modo geral, o Plano Temer foi avaliado
com baixíssima isenção. Ninguém é 100% isento (nem mesmo este autor) mas é
quase possível prever a opinião de um especialista sobre o novo plano apenas
lendo seus posts no Faceboock sobre o impeachment...Neutralidade axiológica é
um objetivo que sempre deve ser buscado por qualquer um que se intitule
pesquisador.
[3] Neste sentido, apoio
integralmente a proposta lançada pelo cientista político Glaucio Ary Dillon
Soares de que o papel dos pesquisadores é “colaborar construtivamente e criticamente na elaboração do
Plano Nacional de Segurança Pública, inserindo nossas contribuições”, assim
como fizemos em todos os governos anteriores, independente de preferências
ideológicas e partidárias. Façamos, como sugere o professor Gláucio, “o que
nós, pesquisadores, fazemos de melhor, buscar e divulgar conhecimento, sem que
o produto seja um documento partidário e/ou ideológico, nem que seja visto e
percebido como tal.”
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Artigo de 2006 no estadão, propondo a criação de um Ministério da Segurança...
Programa de governo
A criação da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), em 1997, e a do Plano e do Fundo Nacional nos anos seguintes foram marcos importantes do envolvimento federal na segurança, sinalizando uma mudança significativa com relação ao paradigma anterior, segundo o qual segurança dizia respeito somente aos Estados, detentores das polícias.
O recrudescimento da criminalidade em todo País e o aumento da sensação de insegurança fez com que mudasse de patamar o envolvimento federal na questão, o que levou também à criação da Secretaria Nacional Antidrogas e do Fundo Nacional Antidrogas, do Departamento Penitenciário e do Fundo Penitenciário Nacional, do sistema Infoseg, das centrais de penas alternativas e vários outros projetos relevantes.
Este processo crescente de envolvimento, porém, se deu de modo errático, ao sabor das crises e tragédias nacionais - um “gerenciamento de pânico”, em paralelo ao que no âmbito penal os juristas denominaram “legislação de pânico”, entendendo por isso um processo improvisado ao qual falta uma visão de conjunto e o encaixe com os demais elementos do sistema.
O Ministério da Justiça abraçou boa parte dos novos órgãos e funções sem que para isso tivesse redimensionado sua estrutura física, orçamentária e funcional, tornando-se um superministério por onde circulam demandas relativas aos índios, estrangeiros, consumidores, presídios, policiais, minorias, direitos humanos e toda sorte de questões envolvendo os problemas legais do governo e seus administradores. Para lidar com todos estes temas, o Ministério da Justiça continua a contar com um só titular, uma só secretaria executiva, um só chefe de gabinete, uma só consultoria jurídica, um só prédio - e os acréscimos de funcionários e recursos não foram suficientes para compensar as novas atividades. Projetos relevantes de todas as áreas ficam atolados no meio da precária estrutura administrativa da pasta, não obstante o empenho de seus quadros.
Ao mesmo tempo, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República - que outrora desempenhava apenas a função de Casa Militar - foi concentrando sob sua coordenação órgãos e recursos importantes, como a Secretaria Nacional Antidrogas e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Como herança da Casa Militar, até hoje estas posições são ocupadas por membros das Forças Armadas, sem que se tenha avaliado a conveniência ou não de tal arranjo.
As seqüelas desta engenharia institucional de pânico são muitas e de conseqüências funestas para a gestão da segurança: a Abin (que por lei é impedida de fazer escutas!) não se reporta diretamente ao presidente, mas a um intermediário com status de ministro; a política nacional com relação às drogas está dividida entre dois órgãos, cuja disputa já causou a queda de um ministro e do secretário nacional Antidrogas; o ministro da Justiça, envolto em inúmeras e diferentes questões, não controla efetivamente as Polícias Federal e Rodoviária Federal nem tem tempo suficiente na agenda para se dedicar com a atenção necessária à gestão cotidiana da segurança; não há um espaço nem quem articule ações preventivas em conjunto com outros ministérios da área social do governo; a inteligência está fracionada entre a Abin e a Polícia Federal; há no Ministério da Justiça uma batalha interna velada sobre quem administrará o Infoseg, disputado também pela Polícia Federal.
A criação de um Ministério da Segurança Pública, tal como proposto no programa de Geraldo Alckmin à Presidência, representaria a continuidade do envolvimento federal na segurança iniciado nos anos 1990, processo interrompido na gestão Lula, que propôs em 2002 a criação de uma Secretaria Especial de Segurança, com status de ministério, que jamais saiu do papel.
A criação da nova pasta dedicada exclusivamente ao tema daria também oportunidade para a escolha de um novo tipo de gestor, não necessariamente ligado aos escritórios de advocacia, como tem sido a praxe, já que o problema fundamental não é de ordem legal, mas de gestão eficiente do sistema federal de segurança. A elevação de status do órgão coordenador contribuiria também para preservar o já exíguo orçamento destinado à área, sistematicamente contingenciado pela Fazenda nos últimos anos. Estima-se que para ter algum impacto no reaparelhamento das polícias estaduais seria preciso garantir ao menos R$1 bilhão por ano para o Fundo Nacional de Segurança Pública, que já foi de R$400 milhões e atualmente não conta nem com R$200 milhões, para 54 polícias estaduais e centenas de guardas municipais.
A nova pasta contribuiria para buscar novas fontes de financiamento por meio de empréstimos internacionais, para estimular a vinda de profissionais qualificados da administração pública que queiram trabalhar num órgão prestigiado e para coordenar a gestão dos três fundos nacionais, cujos critérios de distribuição estão longe de consensuais. Dentro da estrutura deste ministério, à Senasp caberia o papel de coordenar efetivamente as ações das Polícias Federal e Rodoviária Federal, e uma nova secretaria seria adicionada, para cuidar exclusivamente de ações de prevenção e articulação com outros órgãos dentro e fora do governo.
Um Ministério da Segurança Pública, se não é a panacéia para todos os males do setor, contribuiria para dar maior organicidade a uma política nacional de segurança, com planejamento e estrutura adequada à dimensão da tarefa, em substituição à colcha de retalhos que é o atual sistema federal de segurança.
Tulio Kahn, doutor em Ciência Política pela USP, coordenador de Análise e Planejamento da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, foi diretor do Departamento Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e um dos idealizadores do Plano Nacional de Segurança Pública do governo FHC
Postado por Tulio Kahn, O Estado de S. Paulo em 30/09/06
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