Entrevista de hoje na CBN sobre proposta de lista triplice para escolha de comando da PM https://t.co/4zEGs3QLSI
— tulio (@tuka65) August 3, 2022
Entrevista de hoje na CBN sobre proposta de lista triplice para escolha de comando da PM https://t.co/4zEGs3QLSI
— tulio (@tuka65) August 3, 2022
Em 9 de julho comemoramos mais uma vez o aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. O início do movimento deveria coincidir com a data da independência Americana, 4 de julho, mas como sempre no Brasil, houve um pequeno atraso na organização.
O MIS organizou uma exposição
sobre o tema e desenterrou um documentário que ajudei a produzir nos anos 90,
como responsável pela pesquisa histórica e argumento – uma série de
documentários sobre a história do Brasil começando pela Revolução de 30 e que
infelizmente foi interrompida na “Intentona Comunista” de 1935, uma vez que
documentários históricos não são exatamente o gênero preferido da população. https://www.youtube.com/watch?v=U2aFvcDVc1k&t=56s
Em linhas muitos gerais o
episódio resumido é o seguinte. Em 30 Getúlio Vargas toma o poder, prometendo a
realização de novas eleições presidenciais e a convocação de uma Assembleia
Nacional Constituinte em seguida. A eleição prometida, contudo, não vem, o que
gera descontentamento na elite política, principalmente em São Paulo, que
alternadamente com Minas Gerais, ocupava a presidência na República Velha.
Todo fenômeno histórico é
multifacetado e passível de diversas leituras. Além da insatisfação com a
postergação das eleições e o alijamento dos paulista do governo federal, podemos
agregar a insatisfação com o interventor “forasteiro” escolhido pelo governo
central para o Estado, o bombardeamento de São Paulo por tropas federais em
1924, alguma dose de regionalismo (a
velha tese de que SP é a locomotiva que arrasta 26 vagões como peso morto),
reflexos da crise econômica de 1929 e demandas de parte da elite liberal por
uma nova Constituição – o que explica porque em São Paulo o episódio ficou
conhecido como a Revolução Constitucionalista enquanto o governo federal vendia
a ideia de que se tratava de uma movimento separatista.
Não é o caso de aprofundar as
causas e consequências da Revolução, que como é sabido foi derrotada
militarmente, mas que forçou a promulgação da nova constituição em 1934.
Gostaria de ressaltar alguns aspectos sociológicos do evento para efeitos de
comparação com a conjuntura atual. Em 32, elite e povo se uniram num grande
movimento que mobilizou toda a sociedade paulista, algo que talvez só tenha
ocorrido novamente no movimento pelas Diretas Já, mas em escala regional:
imprensa, fazendeiros, industriais, estudantes, trabalhadores, donas de casa –
participaram dos esforços de guerra no front e na retaguarda, neste confronto
que matou mais de 2200 brasileiros, quase cinco vezes o número de soldados
brasileiros mortos na Segunda Guerra (a estimativa oficial é de 937 mortos em
32). Durante os 3 meses de combate, os estudantes da faculdade de direito aglutinaram-se
em batalhões, as famílias doavam ouro para o bem de São Paulo, as moças
alistavam-se como enfermeiras, trilhos de bonde foram arrancados das ruas para
a produção de armas, poetas compunham odes ao movimento, que se valeu também
das modernas técnicas de comunicação para a mobilização popular, como o rádio e
posteres publicitários.
Razões históricas e conjunturais
explicam em parte porquê a demanda por eleições democráticas e uma nova
constituição encontraram eco principalmente em São Paulo. Mas existem razões
“estruturais” que explicam o motivo de quase todos os movimentos democráticos e
antiautoritários nascerem ou contarem com a adesão generalizada no Estado. O
argumento aqui foi bastante e melhor desenvolvido no estudo sobre “Capitalismo
e Liberdade” de Friedman: a defesa da liberdade política e da liberdade
econômica estão entrelaçadas e ambas as bandeiras tem melhores condições de se
desenvolver em sociedades de mercado relativamente complexas. Recorrendo a
Gramsci por equidade, os intelectuais orgânicos da burguesia – jornalistas,
advogados, poetas – fornecem apenas o discurso ideológico que tem um substrato
econômico e social mais profundo.
É nas sociedades de mercado
complexos que surge uma burguesia relativamente independente do Estado, com
autonomia para lutar por seus próprios interesses. Um movimento sindical e
estudantil ativos, uma imprensa autônoma que não depende umbilicalmente dos
recursos públicos. É onde existe um mercado de trabalho na agricultura,
indústria e comércio muitas vezes superior em tamanho ao mercado dos empregos
públicos. É ali que passa a existir uma relativa independência do orçamento
público, dos impostos, das sinecuras, do protecionismo, das amizades com o
governo de plantão. A vida econômica não começa e termina com o Estado, mas se
desenvolve de maneira relativamente autônoma. As ideias circulam nas
universidades, jornais, livros pois há uma classe média desenvolvida, que já
forma um “povo” e não apenas uma “multidão”.
Não é só o tamanho da população
mas principalmente as características da economia e da sociedade paulistas que explicam porque os ideais
democráticos de 32 encontram campo fértil para crescer em São Paulo. E a razão
pela qual os intelectuais, as entidades e instituições paulistas são sempre as
primeiras a aderir às causas democráticas e libertárias: é que sem liberdade
política não existe liberdade econômica. Sem direito ao voto, a propriedade
privada é ameaçada. Sem eleições, o mercado não funciona de modo eficiente. Sem
capitalismo não há liberdade, mas sem liberdade tampouco há capitalismo.
É de São Paulo, principalmente,
que vem agora novamente o alerta do “perigo contra a normalidade democrática”,
como expresso no recente manifesto supra partidário pró-democracia gestado na
Faculdade de Direito da USP, repetindo a Carta aos Brasileiros de 1977. Não
somos mais idealistas do que os demais brasileiros nem defensores mais
ardorosos da democracia. Temos apenas uma economia de mercado mais complexa e uma
sociedade mais independente do governo central– o que nos dá, como em 32, o
dever moral de servir como um anteparo aos eventuais abusos do Estado.
A frase do título é atribuída ao estatístico Edwards Deming e sugere que se tratava de homem tanto de ciência quanto de fé. Mas nem sempre o Senhor gozou desta confiança inabalável. A leitura do Velho Testamento fala de um período em que o Criador do Universo ainda se apresentava ao mundo e nem todos confiavam na sua existência, onisciência ou onipresença.
Diante desta audiência primitiva
e desconfiada, às vezes até mesmo o Todo Poderoso (bendito seja) precisou às
vezes apelar para as evidências científicas, dados e fatos para demonstrar seu poder.
Estas semanas andei lendo os
comentários de Rashi[1]
sobre a saída do Egito, quando Deus precisava comprovar seu poder tanto para o
Faraó quanto para os próprios hebreus e convencer o Faraó a libertar seu povo
da escravidão. Para tanto, como é sabido, instruiu Moises e seu irmão Arão a
irem até Ramsés e demostrarem – através das 10 pragas – que Ele existe é Moises
e Arão falavam em Seu Nome.
Faraó, contudo era um sujeito
aparentemente bastante cético – daria um excelente revisor de artigos
acadêmicos - e queria provas convincentes da origem Divina da demanda. Como
saber com algum grau de certeza de que não se tratava apenas de “magia” e
truques o que Moisés e Arão apresentavam como provas do poder celestial? Quando
o cajado de Moises se transforma numa serpente, os necromantes do Egito
replicam o mesmo truque usando magia e o mesmo acontece quando as águas do Nilo
são transformadas em sangue ou quando os sapos infestam a terra... Tudo podia
não passar de coincidências e truques e Faraó parecia acreditar firmemente que
“correlação não significa causação”.
É então que Deus passa a apelar
para um pouco de ciência, design de experimentos e probabilidades
estatísticas...Faraó pede a Moises que termine a praga dos sapos e Moises
pergunta “para quando você quer que os sapos sejam destruídos?” Ele pede então
que o faça para amanhã e na manha seguinte os sapos desaparecem (Shemot, 8:5).
Trata-se talvez do primeiro experimento “antes-depois” da história, pois a “intervenção”
divina subitamente interrompe a epidemia, justamente após o pedido. Mas o
design antes-depois, como sabia o Faraó, é um design de pesquisa bastante
frágil, pois não elimina a hipótese da interrupção ter se devido ao acaso.
Diante da inexistência de uma prova mais robusta, ele recusa-se a autorizar a
saída dos escravos hebreus do Egito.
Com a aparição da terceira praga,
piolhos, os mágicos do Egito procuram
por todos os meios e truques conhecidos reproduzir o experimento e falsear a
hipótese divina, mas desta vez em vão. Eliminadas as teorias alternativas, os
mágicos e necromantes concluem (erroneamente, do ponto de vista científico) de
que se trata “do dedo de Deus” (Shemot, 8:15) pois tal praga não poderia ser
produzida através de magia. Mas Faraó, popperiano antecipado, não se deixa
convencer e se recusa a acreditar mais uma vez. Outras hipóteses poderiam ser
pensadas para explicar o fenômeno.
Segue-se então a praga dos
animais peçonhentos, mas desta vez Moises, mais precavido, introduz um grupo de
controle: pois a praga atingiria toda a terra do Egito, mas naquele dia “ eu
irei separar a terra de Goshen, onde meu povo fica, e não haverão animais
peçonhentos ali, de modo que você saiba que eu sou o Senhor no meio da terra”
(Shemot, 8:18). A mesma separação é feita na praga seguinte, peste sobre os
animais, de modo que apenas os animais egípcios foram atingidos, mas não os dos
filhos de Israel. E desta vez, para tornar a prova ainda mais robusta, Moises
diz exatamente quando a praga vai ocorrer, propondo um design de prova que os
pesquisadores modernos denominam “antes-depois-com grupo de controle”. Assim,
no dia seguinte, como afirmado, todo o rebanho egípcio morre, mas não o dos
filhos de Israel.
O design “antes-depois-com grupo
de controle” é mais rigoroso do que os anteriores, mas assim mesmo Faraó não
está convencido e não deixa o povo partir. Observe-se que, como os hebreus são
os protegidos do Senhor, não seria possível desenhar um experimento randômico
controlado, padrão ouro da ciência. Este tipo de estudo exige o sorteio
aleatório prévio dos grupos intervenção e controle, mas isso faria com que
grupos egípcios fossem poupados das pragas enquanto grupos hebreus fossem
castigados. O grupo de controle fora escolhido intencionalmente uma vez que
parâmetros éticos impediam neste caso o uso da aleatoriedade – como é comum nos
estudos científicos. Havia, portanto, um possível viés de seleção difícil de
ser eliminado. E se a terra de Goshen tivesse características não controladas,
que impediam a propagação das pragas?
Assim, para convencer o cético
Faraó, o Senhor dos Exércitos produz uma sucessão de novas provas: chagas,
chuva de pedras, nuvens de gafanhotos, trevas e, finalmente a mais terrível,
morte dos primogênitos. Moises vai refinando suas provas, dizendo a que horas
exatamente as pragas ocorreriam, por quanto tempo durariam, poupando sempre os
locais onde habitavam os hebreus (Shemot, 9:18; 9:26). Depois desta série de
evidências acumuladas, parte dos egípcios passou a acreditar nas ameaças e a
proteger seus rebanhos, escravos e a si mesmos em abrigos, enquanto os que não
acreditavam nas evidências abandonaram-nos desabrigados nos campos. Naquela
época como agora, a crença nas evidências e provas salva vidas e a descrença
traz infortúnios!
A prova mais sofisticada e
contundente é sem dúvida a última praga, morte dos primogênitos. Não só Moises
diz que apenas os filhos mais velhos serão afetados por ela, mas não os demais
filhos, como cria um procedimento que é difícil de ser refutado. A passagem
bíblica é conhecida como “pessach” que significa “passar sobre”. Os hebreus são
instruídos a fazer um sacrifício e com o sangue do animal imolado, pintar o
umbral de suas casas, como um sinal. Assim, mesmo nos locais onde egípcios e
hebreus moram lado a lado, Ele mesmo passará pelas casas e “passará sobre” as
casas dos hebreus, afligindo apenas as casas dos egípcios. Como explicar que a
morte atinge apenas os primogênitos e apenas nas casas dos egípcios, mesmo
vivendo lado a lado, senão como prova do “dedo de Deus”? (ok, algum revisor
chato poderia arguir que o sangue do animal ou algum outro procedimento adotado
afastou a pestilência, mas ainda sim há a questão do primogênito). A décima
praga não apenas é a mais terrível como também é a mais robusta do ponto de
vista dos procedimentos adotados.
Como é sabido, Ramsés só liberta
os hebreus depois da 10º e mais terrível praga. Mesmo desacreditando de cada
prova individualmente (algumas realmente fracas, como a da serpente), Faraó
parece chegar à conclusão, revendo as evidências, que a probabilidade de que
não estivesse diante do “dedo de Deus” era afinal bastante baixa, analisando
uma sequencia de 10 provas consecutivas com 10 “sucessos”. Mesmo desconhecendo
a distribuição binomial, a probabilidade acumulada de provas seguidas mostrarem
o mesmo resultado dificilmente poderia ser produto de truques ou do acaso. (na
realidade, mesmo que Faraó tivesse interpretado corretamente as evidências
desde o início, Deus “endureceu” seu coração, pois queria que os sinais de sua
intervenção fossem reconhecidos em todo o mundo, mas esta é outra estória).
A história das 10 pragas do Egito
serve para mostrar também que nenhuma evidência é forte o suficiente quando
existem motivos exteriores para não enxerga-las, como o orgulho, preconceito ou
as ideologias. Ela é interessante também porque mostra que nem todos os homens
tem a fé cega de um Moisés ou de um Arão – embora mesmo Moisés, que tinha
problemas de fala, duvide inicialmente que conseguira executar a tarefa. Assim,
por diversas vezes na Toráh, Deus tem que
fornecer evidências e sinais tangíveis de seu poder, apelando para o
intelecto humano, para a lógica e para probabilidades. O Homem, afinal, foi
feito à sua imagem e semelhança e busca por associações causais. E o “desenho”
destas provas se assemelha algumas vezes, como no caso das 10 pragas, ao que os
estudiosos costumam utilizar na ciência, para mostrar que os resultados não são,
com algum grau de certeza, apenas coincidências.
Deus não joga dados com o Universo,
mas o Homem joga e aprendeu a conhecer as regras do acaso. Como Ele só
manifesta sua presença diante de alguns poucos, tem que convencer os demais,
mais céticos, não somente pelo medo, mas
também através da razão.
[1] Um
rabino francês dos anos 1000, Shlomo ben Yitzhak, conhecido por seus comentários e explicações
sobre a Toráh e outros textos judaicos.
Novos videos no canal para quem gosta de análise de dados criminais: análise fatorial, análise descritiva, teste de Q-quadrado, georeferenciamento, análise de séries temporais e diversos outros, em 30 aulas de 15 minutos! https://www.youtube.com/playlist?list=PLDVoZQl9HlQpf0C1yovjsMBnz5JN1o4IL
Em artigo recente mostrei como o pico
das séries criminais no Brasil parece ocorrer por volta de 2016 e 2017 - depois
de dois anos de aguda contração na economia. Analisando por modalidade
criminal, vimos que roubo a instituição financeira e tentativa de homicídio
caíram a parir de 2015, furto de veículos e roubo seguido de morte a partir de
2016, homicídios, lesão corporal seguida de morte, roubo de carga e roubo de
veículos desde 2017. (Kahn, 2022 – Sensação de insegurança e criminalidade em
queda. https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6912794055009542144/)
Discutimos também nos últimos anos em
diversos artigos algumas hipóteses para a queda dos homicídios no Brasil e que
podem se aplicar agora também aos demais crimes violentos, também em queda após
o pico de 2017, como temos mostrado: demografia, ciclos econômicos, regressão à
média, securitização responsiva, etc.
Entre as hipóteses mais plausíveis há
uma conjectura segundo a qual a migração dos crimes violentos para os crimes
digitais se deveria a mudanças de tecnologia, que por sua vez estariam
induzindo a mudanças na atividade de rotina. Entre estas mudanças tecnológicas estão
a proliferação de celulares, o acesso praticamente universal à internet e o
aumento do tempo dedicado pelos jovens aos jogos on-line, redes sociais e serviços
de streaming. Estas novas rotinas
produziram recentemente mudanças bruscas no estilo de vida, diminuindo a
motivação dos agressores e as oportunidades de contato entre agressores e
vítimas.
A teoria do crime como atividade de
rotina diz que para que um crime ocorra é preciso que ofensor e vítima se
encontrem num determinado espaço (pouco protegido) e tempo. Pelo menos esse é o
caso para os crimes de contato. O avanço das novas tecnologias impõe uma
revisão da teoria uma vez que o encontro físico entre agressor e vítima
tornou-se secundário. A hipótese é que a proliferação de celulares,
especialmente entre os jovens, é tão intensa e seu uso tão intensivo, que estes
encontros entre ofensores e vítimas estão deixando de ocorrer com tanta
frequência como antes. (por outro lado, é uma boa explicação para o crescimento
do roubo e furto de celulares). Menos interação social implica em menos
conflitos e, por conseguinte, menos homicídios. O fenômeno é mundial e aparentemente
também se observa em algumas partes do Brasil, de uns anos para cá.
Vejamos alguns dados sobre o fenômeno.
O celular é a principal forma de conexão com a internet e redes sociais.
Segundo a pesquisa Global Digital Repport de 2022, o tempo médio diário global
dispendido nos celulares é de 4 horas e 48 minutos. Os brasileiros lideram o
ranking de uso, com uma média de 5 horas e 25 minutos. Segundo a pesquisa, no
Brasil, 77% da população acessam a Internet e o uso é intenso. Enquanto o tempo
médio diário global na Internet é de 6 horas e 58 minutos, no Brasil o tempo
online é 10 horas e 19 minutos diários, atrás apenas da África do Sul e das
Filipinas. Desse total, as pessoas dedicam em média no mundo, 2 horas e 27
minutos às redes sociais, enquanto no Brasil, chegamos a 3 horas e 41 minutos
diários. As pessoas ficam online principalmente para buscar informações (61%),
manter contato com familiares e amigos (55%) e ficar atualizado (53%).
Em
artigo de 2019 comentei este intenso crescimento, identificado pelo IBGE e a
hipótese da migração: “De acordo com os dados da pesquisa TIC do IBGE de 2018,
em 2008 apenas 34% da população brasileira tinha acesso à
internet. Dez anos depois, este número dobrou. Em 2018, 69,8% da
população tem acesso a internet. Nas classes A e B esta porcentagem supera os
90%. Isto representa 127 milhões de pessoas ou 46,5 milhões de domicílios com
acesso a internet. Proporcionalmente, o crescimento foi maior nas classes C,D e
E, embora a penetração absoluta ainda seja menor nos grupos de renda mais
baixos.
Entre
os jovens de 20 a 24 anos 88,4% tem acesso à internet e a grande maioria, 97%,
acessa a internet pelo smartphone. No sudeste, 76,5% utilizam a internet, em
comparação com 60,1% no Norte e 58,4% no Nordeste. Esta distribuição se encaixa
no fato da criminalidade ter caído mais no Sudeste e menos no Norte e Nordeste.
Não
só o acesso à internet cresceu como também o tempo que as pessoas passam
conectadas na rede, especialmente os jovens. Segundo a pesquisa We are
social de 2019, o brasileiro passa em média 9 horas e vinte minutos
conectados a internet, por dia. Deste tempo, 3:30 minutos são gastos acessando
as redes sociais. Somos o segundo país no ranking mundial de tempo gasto na
internet. Regra geral, nações em desenvolvimento passam mais tempo na internet
do que nações desenvolvidas. Isso ocorre porque eles têm população mais jovem,
cuja permanência diária na internet é maior do que a média da população.
O
elevado nível de acesso e o tempo gasto na internet explicam porque o Brasil
está nos primeiros lugares do ranking de crimes cibernéticos do mundo (somo
2,8% da população mundial, mas cerca de 5% da origem dos ataques cibernéticos
no mundo) e ajuda a entender também a predileção dos criminosos, em
geral jovens, pelos smartphones. A hipótese é de que este aumento dos
celulares, do acesso à internet e tempo gasto na internet, deslocou parte dos
criminosos para os crimes digitais”. (Kahn, 2019.Ladrões e vítimas no
ciberespaço: internet, mudança de estilos de vida e queda dos roubos, in
Segurança Pública: diagnósticos e prognósticos - 2019 eBook Kindle). No artigo
mostrei como a queda do roubo de veículos nos Estados guardava uma correlação inversa elevada
(r=-.71) com a porcentagem de jovens com acesso à internet.
Os dados de explosão dos estelionatos
no país reforçam a ideia de que é possível que estejamos passando de uma
transição dos crimes de contato – que são potencialmente mais violentos – para
os crimes digitais. Se a hipótese for correta, deveríamos observar uma
diminuição da criminalidade violenta nas regiões onde o acesso à internet foi
mais intenso e precoce. Embora os crimes digitais não tenham fronteira
geográfica, é uma possível explicação para o fato dos homicídios e outros
crimes terem começado a cair antes no Sudeste e apenas tardiamente no Nordeste
e Norte.
Para uma minoria de ofensores
conectados e mal intencionados, abriu-se um novo e imenso mercado de
oportunidades criminais. Há uma discussão sobre se se trata de antigos
criminosos que passaram a adotar um novo modus
operandi ou de uma nova geração de criminosos, mas não temos informação
suficiente para esclarecer o ponto. Tampouco sobre se estamos lidando com
criminosos isolados e eventuais ou quadrilhas organizadas. Mal começamos a
mensurar a magnitude do fenômeno e ainda a menos a estudar suas
características.
No Rio de Janeiro os estelionatos aumentaram
103% entre 2018 e 2021, no Rio Grande do Sul 274%, no Espírito Santo 230%, no
DF 186% e em Santa Catarina, nada menos que 288% no mesmo período. O
crescimento médio nos cinco estados foi de 201% no período, quando os
estelionatos passam de 100 para 300 mil casos anuais. Dados dos dois primeiros
meses de 2022 sugerem que a média mensal de casos continua crescendo.
Infelizmente apenas alguns Estados disponibilizam os dados de estelionatos ou
de crimes digitais, mas é bastante provável que o fenômeno seja nacional. Note
que a epidemia apenas exponenciou um fenômeno pré-existente, levando mais gente
a ficar em casa, acessando a internet através de computadores mais
desprotegidos do que nas empresas ou escolas.
Os crimes digitais podem englobar também
os furtos e roubos, mas os mais comuns são as diversas modalidades de
estelionatos, onde o crescimento é mais visível. O artigo 171 do Código Penal
define estelionato como “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em
prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício,
ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.”, com pena de 1 a 5 anos de reclusão
e multa. Mudança importante ocorreu em 2019, através da Lei 13.964 de 2019,
conhecida como Lei Anticrime, que estabeleceu que o crime de estelionato não é
mais de ação penal pública incondicionada, mas sim pública condicionada à
representação. Em outras palavras, deveríamos esperar uma diminuição no número
de casos reportados à justiça, mas presenciamos justamente o contrário. É
provável que o crescimento vertiginoso na quantidade de casos tenha induzido
esta mudança na legislação.
Para tentar conter o avanço do
fenômeno, o legislativo fez o de sempre, ou seja, procurou aumentar a pena para
o estelionato. O Congresso apresentou vários projetos como o 2068/20, PL
4554/20 e o Projeto de Lei nº 2905/2021, para aumentar as penas para o crime de
estelionato, com agravamento de pena “se a fraude é cometida com a utilização
de informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio
de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico
fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo.” Finalmente, uma
nova lei sobre o assunto (14.155) entrou em vigor em maio de 2021. https://www.in.gov.br/web/dou/-/lei-n-14.155-de-27-de-maio-de-2021-322698993. É preciso
uma analise rigorosa dos efeitos destas propostas, mas a julgar pelo gráfico
acima e pelo histórico dos “aumentos de pena” no país, a proposição não
intimidou muito os estelionatários...
É preciso também aprofundar o estudo
do fenômeno e pensar em medidas preventivas – alertas para a população, uso de
tecnologia, melhoria na investigação e monitoramento do problema, etc. - que vão além do aumento das penas. Uma
das dificuldades na prevenção ao estelionato é que existem dezenas de tipos
diferentes de golpes. Assim, por exemplo, segundo o Observatório de Segurança Pública
do Mato Grosso, os golpes mais comuns em 2021 foram a clonagem do Whatsapp
(27%), golpes por sites de comércio eletrônico e redes sociais (21%); transação financeira sem autorização do
titular, como o saque do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), auxílio
emergencial ou empréstimo (12%); boleto e código de barra falso (4%); cartão
clonado (4%); SMS ou Link falso que quando acessado furta os dados da vítima
(2%); outros golpes (cheque clonado, depósito com envelope vazio, documento
falso), com 2%; e golpe do motoboy (1%). Entre os golpes mais comuns, segundo a
FEBRABAN, estão o da “falsa reputação”, a pirâmide financeira, o golpe do falso
funcionário do banco, falso motoboy, falso leilão, o “pisching”, golpe do
extravio do cartão, do delivery, entre diversos outros.
Desnecessário dizer que o prejuízo
potencial para as vítimas destes golpes supera em muito os valores que podem
ser perdidos com o roubo de uma carteira ou mesmo de um carro ou residência. Para
o criminoso, a punição é menor e bem menos arriscada do que para roubo.
Tampouco é preciso intermediários para transformar o fruto do crime em
dinheiro. Com o processo de securitização, veículos e residências são cada vez
mais difíceis de roubar. Em resumo, mão é preciso ser um grande calculador
racional para entender a troca dos roubos pelo estelionato.
O aspecto positivo, se é que existe, é
que se realmente temos uma migração, então os crimes violentos de contato podem
entrar numa tendência duradoura de queda. Ainda é cedo para adiantar e talvez
estejamos apenas diante de um ciclo de queda, mas é possível que em alguns anos
o Brasil passe por algo parecido com que vem ocorrendo nos países
desenvolvidos, onde a criminalidade tem caído sistematicamente nos últimos 20
anos: homicídios, arrombamentos, roubos de veículos diminuíram intensamente na
Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão e
diversos outros em todo o mundo. A exceção por lá, como aqui, são os crimes
digitais e os roubos/furtos de celulares, que cresceram em muitos países. Estas
tendências são corroboradas não apenas pelos dados oficiais, mas também por
pesquisas de vitimização e fontes paralelas ao sistema de justiça. (Farrel,
2014; Farrel, 2018; Sidebotton, 2018; Matews, 2018).
Sempre teremos alguém querendo vender
o Pão de Açúcar e cartões de loteria premiada e gente inocente o suficiente
para pagar por eles. As novas tecnologias apenas abriram novos mercados para
uma prática milenar enquanto fecharam outros mercados, reforçando a proteção de
veículos e residências. Criminosos, como todos nós, se adaptam aos novos
tempos.
O brasileiro parece estar
relativamente menos preocupado com a situação da segurança pública, a julgar
por dois indicadores da pesquisa CNT/DMA. A pesquisa é realizada desde 2011, o
que permite alguma comparação temporal do tema.
Uma das perguntas do questionário
é sobre a expectativa para a situação da segurança pública no país para os
próximos seis meses. A maioria dos entrevistados na última edição de fevereiro
de 2022 (48,6%) acha que a situação vai ficar igual, enquanto 29,2% avaliam que
a situação vai melhorar. O que chama a atenção na última edição é a baixa
porcentagem (20,3%) dos que acham que a situação vai piorar ainda mais. Há oito
anos, os pessimistas chegaram a ser 45,7% dos entrevistados.
A série histórica mostra que o
otimismo com relação à segurança do início da gestão Bolsonaro (38,9% de vai
melhorar) caiu posteriormente no segundo ano do governo, mas foi aos poucos
crescendo progressivamente, de 18,5% em maio de 2020 até os 29,2% atuais. Se
não podemos dizer que o brasileiro está otimista com a situação de segurança,
os dados da pesquisa CNT sugerem que talvez estejam menos pessimistas.
Essa interpretação é corroborada
quando analisamos a questão sobre “quais setores precisam de melhorias no
Brasil”, onde o entrevistado pode escolher dois temas entre os sugeridos. A
questão da saúde aparece sempre em primeiro lugar, entre 71 e 88% das menções.
A educação é mencionada por metade dos entrevistados, com exceção da rodada de
janeiro de 2020, quando sobe para 66,5% das escolhas. O tema da segurança
pública costumava superar a preocupação com o emprego, principalmente no ano de
2014, pré crise econômica, onde apenas uma minoria mencionava o emprego como
uma preocupação, enquanto segurança preocupava mais de um terço dos
entrevistados. Porém, na última rodada, em fevereiro de 2022, a ordem dos temas
se inverte: enquanto o emprego continua como preocupação de um terço dos
entrevistados, a menção à segurança cai abruptamente para o menor patamar da
série, sendo mencionada por apenas 15,5% dos entrevistados. [1]
Trata-se de uma queda de 28% com relação à edição de 2020, um fenômeno digno de
estudo, se descartarmos as hipóteses de erro ou grandes mudanças metodológicas.
A série histórica é curta e intermitente e não permitem grandes ilações. Mas
analisadas em conjunto sugerem uma melhora na percepção de segurança da
população nos últimos anos.
Mas o que significa realmente a
melhora na percepção da segurança?
Sabe-se que percepção de
segurança nem sempre guarda relação com a evolução da criminalidade medida
pelas estatísticas de criminalidade e que é possível que eventualmente caminhem
em direções opostas. As pesquisas de vitimização já mostraram exaustivamente
que as pessoas que se sentem mais inseguras não são necessariamente as pessoas
mais vitimadas.
É possível que a expectativa da
situação de segurança e a avaliação dos setores que mais precisam de melhorias
sejam em parte somente um reflexo da aprovação geral do governo e que guardem
pouca relação com a evolução da criminalidade. Estudos mostram que a aprovação
da segurança depende em grande parte da avaliação geral do governo, embora em
alguns períodos elas se comportem de modo independente. Não é simples
interpretar o significado destes indicadores de “percepção de segurança”, pois
eles podem refletir em parte apenas uma avaliação genérica do governo de
plantão. São poucos os cidadãos que acompanham de fato as medidas tomadas pelos
governos ou as estatísticas criminais.
De todo modo, sabendo desta
relação entre aprovação genérica do governo e aprovação da segurança, chama ainda
mais a atenção que os indicadores de segurança da pesquisa CNT/MDA apresentem
esta melhora recente, quando a avaliação do governo atual é em geral negativa:
apenas 35% da população aprovam a atual gestão, segundo os dados na PoderData
de 17 de março de 2022. A pesquisa Exame/Ideia de 24/3 levantou que apenas 28%
do eleitorado avalia o governo como “ótimo ou bom”. Em 2019 e 2020 esta
porcentagem beirava os 50%, segundo os dados da CNI/Ibope.
Se a melhora dos indicadores
subjetivos de segurança não parecem refletir a aprovação geral do governo
(apesar do ligeiro aumento recente), será que estão relacionadas ao desempenho
da criminalidade?
Se não há uma correlação exata, espera-se
que as percepções sobre segurança sejam em longo prazo pelo menos congruentes
com a situação criminal tal qual mensurada pelos dados oficiais. A se basear
nas estatísticas criminais coletadas pelo Sinesp a partir dos dados enviados
pelas secretarias estaduais de segurança, a queda na sensação de insegurança é
congruente com a queda de alguns indicadores criminais nos últimos anos.
O pico da criminalidade no Brasil
parece ocorrer entre 2016 e 2017, depois de dois anos de aguda contração na
economia – com exceção dos estupros, que continuam a crescer até 2019.
Analisando por modalidade
criminal, vemos que Roubo a instituição financeira e tentativa de homicídio
caem desde 2015, Furto de veículos e roubo seguido de morte caem a partir de
2016, homicídios, lesão corporal seguida de morte, roubo de carga e roubo de
veículos a partir de 2017. Com relação a
2015, vemos que apenas estupros apresentam crescimento de 17,3% no período e
mesmo este delito apresentou queda nos últimos dois anos. Em média os crimes
caíram 31,3% no período e no caso de roubo de veículos, que já foi objeto de
análise em outro artigo, as quedas superam 40%.
Tratam-se, portanto, de quedas
abruptas e intensas, e que precedem quase sempre as atuais gestões federal e
estaduais. Diversas hipóteses têm sido aventadas para explicar o fenômeno –
mudanças demográficas, profissionalização do tráfico, melhorias na gestão das
polícias estaduais, melhorias nos sistemas de prevenção dos carros e casas,
migração das modalidades presenciais para virtuais de crimes (que não aparecem
nestas estatísticas), maiores investimentos, etc. Não é caso de aprofundá-las
aqui, mas em particular interpreto o fenômeno como uma regressão à média depois
do pico de 2017, quando o ciclo econômico recessivo de 2014-2016 provocou o
aumento intenso da criminalidade.
O objetivo aqui, contudo, é
apenas mostrar que parece existir uma congruência neste momento entre queda nos
indicadores criminais e queda na percepção de insegurança da população, pois a
percepção de segurança melhora, não obstante a relativamente baixa aprovação do
governo federal. O presidente é bastante identificado com o tema da segurança e
certamente procurará explorar esta conjuntura favorável em sua campanha
eleitoral.
[1] Na
última edição a pesquisa alterou ligeiramente as opções, incluindo “direito das
minorias”, que recebeu 6,8% dos votos. Parece improvável que pessoas que
apontavam antes segurança como preocupação tenham migrado para esta nova
categoria. Por que esta nova categoria roubaria especificamente votos das
pessoas antes preocupadas com segurança? O mais provável é que tenha ocorrido
uma diminuição real na preocupação com a segurança. Mas parte desta queda
abrupta pode ter ocorrido em função da inclusão desta nova categoria.