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terça-feira, 5 de julho de 2022
segunda-feira, 25 de abril de 2022
Migração dos crimes violentos de rua para crimes digitais
Em artigo recente mostrei como o pico
das séries criminais no Brasil parece ocorrer por volta de 2016 e 2017 - depois
de dois anos de aguda contração na economia. Analisando por modalidade
criminal, vimos que roubo a instituição financeira e tentativa de homicídio
caíram a parir de 2015, furto de veículos e roubo seguido de morte a partir de
2016, homicídios, lesão corporal seguida de morte, roubo de carga e roubo de
veículos desde 2017. (Kahn, 2022 – Sensação de insegurança e criminalidade em
queda. https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6912794055009542144/)
Discutimos também nos últimos anos em
diversos artigos algumas hipóteses para a queda dos homicídios no Brasil e que
podem se aplicar agora também aos demais crimes violentos, também em queda após
o pico de 2017, como temos mostrado: demografia, ciclos econômicos, regressão à
média, securitização responsiva, etc.
Entre as hipóteses mais plausíveis há
uma conjectura segundo a qual a migração dos crimes violentos para os crimes
digitais se deveria a mudanças de tecnologia, que por sua vez estariam
induzindo a mudanças na atividade de rotina. Entre estas mudanças tecnológicas estão
a proliferação de celulares, o acesso praticamente universal à internet e o
aumento do tempo dedicado pelos jovens aos jogos on-line, redes sociais e serviços
de streaming. Estas novas rotinas
produziram recentemente mudanças bruscas no estilo de vida, diminuindo a
motivação dos agressores e as oportunidades de contato entre agressores e
vítimas.
A teoria do crime como atividade de
rotina diz que para que um crime ocorra é preciso que ofensor e vítima se
encontrem num determinado espaço (pouco protegido) e tempo. Pelo menos esse é o
caso para os crimes de contato. O avanço das novas tecnologias impõe uma
revisão da teoria uma vez que o encontro físico entre agressor e vítima
tornou-se secundário. A hipótese é que a proliferação de celulares,
especialmente entre os jovens, é tão intensa e seu uso tão intensivo, que estes
encontros entre ofensores e vítimas estão deixando de ocorrer com tanta
frequência como antes. (por outro lado, é uma boa explicação para o crescimento
do roubo e furto de celulares). Menos interação social implica em menos
conflitos e, por conseguinte, menos homicídios. O fenômeno é mundial e aparentemente
também se observa em algumas partes do Brasil, de uns anos para cá.
Vejamos alguns dados sobre o fenômeno.
O celular é a principal forma de conexão com a internet e redes sociais.
Segundo a pesquisa Global Digital Repport de 2022, o tempo médio diário global
dispendido nos celulares é de 4 horas e 48 minutos. Os brasileiros lideram o
ranking de uso, com uma média de 5 horas e 25 minutos. Segundo a pesquisa, no
Brasil, 77% da população acessam a Internet e o uso é intenso. Enquanto o tempo
médio diário global na Internet é de 6 horas e 58 minutos, no Brasil o tempo
online é 10 horas e 19 minutos diários, atrás apenas da África do Sul e das
Filipinas. Desse total, as pessoas dedicam em média no mundo, 2 horas e 27
minutos às redes sociais, enquanto no Brasil, chegamos a 3 horas e 41 minutos
diários. As pessoas ficam online principalmente para buscar informações (61%),
manter contato com familiares e amigos (55%) e ficar atualizado (53%).
Em
artigo de 2019 comentei este intenso crescimento, identificado pelo IBGE e a
hipótese da migração: “De acordo com os dados da pesquisa TIC do IBGE de 2018,
em 2008 apenas 34% da população brasileira tinha acesso à
internet. Dez anos depois, este número dobrou. Em 2018, 69,8% da
população tem acesso a internet. Nas classes A e B esta porcentagem supera os
90%. Isto representa 127 milhões de pessoas ou 46,5 milhões de domicílios com
acesso a internet. Proporcionalmente, o crescimento foi maior nas classes C,D e
E, embora a penetração absoluta ainda seja menor nos grupos de renda mais
baixos.
Entre
os jovens de 20 a 24 anos 88,4% tem acesso à internet e a grande maioria, 97%,
acessa a internet pelo smartphone. No sudeste, 76,5% utilizam a internet, em
comparação com 60,1% no Norte e 58,4% no Nordeste. Esta distribuição se encaixa
no fato da criminalidade ter caído mais no Sudeste e menos no Norte e Nordeste.
Não
só o acesso à internet cresceu como também o tempo que as pessoas passam
conectadas na rede, especialmente os jovens. Segundo a pesquisa We are
social de 2019, o brasileiro passa em média 9 horas e vinte minutos
conectados a internet, por dia. Deste tempo, 3:30 minutos são gastos acessando
as redes sociais. Somos o segundo país no ranking mundial de tempo gasto na
internet. Regra geral, nações em desenvolvimento passam mais tempo na internet
do que nações desenvolvidas. Isso ocorre porque eles têm população mais jovem,
cuja permanência diária na internet é maior do que a média da população.
O
elevado nível de acesso e o tempo gasto na internet explicam porque o Brasil
está nos primeiros lugares do ranking de crimes cibernéticos do mundo (somo
2,8% da população mundial, mas cerca de 5% da origem dos ataques cibernéticos
no mundo) e ajuda a entender também a predileção dos criminosos, em
geral jovens, pelos smartphones. A hipótese é de que este aumento dos
celulares, do acesso à internet e tempo gasto na internet, deslocou parte dos
criminosos para os crimes digitais”. (Kahn, 2019.Ladrões e vítimas no
ciberespaço: internet, mudança de estilos de vida e queda dos roubos, in
Segurança Pública: diagnósticos e prognósticos - 2019 eBook Kindle). No artigo
mostrei como a queda do roubo de veículos nos Estados guardava uma correlação inversa elevada
(r=-.71) com a porcentagem de jovens com acesso à internet.
Os dados de explosão dos estelionatos
no país reforçam a ideia de que é possível que estejamos passando de uma
transição dos crimes de contato – que são potencialmente mais violentos – para
os crimes digitais. Se a hipótese for correta, deveríamos observar uma
diminuição da criminalidade violenta nas regiões onde o acesso à internet foi
mais intenso e precoce. Embora os crimes digitais não tenham fronteira
geográfica, é uma possível explicação para o fato dos homicídios e outros
crimes terem começado a cair antes no Sudeste e apenas tardiamente no Nordeste
e Norte.
Para uma minoria de ofensores
conectados e mal intencionados, abriu-se um novo e imenso mercado de
oportunidades criminais. Há uma discussão sobre se se trata de antigos
criminosos que passaram a adotar um novo modus
operandi ou de uma nova geração de criminosos, mas não temos informação
suficiente para esclarecer o ponto. Tampouco sobre se estamos lidando com
criminosos isolados e eventuais ou quadrilhas organizadas. Mal começamos a
mensurar a magnitude do fenômeno e ainda a menos a estudar suas
características.
No Rio de Janeiro os estelionatos aumentaram
103% entre 2018 e 2021, no Rio Grande do Sul 274%, no Espírito Santo 230%, no
DF 186% e em Santa Catarina, nada menos que 288% no mesmo período. O
crescimento médio nos cinco estados foi de 201% no período, quando os
estelionatos passam de 100 para 300 mil casos anuais. Dados dos dois primeiros
meses de 2022 sugerem que a média mensal de casos continua crescendo.
Infelizmente apenas alguns Estados disponibilizam os dados de estelionatos ou
de crimes digitais, mas é bastante provável que o fenômeno seja nacional. Note
que a epidemia apenas exponenciou um fenômeno pré-existente, levando mais gente
a ficar em casa, acessando a internet através de computadores mais
desprotegidos do que nas empresas ou escolas.
Os crimes digitais podem englobar também
os furtos e roubos, mas os mais comuns são as diversas modalidades de
estelionatos, onde o crescimento é mais visível. O artigo 171 do Código Penal
define estelionato como “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em
prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício,
ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.”, com pena de 1 a 5 anos de reclusão
e multa. Mudança importante ocorreu em 2019, através da Lei 13.964 de 2019,
conhecida como Lei Anticrime, que estabeleceu que o crime de estelionato não é
mais de ação penal pública incondicionada, mas sim pública condicionada à
representação. Em outras palavras, deveríamos esperar uma diminuição no número
de casos reportados à justiça, mas presenciamos justamente o contrário. É
provável que o crescimento vertiginoso na quantidade de casos tenha induzido
esta mudança na legislação.
Para tentar conter o avanço do
fenômeno, o legislativo fez o de sempre, ou seja, procurou aumentar a pena para
o estelionato. O Congresso apresentou vários projetos como o 2068/20, PL
4554/20 e o Projeto de Lei nº 2905/2021, para aumentar as penas para o crime de
estelionato, com agravamento de pena “se a fraude é cometida com a utilização
de informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio
de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico
fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo.” Finalmente, uma
nova lei sobre o assunto (14.155) entrou em vigor em maio de 2021. https://www.in.gov.br/web/dou/-/lei-n-14.155-de-27-de-maio-de-2021-322698993. É preciso
uma analise rigorosa dos efeitos destas propostas, mas a julgar pelo gráfico
acima e pelo histórico dos “aumentos de pena” no país, a proposição não
intimidou muito os estelionatários...
É preciso também aprofundar o estudo
do fenômeno e pensar em medidas preventivas – alertas para a população, uso de
tecnologia, melhoria na investigação e monitoramento do problema, etc. - que vão além do aumento das penas. Uma
das dificuldades na prevenção ao estelionato é que existem dezenas de tipos
diferentes de golpes. Assim, por exemplo, segundo o Observatório de Segurança Pública
do Mato Grosso, os golpes mais comuns em 2021 foram a clonagem do Whatsapp
(27%), golpes por sites de comércio eletrônico e redes sociais (21%); transação financeira sem autorização do
titular, como o saque do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), auxílio
emergencial ou empréstimo (12%); boleto e código de barra falso (4%); cartão
clonado (4%); SMS ou Link falso que quando acessado furta os dados da vítima
(2%); outros golpes (cheque clonado, depósito com envelope vazio, documento
falso), com 2%; e golpe do motoboy (1%). Entre os golpes mais comuns, segundo a
FEBRABAN, estão o da “falsa reputação”, a pirâmide financeira, o golpe do falso
funcionário do banco, falso motoboy, falso leilão, o “pisching”, golpe do
extravio do cartão, do delivery, entre diversos outros.
Desnecessário dizer que o prejuízo
potencial para as vítimas destes golpes supera em muito os valores que podem
ser perdidos com o roubo de uma carteira ou mesmo de um carro ou residência. Para
o criminoso, a punição é menor e bem menos arriscada do que para roubo.
Tampouco é preciso intermediários para transformar o fruto do crime em
dinheiro. Com o processo de securitização, veículos e residências são cada vez
mais difíceis de roubar. Em resumo, mão é preciso ser um grande calculador
racional para entender a troca dos roubos pelo estelionato.
O aspecto positivo, se é que existe, é
que se realmente temos uma migração, então os crimes violentos de contato podem
entrar numa tendência duradoura de queda. Ainda é cedo para adiantar e talvez
estejamos apenas diante de um ciclo de queda, mas é possível que em alguns anos
o Brasil passe por algo parecido com que vem ocorrendo nos países
desenvolvidos, onde a criminalidade tem caído sistematicamente nos últimos 20
anos: homicídios, arrombamentos, roubos de veículos diminuíram intensamente na
Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão e
diversos outros em todo o mundo. A exceção por lá, como aqui, são os crimes
digitais e os roubos/furtos de celulares, que cresceram em muitos países. Estas
tendências são corroboradas não apenas pelos dados oficiais, mas também por
pesquisas de vitimização e fontes paralelas ao sistema de justiça. (Farrel,
2014; Farrel, 2018; Sidebotton, 2018; Matews, 2018).
Sempre teremos alguém querendo vender
o Pão de Açúcar e cartões de loteria premiada e gente inocente o suficiente
para pagar por eles. As novas tecnologias apenas abriram novos mercados para
uma prática milenar enquanto fecharam outros mercados, reforçando a proteção de
veículos e residências. Criminosos, como todos nós, se adaptam aos novos
tempos.
sexta-feira, 25 de março de 2022
Sensação de insegurança e criminalidade em queda
O brasileiro parece estar
relativamente menos preocupado com a situação da segurança pública, a julgar
por dois indicadores da pesquisa CNT/DMA. A pesquisa é realizada desde 2011, o
que permite alguma comparação temporal do tema.
Uma das perguntas do questionário
é sobre a expectativa para a situação da segurança pública no país para os
próximos seis meses. A maioria dos entrevistados na última edição de fevereiro
de 2022 (48,6%) acha que a situação vai ficar igual, enquanto 29,2% avaliam que
a situação vai melhorar. O que chama a atenção na última edição é a baixa
porcentagem (20,3%) dos que acham que a situação vai piorar ainda mais. Há oito
anos, os pessimistas chegaram a ser 45,7% dos entrevistados.
A série histórica mostra que o
otimismo com relação à segurança do início da gestão Bolsonaro (38,9% de vai
melhorar) caiu posteriormente no segundo ano do governo, mas foi aos poucos
crescendo progressivamente, de 18,5% em maio de 2020 até os 29,2% atuais. Se
não podemos dizer que o brasileiro está otimista com a situação de segurança,
os dados da pesquisa CNT sugerem que talvez estejam menos pessimistas.
Essa interpretação é corroborada
quando analisamos a questão sobre “quais setores precisam de melhorias no
Brasil”, onde o entrevistado pode escolher dois temas entre os sugeridos. A
questão da saúde aparece sempre em primeiro lugar, entre 71 e 88% das menções.
A educação é mencionada por metade dos entrevistados, com exceção da rodada de
janeiro de 2020, quando sobe para 66,5% das escolhas. O tema da segurança
pública costumava superar a preocupação com o emprego, principalmente no ano de
2014, pré crise econômica, onde apenas uma minoria mencionava o emprego como
uma preocupação, enquanto segurança preocupava mais de um terço dos
entrevistados. Porém, na última rodada, em fevereiro de 2022, a ordem dos temas
se inverte: enquanto o emprego continua como preocupação de um terço dos
entrevistados, a menção à segurança cai abruptamente para o menor patamar da
série, sendo mencionada por apenas 15,5% dos entrevistados. [1]
Trata-se de uma queda de 28% com relação à edição de 2020, um fenômeno digno de
estudo, se descartarmos as hipóteses de erro ou grandes mudanças metodológicas.
A série histórica é curta e intermitente e não permitem grandes ilações. Mas
analisadas em conjunto sugerem uma melhora na percepção de segurança da
população nos últimos anos.
Mas o que significa realmente a
melhora na percepção da segurança?
Sabe-se que percepção de
segurança nem sempre guarda relação com a evolução da criminalidade medida
pelas estatísticas de criminalidade e que é possível que eventualmente caminhem
em direções opostas. As pesquisas de vitimização já mostraram exaustivamente
que as pessoas que se sentem mais inseguras não são necessariamente as pessoas
mais vitimadas.
É possível que a expectativa da
situação de segurança e a avaliação dos setores que mais precisam de melhorias
sejam em parte somente um reflexo da aprovação geral do governo e que guardem
pouca relação com a evolução da criminalidade. Estudos mostram que a aprovação
da segurança depende em grande parte da avaliação geral do governo, embora em
alguns períodos elas se comportem de modo independente. Não é simples
interpretar o significado destes indicadores de “percepção de segurança”, pois
eles podem refletir em parte apenas uma avaliação genérica do governo de
plantão. São poucos os cidadãos que acompanham de fato as medidas tomadas pelos
governos ou as estatísticas criminais.
De todo modo, sabendo desta
relação entre aprovação genérica do governo e aprovação da segurança, chama ainda
mais a atenção que os indicadores de segurança da pesquisa CNT/MDA apresentem
esta melhora recente, quando a avaliação do governo atual é em geral negativa:
apenas 35% da população aprovam a atual gestão, segundo os dados na PoderData
de 17 de março de 2022. A pesquisa Exame/Ideia de 24/3 levantou que apenas 28%
do eleitorado avalia o governo como “ótimo ou bom”. Em 2019 e 2020 esta
porcentagem beirava os 50%, segundo os dados da CNI/Ibope.
Se a melhora dos indicadores
subjetivos de segurança não parecem refletir a aprovação geral do governo
(apesar do ligeiro aumento recente), será que estão relacionadas ao desempenho
da criminalidade?
Se não há uma correlação exata, espera-se
que as percepções sobre segurança sejam em longo prazo pelo menos congruentes
com a situação criminal tal qual mensurada pelos dados oficiais. A se basear
nas estatísticas criminais coletadas pelo Sinesp a partir dos dados enviados
pelas secretarias estaduais de segurança, a queda na sensação de insegurança é
congruente com a queda de alguns indicadores criminais nos últimos anos.
O pico da criminalidade no Brasil
parece ocorrer entre 2016 e 2017, depois de dois anos de aguda contração na
economia – com exceção dos estupros, que continuam a crescer até 2019.
Analisando por modalidade
criminal, vemos que Roubo a instituição financeira e tentativa de homicídio
caem desde 2015, Furto de veículos e roubo seguido de morte caem a partir de
2016, homicídios, lesão corporal seguida de morte, roubo de carga e roubo de
veículos a partir de 2017. Com relação a
2015, vemos que apenas estupros apresentam crescimento de 17,3% no período e
mesmo este delito apresentou queda nos últimos dois anos. Em média os crimes
caíram 31,3% no período e no caso de roubo de veículos, que já foi objeto de
análise em outro artigo, as quedas superam 40%.
Tratam-se, portanto, de quedas
abruptas e intensas, e que precedem quase sempre as atuais gestões federal e
estaduais. Diversas hipóteses têm sido aventadas para explicar o fenômeno –
mudanças demográficas, profissionalização do tráfico, melhorias na gestão das
polícias estaduais, melhorias nos sistemas de prevenção dos carros e casas,
migração das modalidades presenciais para virtuais de crimes (que não aparecem
nestas estatísticas), maiores investimentos, etc. Não é caso de aprofundá-las
aqui, mas em particular interpreto o fenômeno como uma regressão à média depois
do pico de 2017, quando o ciclo econômico recessivo de 2014-2016 provocou o
aumento intenso da criminalidade.
O objetivo aqui, contudo, é
apenas mostrar que parece existir uma congruência neste momento entre queda nos
indicadores criminais e queda na percepção de insegurança da população, pois a
percepção de segurança melhora, não obstante a relativamente baixa aprovação do
governo federal. O presidente é bastante identificado com o tema da segurança e
certamente procurará explorar esta conjuntura favorável em sua campanha
eleitoral.
[1] Na
última edição a pesquisa alterou ligeiramente as opções, incluindo “direito das
minorias”, que recebeu 6,8% dos votos. Parece improvável que pessoas que
apontavam antes segurança como preocupação tenham migrado para esta nova
categoria. Por que esta nova categoria roubaria especificamente votos das
pessoas antes preocupadas com segurança? O mais provável é que tenha ocorrido
uma diminuição real na preocupação com a segurança. Mas parte desta queda
abrupta pode ter ocorrido em função da inclusão desta nova categoria.
quinta-feira, 24 de março de 2022
Novas regras para a elaboração dos Planos Municipais de Segurança
Nas últimas décadas, parece ter havido um alargamento da questão de segurança pública tanto do ponto de vista conceitual quanto do administrativo: de problema estritamente policial passou a questão multidisciplinar, envolvendo diversos níveis e instâncias administrativas. E este processo de alargamento ocorreu depois da Constituição de 1988, que em nada alterou o papel da Federação nem dos municípios na esfera da segurança, apesar da tendência municipalista em diversas outras esferas.
Em nível federal, são marcos desse processo de
alargamento: a criação da Secretaria
Nacional de Segurança Pública (Senasp) em 1995, do INFOSEG (Sistema de informações criminais da
Secretaria Nacional de Segurança Pública) do Conselho Nacional de
Segurança Pública (Conasp) e a elaboração do Plano Nacional de Segurança
Pública em 2000 – que trouxe consigo o estabelecimento do Fundo Nacional de
Segurança Publica – com recursos anuais em torno de 300 milhões de reais para
investimento em recursos humanos e materiais das Polícias. Com relação ao Fundo
Nacional de Segurança Pública, assinale-se que ele abriu a possibilidade para
que não apenas as Polícias estaduais, mas também os municípios requisitassem
recursos do Governo federal para projetos de segurança. Isto significa que o
Governo federal viu como legítima e procurou incentivar desde então a atuação
dos governos locais em segurança.
O acesso aos recursos pelos municípios é vinculado à
apresentação de projetos congruentes com a política de segurança pública do
Governo federal e, para tanto, deve atender algumas solicitações específicas,
entre elas a elaboração de um Plano Municipal de Segurança. Neste sentido, a
Senasp tem orientado os municípios para que os Planos sejam compostos de
diagnósticos (área geográfica, problemas da região,
dos principais crimes e ocorrências policiais, características sociais,
econômicas etc.) dos problemas existentes e de ações relevantes para seu
enfrentamento.
Outra característica sugerida pela Senasp é a ênfase
na prevenção. O governo federal passou a adotar a ótica preventiva desde 2001
com o pioneiro programa Piaps (Plano
de Integração e Acompanhamento dos Programas Sociais de Prevenção à Violência)
gerenciado pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência durante a
gestão do general Cardoso. Os governos seguintes mantiveram esta postura
preventiva e visão do município como ente complementar no esforço de redução da
criminalidade. Assim, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania
(Pronasci), teve como meta a articulação de políticas específicas de segurança
com ações sociais. De acordo com o Ministério da Justiça, os eixos centrais do
programa voltam-se para a valorização dos profissionais de segurança pública, a
reestruturação do sistema penitenciário, o combate à corrupção policial e o
envolvimento da comunidade na prevenção da violência.
Finalmente, nesta linha preventiva e colocado em
prática pelo atual governo temos o projeto Em Frente Brasil, de iniciativa do
Ministério da Justiça. Trata-se de um projeto piloto iniciado em cinco
municípios com o objetivo de reduzir a criminalidade violenta, através de uma
nova metodologia que aposta na prevenção social e repressão qualificada,
integração entre os diversos atores em diferentes níveis de governo,
diagnóstico local da criminalidade, contratos locais com os municípios, etc.
Detalhes sobre o projeto podem ser facilmente obtidos no site do Ministério da
Justiça. (https://www.justica.gov.br/news/collective-nitf-content-1567102301.36).
A criação destes novos órgãos, práticas, projetos e
fundos na última década evidenciam, portanto, claramente a intenção do Governo
federal de trazer para si parte da responsabilidade pela questão da segurança
pública. Os municípios são vistos como parceiros neste esforço, principalmente
através de ações preventivas. Além disso, traço comum nos programas, as ações
devem ser precedidas de diagnósticos, ter foco territorial e demográfico e
devem ser avaliadas com evidências. De modo geral, do PIAPS ao programa Em
Frente Brasil, estas tem sido as diretrizes dos governos federais com relação
ao papel dos municípios na segurança.
O governo federal publicou em 2022 um novo documento
atualizando como funcionará o novo Plano Nacional de Segurança Pública, com
diversas menções e regras para os municípios que quiserem receber recursos
federais. O termo “município” é mencionado 34 vezes no texto e entre outros
conceitos o PNSP menciona que os Estados e Municípios são parte do SUSP e
protagonistas no processo de construção de uma sociedade mais segura e que os
entes federativos são autônomos. Reconhece que boa parte das ações preventivas
de segurança pública está sob responsabilidade dos estados e municípios e
explicita que os entes federativos participam da governança e da avaliação do
PNSP.
Entre as responsabilidades assumidas pelo governo
federal com relação aos demais entes federativos estão, entre outras tarefas: “desenvolver,
apoiar e implementar programas e projetos destinados às ações preventivas e de
salvaguarda, e conjugar esforços de setores públicos e privados, inclusive de
polícia comunitária e de atuação municipal; “padronizar tecnologicamente e
integrar as bases de dados sobre segurança pública entre União, Estados, Distrito
Federal e Municípios por meio da implementação do SINESP” e “estimular a
padronização da formação, da capacitação e da qualificação dos profissionais de
segurança pública, respeitadas as especificidades e as diversidades regionais,
em consonância com esta Política, nos âmbitos federal, estadual, distrital e
municipal”.
Finalmente, há menções diretas no PNSP ao papel do
governo federal na ajuda aos Municípios para que elaborem seus Planos e
diagnósticos locais. Especificamente, o PNSP estipula que cabe ao governo
federal “orientar os entes federativos quanto ao diagnóstico, elaboração,
conteúdo e forma dos planos de segurança pública e defesa social, visando o
alinhamento com a PNSPDS e o PNSP” e “apoiar, tanto financeira quanto
metodologicamente, a elaboração de planos estratégicos de segurança pública e
defesa social dos entes federativos integrantes do Sistema Único de Segurança
Pública - Susp, alinhados ao Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa
Social 2021-2030”. A ideia é, portanto que os Planos Municipais estejam alinhados
aos objetivos gerais do Plano Nacional, ainda que possam incluir outros
objetivos.
Mas se o PNSP se propõe a auxiliar os municípios, por
outro lado também estipula, como de costume, algumas exigências. Os detalhes do
processo de envio e avaliação dos Planos não estão plenamente estabelecidos,
mas sabe-se que os Planos Municipais serão analisados pelo Ministério da
Justiça e serão aprovados ou não, para efeito de recebimento de recursos, somente
se cumprirem alguns requisitos.
Entre outros, os Planos Municipais deverão conter:
1. Diagnóstico
da segurança pública no contexto do ente federativo;
2. Descrição
do método utilizado para elaboração do plano de segurança pública e defesa
social do ente federativo;
3. Alinhamento
do plano de segurança pública e defesa social do ente federativo com o
planejamento estratégico e com o orçamento do ente federativo;
4. Fontes de
financiamento do plano de segurança pública e defesa social;
5. Período de
vigência do plano de segurança pública e defesa social;
6. Ações
estratégicas com o detalhamento dos responsáveis, dos prazos e do alinhamento
com as ações estratégicas do Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa
Social 2021-2030;
7. Metas e
indicadores relacionados às ações estratégicas do plano de segurança pública e
defesa social do ente federativo;
8.
Monitoramento e avaliação do plano de segurança pública e defesa social do ente
federativo, com o detalhamento dos padrões de controle e dos ciclos de
monitoramento alinhados cronologicamente com o ciclo de monitoramento do Plano
Nacional de Segurança Pública e Defesa Social 2021-2030;
9. Estrutura
de governança do plano de segurança pública e defesa social do ente federativo;
O Plano Nacional estipula ainda uma série de metas e
indicadores a serem atingidas pelo governo federal até 2030 e que os Planos
Municipais também devem trazer suas metas e indicadores. Algumas delas não tem
relação com a atuação municipal, como por exemplo, as metas relativas ao
sistema prisional. Mas outras metas e indicadores criminais, quando cabíveis,
poderiam ser adotados também pelos municípios. O quadro abaixo traz algumas
destas metas quantitativas que os Planos Municipais podem adotá-las, se ainda
não atingidas.
·
Meta 1: Reduzir a taxa nacional de homicídios para abaixo de 16 mortes
por 100 mil habitantes até 2030
·
Meta 2: Reduzir a taxa nacional de lesão corporal seguida de morte para
abaixo de 0,30 morte por 100 mil habitantes até 2030
·
Meta 3: Reduzir a taxa nacional de latrocínio para abaixo de 0,70 morte
por 100 mil habitantes até 2030.
·
Meta 4: Reduzir a taxa nacional de mortes violentas de mulheres para
abaixo de 2 mortes por 100 mil mulheres até 2030
·
Meta 5: Reduzir a taxa nacional de mortes no trânsito28 para abaixo de 9
mortes por 100 mil habitantes até 2030.
·
Meta 6: Reduzir o número absoluto de vitimização de profissionais de
segurança pública em 30% até 2030
·
Meta 7: Reduzir o número absoluto de suicídio de profissionais de
segurança pública em 30% até 2030
·
Meta 8: Reduzir a taxa de furto
de veículos para abaixo de 140 ocorrências por 100 mil veículos até 2030.
·
Meta 9: Reduzir a taxa de roubo de veículos para abaixo de 150
ocorrências por 100 mil veículos até 2030
Uma vantagem da adoção
destas metas, além da padronização e comparabilidade com outros municípios e
Estado, é que os indicadores serão disponibilizados em nível municipal pelo
governo federal. Caso o município já esteja dentro da meta, ele poderia adotar,
alternativamente, a mesma taxa anual de redução do indicador adotada pelo governo
federal, ou ainda estipular sua própria taxa, já que a redução é relativamente
mais fácil para os municípios mais violentos e mais difícil para aqueles que já
reduziram a criminalidade e violência a níveis menores.
O PSD administra mais
de 500 cidades em todo o país e muitas delas atuam na esfera de segurança
através das Guardas, secretarias de segurança e projetos preventivos das mais
diferentes áreas municipais. É importante ficar de olho, portanto, nas novas
regras e conceitos estabelecidos pelo governo federal. Estas regras e conceitos
devem orientar os futuros Planos Municipais de Segurança e quem quiser contar
com dinheiro da União, precisará levar em conta as regras do jogo.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
segunda-feira, 20 de dezembro de 2021
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
Explosão da criminalidade ou ano base atípico?
Explosão da criminalidade ou ano base atípico?
Ouvi recentemente um conceituado
comentarista no rádio alarmado com as taxas de crescimento criminal em São
Paulo em outubro, comparando com o ano anterior. Especialista em seguros, o
comentarista alertava que se a Secretaria de Segurança Pública não fizesse
nada, as seguradoras seriam obrigadas a aumentar o valor dos seguros de
veículos, diante da explosão da criminalidade.
Não tenho mandato para defender a
SSP – embora ainda faça parte do Conselho Estadual de Segurança – mas o alarde
é parcialmente injusto. Tecnicamente, a variação explosiva dos índices de 2002
para 2021 pode ser constatada e não há erro formal no cálculo do comentarista.
Mas os manuais de estatísticas
nos ensinam - inclusive o que publiquei
quando coordenador de análise da secretaria – que ao comparar períodos não
devemos usar como período base um momento que seja atípico, tanto para cima
quando para baixo.
E, como todos sabemos, o ano de 2020
esteve longe de ser típico, pelo menos desde os meados de fevereiro. A epidemia
provocou mudanças bruscas e repentinas na rotina e diversos fenômenos sociais e
econômicos foram fortemente afetados por essa mudança de rotina. Como eu e
dezenas de outros tivemos a oportunidade de mostrar, a epidemia produziu
alterações significativas em boa parte dos crimes, em geral, atuando para
reduzi-los drasticamente. Crimes são “atividades de rotina“ e estão altamente
correlacionados às oportunidades, como a disponibilidade de alvos. Antes mesmos das avaliações de impacto, já antecipávamos
que este enorme experimento natural fosse produzir grandes impactos nas séries
criminais. (assim como já sabemos que a evasão escolar, desemprego e aumento de
armas em circulação cobrarão seu preço no futuro).
Igualmente, antecipávamos que
mais cedo ou mais tarde, parte da tendência anterior retornaria à média, uma
vez que a rotina se reestabelecesse. Muitos crimes, assim, se movimentariam na
forma de “V” ou “U’, conforme o retorno fosse mais rápido ou vagaroso. Alguns
ainda apresentam forma de “L” e não retornaram ao patamar anterior. A sucessão de ondas e de aberturas e
fechamentos da economia e das atividades sociais poderia provocar movimentos em
“W” e assim por diante. Qualquer que
fosse o movimento, ficou claro que as séries históricas de crimes ficariam
bastante prejudicadas para fins de análise. Para garantir alguma comparabilidade,
sugeri que as taxas fossem calculadas a partir da população em circulação nas
ruas e não com base na população residente: calculadas desta forma, algumas
taxas que pareciam ter baixado na verdade tiveram risco relativo aumentado.
O fato é que os analistas
precisarão decidir daqui por diante – e não apenas os analistas criminais, mas
também as demais áreas mais afetadas pelo COVID – como farão para garantir um
mínimo de comparabilidade nas séries históricas. A alternativa mais simples talvez
seja apenas ignorar os dados coletados durante a epidemia (quando começa e
quando termina é algo que precisaria ser analisado localmente). Em suma, adotar
como período base o ano de 2019.
No exemplo abaixo tomamos as
estatísticas criminais de São Paulo, de janeiro a outubro de cada ano, e
analisamos as variações em 2021, primeiro tomando o ano de 2020 como base e
depois adotando o ano de 2019 como base. As tendências, como esperado, são
bastante distintas em alguns casos.

Comparando como fez o
comentarista os dados de 2021 com 2020, vemos um aumento de 9,4% no total de
crimes, depois de uma queda abrupta de 21,7% no ano anterior. Furtos outros e
furto de veículos – que foram bastante afetados durante a epidemia – mostram crescimento
entre 17 e 20% neste ano. Roubo de veículos crescem 3,1% e roubos outros 2,7%.
Em queda digna de nota em 2021, apenas os homicídios dolosos (-3,2%) e os
latrocínios (-9,5%). Curiosamente, os dois crimes que tiveram um ligeiro
crescimento durante a pandemia.
O que acontece quando retiramos o
ano de 2020 e utilizamos 2019 como base? Como esperado, as tendências são
bastante diferentes: ao invés de subir, observa-se uma queda geral no total de
crimes (-14,4%). Furtos e furtos de veículos têm quedas de 14% e os roubos de
veículos – preocupação do nosso comentarista – caem nada menos do que 31%. (sim,
usem este dado se a seguradora quiser aumentar o valor do seu seguro).

Os homicídios apresentam um leve
aumento da ordem de 2,5% e os latrocínios uma que da -6,6%). Ao contrário do
quadro anterior, todos os crimes tem queda, com a exceção de dois.
Como se observa, há uma enorme
diferença na interpretação das tendências criminas, conforme adotemos 2019 ou
2020 como ano base de comparação para as variações. A comparação com 2020 é
formalmente correta, mas provavelmente injusta. Creio que a melhor recomendação
prática seja calcular as variações das duas maneiras e incluir uma grande nota
de rodapé justificando e explicando a excepcionalidade do período da pandemia.
De todo modo, é importante fornecer o quadro completo para que os agentes possam
tirar suas próprias conclusões sobre a situação. E isto não apenas com as
estatísticas de criminalidade, mas com as econômicas, sociais, sanitárias e
todas que tendem a flutuar no curto prazo e foram afetadas pelas mudanças na
rotina.
Omitir a epidemia pode induzir a
erro. Pelo menos nos meus modelos, 2020 e o período mais sério da epidemia
sempre serão considerados “outliers” ou pontos fora da curva que precisarão ser
modelados. Se isso não foi um “outlier”, não sei o que seria, talvez um cataclismo
nuclear. Caso contrário, nossas
predições (além do bolso) serão as grandes prejudicadas.
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