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quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Da participação das Forças Armadas na Segurança Pública: nem panaceia nem golpe de estado
Da participação das Forças Armadas na Segurança Pública: nem panaceia nem golpe de estado
Os tanques voltaram, mais uma vez, a frequentar as ruas do Rio de Janeiro desde de julho último. A paisagem não é exatamente nova. Nos últimos 30 anos, as Forças Armadas foram chamadas para mais de uma centena de operações de garantia da lei e da ordem, diversas delas no próprio Rio de Janeiro, como durante as Olimpíadas, Copa do Mundo e outros grandes eventos. E o Rio não é exceção: São Paulo, ao que consta, é o único Estado que nunca solicitou o apoio das Forças Armadas para segurança pública.
As pesquisas sugerem que os cariocas, assustados com o crescimento da violência, apoiam a medida e acreditam que a presença dos soldados na rua diminui a criminalidade e aumenta a sensação de segurança. Não existem dados recentes, mas durante a Operação Rio, em meados dos anos 90, nada menos do que 89% dos cariocas aprovavam o uso das Forças Armadas no combate ao tráfico de drogas. A população aprova, os governos estaduais querem distribuir o ônus do fracasso na segurança pública e o governo federal quer mostrar que faz algo pela segurança.
Mas o que os militares acham disso? Pesquisa de doutorado da USP realizada em 2010 (Entre a Cooperação e a Dissuasão: políticas de defesa e percepções militares na América do Sul, Oscar Medeiros Filho) com estudantes das escolas militares sugere que as novas gerações de oficiais acham que o envolvimento dos militares na segurança tende a ser cada vez maior (84,6%) e que é viável (64%). Com a diminuição do risco das guerras convencionais, os futuros militares sentem a necessidade de novas missões para justificar seu papel na sociedade, como operações de paz, projetos sociais ou segurança interna: luta contra o terrorismo, contra o crime organizado, narcotráfico, tráfico de seres humanos, contrabando de armas e munições, delitos ambientais, etc. Os mais antigos temem a cooptação da tropa pelo crime organizado, a insegurança jurídica, o desgaste pela baixa produtividade das operações, os custos, a perda da reputação na eventualidade de ações abusivas ou que resultem em mortes. Mas missão dada é missão cumprida e como a penúria orçamentária é grande, os recursos adicionais podem ser importantes para amenizar a situação, exercitar a tropa e encher a gasolina dos tanques.
Se existe alguma evidência de que a população e os oficiais mais novos apoiam a iniciativa e de que a presença do exército contribui para a diminuir a sensação de insegurança, não existem dados conclusivos sobre os efeitos das operações de garantia da lei e da ordem (GLO) sobre os índices de criminalidade. Os dados mais recentes do Instituto de Segurança Pública, publicados em agosto, mostram um crescimento de 50% dos roubos no Rio em 2017, comparado ao mesmo período do ano anterior, o que alguns apressadamente sugerem ser evidência do fracasso das operações. A iniciativa talvez mereça uma análise mais rigorosa, controlando com outras áreas similares que não tiveram operações e pelas tendências anteriores. Pois se o crime aumentou 50%, é possível, pensando contrafactualmente, que tivesse aumentado 60%, sem a presença das Forças Armadas. Não é possível chegar a conclusões robustas sobre o impacto das operações apenas comparando indicadores criminais agregados, antes e depois das intervenções.
Mas a questão da participação das Forças Armadas na segurança envolve muitos outros aspectos, além do impacto sobre a sensação de insegurança e índices criminais. Trata-se de uma política que otimiza recursos ou os mesmos resultados poderiam ser alcançados de forma mais eficiente? Também aqui, falta uma metodologia para avaliar as operações de forma isenta e metodologicamente correta. Perguntado sobre os custos da operação numa matéria ao Estadão, um general responde que não sabe estimar ao certo, pois o cálculo “dependeria da quantidade de munição utilizada”! Os críticos das operações GLO, por sua vez, consideram como custos todos os salários, equipamentos e despesas do efetivo empregado, esquecendo-se que a maior parte deste custo existiria de todo modo, independentemente de onde e como estivessem empregados. A permanência do Exército no Complexo da Maré durante um ano e meio, segundo o Ministério da Defesa, custou 400 milhões de reais. Mas é provável que este efetivo custasse, digamos, 300 milhões, se tivesse simplesmente aquartelado. Ele não seria desmobilizado caso não houvesse a operação. A dificuldade reside em isolar os custos específicos da operação, descontando de alguma forma os “custos fixos”.
Na equação de custos-benefícios, o último termo tampouco é bem concebido. Se considerarmos apenas a quantidade de pessoas presas ou armas e drogas apreendidas, os benefícios certamente parecerão baixos, pois as quantidades foram quase sempre insignificantes. Mas como estimar benefícios menos tangíveis, como o aumento da sensação de segurança, os ganhos em experiencia para as forças envolvidas, o eventual aumento do turismo e do comércio, para mencionar apenas alguns? Certo, o tráfico volta a ocupar as favelas imediatamente após a saída do Exército, mas de quanto foi a perda monetária para o crime organizado durante a ocupação de 1 ano e meio da Maré? O fato é que as operações de Garantia da Lei e da Ordem são cada vez mais frequentes e, portanto, demandam análises mais sofisticadas dos seus custos e benefícios, feitas até o momento apressadamente. Nos Estados Unidos, a proteção externa de algumas unidades militares é feita por empresas de segurança privada, pois chegou-se à conclusão, após análises de custo-benefício, de que era mais barato e o treinamento e armamento utilizado mais adequados para a função. E o exército presta apoio logístico a operações de combate ao narcotráfico.
Para além das evidências empíricas, contudo, o tema envolve considerações de outras naturezas, pois têm implicações jurídicas, políticas, estratégicas, culturais entre outras.
Existe a questão da adequação de treinamentos e equipamentos. Com efeito, o treinamento regular da tropa não envolve treinamento para o policiamento ostensivo civil, algo que exige um mínimo de um ano numa academia policial estadual. A falta de conhecimento do terreno e do contexto social local são problemas adicionais, no caso de tropas de fora do Estado.
Não se sabe ao certo se as tropas brasileiras utilizadas nos últimos 13 anos no Haiti – caso costumeiramente invocado, junto ao SISFRON, para ilustrar a possibilidade de uso das F.A. no policiamento civil – tiveram algum tipo especial de treinamento. Mas para uma instituição de dispõe de um sistema de ensino do nível da Escola Superior de Guerra ou da Academia das Agulhas Negras, não parece difícil adequar o treinamento de parte permanente da tropa para funções de outra natureza, se esta for uma opção. Em 2005, a portaria 62 de 17/02/2005 do Ministério da Defesa criou o Centro de Instrução de Operações de Garantia da Lei da Ordem, em Campinas e em 2014 o Ministério editou um Manual de Garantia da Lei e da Ordem, para suprir as deficiências de treinamento, que ainda são muitas. Passo lentos estão sendo dados no sentido de preparar as forças terrestres para estas missões.
Militares envolvidos nas operações GLO no Rio criticaram recentemente alguns procedimentos operacionais civis, que, segundo eles, imobilizam a ação das Forças Armadas. Na guerra, inimigo avistado é inimigo abatido, caso não se renda. No contexto do policiamento civil, existe a questão da gradação do uso da força: aviso verbal, uso de arma não letal, tiro de advertência, reservado o uso efetivo da arma apenas como último recurso no caso de ameaça a vida do policial (soldado) ou de terceiros. As polícias (em tese), obedecem aos princípios da necessidade e da oportunidade no emprego da arma de fogo. Ao menos aprendem isso nas academias. É preciso mudar a chave e entender que estas regras de engajamento “imobilizantes” é que diferenciam o Estado Democrático de Direito dos regimes autoritários e mesmo nas guerras não estamos diante de um “vale tudo” pois vigoram as regras do direito internacional humanitário, que estipulam o tratamento digno aos náufragos, inimigos aprisionados e bens civis.
Os equipamentos, obviamente, também deveriam ser readequados, caso se opte pela conveniência de continuar com estas operações: um tanque não tem nenhuma serventia na perseguição a um trombadinha com uma bicicleta e o poder de paragem das armas utilizadas é totalmente inadequado para uso no policiamento civil.
Do ponto de vista jurídico, a Constituição em seu artigo 142 admite o emprego das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem sob determinadas condições e a legislação infraconstitucional estabelece que a atuação das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem somente se dará “após esgotados os instrumentos destinados à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”, segundo o artigo 15 da Lei Complementar n. º 97 (1999). O emprego deve ser episódico, célere, numa área limitada e por período previamente definido. O papel deve ser subsidiário ao das polícias. O legislador provavelmente tinha em mente situações extremas como o estado de sítio ou estado de defesa ao prever este papel, de resto presente desde a Constituição de 1891.
Avaliando-se por cima as características das 115 operações dos últimos anos, percebe-se, porém, que nem sempre as operações atenderam aos quesitos da lei. Em operações de fronteira, onde sobra terra e falta efetivo policial estadual, ok, mas como fica o “episódico” e “célere” nestas operações de longa duração? Durante greve das polícias estaduais, vá lá, embora a Força Nacional tenha sido criada para isso. Mas para fazer revista em presídios? Para proteger a Esplanada dos Ministérios de manifestantes? Segurança durante os grandes eventos esportivos? Não me parece que nestas ocasiões os demais instrumentos de preservação da ordem estivessem esgotados, mas antes uma atuação preventiva. O fato é que o tipo de emprego que se vem fazendo das F.A. nestas situações não parece estar devidamente coberto pela legislação atual e se a intenção for continuar com esta política, será preciso modificar o marco legal para cobrir uma série de lacunas. Assim como está hoje, boa parte das 115 ações me parecem inconstitucionais, ao menos frente a interpretação usual do termo “excepcional”. (Diga-se de passagem, que nem as F.A. nem a Força Nacional de Segurança Pública estão elencadas entre os órgãos de segurança pública no art. 144, o que levanta dúvidas adicionais sobre a legalidade de seu emprego em ações de segurança).
Não se trata apenas da questão do “poder de polícia”. Parece claro que no momento em que são legalmente convocadas para atuar na preservação da ordem pública, nos moldes de uma polícia ostensiva, esta faculdade fica imediatamente implícita, pois é inerente à função. Se a constituição prevê os fins, deve prever os meios. Através de Projeto de Lei, o congresso tenta explicitar este poder, concedido durante o período dos grandes eventos.
Existem outros imbróglios jurídicos pouco claros. O que acontece se um soldado morre ou mata alguém no decorrer de uma operação? Os policiais militares recebem uma indenização em caso de morte e respondem a um tribunal civil caso matem. E o soldado? Recentemente, sugeriu-se que as mortes cometidas por soldados fossem julgadas pelos tribunais militares, criando uma desigualdade de situação com relação aos policiais militares.
Finalmente, sob o aspecto cultural, alguns analistas sugerem que o emprego regular das Forças Armadas nestas missões pode gerar a perigosa noção de que somente os militares são capazes de impor a lei e a ordem. Isto num contexto de crescente descrédito das instituições democráticas fundamentais como partidos, congresso e a presidência da república. O risco da “volta dos militares” me parece um tanto exagerado, ainda mais, como vimos, porque esta eficiência para impor a lei e a ordem está longe de ser corroborada pelas evidências. E uma coisa é a população enxerga-los como capazes de atuar na crise da segurança e outra, bem diferente, como capazes de administrar o país.
É verdade, a grave crise da segurança pública no Rio de Janeiro e no Brasil não será resolvida com participação das Forças Armadas na Segurança Pública. Mas tampouco apenas pelas polícias, como insistem muitos especialistas, críticos por princípio do uso das Forças Armadas na segurança. O problema é tão grave e multifacetado que só mesmo com a ação conjunta de todas as forças vivas da sociedade pode ser atenuado, como já insistimos diversas vezes. Se Trump ou a Coréia do Norte pudessem ajudar, seriam bem vindos! Os exemplos do Haiti e do SISFRON devem ser mais bem estudados, mas sugerem a viabilidade do uso em certas ocasiões e circunstancias. Desde que se resolvam os muitos problemas aqui apontados e outros esquecidos, as Forças Armadas também podem dar sua contribuição para a segurança pública, sempre excepcional, episódica e subsidiária, como de resto prevê a Constituição.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
O patrimonialismo na América Latina
Neste artigo damos continuidade à série que a Fundação Espaço Democrático vem publicando sobre patrimonialismo, no intuito de aprofundar a utilidade heurística do conceito para compreender a sociedade brasileira atual.
Resenhamos aqui o livro de Ricardo Vélez Rodríguez, Patrimonialismo e a realidade latino-americana, onde o conceito de patrimonialismo parece emergir como uma grande teoria unificada da ciência política, capaz de explicar todas as mazelas históricas latino-americanas nos últimos séculos.
Até hoje, o patrimonialismo seria a grande explicação para o fato dos países latinos não terem se desenvolvidos do ponto de vista econômico e político. Rodríguez justifica sua posição escolhendo exemplos históricos tão dispares quanto o bolivarianismo chavista, o populismo de Menem na Argentina, a “ditadura” fujimorista no Peru, o regime de Papa Doc no Haiti, o getulismo e as últimas administrações petistas no Brasil.
A chave para o entendimento de todos estes regimes pseudodemocráticos, segundo o autor, estaria na tradição patrimonialista herdada da colonização ibérica e aperfeiçoada na região, em contraste com o modelo contratualista, que vicejou na Europa Ocidental e nas ex-colônias não-ibéricas.
Alguns traços fundamentais compõem este modelo de cultura política e organização societária: no tipo ideal de patrimonialismo, a organização estatal é tipicamente mais forte do que a sociedade, existe uma confusão entre o público e o privado na administração pública, o aparelho estatal é privatizado em benefício dos governantes e seus apaniguados, a cooptação política esvazia a representação dos interesses de classe. Aqui, conquistar o Estado não é um meio para a consecução de outros fins, de natureza pública, mas o fim em si mesmo. Além disso, predominam as práticas do nepotismo e do clientelismo na distribuição dos cargos públicos, o Estado, com um orçamento inchado através do confisco tributário do setor produtivo, é percebido como grande empresário, que produz riqueza diretamente através das empresas estatais ou garante o sustento do setor privado através de subsídios e sinecuras.
Sindicatos, movimentos civis e partidos são frágeis e facilmente cooptados pelo poder com recursos e cargos, oferendo pouca dissidência real aos governantes. As leis e a justiça são elaboradas e aplicadas casuisticamente em favor dos amigos e interesses particulares, ao invés de constituírem-se em normas impessoais. As “ideologias” políticas não passam de roupagem decorativa e os partidos nada além de blocos parlamentares aglutinados em torno de personalidades. Predominaria no meio social a ética do levar vantagem em tudo, o horror ao trabalho produtivo e a corrupção generalizada no âmbito da administração. Na sociedade em geral, reina a falta de solidariedade e predomina o espírito de clã.
Neste contexto de cidadania frágil emergem com frequência as lideranças carismáticas e messiânicas, muitas de feição marxista, e mais raramente alguns projetos modernizadores de inspiração liberal, ainda que de alcance limitado.
Toda esta superestrutura ideológica, condensada no conceito de patrimonialismo, seria o fruto, por sua vez, das condições de produção existentes na Península Ibérica e nas sociedades coloniais, marcadas pela ausência de feudalismo, pelo sistema de sesmarias, pelo modelo econômico escravista e posteriormente pelo latifúndio. Rodríguez reconhece que as sociedades latino-americanas mudaram drasticamente no último século, principalmente através dos processos de industrialização e urbanização. Mas argumenta que os valores – como o insolidarismo e o patotismo – não foram modificados. O espírito seria ainda o mesmo dos séculos anteriores. O atraso brasileiro teria suas raízes na cultura patrimonialista herdada do passado – pois “uma nação é aquilo que está na mente do seu povo“ – não obstante as mudanças das condições sociais. Assim, é neste campo da cultura e dos valores, sustenta o autor, que vamos encontrar as soluções para o desenvolvimento econômico e social do país.
Trata-se de uma leitura tentadora para explicar as mazelas das sociedades latino-americanas e, com efeito, encontramos ainda na política atual de nossos países diversos traços descritos no conceito de patrimonialismo.
Mas será possível enquadrar regimes e sociedades tão diferentes dentro de um mesmo grande marco teórico explicativo? Será que os dados empíricos, como os coletados nas diversas pesquisas de opinião pública, dão de fato sustentação à permanência desta cultura política patrimonialista? Não existiriam já diversos indícios da emergência de grupos e setores mais dinâmicos e menos atrelados ao Estado, portador de nova ideologia, onde destacar-se-iam valores como o mérito, o empreendedorismo, o livre mercado, e outros valores típicos das sociedades “contratualistas”? – para usar termos do autor. Será que a permanência de alguns traços patrimonialistas nas nossas culturas cumpre hoje os mesmos papeis que cumpriram outrora? As soluções dos nossos problemas virão tão somente da mudança destes valores? As conjecturas apresentadas pelo autor, embora estimulantes, são por vezes bastante questionáveis.
Existem diversas outras hipóteses para explicar o subdesenvolvimento econômico e social das sociedades latino-americanas: fragilidade das instituições, cenário macroeconômico internacional, herança dos recentes regimes autoritários, o populismo, modelo educacional adotado, desigualdade da renda etc. Afinal, temos também inúmeros exemplos históricos de países que estavam longe de ser modelos de sociedades “contratualistas” – a começar por Portugal e Espanha – mas que através de políticas consistentes e de longo prazo foram capazes de superar suas heranças históricas malditas. Valores tradicionais e traços culturais centenários foram alterados em questão de anos na China, Rússia e Índia, para ficar nos países lembrados pelo autor. O capitalismo, como reconhecia Marx, é altamente revolucionário quando se expande. Tudo o que é sólido se desmancha no ar.
Nos polos e setores onde ele se instalou, mesmo nas nossas sociedades, vemos a emergência de novas culturas e práticas políticas. Talvez o caminho mais acelerado para esta mudança cultural seja um choque de capitalismo (e de liberalismo), iniciado no âmbito da sociedade e não patrocinado pelo Estado. Basta que o Estado não atrapalhe. O segredo para a superação do subdesenvolvimento está, quiçá, em menos Estado e mais sociedade. Mas aqui já extrapolamos nosso propósito inicial. Patrimonialismo é certamente um conceito que precisa ser conhecido e explorado e ainda nos ajuda a entender muito da política e sociedade brasileira e latino-americana. Mas nem tudo é herança cultural colonial e dificilmente vamos superar nossas dificuldades se achamos que esta é a única ou principal causa de nosso subdesenvolvimento.
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Por que as taxas de homicídios seguem um padrão “U” ?
Em maio tomamos os dados do Atlas
da Violência 2015, publicado pelo IPEA/FBSP, para mostrar como a variação dos homicídios
nos Estados entre 2005 e 2015 coincide com a variação na proporção de
homicídios cometidos como arma de fogo, principalmente nas cidades mais
populosas.
A interpretação é que o indicador
proporção de mortes cometidas por arma de fogo é um indicador substituto para a
variável desconhecida “quantidade de armas em circulação”, supondo que quando
se mata mais com armas de fogo num lugar é porque existem mais armas
disponíveis. Trata-se de uma variável “proxy” para armas, assim como proporção
de suicídios cometidos por arma de fogo, armas apreendidas pela polícia ou
armas perdidas, já que é difícil obter uma estimativa válida para quantidade real
de armas em circulação. Aceita esta premissa, mostramos como as duas
quantidades variam concomitantemente, no sentido mais armas, mais homicídios e
vice-versa.
Durkheim falava na importância
dos sociólogos replicarem, sempre que puderem, estudos anteriores,
modificando-os ligeiramente no formato, incluindo novos dados ou novas
variáveis alternativas de um mesmo conceito (As Regras do Método Sociológico). As
hipóteses ficam mais robustas quando confirmadas em diferentes períodos e
contextos e assim acrescentamos mais uma corroboração da hipótese que liga
armas e crimes.
Além de incluir mais dados às
séries e utilizar variáveis alternativas que refletem o mesmo conceito, uma
forma adicional para corroborar hipóteses em condições não experimentais é a
que Morris Rosenberg definia como processo de elaboração. Entre outros
procedimentos, a pratica consiste em verificar se os resultados se mantem
quando incluímos outras variáveis no modelo. Por exemplo, o que ocorre com a
relação entre armas e homicídios quando desagregamos os dados por Região,
classe de tamanho da população ou níveis sócio econômicos?
No gráfico abaixo vemos nas
colunas azuis a taxa de homicídios por 100 mil habitantes (média de 2013 a 2015),
por Região e classe de tamanho de população.
Conseguiram notar o padrão em
forma de "U" em cada Região, isto é, taxas maiores de homicídios nas
cidades menos e mais populosas e taxas menores nas cidades de tamanho médio? O que explica esta distribuição em “U” das
taxas de homicídio? Será que o tráfico de drogas e o crime organizado conseguem
entrar apenas nas cidades pequenas e grandes e por algum motivo ainda não inexplicado
não conseguem entrar nas cidades de médio porte? Ou talvez o desemprego ou outra variável de
cunho sócio econômico ou demográfico? Variações nas quantidades de recursos
policiais? O que quer que seja, a variável explicativa candidata precisa acompanhar
esta morfologia, não linear, para se adequar ao padrão observado.
A parte de cima do gráfico traz na
linha laranja a proporção de mortes cometidas com armas de fogo em 2015 ou,
simplesmente, quantidade de armas. Notaram alguma semelhança? O mesmo padrão em
forma de "U"!!. Tanto nas cidades menores quanto nas maiores, em cada
Região, é maior o uso de arma de fogo e nas cidades média é menor. A variável
quantidade de homicídios por arma de fogo, neste sentido, se adequa à
morfologia esperada e é uma boa candidata para explicar porque as taxas de
homicídio são maiores nas cidades muito pequenas e muito grandes, mas não nas
médias.
Os dados do Atlas sugerem deste
modo que não apenas nas tendências temporais, vistas no outro artigo, como
também no espaço, evidencia-se uma relação entre quantidade de armas e
quantidade de homicídios. Morfologia ajuda a entender a etiologia ou, o estudo
das formas dos fenômenos ajuda a entender suas causas.
As explicações teóricas
alternativas precisam dar conta destas características temporais e espaciais.
Quem tiver explicações alternativas, que traga seus dados. Não basta fazer
conjecturas plausíveis sobre drogas, crime organizado ou experiências de gestão
A ou B. É preciso submeter as conjecturas aos fatos. Do contrário serão sempre
conjecturas.
Links:
https://public.tableau.com/profile/deolhonocrime#!/vizhome/relaoarmahd/Histria1?publish=yes
http://tuliokahn.blogspot.com.br/2017/06/a-siria-e-aqui.html
Anexo:
|
Classe de tamanho da população
estimada de 2012
|
Região
|
txhd
|
% hd com arma
|
|
5 - 50001 até 100000
|
1 - Norte
|
37,6944909
|
57,05%
|
|
4 - 20001 até 50000
|
1 - Norte
|
30,23967917
|
52,40%
|
|
3 - 10001 até 20000
|
1 - Norte
|
31,68836009
|
60,15%
|
|
2 - 5001 até 10000
|
1 - Norte
|
33,37792835
|
69,06%
|
|
1 - Até 5000
|
1 - Norte
|
42,91031269
|
76,47%
|
|
7 - Maior que 500000
|
2 - Nordeste
|
59,69187615
|
82,67%
|
|
6 - 100001 até 500000
|
2 - Nordeste
|
55,47293035
|
80,27%
|
|
5 - 50001 até 100000
|
2 - Nordeste
|
42,81330534
|
73,46%
|
|
4 - 20001 até 50000
|
2 - Nordeste
|
36,76974452
|
71,24%
|
|
3 - 10001 até 20000
|
2 - Nordeste
|
31,83046567
|
74,84%
|
|
2 - 5001 até 10000
|
2 - Nordeste
|
39,3269784
|
83,47%
|
|
1 - Até 5000
|
2 - Nordeste
|
49,25152644
|
91,26%
|
|
7 - Maior que 500000
|
3 - Sudeste
|
19,88931821
|
69,74%
|
|
6 - 100001 até 500000
|
3 - Sudeste
|
25,41394561
|
63,60%
|
|
5 - 50001 até 100000
|
3 - Sudeste
|
18,47853921
|
58,78%
|
|
4 - 20001 até 50000
|
3 - Sudeste
|
19,91781835
|
62,06%
|
|
3 - 10001 até 20000
|
3 - Sudeste
|
21,96398139
|
72,70%
|
|
2 - 5001 até 10000
|
3 - Sudeste
|
29,91375382
|
82,58%
|
|
1 - Até 5000
|
3 - Sudeste
|
46,94649047
|
86,57%
|
|
7 - Maior que 500000
|
4 - Sul
|
32,85326765
|
78,65%
|
|
6 - 100001 até 500000
|
4 - Sul
|
29,07169498
|
72,67%
|
|
5 - 50001 até 100000
|
4 - Sul
|
21,50786097
|
58,69%
|
|
4 - 20001 até 50000
|
4 - Sul
|
20,78795574
|
66,42%
|
|
3 - 10001 até 20000
|
4 - Sul
|
22,40663333
|
66,91%
|
|
2 - 5001 até 10000
|
4 - Sul
|
28,29985708
|
80,21%
|
|
1 - Até 5000
|
4 - Sul
|
43,67358525
|
88,33%
|
|
7 - Maior que 500000
|
5 - Centro-Oeste
|
36,531917
|
69,76%
|
|
6 - 100001 até 500000
|
5 - Centro-Oeste
|
58,03213145
|
68,55%
|
|
5 - 50001 até 100000
|
5 - Centro-Oeste
|
53,27350554
|
65,84%
|
|
4 - 20001 até 50000
|
5 - Centro-Oeste
|
33,59562646
|
58,50%
|
|
3 - 10001 até 20000
|
5 - Centro-Oeste
|
30,63710674
|
58,05%
|
|
2 - 5001 até 10000
|
5 - Centro-Oeste
|
34,66769103
|
63,93%
|
|
1 - Até 5000
|
5 - Centro-Oeste
|
52,65041359
|
81,18%
|
quarta-feira, 21 de junho de 2017
A cracolândia está morta. Viva a cracolândia !
Diversas cidades do mundo
enfrentam o problema da concentração de usuários de drogas em locais que
aglutinam uma mistura de usuários com diferentes graus de dependência,
moradores de ruas, traficantes, catadores de papel, dependentes de álcool e
pessoas com deficiências mentais variadas. Trata-se de uma população heterogênea
e cada situação envolve uma política específica.
Algumas como Zurique e Frankfurt tiveram
sucesso na redução do problema, adotando estratégias variadas como intervenções
urbanas, limpeza, oferta de trabalho e moradia, atendimento social e tratamento
psiquiátrico, prevenção, policiamento, políticas de redução de danos e em casos
mais graves a internação involuntária ou compulsória.
Em São Paulo, a transformação da
área conhecida como cracolândia em tópico de preocupação pública começa em
meados dos anos 90 e de lá para cá tem por diversas vezes chamado à atenção da
sociedade e das autoridades. Para dar uma ideia da discussão, o gráfico abaixo
traz o número de artigos que apareceram apenas nos jornais O Estado de S. Paulo
e Folha de S. Paulo contendo o termo “cracolândia”, de 1995, quando aparece pela
primeira vez, até junho de 2017. São 3333 menções, o que dá uma dimensão do
interesse pelo assunto, que atingiu o pico em 2012 durante a Operação Centro
Legal.
Em São Paulo, tanto as gestões municipais
passadas ( CAPS, SAID, “braços abertos”) quanto a atual (“redenção”) formularam
ou vinham formulando políticas abrangentes baseadas nas boas práticas internacionais,
em colaboração com o Ministério Público, OAB, entidades assistenciais e
profissionais de saúde.
O cronograma de implementação,
porém, foi atropelado pelos fatos em maio último. O crescimento acelerado de frequentadores
da cracolândia no último ano, o sequestro, tortura e assassinato de um
funcionário de uma clínica particular e as imagens nos telejornais de traficantes
do PCC portando armas e vendendo drogas à luz do dia, impuseram uma ação de natureza
policial e emergencial por parte do governo estadual. Todas as outras políticas
assistências tem como pressuposto a retirada dos traficantes da área e mesmo as
gestões anteriores alternavam ações de caráter preventivo para os usuários com
ações de repressão ao tráfico.
Não obstante alguma imperícia e
excesso na condução da ação, a polícia tinha alvos específicos, fruto de meses
de investigação e identificação dos criminosos que atuavam na região. Foram
detidos na operação 130 suspeitos, infiltrados numa população estimada de 1800
dependentes. A ação policial implica em consequências indesejadas, como a
dispersão dos usuários por outras áreas da cidade e a quebra de vínculos e
confiança com o poder público e profissionais de assistência social e saúde. Independente
das avaliações sobre a condução da ação, não é admissível a presença de
traficantes portando armas e vendendo drogas ostensivamente no centro da cidade,
explorando a prostituição, sequestrando e matando. Esta depuração inicial, ainda
que destrambelhada, é uma pré-condição para as outras políticas de reintegração
de longo prazo.
O intuito deste artigo, contudo,
não e o de discutir a ação policial na cracolândia em maio, que custou a
demissão da secretária municipal de direitos humanos, mas antes os resultados
de pesquisas de opinião que vem abordando a percepção da população sobre temas
relacionados às drogas e seus usuários. A população não tem como opinar com
conhecimento de causa sobre as políticas públicas para o setor, que é matéria
para especialistas. Mas é importante saber como ela avalia estas políticas,
pois os gestores públicos frequentemente levam estas opiniões em consideração
para justificar suas ações.
O Ibope tem feito regularmente
levantamentos sobre o tema e a tabela abaixo traz os resultados de algumas
questões selecionadas de uma pesquisa nacional com 2002 entrevistados em
dezembro de 2016. Os resultados estão desagregados por faixas de renda e
sugerem que as visões do problema apresentam nuanças dependendo da categoria.
Antes de aprofundarmos estas
diferenças, parece existir um amplo consenso sobre duas questões: o governo
deve ofertar trabalho, abrigo e assistências diversas aos usuários (76%) e a
pedido da família ou da justiça, a população apoia a internação involuntária do
usuário (68%). Embora não tão expressivo, existe um razoável apoio à afirmação
de que o governo deve priorizar o tratamento dos dependentes, mais do que o
combate ao tráfico (46%).
Observe-se que nestas três questões,
o apoio é maior entre a população de renda mais baixa. A última coluna mostra a
diferença percentual de opiniões entre a renda mais alta e a mais baixa (a margem
de erro da pesquisa é de 2%). Uma explicação provável é que a população de
baixa renda depende mais do auxílio do poder público, no caso de ter familiar
ou pessoa próxima na condição de dependente químico. O perfil dos
frequentadores das áreas de consumo confirma a predominância de jovens de
famílias de baixa renda, já que as famílias mais abastadas contam com outras
opções de tratamento.
As duas outras questões são menos
consensuais. 39% concordam que o uso de drogas é uma questão de saúde pública,
mais que policial e apenas 22% concorda totalmente que a legalização da venda
da maconha reduzirá a criminalidade. As diferenças entre as categorias de renda
estão dentro da margem de erro, mas não deixa de ser curiosa a inversão do
sinal, com os mais abastados ligeiramente mais favoráveis a esta posturas.
A pesquisa mostra que existe
espaço tanto para políticas preventivas soft – assistências, tratamentos –
quanto hard – internação involuntária, que não se confunde com a compulsória,
que só pode ser autorizada judicialmente. Que não se trata apenas de uma
questão policial e que novos caminhos devem ser buscados para lidar com o
problema. A repressão isoladamente não funcionou, embora necessária para
afastar o tráfico. Iniciada nos anos 90, a epidemia do crack se alastra. Estima-se
que o Brasil tenha 1 milhão de usuários de crack, o que o torna no segundo
maior consumidor do mundo, em números absolutos.
Nosso problema de miséria é muito
mais grave que o de Zurique ou Frankfurt e é provável que tenhamos mais
dificuldades para lidar com o problema, que em boa parte se deve a ela. Mas a
abordagem integrada, de longo prazo, com participação estadual e federal, particularizada
para os diferentes públicos que frequentam o “fluxo”, colocada em prática
nestas cidades, sugere que é possível atenuar o problema. Ou ao menos evitar
seu agravamento.
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