terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Segurança Pública: questão continental

O aumento da preocupação com a delinquência e a segurança pública é um fenômeno não apenas brasileiro, mas latino americano. Há uma década a pesquisa Latinobarômetro pergunta aos habitantes do continente quais são suas maiores preocupações: a porcentagem de preocupados com a delinquência e a segurança pública cresceu nada menos do que 239% na média da região entre 2004 e 2011. Em 2004, apenas 8% dos entrevistados citavam o problema criminal entre as maiores preocupações, porcentagem que se elevou a 27% em 2011. Como sempre, as medias escondem grandes diferenças individuais, tanto em termos de magnitude quanto de variação. A crescente preocupação com a violência parece refletir antes as mudanças relativas e recentes, ao invés dos níveis absolutos de criminalidade em cada país. Isto explica, por exemplo, porque no Uruguai, Chile e Argentina, onde as taxas de criminalidade são relativamente baixas, existe maior preocupação com a delinquência do que no Brasil ou Colômbia, onde a criminalidade elevada é já antiga conhecida e dessensibiliza os sentidos. Analisando longitudinalmente, o Brasil, entre os países pesquisados, é o único país onde a preocupação com a criminalidade parece ter regredido (embora na média a preocupação com segurança pública tenha se mantido relativamente estável ao redor de 10% das menções e a aparente queda possa dever-se antes a uma flutuação artificial, em função dos períodos selecionados). Esta mudança ao nível das percepções tem fundamento no aumento da criminalidade “real, medida pelas estatísticas oficiais”? Difícil responder pois faltam nos séries históricas de dados criminais comparativos para fazer a correlação com os indicadores subjetivos. Os poucos indicadores existentes, contudo, parecem corroborar um aumento generalizado da criminalidade patrimonial na A.L. na última década – com exceção da pequena Guiana Francesa. Entre 2003 e 2011 observamos crescimento dos roubos na Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Perú, Suriname e Uruguai, com variações entre 17,5% (Chile) a 157% (Suriname). É interessante notar que a variação na preocupação com a segurança pública cresce a taxas muito mais elevadas do que a dos roubos. O aumento da insegurança e de alguns indicadores ocorre simultaneamente ao período de crescimento econômico e melhora de indicadores sociais na região, que impacta nos crimes “opportunity driven”, como roubos e furtos. Fenômeno semelhante observamos na região Nordeste brasileira na última década, que convive simultaneamente com aceleradas taxas de crescimento econômico e criminal. Em suma, crescimento econômico acelerado, num contexto de desorganização social e institucional, tem efeitos criminógenos conhecidos. Desacelerar o passo do crescimento econômico não é obviamente uma alternativa para o problema criminal latino americano e brasileiro, de modo que só é possível amenizar o problema criando políticas públicas que alterem as outras variáveis: aperfeiçoamento do sistema de justiça criminal e transformação da riqueza em investimentos sociais.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Violência nos Eventos Esportivos

O tema da violência nos estádios esportivos sempre foi motivo de preocupação num país onde os campeonatos de futebol são importantes e geram disputas acirradas, envolvendo grandes e fervorosas torcidas, que por vezes extrapolam para fora dos campos suas animosidades.

Com a proximidade da Copa do mundo de 2014 o interesse na questão aumentou: torcedores de outros países querem saber os riscos que correm, organizadores querem garantir a paz nos espetáculos assim como os órgãos públicos envolvidos, todos preocupados com a preservação da ordem pública e a segurança dos eventos de grande porte, que serão mostrados e repercutidos em todo o mundo.

 Um levantamento feito pelo sociólogo Maurício Murad de casos relatados pela imprensa entre 1999 e 2009 contabilizou 42 mortes de torcedores no período, o que, segundo o autor, faria o Brasil liderar o ranking dos países com maior número de mortes de torcedores, superando Itália e Argentina, que figuravam no topo da lista no início do período. E um ponto interessante, diz Murad, é que “grande parte desses torcedores mortos não tinham relação com outros eventos violentos ou torcidas organizadas.”

 Uma análise mais recente, cuja fonte também utilizou artigos de jornal, foi realizada pelo jornal Lance, dedicado a assuntos esportivos. O levantamento contabiliza 155 mortes de torcedores desde 1988 até início de 2012. São Paulo é o recordista com 32 mortes, seguido do Rio de Janeiro com 19.

O levantamento da Lance sugere também que os casos estão aumentando anualmente, embora não se possa dizer se é o fenômeno que cresce ou apenas a cobertura jornalística dos fatos. O levantamento sugere que em apenas 27 casos (17,4%) houve a prisão do autor, impunidade que acaba por estimular outros casos de violência. Cerca de 40% dos casos ocorre fora de dias de jogos, dificultando a prevenção, pois a polícia não está no local. E, tanto nos dias de jogo quanto nos dias sem jogos, a violência ocorre basicamente nas ruas, fora dos estádios.

Do ponto de vista do local dos incidentes, é digno de nota que apenas cinco cidades (São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Fortaleza e Belo Horizonte) concentram mais da metade das mortes (54,8%). Estudo feito pela FGV a respeito do público nos estádios de futebol mostra que, em termos percentuais, o campeonato brasileiro é o que menos atrai torcedores aos estádios.

Obviamente que o preço dos ingressos em relação aos salários afeta esta equação, mas é possível especular que tanto a violência quanto as questões de desordem tenham efeitos independentes neste fenômeno do afastamento do público dos estádios. O primeiro levantamento, realizado por Murad, nos deixa com uma média de 4,2 mortes por ano e o segundo, feito pela Lance, com uma média de 6,4. Do ponto meramente quantitativo o número é inexpressivo num pais onde ocorrem cerca de 36,3 mil homicídios por ano (Mapa da violência 2012, Instituto Sangari).

Mas a questão não é a quantidade e sim o simbolismo: as pessoas vão aos estádios para se divertir e o esporte é uma atividade ligada ao lazer, saúde e ‘a vida, não a morte. O que choca a sociedade é a morte neste contexto e a banalidade da motivação.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"Pibinho" e "Crimão"

Lá fora há uma grande discussão acadêmica sobre o quanto a situação da economia afeta a criminalidade, com algumas pesquisas comprovando as correlações entre os fenômenos e outras não.

Sempre argumentei que o Brasil é um caso apropriado pra observar esta relação entre economia e crime pois aqui os efeitos são mais diretos e visíveis: grande parcela da população trabalhando no mercado informal e reduzida rede de proteção social estatal durante as crises são alguns dos muitos fatores que nos diferenciam dos países mais desenvolvidos, sem falar dos menores riscos de punição e da maior desigualdade.

 Estes fatores atenuam os efeitos dos “business cycles” sobre o crime nos países desenvolvidos e acentuam estes mesmos efeitos no Brasil e outros países em desenvolvimento. Na tabela abaixo analisamos as variações do PIB nacional durante 68 trimestres (desde o 3º de 1996), subdividindo os trimestres em 9 grupos, listados na primeira coluna.

Report
Mean
DOMESTIC GDP (Binned)
CRIME INDEX
MEAN VARIATION OF 8 CRIMES
INDEX OF VIOLENT CRIMES
INTENTIONAL HOMICIDE SAO PAULO
ROBBERY SAO PAULO
CAR ROBBERY SAO PAULO
<= -,70
10,5109
11,3200
23,5524
5,3800
22,5633
33,3200
-,69 - ,80
9,0635
11,0700
17,2601
5,3080
16,8240
23,1680
,81 - 1,46
7,6428
6,8771
9,8323
-1,7557
11,7414
10,1643
1,47 - 2,95
3,5518
5,2700
7,2838
6,5733
6,4640
11,0207
2,96 - 3,70
3,3204
-1,0200
3,4137
-8,7756
5,0156
,7467
3,71 - 4,73
1,2936
-1,2925
,2107
-7,1475
,2131
2,7863
4,74 - 5,00
-2,3764
-1,9590
-,7925
-13,6900
1,6270
-4,6610
5,01 - 6,41
-5,0169
-5,8400
-6,4875
-14,6350
-2,1750
-8,9550
6,42+
-9,9400
-7,3700
-11,9500
-1,6000
-12,8050
-10,3600
Total
2,6164
2,0381
4,7005
-3,3872
5,3017
6,0626

Como se pode observar, os trimestres estão ordenados na tabela pela magnitude, começando com os que apresentaram queda no PIB (em relação ao mesmo período do ano anterior) e terminando com os que apresentaram forte crescimento. As demais colunas trazem, por sua vez, as variações de diversos indicadores de criminalidade no Estado de São Paulo.

Como se observa, na maioria dos casos há uma relação linear entre o desempenho do PIB no trimestre e a evolução da criminalidade. O crime cresce muito nos trimestres onde há queda do PIB e cai moderadamente nos trimestres com elevado crescimento do PIB. (em outros termos, os ciclos são assimétricos). Com “Pibão” temos “criminho” e vice-versa!

Sem estender muito a análise, o que esta correlação sugere é que o “pibinho” dos últimos trimestres é um dos principais culpados pelo crescimento da criminalidade patrimonial observada em vários estados nos últimos tempos. Largar o mundo do crime, pelo que sugerem os dados, só é uma opção racional para os criminosos quando a economia cresce a taxas superiores a 3%, o que faz tempo não observamos no país.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A eficiência do sistema prisional na redução da criminalidade

Mostrando visões diferentes sobre a eficiência do sistema prisional na redução da criminalidade, o Espaço Democrático – fundação do PSD para estudos e formação política – realizou no início da noite de segunda-feira (11) seu 13º debate sobre o tema “Desatando os nós que atrasam o Brasil”. Participaram do encontro – que foi transmitido ao vivo pela internet – dois especialistas no tema segurança: a socióloga Camila Dias, da Universidade Federal do ABC, e o cientista político Leandro Piquet Carneiro, professor da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da mesma universidade. A socióloga Camila Dias Para a socióloga, as prisões brasileiras não tem resolvido os problemas de segurança e também não têm contribuído para a recuperação dos presos. Segundo ela, “é muito importante que esse tema seja debatido, pois o sistema prisional sempre foi o primo pobre da questão da segurança”. Em sua opinião, “a melhor forma de melhorar esse sistema é com a adoção de uma política de desencarceramento, pois nenhum Estado pode arcar com tantos custos e é preciso reservar as prisões para quem de fato precisa ser afastado da sociedade”. O cientista político Leandro Piquet Carneiro Leandro Piquet Carneiro, por sua vez, afirmou que ”o Brasil hoje enfrenta dificuldades nessa área que exigem investimento significativo, tanto em recursos financeiros quanto no aprimoramento do processo de gestão”. Ele defendeu as parcerias com o setor privado para se aumentar o número de vagas nas prisões de todo o País e um choque de gestão em todo o sistema de segurança pública, gerando mais qualidade nos inquéritos e na administração das unidades prisionais. “As políticas de segurança pública de alguns Estados têm demonstrado que é possível obter bons resultados com a adoção de boas práticas de gestão”, concluiu.

Ideias para melhorar a segurança

Caros leitores, segue abaixo o link para a edição do primeiro Caderno Democrático sobre Segurança, transcrevendo o debate no início do ano comigo, Cel. Camilo e Cel. José Vicente da Silva. Em breve sairão as transcrições dos debates com o Beltrame e Daniel Cerqueira, bem como do debate de ontem sobre sistema prisonal, com Camila Dias e Leandro Piquet Carneiro. http://www.psd.org.br/ideias-para-melhorar-a-seguranca/

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Piora na sensação de insegurança

O lançamento do 7º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com dados de 2012 mostra o crescimento da criminalidade do país em relação a 2011, em especial dos homicídios. Além da divulgação das estatísticas oficiais governamentais, a semana trouxe também uma série de dados novos sobre a evolução das percepções com relação à criminalidade e as polícias. Este aspecto subjetivo é relevante pois ele tem impacto bem real na segurança e na economia: o ideal é que haja congruência entre os dois tipos de indicadores (objetivos e subjetivos) pois temos um sério problema de segurança quando a percepção se deteriora: pessoas deixam de sair de casa, empresas deixam de investir, turistas deixam de viajar, há menos colaboração com a polícia e a justiça, mais pessoas saem armadas para as ruas, etc. No que tange as percepções, tivemos a divulgação da nova rodada da pesquisa CNT/MDA, que monitora a expectativa da população com relação à segurança pública nos próximos seis meses. Os que avaliam que a situação da segurança “vai melhorar” no país caíram de 48,9% em agosto de 2011, quando a questão foi formulada pela primeira vez, para 27,7% em novembro de 2013. Vendo por outro ângulo, a expectativa de piora cresceu de 19,3 para 29,3% no mesmo período. O crescimento da criminalidade e, eventualmente, a sensação de desordem promovida pelas manifestações violentas, podem ter contribuído para a piora do cenário. A tendência corrobora as informações da pesquisa CNI/IBOPE, que já revelavam meses atrás a queda na aprovação do governo com relação à violência, que diminuiu de 44% em março de 2011 para 31% em junho de 2013. Dados da mesma pesquisa CNT apontam que segurança é uma das áreas que mais precisam de melhorias no Brasil (terceiro colocado na lista, com 34,3% de menções) e que nada menos que 91,5% dos entrevistados se diz “muito preocupado” com a violência. Para piorar o quadro, temos a nova divulgação do Índice de Confiança na Justiça da FGV, que avalia o grau de confiança da população em diversas instituições. A nova rodada 2013 aponta que 70,1% da população não confia nas polícias, 8,6 pontos porcentuais acima do registrado no primeiro semestre de 2012. Quanto menor a confiança nas polícias, menores as chances de colaboração com elas, o que tende a acirrar ainda mais o quadro criminal. A piora na sensação de segurança e na confiança na polícia faz com que as pessoas voltem a andar armadas nas ruas para (pretensamente) se protegerem, o que pode explicar em parte o crescimento dos homicídios. É preciso romper este ciclo e uma boa forma de fazer isso é repensar nosso modelo antiquado e ineficaz de policiamento.

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