quinta-feira, 24 de setembro de 2020

“Elementar, meu caro Watson” – a ampliação das políticas públicas baseadas em evidências

 

“Evidence based” é o conceito do momento na segurança pública. O BID lançará em breve uma plataforma digital de políticas públicas de segurança baseadas em evidências e em novembro a UFC organizará um seminário sobre o tema. Há teses revendo o que se produziu no Brasil com evidências robustas e os planos de governo usam o termo a torto e a direito. (Kopittke, Alberto Liebling. "Segurança pública baseada em evidências: a revolução das evidências na prevenção à violência no Brasil e no mundo." (2019).




O contexto da pandemia talvez seja propício para explorar o conceito pois deixou bastante claro a diferença entre as políticas baseadas em ideologias – contra o isolamento social, máscaras e a favor da cloroquina – e as políticas baseadas em evidências preconizadas pelas OMS. Brasil e EUA são exemplos da primeira e não por acaso estão entre os casos mais graves de disseminação da doença no mundo. Ignorar evidências mata.

As áreas da saúde e da educação foram talvez as primeiras a abraçarem a ideia de políticas baseadas em evidências. São áreas que tradicionalmente valorizam o conhecimento e se preocuparam historicamente em montar bases de dados e monitorar indicadores, fazer avaliações, planejamentos de longo prazo, estipulação de metas, análises de custo benefício, projeções e outras ferramentas de administração com base em dados empíricos.

Nos países desenvolvidos o conceito de políticas “evidence based” já chegou à área da segurança pública. As polícias disponibilizam dados, fazem projetos piloto, contratam ou realizam internamente avaliações com rigor científico, policiais frequentam as universidades ou especialistas acadêmicos são contratados para trabalharem na polícia como analistas e avaliarem as estratégias e táticas utilizadas. Fundos nacionais significativos são destinados a avaliar as políticas de segurança.

O cenário no Brasil – com poucas exceções – é bem distante disso. Políticas públicas de segurança raramente foram avaliadas sistematicamente e seguem, como os criminosos, como “atividades de rotina”. E posturas ideológicas frequentemente servem de sustentação para justificar políticas equivocadas. É o caso por exemplo da política de flexibilização de armas de fogo para a população. Embora as análises tenham mostrado à exaustão que mais armas em circulação aumentam homicídios e suicídios, é comum que se defenda a flexibilização argumentando para o filosófico “direito ao porte”[1]. Assim também, preponderam nos discursos sobre as políticas de segurança as ideologias do “excesso de direitos aos criminosos”, da “leniência das punições”, da “periculosidade da maconha”, da “eficiência das armas para se prevenir contra os criminosos”, da “necessidade contínua de se contratar mais policiais”. “Polícia comunitária” e “participação cidadâ”, por outro lado, são apenas slogans publicitários e ineficientes pois polícia tem que correr atrás de criminosos. “Atendimento social” é pra secretaria de assistência e não tem nada a ver com segurança. Ditados como “bandido bom é bandido morto” e “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, ilustram bem outros aspectos das ideologias reinantes nesta esfera e que acabam por influenciar as políticas de segurança.

Desconfio que este viés filosófico-ideológico no trato das políticas públicas, como já discutimos em outro lugar, são fruto do espírito bacharelesco da administração pública brasileira, tão bem descrito pelos sociólogos dos anos 30 e 40. Aquela tendência de reduzir tudo ao universo jurídico, de imaginar que a palavra escrita e as “Leis” tem o poder mágico de mudar o mundo, de tratar os casos individualmente, de abusar da retórica e dos sofismas para resolver problemas concretos, de reduzir o comportamento humano ao seu aspecto moral, de achar que a ciência da hermenêutica é superior às outras ciências, auxiliares do Direito, do menosprezo pelos números e pelas pesquisas. Embora exista hoje a jurimetria, o direito é ainda majoritariamente uma ciência dedutiva e “text based”, enquanto políticas “evidence based” são do tipo indutivo.  

Esse perfil bacharelesco-filosófico dos administradores públicos e legisladores brasileiros é comum a todas as áreas da gestão, mas bastante pronunciado na área de segurança pública. Com efeito, é preciso ser bacharel em direito para ser delegado da Polícia Civil ou da Polícia Federal, e grandes juristas ou operadores do direito são os tradicionais escolhidos para chefiar o Ministério da Justiça ou Secretarias de Segurança Pública. Reforma do Código Penal e do Código de Processo Penal são entendidas no Brasil como políticas de segurança e mais relevantes do que reformas estruturais no sistema de justiça criminal.

O curioso é que segurança pública tinha tudo para ser pioneira e abraçar com entusiasmo a ideia de políticas baseadas em evidência! As polícias em todo mundo foram as primeiras instituições, ainda no século XIX, a ousarem com a ideia de uma polícia técnico-científica, baseada em provas materiais e evidências concretas. O trabalho do perito é similar ao de um pesquisador científico: ele coleta, compara, analisa, conclui com base probabilística. Logo após a criação, as polícias foram as primeiras instituições a adotarem o reconhecimento pelas impressões digitais ou fotográfico. Os peritos trabalham há anos com bancos de dados, comparações balísticas, exames de DNA, espectrômetros de massa. Não por acaso, o procedimento policial chama-se “investigação”, como na academia, e seu executor é um “investigador”.

 Mas por alguma razão que mereceria ser explorada, o espírito bacharelesco preponderou nas instituições policiais, sobrepondo o espírito científico das primeiras polícias. O problema da perícia foi usar estes recursos científicos para analisar apenas casos individuais, negligenciando geralmente a análise das macro políticas de segurança. A polícia científica se preocupou em saber se aquele indivíduo estava intoxicado no momento do assassinato e não com o papel do álcool como fator de risco para a segurança. Se o ferimento naquele cadáver foi feito por instrumento perfuro-contundente e não com a contribuição das armas para a violência. Ficaram no micro e deixaram a macro política de segurança nas mãos dos doutores juristas, que usam gravata e se expressam melhor do que engenheiros ou biólogos. Como sempre, não basta conhecer, é preciso saber vender sua expertise com convicção. É o que os advogados aprendem a fazer no júri, mesmo que o cliente seja culpado (ou a política preconizada seja equivocada...).

A ideia de aplicar as técnicas da ciência e dados empíricos para a avaliação da macro política de segurança começou a tomar força a partir dos anos 80, em razão de um conjunto de fatores. Houve uma convergência entre uma massa de cientistas sociais se interessando pelo problema da criminalidade e da violência, barateamento de computadores e softwares, disponibilização pública de dados, abertura na gestão das instituições de segurança, crise nas políticas tradicionais de segurança, quando a sociedade se deu conta que contratar mais policiais e construir mais presídios não estava sendo o suficiente para lidar com a criminalidade. Desde os anos 30 tivemos cientistas sociais analisando crimes e políticas de segurança com base em estudos empíricos, mas de modo episódico. Nos anos 80 em diante assistimos à massificação do fenômeno nos países desenvolvidos e nos 90 a tendência chega ao Brasil. Alguns cientistas sociais chegaram mesmo a ocupar cargos de relevância na gestão policial de alguns Estados e a palpitar sobre políticas de segurança....A diferença é que chamávamos a prática apenas de “análise estatística” e éramos somente sociólogos ao invés de “data scientists”

A partir desta época passou a ser possível testar algumas teorias criminológicas e avaliar as estratégias de segurança. A ciência então passa a analisar não apenas criminosos individuais, mas padrões coletivos. Foi deste caldeirão que surgiram ideias como policiamento orientado a problemas, policiamento de hot spots e hot times, fiscalização da desordem física e social, policiamento preditivo, o uso de pesquisas de vitimização, análise das “jornadas para o crime”, identificação de fatores de risco e fatores protetivos, políticas preventivas como as terapias cognitivas, os algoritmos para priorização do atendimento de mulheres vítimas da violência e centenas de outras estratégias e táticas para lidar com o crime.

Os cientistas sociais começaram a mostrar um quadro geral da segurança pública que os inquéritos e laudos individuais não permitiam ver: as áreas da cidade não são igualmente propensas ao cometimento do crime, existem perfis específicos de criminosos e vítimas, álcool e armas são fatores de risco relevantes e assim por diante. Este conhecimento serviu de fundamento para traçar políticas de segurança mais eficientes e eficazes.

O fato é que o uso de evidências científicas para avaliar e traçar políticas está longe de ser uma novidade nas polícias, onde existe toda uma longa tradição de investigação forense, que foram tratadas como ciências auxiliares do direito, espelhando a hierarquia da organização policial.

Creio que a tendência daqui para frente – e a epidemia talvez contribua para isso – é que todas as políticas tenham que ter, obrigatoriamente, algum fundamento teórico e empírico para que sejam adotadas em larga escala e financiadas com recursos públicos. Alguns estados norte americanos adotaram regras que punem financeiramente os gestores que ignorarem as evidências existentes, ao implementar uma política pública. As novas gerações de policiais são muito mais abertas para a sociedade e a academia em particular, mas é preciso maior entrosamento, estimulando policiais a frequentarem as universidades e intercâmbios com institutos de pesquisa.

Parte significativa dos recursos deve ser reservada para estudos, bases de dados, avaliações, monitoramento de indicadores, seminários, treinamentos. Isto também faz parte, em sentido amplo, do trabalho de “Inteligência”, que não se resume a colher informações sobre criminosos. A ampliação das políticas de segurança baseadas em evidências pelas polícias são uma garantia para a sociedade de que as instituições estão maximizando seus recursos.

 



[1] Os homicídios vinham em queda nacionalmente, depois do pico de 2017. A situação começa a se inverter no segundo semestre de 2019, quando se inicia novo ciclo de alta, simultaneamente, em diversos Estados. Não por acaso, este ciclo de crescimento coincide com a disparada dos novos registros de armas, depois que o governo federal criou 11 decretos sobre o tema em 2019. Há diversos fatores explicativos – como os confrontos entre traficantes no Ceará - mas o resultado era mais do que esperado, com base nas evidências colhidas nas pesquisas sobre o impacto das armas nos homicídios.


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Para quem tiver interesse, uma versão resumida do programa de governo do Andrea Matarazzo para a prefeitura de SP - que ajudei a coordenar com os colegas Daniela Alvez, Rubens Figueiredo e Rogério Schmidt- pode ser lida no site do TSE:

 http://divulgacandcontas.tse.jus.br/candidaturas/oficial/2020/SP/71072/426/candidatos/8058//5_1600369846808.pdf


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Analise espacial da criminalidade em SP no período pós COVID19


epidemia de COVID implicou em bruscas mudanças na rotina das pessoas em todo mundo diversos criminólogos se debruçam neste momento na avaliação do impacto que estas mudanças trouxeram para criminalidade. Entre outras questões de interesse estão as mudanças de tendências temporais espaciais. Para cada tipo de crime, é interessante observar se diminuíram ou cresceram, se houve migração para outros tipos de crime, se houve deslocamento espacial, mudança de modus operandi, de tipo de vítima assim por diante. De modo geral os estudos dos últimos meses sugerem queda dos crimes patrimoniais de rua, nos arrombamentos residenciais, estupros enquanto crimes como os homicídios se mantiveram mais estáveis ou mesmo cresceram, assim com os casos de violência doméstica, fraudes pela internet outras modalidades de crimes cibernéticos. Já exploramos algumas destas tendências temporais no Brasil em outros artigos. Até momento, não há nenhum estudo, contudo, que tenha se dedicado analisar as mudanças nos padrões espaciais da criminalidade antes depois da quarentena.

Leia o artigo completo no researchgate:

https://www.researchgate.net/publication/343837055_Uso_de_tecnicas_de_analise_espacial_para_detectar_mudancas_criminais_pos_COVID


segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Educação e criminalidade – ou nem só de polícia vive a segurança pública

 


O risco de se envolver numa atividade criminosa, de ser vítima de um crime e a criminalidade na área em que você mora são todos afetados pelo fator educação. Como pesquisador em criminologia, já me deparei com esta evidência inúmeras vezes e de diversas maneiras.

 Meu primeiro “censo” penitenciário é de 1997, quando assessor da Secretaria de Administração Penitenciária de SP, ocasião em que fizemos um levantamento das características dos presos, dos anos 50 aos 90, acompanhando as mudanças de características no tempo. O baixo nível educacional dos presos era um traço constante e apodítico. Curiosamente, a taxa de analfabetismo no sistema prisional era menor do que na população em geral. Mas nas demais etapas educacionais ficava clara a predominância do ensino básico incompleto e completo e a quase ausência de condenados com ensino superior. (KAHN, Túlio. "Sistema penitenciário: mudanças de perfil dos anos 50 aos 90." Revista do ILANUD, São Paulo 6 (1997).)[i]

 A dificuldade reside não na constatação, mas na interpretação, uma vez que há uma miríade de hipóteses: o sistema de justiça criminal é seletivo em relação aos menos escolarizados? Criminosos são menos inteligentes que a média? Tem mais problemas de aprendizagem? Mais problemas de saúde como déficit de atenção, psicopatia, trauma crânio encefálico? Necessidade econômica fez com que abandonassem a escola antes dos demais? Menos estímulo familiar para continuar estudando? Escolas nos bairros pobres são mais desinteressantes e estimulam o abandono precoce? Menores alternativas no mercado de trabalho legal para os menos escolarizados (custo de oportunidade)? Mais tempo livre na juventude para se envolver com más companhias (disponibilidade)? Gravidez na adolescência, no caso das meninas? Escolaridade desenvolve no jovem princípios morais ou habilidades comportamentais que se transformam em fatores de proteção para a entrada no crime?

 Existem diversas explicações possíveis sobre porque os que abandonam a escola ou tem menor escolaridade se envolvem mais com a criminalidade e elas não são, como sempre, mutuamente excludentes.

 Tive oportunidade de analisar o risco de envolvimento com as transgressões e sua relação com a educação em pesquisas ulteriores, usando pesquisas do tipo “crime auto reportados” com escolares e analisando o risco de cumprimento de medida em regime fechado de jovens infratores encaminhados ao sistema de justiça juvenil. (T. Kahn, C. Bermergui, E. Yamada, F. Cardoso, F. Fernandes, J. Zacchi, et al.O dia-a-dia na vida das escolas (violências auto assumidas) Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente/Instituto Sou da Paz, São Paulo, SP, Brasil, 1999).

 Com as “self reported crimes” relatamos em 1999 que ter abandonado a escola ou repetido de ano em algum momento da trajetória escolar aumentava a probabilidade de transgressão bem como a gravidade das transgressões reportadas. No sistema de justiça juvenil, a pesquisa de 2002 sugeria por sua vez que ausência da família durante a audiência e não estar estudando eram fortes variáveis preditivas do envio do jovem infrator ao regime fechado, controlando por tipo de crime e outros fatores.  (de Almeida, E. M., Hojda, A., Sposato, K. B., & Kahn, T. (2002). Adolescentes suspeitos ou acusados da autoria de atos infracionais em São Paulo: convênio Ilanud/Febem-SP/PAJ-Infância e Juventude. Revista brasileira de ciências criminais, (38), 165-209.). A dificuldade aqui consiste em discernir qual a origem da trajetória, pois há simultaneidade. É o abandono da escola que resulta no envolvimento com o crime ou o contrário? Ambos? A pesquisa já sugeria também que o efeito da escolaridade variava em função do tipo de crime.[ii]

 Os riscos de vitimização também eram influenciados pela escolaridade, conforme constatado em inúmeras pesquisas de vitimização, como as organizadas em São Paulo 1998 e 2002, entre outras. (Kahn, Tulio. "Pesquisas de vitimização." Revista do Ilanud 10 (1998);       Kahn, Tulio, J. C. Besen, and R. B. Custódio. "Pesquisa de Vitimização 2002 e Avaliação do Plano de Prevenção da Violência Urbana-PIAPS." ILANUD, FIA-USP, Gabinete de Segurança Institucional, 2002). Mesmo controlando por outros fatores, os mais escolarizados tem maior risco de vitimização por crimes patrimoniais, como o furto e o roubo, enquanto os menos escolarizados são proporcionalmente mais vitimados por agressões físicas e sexuais. Uma das vantagens das pesquisas de vitimização é que elas permitem controlar por outras variáveis, isolando os efeitos “puros” da escolarização, que costuma estar altamente correlacionada com a renda. A relação entre escolaridade e crime não é necessariamente linear, assim como na renda. Indivíduos com renda e escolaridade muito elevada tendem a correr menos riscos, de modo que a relação pode ter formato de “U” invertido.

 Além das metodologias baseadas em indivíduos – autores ou vítimas de crime – existem os estudos ecológicos que procuram correlacionar níveis agregados de criminalidade com níveis agregados de educação. As dificuldades interpretativas e metodológicas são inúmeras. Como vimos, escolaridade baixa está associada a certos tipos de crimes (crimes violentos, crimes de ruas) e escolaridade elevada a outros (sonegação fiscal, evasão de divisas, corrupção, etc). Está associada à vitimização em certos crimes quando baixa (agressões, violência sexual) e a vitimização de outros crimes quando alta: roubos e furtos, por exemplo. Em outras palavras, o sinal da associação pode ser negativo ou positivo, dependendo do tipo de crime.

 Assim, por exemplo, neste estudo ecológico de 2019, correlaciono a evolução dos homicídios no Estados Brasileiros entre 2001 e 2018 com uma série de indicadores educacionais: “Os dados mostram que os Estados onde os homicídios caíram mais são justamente aqueles onde a população tem maior escolaridade. A taxa de analfabetismo de 11 a 14 anos era de apenas 4% no grupo de estados com maior queda de homicídios, porém de 17,7% nos Estados com aumento dos homicídios. Existem exceções como o caso de Pernambuco no primeiro grupo e Santa Catarina no segundo. Mas regra geral as diferenças entre os indicadores de escolaridade e a variação dos homicídios foi forte e significativa, no sentido, maior escolaridade, maior a queda nos homicídios. Manter o jovem na escola talvez seja, isoladamente, a melhor política de prevenção à criminalidade. “(Kahn, 2019)

 
Indicadores educacionais e evolução dos homicídios dolosos entre 2001 e 2018, por UF
 

classes de variação hd 0118

 Var Homicídio 2001 2018

Média de escola

Avg. % de crianças de 6 a 14 fora da escola

Avg. Expectativa de anos de estudo

Avg. Taxa de analfabetismo - 11 a 14 anos

 queda hd

-          27,90

                 9,78

              12,14

                 8,86

                 4,00

 sobe pouco

            63,77

                 9,38

              14,43

                 8,43

              10,57

 sobe muito

         229,36

                 8,93

              18,85

                 7,31

              17,69

 Total

         119,73

                 9,27

              15,96

                 8,00

              12,30

 F

            16,98

                 6,20

                 3,65

                 5,18

              10,36

Sig

0

0,007

0,041

0,014

0,001

 Fonte: Kahn, 2019

 Trata-se de uma análise bivariada simples, que deixa inúmeras questões em aberto. Existem  questões de endogeneidade, defasagem temporal, multicoliearidade, etc, que precisam ser mais bem tratadas. Baixa educação induz a mais criminalidade, mas a alta criminalidade em algum local também pode induzir a piora na educação, como no caso das crianças que abandonam a escola por conta da violência. O processo de escolarização é longo e contínuo, o que significa que seus efeitos (por exemplo, o aumento dos investimentos públicos em educação) podem ser defasados no tempo. De forma que a melhora na criminalidade pode estar correlacionada com investimentos passados e não necessariamente com os contemporâneos. Como observado, escolaridade é fortemente associada à renda e é preciso exercer controle sobre uma série de variáveis para não corrermos o risco de reportarmos uma correlação espúria. Para lidar com estas dificuldades vários estudos lançaram de mão de recursos metodológicos como painéis dinâmicos ou o uso de variáveis instrumentais.

 Assim como no caso do número de armas em circulação e do desemprego, a literatura criminológica brasileira parece hoje concordar, majoritariamente, com que a educação – medida aqui como atendimento escolar, nível de escolaridade, orçamento da educação, etc. – afeta negativamente a criminalidade. Ou seja, quanto mais educação, menos crimes, pelo menos com relação a certo tipo de crime mais grave como os homicídios.

 O quadro abaixo resume os achados de 20 estudos que analisaram a relação entre educação e criminalidade no Brasil a partir dos anos 90, ou que incluíram variáveis educacionais como controle para outros fenômenos e reportaram seus efeitos. Existem metodologias baseadas em indivíduos e estudos ecológicos. Em 70% dos casos os homicídios é a variável dependente, ou, aquela que se quer explicar (o que explica por que a maioria dos estudos encontrou efeitos negativos, do tipo “mais educação, menos crime”).  As variáveis explicativas (independentes) foram indicadores de atendimento escolar em 50% dos estudos e 40% deles utilizou o nível de escolaridade. Embora não se trate de uma revisão sistemática, é digno de nota que em 15 deles (75%) os resultados foram significativos e negativos (mais educação, menos crimes), 4 deles (20%) que utilizaram diversos tipos de crimes como variáveis independentes encontraram resultados negativos e positivos e apenas 1 deles encontrou um correlação positiva, do tipo “mais educação, mais crimes” (Lemos, 2005),, não por acaso usando crimes patrimoniais como variável dependente. De modo geral, parece que a relação da educação é negativa com relação aos crimes contra a pessoa e positiva com relação aos crimes patrimoniais.
  
Tabela 1 - Literatura selecionada sobre educação e criminalidade

Efeito

Observações

Dependente

Independente

citação

Positivos ou negativos, dependendo do crime

Educação está negativamente relacionada à incidência de crimes contra a pessoa, mas positivamente associada a crimes contra a propriedade

Crimes contra a pessoa e contra a propriedade, agregado por micro regiões

Nível de escolaridade

FAJNZYLBER, P.; ARAÚJO JÚNIOR, A. Violência e criminalidade. In: LISBOA, M. B. MENEZES FILHO, N. A. (Ed.). Microeconomia e sociedade no Brasil. Rio de Janeiro: Contracapa Editora, 2001. p. 333-394. [ Links ]

 

Positivos ou negativos, dependendo do crime

Não estar frequentando a escola aumenta a probabilidade de envolvimento com infrações mais graves. Aumenta probabilidade de cumprir medida em meio fechado.

Risco individual de envolvimento com o crime

Atendimento escolar

de Almeida, E. M., Hojda, A., Sposato, K. B., & Kahn, T. (2002). Adolescentes suspeitos ou acusados da autoria de atos infracionais em São Paulo: convênio Ilanud/Febem-SP/PAJ-Infância e Juventude. Revista brasileira de ciências criminais, (38), 165-209.

Negativos (mais educação, menos crimes)

Um ano a mais de estudo pode provocar uma queda de 6% na taxa de homicídios no curto prazo e de 12% no longo prazo

Tx de homicídio agregada por UF

Nível de escolaridade

KUME, L. Uma estimativa dos determinantes da taxa de criminalidade brasileira: uma aplicação em painel dinâmico. In: ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA, 32., 2004. João Pessoa . Anais… João Pessoa: Anpec, 2004. p. 1-16. [ Links ]

 

Positivos ou negativos, dependendo do crime

Indivíduos com baixa escolaridade apresentam maiores riscos de vitimização em crimes não economicamente motivados e menores riscos naqueles economicamente motivados

Risco de vitimização individual

Nível de escolaridade

Beato F, Cláudio, Betânia Totino Peixoto, and Mônica Viegas Andrade. "Crime, oportunidade e vitimização." Revista brasileira de ciências sociais 19.55 (2004): 73-89.

Positivos (mais educação, mais crimes)

Quanto maior o percentual de responsáveis no domicílio com 3 anos de estudo, maiores as taxas de crimes contra o patrimônio no bairro

Tx crimes patrimoniais agregada por bairro

Nível de escolaridade

Lemos, Alan Alexander Mendes, Eurílio Pereira Santos Filho, and Marco Antonio Jorge. "Um modelo para análise socioeconômica da criminalidade no município de Aracaju." Estudos Econômicos (São Paulo) 35.3 (2005): 569-594.

Negativos (mais educação, menos crimes)

Quanto maior a eficiência no ensino básico, menor a taxa de homicídio no município.

Tx de homicídio por município

Eficiência do ensino básico

OLIVEIRA, C. A. Criminalidade e o tamanho das cidades brasileiras: Um enfoque da economia do crime. In: ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA, 33., 2005. Natal. Anais... Natal: Anpec, 2005. p.1-23. [ Links ]

 

Positivos ou negativos, dependendo do crime

Quanto maior a escolaridade média da pop.  no município, menor o número de furtos, mas maiores as taxas de fraude e estelionato

Tx de crimes diversos, agregadas por município

Nível de escolaridade

Hartung, Gabriel Chequer. Fatores demográficos como determinantes da criminalidade. Diss. 2006.

Positivos ou negativos, dependendo do crime

Quanto maior a média de anos de estudo da pop. no Estado, menos homicídios e roubos. Mas mais furtos

Tx de crimes diversos agregados por UF

Nível de escolaridade

Loureiro, A. O. F., and J. R. A. Carvalho Jr. "O impacto dos gastos públicos sobre a criminalidade brasileira." Encontro Nacional De Economia 35 (2007).

Negativos (mais educação, menos crimes)

Quanto maior o percentual de adolescentes de 15 a 17 anos frequentando a escola, menor a taxa de homicídios

Tx de homicídios agregados por município

Atendimento escolar

de Resende, João Paulo. "Crime social, castigo social: o efeito da desigualdade de renda sobre as taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros." (2007).

Negativos (mais educação, menos crimes)

Elasticidade negativa entre medida de escolaridade média e crimes letais

Crimes letais

Nível de escolaridade

SANTOS, M. J. Dinâmica temporal da criminalidade: mais evidências sobre o efeito inércia nas taxas de crimes letais nos estados brasileiros. Economia, Brasília, Anpec, v. 10, n. 1, p. 170-194, 2009. [ Links ]

Negativos (mais educação, menos crimes)

 observaram uma relação (elasticidade) negativa de 1,7 entre a taxa de matrículas e crimes não pecuniários.

Crimes não pecuniários

Atendimento escolar

Scorzafave, Luiz Guilherme, and Milena Karla Soares. "Income inequality and pecuniary crimes." Economics Letters 104.1 (2009): 40-42.

Negativos (mais educação, menos crimes)

Quanto maior a taxa de abandono escolar defasada em um período, maior a taxa de homicídio

Tx de homicídio agregada por UF

Atendimento escolar

Teixeira, Evandro Camargos. Dois ensaios acerca da relação entre criminalidade e educação. Diss. Universidade de São Paulo, 2011.

 

Negativos (mais educação, menos crimes)

utilizam como medida de educação o percentual de adolescentes entre 15 e 17 anos na escola e observa uma relação negativa com a taxa de homicídios.

Tx de homicídios

Atendimento escolar

RESENDE, J. P.; VIEGAS, M. Crime social, Castigo social: desigualdade de renda e taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros. Estudos Econômicos, São Paulo, v. 41, n. 1, p. 173-195, jan./mar. 2011. [ Links ]

 

Negativos (mais educação, menos crimes)

Quanto maior a taxa de atendimento escolar para jovens de 15 a 17 anos, menor a taxa de homicídios

Tx de homicídios

Atendimento escolar

CERQUEIRA, Daniel, and Rodrigo Leandro de MOURA. "Demografia e homicídios no Brasil." Novo regime demográfico: uma nova relação entre população e desenvolvimento 1 (2014): 355-373.

Negativos (mais educação, menos crimes)

a universalização do ensino médio para pessoas com mais de 15 anos de idade teria o efeito de diminuir em 42,3% o número de homicídios no país.

Risco de vitimização individual (homicídio)

Atendimento escolar

Cerqueira, Daniel, and Danilo Santa Cruz Coelho. "Redução da idade de imputabilidade penal, educação e criminalidade." (2015).

 

Negativos (mais educação, menos crimes)

analisaram o efeito do programa Bolsa Família sobre o crime e verificaram que a expansão do programa, associada a frequência escolar de adolescentes em situação de vulnerabilidade socioeconômica com idade entre 16 e 17 anos, contribuiu para a diminuição dos homicídios na cidade de São Paulo.

Tx de homicídio

Atendimento escolar

CHIODA, L.; MELLO, J. M. P.; SOARES, R. Spillovers from conditional cash transfer programs: Bolsa Família and crime in urban Brazil. Economics of Education Review, v. 54, p. 306-320, 2015. [ Links ]

 

Negativos (mais educação, menos crimes)

a taxa de homicídios está positivamente relacionada com o nível de desigualdade de renda e negativamente com o nível de educação, despesa com segurança e renda.

Tx de homicídios

Nível de escolaridade

de Carvalho, Renata Costa, and Fernando Henrique Taques. "A desigualdade de renda e a educação podem explicar a criminalidade? Uma análise para os Estados brasileiros." Revista de Políticas Públicas 18.2 (2015): 343-357

Negativos (mais educação, menos crimes)

Cerqueira e Moura (2014; 2015) e Cerqueira e Coelho (2015) encontraram evidências de que a maior taxa de atendimento escolar para homens jovens entre 15 e 17 anos está associada a uma diminuição da taxa de homicídio

Tx de homicídio

Atendimento escolar

Cerqueira, Daniel. "Trajetórias individuais, criminalidade e o papel da educação." (2016).

 

Negativos (mais educação, menos crimes)

Os resultados indicaram uma elasticidade negativa de aproximadamente 0,1 na primeira defasagem, ou seja, se os gastos com educação aumentarem 10%, a taxa de homicídios diminuiria 1% no período seguinte

Tx de homicídio agregada por UF

Gastos com educação

Becker, Kalinca Léia, and Ana Lúcia Kassouf. "Uma análise do efeito dos gastos públicos em educação sobre a criminalidade no Brasil." Economia e Sociedade 26.1 (2017): 215-242.

 

Negativos (mais educação, menos crimes)

Para cada concluinte do ensino médio, a redução estimada na criminalidade gera economia de 63% da renda per capita ao longo da vida. A sociedade poupa R$ 18 mil em combate ao crime.

criminalidade

Atendimento escolar

Barros, Ricardo Paes de. “Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens. Ipea, 2020

 
A principal conclusão ao analisar esta literatura é que, do ponto de vista da política pública, é compensador investir em educação para reduzir a criminalidade. É mais barato para o poder público e mais rentável para o indivíduo e para as comunidades. Mas não se trata apenas de eficiência e economia. O resultado final são menos vidas perdidas e aumento da qualidade de vida da população.
 
Adicionalmente ao crescimento do desemprego em função da COVID-19 e do aumento do número de armas em circulação em razão da flexibilização promovida pelo governo federal, os analistas esperam um aumento forte da evasão escolar nos próximos meses. Muitos jovens enfrentam grandes dificuldades para fazer esta transição do ensino presencial para o virtual. Aumenta o desinteresse nos estudos com a ausência de interação com colegas, professores e mesmo pela falta de merenda. Nem todos os professores tiveram condições ou habilidade para transformar o conteúdo em algo atraente para os alunos. Falta material didático adaptado. Os alunos sofrem com a falta em casa de equipamentos e de conexão para acessar a internet. Não existe às vezes a tranquilidade e o isolamento necessários ao estudo dentro de casa. Com o desemprego de muitos pais, existe o estimulo para o abandono precoce da escola e entrada antecipada no mundo do trabalho. A eventual repetência pode se tornar num fator adicional para o abandono.
 
Além de estímulos para a retomada da economia e dos empregos e do retorno ao controle sobre armas e munições, lideranças políticas responsáveis devem estimular a permanência dos jovens na escola, através, por exemplo, de programas de “busca ativa”, identificando os alunos faltantes e tentando sanar suas dificuldades. É preciso fazer segurança pública baseada em evidências. E a literatura criminológica sugere que garantir emprego e educação para os jovens, além de retirar as armas de circulação, são políticas efetivas para a redução da criminalidade.
 
 
 Bibliografia selecionada - educação e criminalidade
 
1.       Barros, Ricardo Paes de. “Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens. Ipea, 2020
2.       CERQUEIRA, Daniel, and Rodrigo Leandro de MOURA. "Demografia e homicídios no Brasil." Novo regime demográfico: uma nova relação entre população e desenvolvimento 1 (2014): 355-373.
3.       de Almeida, E. M., Hojda, A., Sposato, K. B., & Kahn, T. (2002). Adolescentes suspeitos ou acusados da autoria de atos infracionais em São Paulo: convênio Ilanud/Febem-SP/PAJ-Infância e Juventude. Revista brasileira de ciências criminais, (38), 165-209.
4.       de Resende, João Paulo. "Crime social, castigo social: o efeito da desigualdade de renda sobre as taxas de criminalidade nos grandes municípios brasileiros." (2007).
5.       Hartung, Gabriel Chequer. Fatores demográficos como determinantes da criminalidade. Diss. 2006.
6.       Kahn, Tulio, J. C. Besen, and R. B. Custódio. "Pesquisa de Vitimização 2002 e Avaliação do Plano de Prevenção da Violência Urbana-PIAPS." ILANUD, FIA-USP, Gabinete de Segurança Institucional (2002).
7.       Kahn, Tulio. "Pesquisas de vitimização." Revista do Ilanud 10 (1998).
8.       KAHN, Túlio. "Sistema penitenciário: mudanças de perfil dos anos 50 aos 90." Revista do ILANUD, São Paulo 6 (1997).
9.       Kahn, Tulio. Segurança Pública: diagnósticos e prognósticos - 2019 Formato: eBook Kindle. ASIN: B07YYPHSTZ
10.   Lemos, Alan Alexander Mendes, Eurílio Pereira Santos Filho, and Marco Antonio Jorge. "Um modelo para análise socioeconômica da criminalidade no município de Aracaju." Estudos Econômicos (São Paulo) 35.3 (2005): 569-594.
11.   Loureiro, A. O. F., and J. R. A. Carvalho Jr. "O impacto dos gastos públicos sobre a criminalidade brasileira." Encontro Nacional De Economia 35 (2007).
12.   T. Kahn, C. Bermergui, E. Yamada, F. Cardoso, F. Fernandes, J. Zacchi, et al.O dia-a-dia na vida das escolas (violências auto assumidas) [Day to day life in schools (self-reported violence)] Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente/Instituto Sou da Paz, São Paulo, SP, Brazil (1999).

13.   Teixeira, Evandro Camargos. Dois ensaios acerca da relação entre criminalidade e educação. Diss. Universidade de São Paulo, 2011.

14.   Becker, Kalinca Léia, and Ana Lúcia Kassouf. "Uma análise do efeito dos gastos públicos em educação sobre a criminalidade no Brasil." Economia e Sociedade 26.1 (2017): 215-242.

15.   Cerqueira, Daniel, and Danilo Santa Cruz Coelho. "Redução da idade de imputabilidade penal, educação e criminalidade." (2015).

16.   Cerqueira, Daniel. "Trajetórias individuais, criminalidade e o papel da educação." (2016).

17.   FAJNZYLBER, P.; ARAÚJO JÚNIOR, A. Violência e criminalidade. In: LISBOA, M. B. MENEZES FILHO, N. A. (Ed.). Microeconomia e sociedade no Brasil. Rio de Janeiro: Contracapa Editora, 2001. p. 333-394. [ Links ]

18.   KUME, L. Uma estimativa dos determinantes da taxa de criminalidade brasileira: uma aplicação em painel dinâmico. In: ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA, 32., 2004. João Pessoa . Anais… João Pessoa: Anpec, 2004. p. 1-16. [ Links ]

19.   OLIVEIRA, C. A. Criminalidade e o tamanho das cidades brasileiras: Um enfoque da economia do crime. In: ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA, 33., 2005. Natal. Anais... Natal: Anpec, 2005. p.1-23. [ Links ]

20.   SANTOS, M. J. Dinâmica temporal da criminalidade: mais evidências sobre o efeito inércia nas taxas de crimes letais nos estados brasileiros. Economia, Brasília, Anpec, v. 10, n. 1, p. 170-194, 2009. [ Links ]

21.   Beato F, Cláudio, Betânia Totino Peixoto, and Mônica Viegas Andrade. "Crime, oportunidade e vitimização." Revista brasileira de ciências sociais 19.55 (2004): 73-89.

 
 
 
 


[i] Uma vez que num país como o nosso, onde as desigualdades são cumulativas, educação e renda estão associadas, é fácil perceber pelo grau de instrução da população carcerária, que são as camadas mais pobres[i] e menos escolarizadas que estão condenadas em maior proporção às penas privativas de liberdade: o censo de 1996 indicava a existência de 7% de analfabetos, 15% de apenas alfabetizados e 60% de internos com primário incompleto. A maioria esmagadora, portanto, não possui aquilo que hoje é fundamental para a colocação no mercado de trabalho: educação. Esta predominância dos pouco escolarizados nos presídios é algo que tem se mantido constante no tempo, desde a década de 50.   Não é preciso muito esforço para entendê-la: os menos ricos e educados não só tem menos oportunidades relativas de entrar no mercado de trabalho como maiores dificuldades familiares e menores chances de contar com uma boa defesa legal. Somando-se a isso a impunidade com relação aos crimes do colarinho branco, corrupção e outros crimes onde é maior a incidência dos mais educados, é fácil compreender a quase absoluta ausência de indivíduos com nível superior nas prisões do Estado.(Kahn, 1998)
 
[ii] “Os dados sugerem, como seria natural esperar, que os jovens que não estudam, que constituem metade da amostra, tendem a praticar crimes mais violentos. Entre os que estavam estudando, observou-se uma maior ocorrência de lesão corporal. O ato desacato e a direção sem habilitação também são infrações comuns entre os jovens que estudam. Entre os jovens contraventores que não estão estudando os crimes mais frequentes são os de maior gravidade como o homicídio, roubo simples (56,6 %) e o tráfico de entorpecentes (63,7 %). No caso do homicídio, 70 % das ocorrências são cometidas por jovens que não freqüentam a escola. Nos crimes leves, como lesão corporal, desacato, dano ou direção sem habilitação, a relação se inverte: 74,1% dos infratores acusados de lesão estão entre os que freqüentam a escola, assim como 63,2% dos acusados por dano e 68,7% dos acusados por dirigir sem habilitação. Não só os que estudam cometem infrações mais leves como, quanto mais avançados os estudos mais leves parecem ser as infrações: direção sem habilitação, dano e porte de entorpecentes concentram se entre aqueles que tem 2º e 3º colegial. De um modo geral, os dados revelam os efeitos positivos da educação como freio a criminalidade, pois quanto mais os jovens avançam na trajetória escolar, menor a probabilidade de envolvimento com crimes violentos.(Kahn, 2002)
 

 


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