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quinta-feira, 8 de agosto de 2019
quinta-feira, 18 de julho de 2019
quarta-feira, 10 de julho de 2019
Política de drogas ou droga de políticas?
As ocorrências relacionadas a
entorpecentes são as que mais crescem no Estado de São Paulo. Em 1995, quando
tem inicio a divulgação das estatísticas trimestrais pela SSP, tínhamos algo em
torno de 4 mil ocorrências por trimestre, elevando-se para cerca de 14 mil
casos no primeiro trimestre de 2019. Isto representa um crescimento de
aproximadamente 220% no período, maior do que todos os outros delitos
divulgados.
Se tomarmos especificamente as
estatísticas de tráfico de entorpecentes, o aumento é ainda mais impressionante.
De uma média de 1700 casos no início da série histórica passamos a 12 mil casos
por trimestre em 2019, o que equivale a uma taxa de crescimento de mais de 580%.
Como temos no Estado 90 mil
inquéritos por trimestre, isto significa que a porcentagem de inquéritos
relacionados a entorpecentes subiu progressivamente no período. Nos anos 90 os
casos de entorpecentes representavam aproximadamente 8% dos inquéritos
policiais e atualmente representam 15%. Praticamente dobraram, não obstante a
razão boletins de ocorrência / inquéritos manter-se estável ao redor de 7:1 nos
últimos 24 anos. Em outras palavras, cada vez mais recursos do sistema de
justiça criminal são dedicados ao combate ao tráfico de drogas.
No sistema prisional paulista os
presos cumprindo pena por crimes relacionados a drogas já são 37%, pois não só
temos uma grande quantidade de casos como penas longas, fazendo com que a
porcentagem de apenados nesta modalidade de crimes cresça ano a ano. Em meados
dos anos 90 os condenados cumprindo pena por crimes relacionados a drogas
representavam cerca de 10% da população prisional enquanto hoje são quase
quatro em cada 10 presos.
Este crescimento das estatísticas
relacionadas a entorpecentes é reflexo tanto do crescimento do consumo de
drogas em si quanto, principalmente, do interesse do sistema de justiça
criminal por esta modalidade de crime. Cada sociedade e época elegem seu vilão
preferencial e o traficante de drogas – qualquer que seja seu tamanho ou lugar
na hierarquia - parece ter sido o escolhido nas últimas décadas.
O que pode explicar este
crescimento significativo dos crimes relacionados a drogas? Em primeiro lugar,
como dito, é possível que tenha havido aumento no consumo, refletindo no
aumento do tráfico e nas estatísticas policiais de tráfico. Embora os dados
sejam escassos, a UNODC estima que o uso da cocaína aumentou no Brasil de 0,4% em
2001 para 0,7% da população de 15 a 64 anos em 2005. O consumo de maconha
aumentou de 1% para 2,6% da população no mesmo período. Parte do aumento se deve
ao ajuste de estimativas, mas assim mesmo a UNODC, que analisa dados da
pesquisa CEBRID/Senad, acredita que
tivemos um aumento do consumo no país. Dados do IBGE (pesquisa Pense), por seu
turno, sugerem que o percentual que jovens de 13 a 15 anos que já usaram drogas
ilícitas aumentou de 7,3% em 2012 para 9% em 2015. Pesquisa mais recente
produzida pela Fiocruz indica de 9,9% dos brasileiros entre 12 e 75 anos consumiram
drogas ilícitas alguma vez na vida – 7,7% maconha, haxixe ou Skank, 3,1% cocaína
e 0,9% crack. As metodologias nem sempre são comparáveis, mas é possível que
parte da explicação para o aumento das ocorrências resida no aumento do consumo
de drogas.
Note-se, contudo, que as
pesquisas de cunho epidemiológico mostram taxas de crescimento estáveis ou pequenas
no consumo enquanto as estatísticas policiais mostram crescimentos explosivos
nas ocorrências relacionadas a entorpecentes. Assim, é preciso buscar explicações
que vão além do aumento do consumo pela população, que esta longe de se
caracterizar como uma epidemia. Até porque o aumento do consumo de drogas está
relacionado ao aumento da renda per capita, que está estacionada no Brasil,
pelo menos desde 2011. Se existe uma epidemia, ela se concentra no sistema de
justiça criminal e não no sistema de saúde.
Existem diversas hipóteses nesta
linha: melhora na eficiência policial, como por exemplo, a criação dos Disque
Denúncia, onde a maioria das denúncias diz respeito às drogas; mudanças na
legislação, como a Lei de Drogas de 2006, cujo efeito aparente foi aumentar a
criminalização de pequenos traficantes e mulas; aumento na proporção de
evangélicos na população, cuja pregação contra o risco das drogas na sociedade
é intensa; reflexo da ideologia da guerra às drogas, criada nos anos 80 e importada
dos EUA; interesse desproporcional da mídia sensacionalista e das bancadas de
segurança nos legislativos pelo universo do tráfico; dinâmica interna das
agências de combate ao tráfico: mais casos justificam mais recursos, que se
traduzem em mais casos e assim por diante; aumento do uso do território
brasileiro como rota de tráfico para outros países; percepção de que os
homicídios estão majoritariamente relacionados ao tráfico; foco na realidade
carioca e nos confrontos cinematográficos entre policiais e traficantes;
O fato é que existe uma espécie de
preocupação exagerada da população com relação ao tráfico. Como sugerimos em
artigo de 2011, dados de pesquisa de opinião revelam que o tráfico de drogas,
na percepção da população, é uma das principais causas da violência no país. O
tráfico, além disso, é visto como o delito mais ameaçador. Como discutimos na
ocasião, “o crime
patrimonial produz apenas um dano temporário e um prejuízo financeiro, que pode
ser reposto. O tráfico de drogas, por outro lado, pode trazer consequências
permanentes e desastrosas para a estrutura da família: um jovem viciado larga
os estudos, o trabalho, anda com maus elementos, furta objetos em casa para
sustentar o vício ou se envolve com roubos, aumenta consideravelmente o risco
de morte, cria problemas com a polícia e a justiça, etc. As drogas, enfim,
implicam no perigo muito maior do que um simples roubo ou mesmo o traumático
estupro pelo potencial de desestruturação da família que ele representa.”
Este medo
na sociedade explica em parte o que Louic Wacquant chama de “onda punitiva”,
que provoca a ascensão do estado penal em muitos países, onde a assistência
social é substituída pelo regime prisional. A virada punitiva compreende,
segundo o autor, seis traços comuns a esse conjunto de políticas: “a- o fim da era
da complacência com as incivilidades (e as perturbações da ordem pública); b- a
proliferação de leis, práticas e incorporação de dispositivos tecnológicos e segurança
privada; c- a disseminação de um discurso alarmista difundido à exaustão pela mídia
comercial, pelos agentes da ordem e os mercadores da segurança pública; d- o aprofundamento
do discurso da eficiência na guerra ao crime, na valorização da vítima e na estigmatização
de excluídos; e- a substituição da reabilitação pelo gerencialismo de estoques de
presos; f- o endurecimento legislativo e judicial.” (Wacquant, 2003).
O
diagnóstico coincide em parte com o que David Garland aponta como marcha à ré
no processo civilizatório, caracterizado, na esfera da justiça criminal, pelo “a
- declínio do ideal de reabilitação; b –o tom emocional na política criminal,
centrado na ampliação do medo; c- a centralidade da vítima; d- reinvenção da
prisão; e - transformação do pensamento criminológico; f -a expansão da infraestrutura
da prevenção do crime e da segurança da comunidade; g- perpétua sensação de
crise e h - caldo de cultura para a expansão do neoconservadorismo”. (Garland,
2001).
Assim,
este encarceramento massivo de pequenos traficantes tem quer vista também
dentro desta lógica punitivista cujas linhas gerais foram delineadas por
Wacquant e Garland. Note-se de passagem que esta virada punitiva é acentuada no
atual período bolsonariano, mas começa bem antes e esta lógica tampouco foi
alterada durante os governos de esquerda e centro-esquerda. Em parte, trata-se
de uma resposta ao fracasso da esquerda e centro esquerda em lidar com o
problema criminal.
Não se
trata obviamente de um inimigo imaginário, mas do que denominamos em outro lugar por "mais repressão". O poder das facções criminais se
assenta nos recursos financeiros auferidos com a venda de drogas e parte dos
homicídios no país são fruto direto desta disputa no mercado de drogas. Assim,
combater o tráfico de drogas é também combater o crime organizado e os
homicídios (embora este “combate” gere, em si, muitas mortes nos confrontos
entre as polícias e traficantes).
O
problema reside na tendência e na proporção que este foco nas drogas vem
tomando dentro do sistema de justiça criminal e na qualidade das prisões que
tem sido feitas, concentradas em criminosos da baixa hierarquia do tráfico,
pegos com quantidades pequenas de droga. Estamos falando aqui em 15% dos
polpudos recursos da polícia paulista e em 37% dos recursos do sistema
prisional, destinados a aumentar o poderio das facções . Sem falar nos custos
para o sistema judiciário. Faz sentido encarcerar milhares de jovens pobres de
pouca periculosidade, que no dia seguinte são substituídos no mercado criminal?
É
preciso redirecionar estes enormes recursos destinados à repressão às drogas,
investindo em prevenção ao consumo e focar a repressão nas lideranças do
tráfico. Prender milhares de pequenos traficantes e mulas nas últimas décadas
não parece ter reduzido o poder do tráfico no país.
GARLAND,
David. A cultura do controle: crime e a ordem social contemporânea. Rio de
Janeiro: Revan, 2001.
WACQUANT, Loïc (1999). As Prisões
da Miséria, Rio de Janeiro: Zahar, 2011, 2ªed.
WACQUANT, Loïc. Punir os Pobres: a nova gestão
da miséria nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Revan, 2003.
segunda-feira, 1 de julho de 2019
Quem cabula aula hoje, rouba banco amanhã
Os municípios gastam 25% do que
arrecadam com impostos com educação infantil e ensino fundamental, segundo as
regras da Constituição de 1988. Apesar dos investimentos expressivos, existem
aproximadamente 174 mil crianças fora da escola no município de São Paulo, o
que equivale a 8% da população de 4 a 17 anos. O percentual aumenta com a
diminuição da renda média familiar e aumenta com a idade: na faixa de 15 a 17
anos, são 14,6% dos jovens fora da escola. Além da renda familiar baixa – que explica
em parte a necessidade do trabalho infantil - morar na zona rural, gravides na adolescência,
violência escolar e baixa escolaridade dos pais estão entre os principais
fatores explicativos do abandono escolar. (Iniciativa Global pelas Crianças
Fora da Escola, UNICEF, 2012)
Outros fatores, segundo pesquisa
do economista Marcelo Neri (Motivos da Evasão Escolar, FGV, 2009), são escolas
vistas como “desinteressantes”, dificuldade de acesso à escola, repetência, dificuldades
de locomoção e falta de documentação, entre outros fatores.
Trata-se, portanto, de um
fenômeno multicausal que precisa ser abordado por diferentes políticas públicas:
programas de transferência de renda, reforço escolar, oferta de educação integral,
de prevenção da gravides e do bulling, de esclarecimento dos pais, de
transporte escolar, inscrição por zoneamento, terapias com alunos, devem ser combinados para
reduzir o problema da evasão e o abandono.
Diversos estudos sugerem que evasão
escolar e baixa escolaridade estão altamente correlacionadas com propensão à
criminalidade. Ela diminui a empregabilidade, a renda futura, as barreiras
culturais e sociais que funcionam como fatores protetivos ao crime. As
estatísticas dos censos penitenciários e o perfil dos jovens cumprindo medidas
sócio educativas mostram invariavelmente que a maioria dos envolvidos tem baixo
nível de escolaridade e que uma escolaridade mais elevada é um elemento de
proteção contra problemas futuros com o sistema de justiça criminal. (Rolim,
Marcos. A Formação de Jovens Violentos - Estudo sobre a Etiologia da Violência
Extrema, editora Appris). Ressalte-se que a escolarização reduz também o risco
de vitimização violenta, uma vez que o perfil das vítimas de homicídio também é
desproporcional com relação à renda e educação, atingindo em especial pessoas
de baixa renda e escolaridade.
Segundo o sociólogo Marcos Rolim,
a prevenção da criminalidade deve levar em conta a redução da evasão escolar,
aspecto que costuma ser negligenciado no Brasil quando o assunto é segurança
pública. Considerados os índices de evasão escolar, o cenário no Brasil seria,
de fato, favorável à violência extrema. Em 2013, uma pesquisa do Pnud (Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento) mostrou que um a cada quatro alunos que inicia o
ensino fundamental no país abandona a escola antes de completar a última série.
O Brasil figurava no estudo com a terceira maior taxa de abandono escolar entre
os 100 países de maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), atrás apenas da
Bósnia e Herzegovina e do arquipélago de São Cristóvão e Névis.
Estudo de 2016 desenvolvido por
Daniel Cerqueira, do IPEA, estimou que para cada 1% a mais de jovens entre 15 e
17 anos nas escolas, há uma diminuição de 2% na taxa de assassinatos nos
municípios. Essa foi a principal conclusão da Nota Técnica Indicadores
Multidimensionais de Educação e Homicídios nos Territórios Focalizados pelo
Pacto Nacional pela Redução de Homicídios, escrito pelo economista.
Neste sentido, o problema da evasão
escolar é de interesse fundamental para as secretarias estaduais e municipais
de segurança, que podem atuar preventivamente para diminuir a evasão e com isso
reduzir o problema da criminalidade nos anos futuros.
Um dos instrumentos para isso é a
fiscalização da frequência escolar. A Ficha de Comunicação do Aluno Infrequente
(Ficai) foi desenvolvida em 1997 pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul
por meio de um Termo de Compromisso de Ajustamento estabelecido entre a
Coordenadoria das Promotorias de Justiça da Infância e da Juventude, as
secretarias Estadual e Municipal de Educação e os Conselhos Tutelares gaúchos.
A Ficai é usada para monitorar a
frequência dos alunos da rede pública de ensino. Quando um estudante abandona a
escola ou falta constantemente, o Conselho Escolar, com o apoio das
instituições parceiras, entra em contato com os pais ou responsáveis para
trazer o aluno de volta. Após um determinado número de dias consecutivos ou
alternados de faltas em um mesmo mês, tem início a busca pelo estudante. Além
de visitas domiciliares, são realizadas reuniões, palestras e outras atividades
com os alunos, pais ou responsáveis que não atenderem ao chamado de frequência
à escola.
Vários Estados adotaram o monitoramento,
que adicionalmente permite identificar casos de abuso sexual e violência
doméstica. As escolas públicas municipais e estaduais de São Paulo podem adotar
um sistema similar, hoje factível em formato digital, comunicando as Secretarias
de Educação sobre os alunos faltosos. Um primeiro contato com a família pode
ser feito no âmbito da escola ou da Secretaria de Educação, através de contato
por telefone ou e-mail.
Na impossibilidade de contato, a
Guarda Municipal ou Polícia Militar será acionada e uma viatura se deslocará
para a residência da família, deixando no endereço uma notificação para o
comparecimento imediato do aluno à escola. Policiais devidamente treinados
alertariam para as consequências sociais e jurídicas da evasão. Os pais podem
ser responsabilizados caso o aluno não compareça à escola. A obrigação de
atendimento de 4 a 17 anos foi determinada por meio da Emenda Constitucional nº
59 em 2009 e, depois, reforçada pelo PNE (Plano Nacional de Educação) e por uma
alteração de 2013 na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O
descumprimento dos deveres do poder familiar, previsto no ECA (Estatuto da
Criança e do Adolescente), pode gerar pena de multa enquanto o crime de
abandono intelectual está no Código Penal e prevê pena de detenção.
Além da identificação de casos
através das secretarias de educação, é possível implementar o programa Busca
Ativa, como apoio da comunidade, para identificar outros casos de quem já
abandonou a escola a mais tempo. O programa Busca Ativa Escolar foi desenvolvido
pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e é uma plataforma
gratuita para ajudar os municípios a combater a evasão escolar. A intenção é
apoiar os governos na identificação, registro, controle e acompanhamento de
crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão, através
de políticas públicas que contribuam para a inclusão escolar.
As pessoas que conhecem alguma
criança ou adolescente fora da escola podem informar nas escolas, nos postos de
saúde, nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e no Centro de
Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), na Guarda Civil
Municipal, nos Conselhos Tutelares e na Vara da Infância, da Juventude e do
Idoso. O Programa foi desenvolvido em parceria com a União Nacional dos
Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Colegiado Nacional de Gestores
Municipais de Assistência Social (Congemas) e o Conselho Nacional de
Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS).
Na esfera da transferência de
renda, Rolim cita como boa prática de prevenção terciária o POD (Programa de Oportunidades e Direitos) RS
Socioeducativo, criado em 2009 no Rio Grande do Sul, e que atende jovens infratores de 12 a 21 anos
que deixam o sistema de internação. No POD, cada jovem passa a receber, por um
ano, uma bolsa de meio salário mínimo (R$ 468,50), vale-transporte e
alimentação, desde que frequente cursos de formação em áreas como informática,
mecânica e manutenção predial. Segundo o sociólogo, a cada dez jovens atendidos
pelo programa, apenas três reincidem no crime. Outro bom exemplo é o programa
Cada Jovem Conta, desenvolvido pela prefeitura de Canoas, que identifica nas
escolas públicas jovens com comportamentos de risco e oferece uma série de
tratamentos para os jovens e familiares.
Existem diversos programas
preventivos desenvolvidos com o apoio dos órgãos de segurança para reduzir a
evasão escolar, apontado como um dos principais fatores explicativos dos
elevados índices de criminalidade. O problema pode ser prevenido de inúmeras
maneiras e as guardas municipais e polícias estaduais podem colaborar na
prevenção da evasão. Segurança Pública, afinal, é muito mais do que correr atrás
de criminosos. Melhor correr agora atrás de alunos relapsos do que correr atrás
de assaltantes de bancos daqui a vinte anos. O assaltante de hoje, é preciso
lembrar, passou em algum momento pelos nossos bancos escolares e o poder
público falhou ao permitir que largasse os estudos.
terça-feira, 18 de junho de 2019
É preciso aperfeiçoar o sistema nacional de estatística criminal
Fiquei bastante entusiasmado quando vi pelos jornais que o
Ministério da Justiça estava divulgando dados atualizados de criminalidade no
Brasil, relativos ao primeiro bimestre de 2019 – embora não tenham produzido
grandes análises sobre as tendências. Houve queda em todos os indicadores em
2019 e a ilação é que isto se deveria a nova administração. Acompanhando os dados da série histórica de homicídios e outros crimes, contudo, é possível verificar que o processo de queda se inicia por volta do segundo semestre de 2017. Há diferenças entre as fontes, como veremos, mas ambas são congruentes do ponto de vista das tendências. O gráfico abaixo traz a variação mensal, com relação ao mesmo período do ano anterior.
A divulgação, em todo caso, foi bastante oportuna e acho que
não era feita desde que deixei o MJ em 2002, quando lançamos o primeiro boletim
de análise criminal, em cima de dados do que na época chamávamos SINEP (e que o
PT mudou para Sinesp e afirma que criou, mas esta é outra história).
Fui conferir rapidamente alguns dados para alimentar meu
sistema pessoal. A checagem foi rápida, limitada as ocorrências de homicídios
dolosos, dos meses de janeiro e fevereiro de 2019. Comparei os dados
disponibilizados pelo Sinesp com os dados divulgados nos sites das Secretarias
estaduais de
Segurança.
Não continuei a comparação para outros crimes por
falta de tempo, mas a amostra já foi suficiente para alertar que é preciso algum cuidado ao utilizar e analisar os dados divulgados pelo MJ, já
comemorando a queda dos índices de criminalidade no país. Os dados de outubro de 2018 do RJ simplesmente desapareceram no Sinesp. Os dados de março, abril e mail de 2017 no Acre estão provavelmente equivocadados e desconfio bastante dos dados de janeiro de 2019 de Goias.
Talvez algum jornal ou instituto de pesquisa consiga fazer um levantamento mais completo.
A tabela abaixo resume algumas das diferenças encontradas entre as fontes:
Talvez algum jornal ou instituto de pesquisa consiga fazer um levantamento mais completo.
A tabela abaixo resume algumas das diferenças encontradas entre as fontes:
| Homicídio doloso Sinesp | Homicídio Doloso SSPs | |||||||
| UF | Jan | Fev | 1º bim | Jan | Fev | 1º bim | dif | |
| Alagoas | 94 | 94 | 188 | 98 | 91 | 189 | 0,53 | |
| Distrito Federal | 29 | 29 | 58 | 31 | 29 | 60 | 3,45 | |
| Espírito Santo | 104 | 94 | 198 | 103 | 94 | 197 | - 0,51 | |
| Minas Gerais | 260 | 197 | 457 | 260 | 198 | 458 | 0,22 | |
| Rio Grande do Sul | 194 | 134 | 328 | 203 | 139 | 342 | 4,27 | |
| São Paulo | 270 | 212 | 482 | 270 | 212 | 482 | - | |
É bastante provável que a responsabilidade pelas diferenças
caiba às SSPs estaduais, que preenchem por obrigação o sistema Sinesp com um
dado e depois divulgam outro, já revisto, no site. Mas isto não diminui a
responsabilidade do Ministério da Justiça pela checagem, correção e
responsabilização do Estado pelo erro.
Divulgar qualquer dado, sem crítica exaustiva, é ruim para a
credibilidade do Sinesp. Dá minha parte, vou continuar compilando os dados dos
sites das SSPs estaduais. Estes dados são monitorados pelas comunidades e mídias
locais, que fiscalizam e pressionam os governos Estaduais sobre o desempenho do
crime. E onde há fiscalização, os dados parecem ser mais corretos.
Há um período de aprendizagem natural em qualquer novo
processo. Esperemos que o MJ mantenha a iniciativa da disponibilização dos
dados (até por conta da Lei do Sinesp). Mas que tome as devidas providências
para que seja um instrumento confiável para a sociedade, mais do que
instrumento de propaganda para o governo.
Nota: na primeira versão do artigo mostrava as divergencias de números no Paraná e do Rio de Janeiro. A Senasp me alertou, contudo, que a discrepância se devia a diferenças de critérios: os sites das duas SSPs utilizam número de vítimas enquanto o Sinesp nûmero de ocorrências. Agradeço pela correção.
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Retórica da violência e aumento da letalidade policial
Acompanho desde os anos 90 a
questão da letalidade e da violência policial e contra policiais no Brasil. Um
dos desafios no monitoramento da questão é como encontrar indicadores
minimamente objetivos que possam apontar quando os padrões de letalidade estão
dentro da “normalidade” esperada e quando estamos diante de padrões “excessivos”.
Só a análise de cada caso e
situação individual, feita na investigação, pode definir quando a atuação
policial no confronto foi legal e legítima e quando foi ilegal e excessiva. Há
que se levar em conta as provas testemunhais e as evidências forenses, as
circunstancias atenuantes e agravantes e os requisitos legais da necessidade e
proporcionalidade. Mesmo com todas as informações disponíveis é muito difícil
se colocar na posição do policial naquele momento e afirmar que se tratou de
uso ilegítimo ou abusivo da força. Isso faz com que seja baixo o percentual de
casos de mortes em confronto considerados como excessivos pela justiça e
julgados como homicídios. Na maioria dos casos, a justiça conclui que o uso da
força foi legítimo.
Se é temerário julgar casos
específicos sem o levantamento da situação, mais temerário ainda é fazer este
tipo de julgamento “coletivamente”, lançando mão de estatísticas e dados
agregados. Não obstante, acredito sempre que as estatísticas podem apontar algumas
tendências e padrões gerais sobre a questão. Elas jamais poderão ser utilizadas
para afirmar categoricamente alguma coisa ao nível individual. Mas podem lançar
alguma luz sobre o fenômeno da violência policial em geral.
Dito isso, é possível utilizar
alguns indicadores para analisar os padrões atuais de letalidade policial em
São Paulo, cujos dados de 2019 acabam de ser publicados. Não obstante a queda
generalizada da maioria dos crimes, membros da sociedade civil e dos meios de
comunicação apontam um crescimento da letalidade policial no período. Neste
artigo procuramos investigar se está ocorrendo um aumento, quando ele começou e
algumas possíveis razões para o fenômeno.
O quadro abaixo traz as médias
trimestrais de sete indicadores usuais de letalidade policial: 1) pessoas
mortas em confronto com a Polícia Civil, em serviço; 2) pessoas mortas em
confronto com a Polícia Militar, em serviço; 3) razão entre policiais mortos e
suspeitos mortos; 4) razão entre suspeitos feridos e suspeitos mortos; 5)
proporção de mortos em confronto dentro do total de homicídios; 6) mortes de
suspeitos por 1000 prisões e 7) morte de suspeitos por policiais por 100 mil
habitantes. A ideia é apontar para excessos através de indicadores minimamente
objetivos, minimizando os julgamentos morais.
Fonte: res 160 SSP/SP
Estamos analisando aqui médias
trimestrais, pois os dados são divulgados trimestralmente e temos dados para
apenas 2 trimestres para o ano de 1995 e 1 trimestre de 2019. (Assim, é preciso
multiplicar por quatro para termos uma ideia dos valores anuais).
A primeira coluna mostra que no
final dos anos 90 a Policia Civil se envolvia em mais confrontos letais do que
agora. A média é de 8,6 suspeitos mortos por trimestre e no primeiro trimestre
de 2019 ela ficou bem abaixo disto, com média de 3 mortos. Note-se a mudança de
patamar para baixo a partir de 2003, com exceção dos anos do ataque do PCC em
2006 e de 2017.
Por conta de sua função
constitucional e tamanho do efetivo, os confrontos com a Polícia Militar, responsável
pelo policiamento ostensivo, são bem mais letais, com média trimestral de 119
suspeitos mortos em confronto. Observe-se que depois do ano de 2013 parece ter
ocorrido uma mudança de patamar na letalidade dos confrontos, sendo todos os
valores superiores à média histórica, com exceção da observada em 2003, que foi
recorde da série. O primeiro trimestre de 2019 elevou um pouco este patamar,
mas a tendência altista já está caracterizada desde pelo menos 2014.
O terceiro indicador traz a razão
média entre suspeitos e policiais militares mortos em confronto. Em razão do
melhor treinamento, apoio e equipamento, é natural que morram mais criminosos
do que policiais nos confrontos. Mas
quantas vezes mais? A partir do que patamar temos um padrão “abusivo”? .
Historicamente, observamos em SP uma razão de 33:1, ou seja, suspeitos morrem
33 vezes mais do que policiais nos confrontos. (os números não são precisos,
pois estamos fazendo uma média de razões quando o ideal seria recalcular as
razões tomando os números absolutos originais. Mas a intenção é antes mostrar
como o indicador vem evoluindo no tempo). Note-se que no início da série
histórica esta razão era bem menor, bem como o impacto da política de mata-mata
entre Rota e PCC em 2012. Depois da relativa tranquilidade de 2013, note-se
novamente o que parece ser uma mudança de patamar para cima a partir de 2014. E
em 2019 um novo aumento, atingindo o pico da série histórica.
O quarto indicador traz a relação
entre suspeitos mortos e feridos nos confrontos. Numa situação normal, o
esperado é que os confrontos deixem mais feridos do que mortos. Os dados
mostram, todavia que, com exceção dos anos de 1995, 1996, 2005 e 2013, o nosso
padrão é invertido, ou seja, em média os confrontos produzem 1,3 mais mortos do
que feridos. Novamente aqui, vemos uma elevação no primeiro trimestre de 2019,
quando a razão chegou a 2,3 mortos por ferido.
O quinto indicador é a proporção
de mortos em confronto dentro dos homicídios em geral. O problema deste
indicador é que ele deixou de ser informativo, uma vez que presenciamos nas
últimas décadas uma redução sem precedentes no número de homicídios no Estado,
superior a 70%. De modo que esta proporção aumentaria de todo modo, mesmo que
tivéssemos uma diminuição ou estabilidade nos confrontos, por conta da queda no
denominador. Em todo caso, é digno de nota que no começo da série histórica as
mortes em confronto representassem apenas 3 a 4% das mortes no Estado e que
atualmente representem ¼ das mortes. Isto significa que o controle efetivo da
letalidade policial é hoje o melhor meio para reduzirmos ainda mais as mortes
por agressão externa em São Paulo.
O sexto indicador nos traz a taxa
de suspeitos mortos por 1000 prisões. A ideia subjacente é que quando ocorrem
mais crimes e mais prisões, temos concomitantemente um aumento no risco de
confrontos, uma vez que a maioria dos confrontos ocorre durante crimes em
andamento, principalmente roubos. Com efeito, no final dos anos 90 a polícia
paulista prendia em média 20 mil suspeitos por trimestre . Atualmente, esta
média é de 45 mil suspeitos, mais do que dobrando a quantidade de prisões.
Vemos assim que, mesmo tendo dobrado o risco de confrontos, a média de mortos
em confronto a cada 1000 prisões continuou ao redor de 4. A média sobe no período
de 2002 a 2006, mas depois volta a cair. Por este indicador, a letalidade
policial se manteve aproximadamente constante, se aceitamos o pressuposto de
que a letalidade é uma função do volume de crimes e de prisões. Mesmo aceitando
este pressuposto, um patamar elevado de letalidade não é “destino”, mas antes
produto de uma política de segurança. Evidência disso é o ano de 2013, sobre o
qual voltaremos a comentar.
O sétimo e último indicador é a
taxa de suspeitos mortos por 100 mil habitantes. A lógica subjacente aqui é
que, como qualquer crime, a letalidade também aumenta com a população, de modo
que é preciso analisar taxas e não números absolutos. São Paulo de 1995 tinha
33 milhões de habitantes e o de 2019 tem 44 milhões. O Estado ganhou o
equivalente a uma cidade de São Paulo neste período, aumentando assim a
probabilidade de confronto. De fato, também por este indicador a letalidade se
manteve relativamente constante, embora esteja acima da média nos anos de 2014
em diante, quando se manteve sistematicamente acima dos .32:100 mil.
A análise sugere que é preciso
olhar com cuidado os vários indicadores de letalidade, que revelam diferentes
facetas do problema. É verdade que em parte a letalidade cresce em função do
crescimento da população e do volume de prisões, que aumentam as chances de
confronto. Por outro lado, em outra parte ela é função de uma “política” ou
ausência de uma política e varia para cima ou para baixo dependendo do período
e indicador que se tome.
Depois de um período de “linha
dura” em 2012, a gestão é substituída e vemos uma melhora generalizada dos
indicadores de letalidade em 2013. A média trimestral de mortes cai de 136 para
83, a razão mortos suspeitos X mortos policiais cai de 84 para 19, a razão
mortos X feridos cai de 1,5 para 0,86, a porcentagem de mortos dentro dos
homicídios cai de 12% para cerca de 8%, a taxa de mortes por 1000 prisões cai
de 4,2 para 2,2 e a taxa de mortes por 100 mil habitantes cais de .33 para .20.
Ou seja, presenciamos uma melhora substancial dos padrões de letalidade, de um
ano para outro, fruto de uma política explícita de pacificação, após conflitos
de 2012. Quando a polícia e o governo querem, é possível baixar a letalidade
para níveis toleráveis, não obstante o aumento da população ou das prisões.
Os dados sugerem também que a
elevação da letalidade não é algo que aconteceu subitamente em 2019, mas um
processo que se inicia por volta de 2014. O que aconteceu de lá pra cá que pode
explicar este fenômeno? Provavelmente, como todo fenômeno complexo, isto se
deva a uma série de fatores: mudanças na gestão da SSP e no comando da PM,
agravamento da crise econômica e elevação dos crimes patrimoniais, aumento da
violência por parte dos criminosos, desmobilização da comissão de letalidade da
SSP desde 2011, maior rapidez da polícia no atendimento aos chamados, etc. A
polícia tem procurado justificar o aumento da letalidade pelo aumento da
agressividade dos criminosos e aumento da celeridade no atendimento às
ocorrências, mas até o momento não foram apresentados dados e estudos que
corroborem estas justificativas.
Mas o fenômeno talvez seja em
parte nacional e ligado a causas mais gerais. Segundo dados do Fórum Brasileiro
de Segurança Pública, de 2016 para 2017 houve um aumento de 20% no número de
mortos cometidos pelas polícias, que foram responsáveis por 5.144 mortes no
país. E novo aumento de 18% foi relatado em 2018, de acordo com o levantamento do
projeto Monitor da Violência, capitaneado pelo G1, que computou 6.160 mortes. https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2019/05/07/com-mortes-pela-policia-queda-de-assassinatos-no-brasil-em-2018-e-menor.ghtml.
Em artigo anterior, apresentamos outros indicadores de abuso policial no
Brasil, trazendo dados estaduais. https://tuliokahn.blogspot.com/2018/12/trata-aos-outros-como-queres-ser.html
Não temos evidências para
corroborar, mas é possível conjecturar que o próprio desgaste moral do PT e das
políticas e discursos humanitários “de esquerda” após 2014 tenham contribuído
para esta elevação da letalidade policial, em diversos Estados. De alguns anos
para cá ficou cada vez mais socialmente tolerável defender a resolução dos
conflitos pela força, políticas de segurança “manu dura”, criticar a defesa dos
direitos fundamentais, apoiar a liberação das armas de fogo, justificar o
excesso policial com base no “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”, ou mirar
“na cabecinha”, como disse mais explicitamente o atual governador do Rio, onde
a letalidade também tem batido recordes.
Um dos piores efeitos dos
descaminhos da esquerda nesta década no governo foi ter contribuído
involuntariamente para que este tipo de discurso político se alastrasse pela
sociedade, legitimado por lideranças políticas, defendido por parcelas da
sociedade, principalmente através das mídias sociais.
Quanto mais aceita esta política e
este discurso de “jogar duro com a bandidagem”, menor a capacidade de pressão
das instituições da sociedade civil (há um projeto de lei na Assembleia para
acabar com a Ouvidoria de polícia de SP...) para pressionarem pela redução da
letalidade. Associadas tradicionalmente à esquerda, diversas ONGs perderam legitimidade
como interlocutoras neste debate, atingidas de tabela pelo desgaste dos
governos e partidos de esquerda. Ninguém quer mais ouvir falar de direitos
humanos e há menos espaço nos meios de comunicação para a denúncia de eventuais
abusos, inclusive contra policiais.
Assim, com menos pressão por
parte da sociedade civil organizada e com maior respaldo por parte de movimentos
e lideranças que defendem o endurecimento penal e no trato com os criminosos,
as polícias acabam cedendo muitas vezes à tentação do uso abusivo da força.
Como disse, são apenas
conjecturas para tentar explicar o aumento da letalidade pós 2014, embora a
literatura sobre o tema tenha já evidenciado que mudanças nos discursos com
relação à legitimidade dos confrontos tenham impacto significativo sobre os
níveis de letalidade (Oliveira Jr, Emanuel Nunes de. Letalidade da Ação
Policial e teoria interacional: análise integrada do sistema paulista de
segurança pública. FFLCH, 2008)
O bom desempenho da polícia se
mede pela taxa elevada de resolução de crimes, pela capacidade de prevenção,
pelo respeito demonstrado pela população, pela equidade no trato com o cidadão,
pela celeridade na resposta às demandas, pela satisfação de seus quadros.
Elevada taxa de letalidade
compromete este bom desempenho e deve ser desestimulada, por exemplo, com
redução no prêmio salarial quando aumenta a letalidade (como prevê a lei de
metas), com a retomada da Comissão de Letalidade e com a defesa muito incisiva
da legalidade pelos gestores da segurança pública. A grande maioria dos
policiais de São Paulo, com quem convivi durante muitos anos, é técnica,
profissional, legalista e não deseja o confronto. Letalidade alta é coisa de
capitão do mato. É evidência de fracasso da ação e risco para o policial. São
Paulo é caso de maior sucesso na redução dos homicídios do país. E pode se tornar também um exemplo no que diz
respeito à redução da letalidade policial. Este processo começa com a mudança do
discurso sobre o uso da força.
Bibliografia
Ceccato
V., Melo S.N., Kahn T. (2018) Trends and Patterns of Police-Related Deaths in
Brazil. In: Carrington K., Hogg R., Scott J., Sozzo M. (eds) The Palgrave
Handbook of Criminology and the Global South. Palgrave Macmillan, Cham
sexta-feira, 12 de abril de 2019
Mostrando o programa Chatfuel
Mostrando o programa Chatfuel https://youtu.be/R_99Aph0LO0 via @YouTube Video aula no meu canal do youtube, sobre como construir um robô de chat para coletar dados através de uma pesquisa on-line
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