terça-feira, 28 de abril de 2026

Polarização política afeta avaliação objetiva da segurança

 


Tulio Kahn

A segurança pública ocupa, de forma recorrente, o topo das preocupações dos brasileiros nas pesquisas de opinião. O dado chama a atenção por um motivo simples: ele convive com evidências robustas de melhora em diversos indicadores objetivos de criminalidade desde 2017, como a queda dos homicídios e de diferentes modalidades de roubo. Esse descompasso , entre o que mostram os dados e o que percebe a população , não é um paradoxo exclusivamente brasileiro. Trata-se de um fenômeno conhecido e amplamente documentado em outras democracias: o gap entre percepção e realidade, frequentemente ampliado por contextos de polarização política.

Roubo seguido de morte – Brasil – janeiro de 2015 a fevereiro de 2026



Fonte: Sinesp

A intuição inicial de que a percepção de segurança deveria acompanhar a evolução dos indicadores criminais é, em grande medida, ingênua. A percepção não é uma leitura direta dos dados, mas um produto de processos cognitivos, experiências individuais, exposição midiática e, cada vez mais, de identidade política. Em termos simples, as pessoas não avaliam a segurança apenas com base no que acontece, mas também com base no que acreditam que está acontecendo , e essas crenças são filtradas por preferências e alinhamentos.

A literatura internacional oferece evidências consistentes desse fenômeno. Nos Estados Unidos, por exemplo, estudos mostram que eleitores republicanos tendem a perceber aumento da criminalidade durante governos democratas, mesmo em períodos de queda dos crimes, enquanto eleitores democratas apresentam o padrão inverso. Esse comportamento foi observado de forma particularmente clara entre os anos 1990 e 2010, quando a criminalidade caiu de forma contínua, mas a percepção pública de insegurança permaneceu elevada e politicamente polarizada. Na Europa, fenômeno semelhante aparece em países como Reino Unido e França, onde a preocupação com segurança muitas vezes se dissocia das tendências estatísticas e varia conforme o posicionamento político dos indivíduos.

Esse padrão é explicado por três mecanismos principais. O primeiro é o viés de confirmação: indivíduos tendem a interpretar informações de forma a confirmar suas crenças prévias. O segundo é o chamado perceptual screening, pelo qual avaliações de políticas públicas são filtradas pela identidade partidária. O terceiro é o papel da mídia , e, mais recentemente, das redes sociais , na amplificação de eventos raros, porém chocantes, que passam a ser percebidos como representativos da realidade.

No Brasil, embora a literatura ainda esteja em consolidação, há sinais claros de que o mesmo mecanismo está em operação. Pesquisas recentes indicam que a avaliação da segurança pública varia significativamente conforme a orientação política do entrevistado. Eleitores mais alinhados ao governo tendem a avaliar o cenário de forma menos negativa, enquanto eleitores de oposição , especialmente em um contexto de polarização intensa como o atual , tendem a perceber deterioração, mesmo quando os indicadores apontam melhora. Esse padrão não é exclusivo da segurança: ele se replica em outras dimensões da avaliação governamental.

A economia oferece um paralelo particularmente elucidativo. Nos últimos anos, o Brasil apresentou resultados relativamente positivos em variáveis como crescimento do PIB, mercado de trabalho e até inflação em determinados momentos. Ainda assim, a avaliação do desempenho econômico do governo permanece baixa em parcelas significativas da população. Esse fenômeno é bem documentado na literatura de economia política: a percepção da economia também é fortemente influenciada por preferências políticas. Eleitores de oposição tendem a avaliar a economia de forma mais pessimista, independentemente dos dados objetivos, enquanto eleitores governistas tendem a ser mais otimistas.

O paralelo entre segurança e economia revela um ponto mais profundo: indicadores objetivos deixaram de ser suficientes para moldar a percepção pública. Em ambientes polarizados, a realidade empírica compete com narrativas políticas. Isso não significa que os dados sejam irrelevantes, mas sim que seu efeito sobre a opinião pública é mediado por fatores adicionais. A consequência é a coexistência de dois mundos: um, dos indicadores, que mostra melhora em diversas dimensões; outro, das percepções, que pode apontar estagnação ou piora.

Há, naturalmente, limites para a explicação baseada em polarização. Nem toda percepção negativa é fruto de viés político. Existem aspectos da criminalidade que não são plenamente capturados pelas estatísticas tradicionais, como golpes digitais, furtos de baixo valor e a sensação difusa de desordem urbana. Além disso, eventos violentos de grande repercussão têm impacto desproporcional sobre a percepção pública, independentemente de sua frequência. Ainda assim, a polarização oferece uma chave interpretativa poderosa para entender por que a percepção pode se afastar de forma persistente dos dados.

As implicações desse descompasso são relevantes para o debate público. Em primeiro lugar, ele sugere que políticas bem-sucedidas podem não se traduzir automaticamente em reconhecimento político. Em segundo, indica que a comunicação de resultados se torna tão importante quanto os resultados em si. Em terceiro, levanta um desafio mais amplo: como alinhar a percepção pública com a realidade empírica em um ambiente informacional fragmentado e politicamente carregado.

A experiência internacional sugere que não há solução simples. Transparência, divulgação de dados e melhoria dos indicadores são condições necessárias, mas não suficientes. Em última instância, a percepção de segurança , assim como a percepção da economia , é também um fenômeno político. E, como tal, tende a refletir não apenas o que acontece no mundo, mas também como diferentes grupos escolhem interpretá-lo.

 

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