Tulio Kahn
A segurança pública ocupa, de forma recorrente, o
topo das preocupações dos brasileiros nas pesquisas de opinião. O dado chama a
atenção por um motivo simples: ele convive com evidências robustas de melhora
em diversos indicadores objetivos de criminalidade desde 2017, como a queda dos
homicídios e de diferentes modalidades de roubo. Esse descompasso , entre o que
mostram os dados e o que percebe a população , não é um paradoxo exclusivamente
brasileiro. Trata-se de um fenômeno conhecido e amplamente documentado em
outras democracias: o gap entre percepção e realidade, frequentemente ampliado
por contextos de polarização política.
Roubo seguido de morte – Brasil – janeiro de 2015
a fevereiro de 2026
Fonte: Sinesp
A intuição inicial de que a percepção de
segurança deveria acompanhar a evolução dos indicadores criminais é, em grande
medida, ingênua. A percepção não é uma leitura direta dos dados, mas um produto
de processos cognitivos, experiências individuais, exposição midiática e, cada
vez mais, de identidade política. Em termos simples, as pessoas não avaliam a
segurança apenas com base no que acontece, mas também com base no que acreditam
que está acontecendo , e essas crenças são filtradas por preferências e alinhamentos.
A literatura internacional oferece evidências
consistentes desse fenômeno. Nos Estados Unidos, por exemplo, estudos mostram
que eleitores republicanos tendem a perceber aumento da criminalidade durante
governos democratas, mesmo em períodos de queda dos crimes, enquanto eleitores
democratas apresentam o padrão inverso. Esse comportamento foi observado de
forma particularmente clara entre os anos 1990 e 2010, quando a criminalidade
caiu de forma contínua, mas a percepção pública de insegurança permaneceu
elevada e politicamente polarizada. Na Europa, fenômeno semelhante aparece em
países como Reino Unido e França, onde a preocupação com segurança muitas vezes
se dissocia das tendências estatísticas e varia conforme o posicionamento
político dos indivíduos.
Esse padrão é explicado por três mecanismos
principais. O primeiro é o viés de confirmação: indivíduos tendem a interpretar
informações de forma a confirmar suas crenças prévias. O segundo é o chamado perceptual screening,
pelo qual avaliações de políticas públicas são filtradas pela identidade
partidária. O terceiro é o papel da mídia , e, mais recentemente, das redes
sociais , na amplificação de eventos raros, porém chocantes, que passam a ser
percebidos como representativos da realidade.
No Brasil, embora a literatura ainda esteja em
consolidação, há sinais claros de que o mesmo mecanismo está em operação.
Pesquisas recentes indicam que a avaliação da segurança pública varia
significativamente conforme a orientação política do entrevistado. Eleitores
mais alinhados ao governo tendem a avaliar o cenário de forma menos negativa,
enquanto eleitores de oposição , especialmente em um contexto de polarização
intensa como o atual , tendem a perceber deterioração, mesmo quando os
indicadores apontam melhora. Esse padrão não é exclusivo da segurança: ele se
replica em outras dimensões da avaliação governamental.
A economia oferece um paralelo particularmente
elucidativo. Nos últimos anos, o Brasil apresentou resultados relativamente
positivos em variáveis como crescimento do PIB, mercado de trabalho e até
inflação em determinados momentos. Ainda assim, a avaliação do desempenho
econômico do governo permanece baixa em parcelas significativas da população.
Esse fenômeno é bem documentado na literatura de economia política: a percepção
da economia também é fortemente influenciada por preferências políticas.
Eleitores de oposição tendem a avaliar a economia de forma mais pessimista,
independentemente dos dados objetivos, enquanto eleitores governistas tendem a ser
mais otimistas.
O paralelo entre segurança e economia revela um
ponto mais profundo: indicadores objetivos deixaram de ser suficientes para moldar a percepção
pública. Em ambientes polarizados, a realidade empírica compete
com narrativas políticas. Isso não significa que os dados sejam irrelevantes,
mas sim que seu efeito sobre a opinião pública é mediado por fatores
adicionais. A consequência é a coexistência de dois mundos: um, dos
indicadores, que mostra melhora em diversas dimensões; outro, das percepções,
que pode apontar estagnação ou piora.
Há, naturalmente, limites para a explicação
baseada em polarização. Nem toda percepção negativa é fruto de viés político.
Existem aspectos da criminalidade que não são plenamente capturados pelas
estatísticas tradicionais, como golpes digitais, furtos de baixo valor e a
sensação difusa de desordem urbana. Além disso, eventos violentos de grande
repercussão têm impacto desproporcional sobre a percepção pública,
independentemente de sua frequência. Ainda assim, a polarização oferece uma
chave interpretativa poderosa para entender por que a percepção pode se afastar
de forma persistente dos dados.
As implicações desse descompasso são relevantes
para o debate público. Em primeiro lugar, ele sugere que políticas bem-sucedidas
podem não se traduzir automaticamente em reconhecimento político. Em segundo,
indica que a comunicação de resultados se torna tão importante quanto os
resultados em si. Em terceiro, levanta um desafio mais amplo: como alinhar a
percepção pública com a realidade empírica em um ambiente informacional
fragmentado e politicamente carregado.
A experiência internacional sugere que não há
solução simples. Transparência, divulgação de dados e melhoria dos indicadores
são condições necessárias, mas não suficientes. Em última instância, a
percepção de segurança , assim como a percepção da economia , é também um
fenômeno político. E, como tal, tende a refletir não apenas o que acontece no
mundo, mas também como diferentes grupos escolhem interpretá-lo.
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