segunda-feira, 30 de julho de 2018

Recessão e roubos: formatos VULW


Se analisarmos as oscilações dos indicadores econômicos (emprego, PIB, inadimplência, etc.,) durante as recessões, veremos que os gráficos podem assumir diferentes formatos, aparentando letras alfabéticas tais como V, U, L ou W.

Resumidamente, o formato em V sugere uma curta e aguda contração econômica, seguida de recuperação acelerada e igualmente intensa enquanto a curva em U uma recessão prolongada e moderada. Um gráfico em L ocorre se a economia passa muitos anos sem crescimento, caracterizando um tipo mais severo de recessão ou eventualmente uma depressão. A rigor não existe um "L" de fato pois a definição mesma de ciclo econômico implica que, em algum momento, a economia volta a crescer. (mas infelizmente não temos nenhuma letra no alfabeto que represente este retorno, após uma depressão prolongada). Finalmente, um gráfico em forma de W, caracteriza um movimento do tipo double-dip (duplo mergulho), quando observamos um curto período de crescimento econômico após um período recessivo, que por sua vez é sucedido por um novo mergulho.

Todos estes formatos podem ser vistos também em forma invertida, se estivermos focando nas fases de recuperação do ciclo, mas para efeitos didáticos vamos nos ater aos principais.

Formatos de ciclos econômicos

V
U
L
W

Insistimos já há muitos anos que os indicadores criminais brasileiros, em especial os patrimoniais, seguem bem de perto alguns indicadores econômicos do business-cycles, como cheques devolvidos, expectativa do consumidor, desemprego e Pib, entre outros. Assim, quando analisamos os gráficos criminais também conseguimos enxergar, frequentemente, estes diferentes formatos que descrevem os movimentos da economia.

Pelos menos 4 estados (SP, RJ, RS e MG) publicam dados mensais de criminalidade desde 2002, o que nos permite remontar a série histórica de modo a abranger as recessões de 2003, 2009 e 2014. No gráfico abaixo vemos na linha verde as variações dessazonalizadas dos roubos nestes quatro estados, usando uma média móvel de cinco meses para dar maior nitidez aos movimentos cíclicos. As colunas azuis, por sua vez, trazem as variações mensais dos cheques sem fundo devolvidos por milhão de cheques, um indicador do Serasa que tomamos aqui como medida dos ciclos econômicos.

Como é possível verificar, a crise econômica de 2003 produziu um pico nos roubos naquele ano, rápido e agudo, mas logo após a criminalidade retoma a tendência de queda iniciada pouco antes e que se estende até meados de 2009. Em 2009, a curta recessão gera novo impacto nos roubos, mas também de breve duração e os roubos retomam a tendência de queda até metade de 2010. Nos dois momentos de crise, temos algo parecido à um V invertido no gráfico de variação dos roubos.



A partir de setembro de 2010 observamos uma inversão de tendência nos roubos e um longo período de piora da criminalidade (cerca de 70 meses, se descontarmos uma breve melhora em 2012), que atinge seu pico em 2014, no auge da crise econômica. A partir do pico de 2014 note-se, na sequência, um período de 14 meses de recuperação que vai até agosto de 2015, seguido de um novo crescimento dos roubos até setembro de 2016. De outubro de 2016 até aproximadamente maio de 2018 presenciamos um novo período de 21 meses de queda nos roubos. Se tomarmos, portanto, este período de 2014 a 2018, é possível ver no gráfico um W em formato invertido (alta 2014 / baixa em 2015 / alta em 2016 / baixa em 2017 a metade de 2018 / nova alta se formando em 2018).

Aparentemente, chegamos ao ponto máximo do período de queda, o que sugere que a partir daqui veremos uma redução na velocidade da queda e nos próximos meses um aumento dos roubos. As variações dos roubos com relação ao mesmo mês do ano anterior em São Paulo, divulgadas esta semana, foram, a partir de março, de -28, -14, -17 e -2, prenunciando esta futura inversão. Além disso, note-se como os cheques sem fundo no gráfico também vem num processo de desaceleração da queda nos últimos meses. Um último indício é a diminuição nas ocorrências de tráfico de drogas em alguns estados, que interpretamos como indicador de piora da atividade econômica, pois droga é uma commodity como outra qualquer e é afetada pelo ciclo econômico. Se este cenário se configurar, em outubro, durante as eleições, muitos estados estarão passando por uma fase de crescimento da criminalidade, com eventuais impactos nos discursos eleitorais.

Neste grande cenário de incerteza, a única certeza que temos é a de que os ciclos se alternam indefinidamente e mais cedo ou mais tarde os crimes voltarão a subir. Ajuda muito se a economia voltar a crescer de forma consistente e não em voos de galinha, que explicam em parte o formato em W. O discurso de alguns candidatos com relação ao déficit na previdência e a irresponsabilidade fiscal do Congresso levam a crer que a economia não voltará a crescer significativamente em 2019. E pode mesmo voltar a piorar, como a experiência histórica revela.

Este período de inversão de tendências pode ser um bom teste para verificar os efeitos da intervenção federal no RJ e outras políticas públicas estaduais. Quem continuará o movimento de queda na criminalidade dos últimos meses, quando os ventos soprarem contra?

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