Renda, trajetória criminal e proximidade espacial nos roubos e homicídios dos 645 municípios paulistas
Duas cidades com populações semelhantes podem registrar níveis muito diferentes de criminalidade. A taxa revela a diferença, mas não responde se ela permanece quando se consideram as condições econômicas, demográficas e territoriais de cada município.
Este estudo combina registros criminais de 2022 a 2025 com indicadores socioeconômicos, o nível anterior do próprio crime e a situação dos cinco municípios mais próximos. Os modelos foram construídos para prever o ano seguinte e testados nas transições 2022→2023, 2023→2024 e 2024→2025.
Do crime observado ao crime esperado
O valor esperado não representa uma quantidade aceitável de crimes. É uma referência estatística: dadas as características observadas e o padrão encontrado no conjunto dos municípios, quantas ocorrências seriam esperadas no ano seguinte?
Foram estimados modelos separados para roubos e homicídios dolosos, usando regressão binomial negativa e a população como medida de exposição. A especificação final reuniu porte e densidade, urbanização, idade mediana, razão de sexo, alfabetização, renda domiciliar mediana per capita, PIB per capita, composição setorial, trajetória do próprio município e a taxa dos cinco vizinhos mais próximos.
| Dimensão | Indicadores considerados |
|---|---|
| Porte e território | População e densidade demográfica |
| Estrutura urbana | Urbanização, idade mediana e razão de sexo |
| Condições sociais | Alfabetização e renda domiciliar mediana per capita |
| Economia | PIB per capita e participação setorial |
| Tempo e espaço | Taxa anterior local e média ponderada dos cinco vizinhos |
O passado do município é a principal referência
Roubos e homicídios demonstraram forte persistência. Em todas as seis regressões, a taxa anterior do próprio município apresentou associação positiva e estatisticamente significativa. Isso indica que forma urbana, circulação, concentração de atividades, redes sociais e mercados ilícitos mudam mais lentamente que as oscilações anuais dos registros.
Persistência não é destino inevitável. Ela cria uma referência contra a qual mudanças relevantes podem ser investigadas: quando uma cidade se afasta reiteradamente do valor previsto por seu histórico e contexto, o desvio merece diagnóstico local.
Renda é o indicador socioeconômico mais estável
A renda domiciliar mediana per capita foi a única variável de contexto com associação negativa e estatisticamente significativa nas três previsões, tanto para roubos quanto para homicídios. O resultado é associativo, não causal: renda resume condições habitacionais, infraestrutura, proteção, ocupação e acesso a serviços, além de não mostrar a desigualdade interna.
Nos roubos, o porte populacional também permaneceu relevante. Grandes centros concentram comércio, empregos, transporte e população flutuante, que não aparece plenamente no denominador baseado apenas na população residente.
O que acontece nos municípios próximos também importa
Mesmo controladas as características socioeconômicas, o porte e a trajetória local, as taxas dos cinco municípios mais próximos acrescentaram informação estatisticamente significativa sobre o ano seguinte.
| Crime previsto | 2022→2023 | 2023→2024 | 2024→2025 |
|---|---|---|---|
| Roubos | +51,7% | +35,0% | +38,0% |
| Homicídios | +24,0% | +13,3% | +17,9% |
Os percentuais correspondem à diferença associada a um desvio-padrão na variável espacial, não a uma elevação causal provocada por uma cidade sobre outra. A proximidade pode captar continuidade urbana, deslocamentos, redes viárias, mercados compartilhados ou fatores regionais não observados.
Municípios acima e abaixo do previsto
Para reduzir o peso de oscilações ocasionais, foram considerados persistentes os municípios que permaneceram entre os 5% maiores ou menores erros de previsão nas três transições anuais. Entre os casos ilustrativos, São Paulo, Santo André, Campinas, São Bernardo do Campo, São Vicente, Cubatão e Diadema apareceram acima do previsto para roubos; Franca, São José dos Campos, Americana, Barueri, Mogi das Cruzes, Santana de Parnaíba, Várzea Paulista e Indaiatuba apareceram abaixo.
Essas listas não são rankings de segurança ou eficiência governamental. Um desvio pode refletir população flutuante, centralidade econômica, diferenças de registro, características omitidas ou mudanças recentes. O modelo seleciona casos para investigação; não atribui causas.
Uma nova referência para o diagnóstico municipal
A taxa responde quanto crime foi registrado em relação à população. A série mostra se o indicador aumentou ou diminuiu. O modelo esperado acrescenta uma pergunta: o resultado é compatível com o contexto, o histórico e a vizinhança do município?
Essa camada pode alimentar o Plano Estratégico com quatro elementos: observado, esperado, diferença em relação ao esperado e persistência do desvio. A atualização deve ser anual, utilizando somente informações disponíveis antes do período previsto e recalibrando os modelos a cada nova safra.
Se os municípios próximos ajudam a antecipar o resultado local, políticas de segurança não deveriam terminar na divisa administrativa. Proteção de eixos de transporte, videomonitoramento, compartilhamento de informações e prevenção de homicídios podem exigir coordenação regional.
O modelo não identifica causas
O desenho temporal é mais exigente que uma comparação no mesmo ano, mas continua observacional. Os registros estão sujeitos a subnotificação e diferenças de classificação; a população residente não capta plenamente turismo e deslocamentos; e três transições anuais ainda são pouco para separar estruturas duradouras de conjunturas.
Alguns municípios registram mais ou menos crimes do que seria esperado para seu contexto, e parte dessa diferença só aparece quando se olha além de suas fronteiras.
Fonte dos dados: base consolidada do URBIK, registros da SSP-SP, indicadores socioeconômicos municipais e dados territoriais do IBGE. Resultados exploratórios, sujeitos a atualização anual e às limitações de cobertura, registro e georreferenciamento.
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