Duas cidades com populações semelhantes podem registrar níveis muito diferentes de criminalidade. A taxa revela a diferença, mas não responde se ela permanece quando se consideram as condições econômicas, demográficas e territoriais de cada município.

Este estudo combina registros criminais de 2022 a 2025 com indicadores socioeconômicos, o nível anterior do próprio crime e a situação dos cinco municípios mais próximos. Os modelos foram construídos para prever o ano seguinte e testados nas transições 2022→2023, 2023→2024 e 2024→2025.

Do crime observado ao crime esperado

O valor esperado não representa uma quantidade aceitável de crimes. É uma referência estatística: dadas as características observadas e o padrão encontrado no conjunto dos municípios, quantas ocorrências seriam esperadas no ano seguinte?

Foram estimados modelos separados para roubos e homicídios dolosos, usando regressão binomial negativa e a população como medida de exposição. A especificação final reuniu porte e densidade, urbanização, idade mediana, razão de sexo, alfabetização, renda domiciliar mediana per capita, PIB per capita, composição setorial, trajetória do próprio município e a taxa dos cinco vizinhos mais próximos.

DimensãoIndicadores considerados
Porte e territórioPopulação e densidade demográfica
Estrutura urbanaUrbanização, idade mediana e razão de sexo
Condições sociaisAlfabetização e renda domiciliar mediana per capita
EconomiaPIB per capita e participação setorial
Tempo e espaçoTaxa anterior local e média ponderada dos cinco vizinhos

O passado do município é a principal referência

Roubos e homicídios demonstraram forte persistência. Em todas as seis regressões, a taxa anterior do próprio município apresentou associação positiva e estatisticamente significativa. Isso indica que forma urbana, circulação, concentração de atividades, redes sociais e mercados ilícitos mudam mais lentamente que as oscilações anuais dos registros.

Persistência não é destino inevitável. Ela cria uma referência contra a qual mudanças relevantes podem ser investigadas: quando uma cidade se afasta reiteradamente do valor previsto por seu histórico e contexto, o desvio merece diagnóstico local.

Renda é o indicador socioeconômico mais estável

A renda domiciliar mediana per capita foi a única variável de contexto com associação negativa e estatisticamente significativa nas três previsões, tanto para roubos quanto para homicídios. O resultado é associativo, não causal: renda resume condições habitacionais, infraestrutura, proteção, ocupação e acesso a serviços, além de não mostrar a desigualdade interna.

Nos roubos, o porte populacional também permaneceu relevante. Grandes centros concentram comércio, empregos, transporte e população flutuante, que não aparece plenamente no denominador baseado apenas na população residente.

O que acontece nos municípios próximos também importa

Mesmo controladas as características socioeconômicas, o porte e a trajetória local, as taxas dos cinco municípios mais próximos acrescentaram informação estatisticamente significativa sobre o ano seguinte.

Crime previsto2022→20232023→20242024→2025
Roubos+51,7%+35,0%+38,0%
Homicídios+24,0%+13,3%+17,9%

Os percentuais correspondem à diferença associada a um desvio-padrão na variável espacial, não a uma elevação causal provocada por uma cidade sobre outra. A proximidade pode captar continuidade urbana, deslocamentos, redes viárias, mercados compartilhados ou fatores regionais não observados.

Municípios acima e abaixo do previsto

Para reduzir o peso de oscilações ocasionais, foram considerados persistentes os municípios que permaneceram entre os 5% maiores ou menores erros de previsão nas três transições anuais. Entre os casos ilustrativos, São Paulo, Santo André, Campinas, São Bernardo do Campo, São Vicente, Cubatão e Diadema apareceram acima do previsto para roubos; Franca, São José dos Campos, Americana, Barueri, Mogi das Cruzes, Santana de Parnaíba, Várzea Paulista e Indaiatuba apareceram abaixo.

Essas listas não são rankings de segurança ou eficiência governamental. Um desvio pode refletir população flutuante, centralidade econômica, diferenças de registro, características omitidas ou mudanças recentes. O modelo seleciona casos para investigação; não atribui causas.

Uma nova referência para o diagnóstico municipal

A taxa responde quanto crime foi registrado em relação à população. A série mostra se o indicador aumentou ou diminuiu. O modelo esperado acrescenta uma pergunta: o resultado é compatível com o contexto, o histórico e a vizinhança do município?

Essa camada pode alimentar o Plano Estratégico com quatro elementos: observado, esperado, diferença em relação ao esperado e persistência do desvio. A atualização deve ser anual, utilizando somente informações disponíveis antes do período previsto e recalibrando os modelos a cada nova safra.

Se os municípios próximos ajudam a antecipar o resultado local, políticas de segurança não deveriam terminar na divisa administrativa. Proteção de eixos de transporte, videomonitoramento, compartilhamento de informações e prevenção de homicídios podem exigir coordenação regional.

O modelo não identifica causas

O desenho temporal é mais exigente que uma comparação no mesmo ano, mas continua observacional. Os registros estão sujeitos a subnotificação e diferenças de classificação; a população residente não capta plenamente turismo e deslocamentos; e três transições anuais ainda são pouco para separar estruturas duradouras de conjunturas.

Alguns municípios registram mais ou menos crimes do que seria esperado para seu contexto, e parte dessa diferença só aparece quando se olha além de suas fronteiras.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK, registros da SSP-SP, indicadores socioeconômicos municipais e dados territoriais do IBGE. Resultados exploratórios, sujeitos a atualização anual e às limitações de cobertura, registro e georreferenciamento.