Conhecimento URBIK · Estudo 04
O crime está em toda parte?
Os dados do URBIK mostram que a criminalidade se concentra em uma parcela relativamente pequena da cidade — e que muitos desses lugares permanecem prioritários ao longo do tempo
Quando se olha para o mapa de uma cidade, é natural imaginar a segurança pública como um problema distribuído por todo o território. Há crimes no centro, nos bairros residenciais, nas áreas comerciais, nas periferias e nos corredores viários. Para o gestor municipal, essa percepção pode levar a uma conclusão aparentemente razoável: se o problema está em toda parte, os recursos também deveriam ser distribuídos de maneira relativamente uniforme.
Os dados do URBIK mostram uma realidade diferente. A criminalidade não se distribui igualmente pelo espaço urbano. Uma parcela relativamente pequena dos lugares concentra uma parte muito maior das ocorrências. Mais importante: muitos desses lugares continuam aparecendo entre os prioritários de um ano para outro.
Esse fenômeno é conhecido há décadas pela criminologia. A literatura sobre crime and place mostra que crimes tendem a se concentrar em determinados endereços, segmentos de rua e pequenos espaços urbanos. Essa constatação deu origem, entre outras estratégias, ao chamado hot spots policing: em vez de pensar apenas em grandes bairros ou regiões, procura-se identificar os pequenos lugares nos quais os problemas efetivamente se acumulam.
O URBIK permite testar essa ideia com dados dos municípios paulistas que integram sua base. Os resultados de 2024 e 2025 sugerem que a concentração espacial não é apenas uma hipótese teórica. Ela aparece de maneira clara nas cidades analisadas.
Olhar para a cidade em pequenas células
Para estudar o fenômeno, o URBIK não utilizou bairros. A opção por microterritórios é importante. Os nomes de bairros nos registros policiais apresentam variações de grafia, abreviações e subdivisões, além de serem unidades muito diferentes em tamanho e população. Um bairro pode reunir áreas residenciais, comerciais e industriais com padrões criminais completamente distintos.
Em vez disso, o URBIK divide o território em uma grade de pequenas células, da ordem de aproximadamente 250 metros, e associa cada ocorrência georreferenciada ao respectivo microterritório. A mesma metodologia já é utilizada pela plataforma para identificar áreas persistentes e emergentes. Para evitar células baseadas em eventos isolados, foram consideradas na análise apenas aquelas com pelo menos quatro registros.
A pergunta feita aos dados foi simples: que proporção dos microterritórios ativos é necessária para concentrar metade das ocorrências de uma cidade? A resposta varia entre os municípios, mas o padrão geral é bastante claro.
| Município | 2024 | 2025 |
|---|---|---|
| Botucatu | 18,1% | 19,9% |
| Jundiaí | 20,7% | 20,7% |
| Araras | 22,3% | 21,2% |
| Santos | 21,1% | 21,5% |
| Guarujá | 22,4% | 22,8% |
| Marília | 23,4% | 23,2% |
| Assis | 23,0% | 24,0% |
| Caraguatatuba | 24,8% | 23,3% |
| Carapicuíba | 24,9% | 24,8% |
| Vinhedo | 24,6% | 25,0% |
| Várzea Paulista | 21,2% | 25,3% |
| Louveira | 27,3% | 27,0% |
Os números revelam algo concreto. Em boa parte dos municípios, aproximadamente um quinto a um quarto dos microterritórios ativos concentra metade das ocorrências criminais.
Em Botucatu, por exemplo, 18,1% dos microterritórios concentravam metade das ocorrências em 2024. Em 2025, eram 19,9%. Em Jundiaí, a proporção foi exatamente 20,7% nos dois anos. Em Santos, 21,1% em 2024 e 21,5% em 2025. Araras apresentou 22,3% e 21,2%.
O que chama atenção não é apenas a concentração, mas também a estabilidade dos resultados. Carapicuíba registrou 24,9% em um ano e 24,8% no seguinte. Marília, 23,4% e 23,2%. Guarujá, 22,4% e 22,8%. Louveira, 27,3% e 27,0%.
A distribuição espacial da criminalidade, portanto, não parece se reorganizar completamente a cada ano.
Isso não significa que 20% da área física da cidade concentre metade dos crimes. Estamos falando de 20% dos microterritórios ativos, isto é, das pequenas células que apresentaram quantidade suficiente de registros para entrar na análise. A distinção é importante. Ainda assim, para o planejamento municipal, o resultado é expressivo.
Quando a gravidade entra na conta
Contar ocorrências, porém, não é a única maneira de medir a concentração. Um microterritório com muitos furtos não representa necessariamente a mesma carga criminal de outro com menor número de ocorrências, mas maior presença de roubos, homicídios ou crimes sexuais.
Por isso, repetimos o exercício utilizando o Índice de Criminalidade do URBIK (IC), apresentado em estudo anterior do Conhecimento URBIK. Em vez de simplesmente contar os registros, o IC pondera diferentes crimes segundo sua gravidade relativa.
Em várias cidades, a carga criminal ponderada mostrou-se ainda mais concentrada do que o número bruto de ocorrências. Em Botucatu, em 2025, eram necessários 19,9% dos microterritórios para concentrar metade das ocorrências, mas apenas 16,2% para concentrar metade do IC. Em Jundiaí, a diferença foi de 20,7% para 17%. Em Araras, de 21,2% para 17%. Em Guarujá, de 22,8% para 20,7%.
Isso significa que a concentração espacial encontrada não é simplesmente consequência de muitos delitos de menor gravidade ocorrerem nos mesmos locais. A carga criminal mais grave também tende a se concentrar territorialmente.
O resultado não é idêntico em todas as cidades — e não deveria ser. Há municípios nos quais volume e gravidade apresentam praticamente a mesma concentração e outros nos quais o IC se distribui de maneira um pouco diferente. Para o gestor, justamente aí está a utilidade da análise: conhecer não apenas onde há muitas ocorrências, mas onde se concentra a combinação entre frequência e gravidade.
Muitos dos lugares prioritários permanecem prioritários
Para testar a persistência, identificamos em 2024 o conjunto de microterritórios que, começando pelos de maior incidência, acumulava aproximadamente metade das ocorrências. Em seguida verificamos quantos desses locais continuavam pertencendo ao mesmo grupo prioritário em 2025.
| Município | Prioritários de 2024 que permanecem em 2025 |
|---|---|
| Santos | 79,6% |
| Várzea Paulista | 72,2% |
| Carapicuíba | 71,1% |
| Araras | 70,0% |
| Louveira | 66,7% |
| Marília | 66,2% |
| Jundiaí | 64,1% |
| Guarujá | 63,2% |
| Botucatu | 61,9% |
| Caraguatatuba | 60,0% |
| Assis | 53,1% |
Os resultados mostram considerável permanência. Santos é um exemplo particularmente claro. Em 2024, 93 microterritórios eram suficientes para concentrar aproximadamente metade das ocorrências georreferenciadas. Em 2025, novamente eram 93. Setenta e quatro deles estavam presentes nos dois grupos, o que representa uma permanência de quase 80%.
Em Carapicuíba, 90 microterritórios formavam o grupo de maior concentração em cada ano e 64 permaneciam entre os prioritários, uma taxa de 71%. Em Araras, 40 microterritórios compunham o grupo em 2024, 34 em 2025 e 28 estavam presentes nos dois anos, correspondendo a 70% de permanência.
O Índice de Criminalidade acrescenta outra informação interessante. Em Botucatu, 61,9% dos microterritórios prioritários pelo número de ocorrências permaneceram no ano seguinte. Quando o critério passa a ser a carga criminal ponderada pelo IC, a permanência chega a 73,7%. Nesse caso, os locais que concentram os crimes de maior peso parecem ainda mais persistentes do que aqueles definidos apenas pela quantidade de registros.
Isso não significa que o mapa do crime seja imutável. Se 60% ou 70% dos microterritórios permanecem, uma parcela relevante também deixa o grupo prioritário e outros lugares entram nele. A conclusão correta não é que “o crime acontece sempre nos mesmos lugares”. É mais interessante:
Grande parte da concentração criminal persiste nos mesmos lugares, mas novos focos também surgem ao longo do tempo.
O que o gestor pode fazer com essa informação?
Se os crimes fossem distribuídos de maneira aproximadamente uniforme pela cidade, faria sentido distribuir atenção e recursos também de maneira uniforme. Mas quando uma parcela relativamente pequena dos microterritórios concentra metade das ocorrências, tratar todos os lugares da mesma maneira pode significar desperdiçar capacidade de prevenção.
Isso não quer dizer simplesmente colocar mais viaturas nos pontos com mais registros. O primeiro passo é diagnosticar por que aquele microterritório concentra problemas.
Um hotspot em torno de um terminal de transporte pode exigir medidas diferentes de outro situado numa região de bares. Uma concentração de furtos em área comercial não pede necessariamente a mesma resposta de um microterritório marcado por violência interpessoal. Iluminação, desenho urbano, fiscalização, ordenamento, controle de acesso, horários de funcionamento, videomonitoramento, presença de agentes públicos, articulação com comerciantes e intervenções em estabelecimentos reincidentes são exemplos de respostas que dependem do diagnóstico do lugar.
A análise espacial permite, assim, uma sequência de planejamento:
A persistência acrescenta outra dimensão. Um lugar que aparece repetidamente entre os prioritários merece uma investigação estrutural. Pode existir alguma característica do ambiente que continuamente produz oportunidades para o crime. Já um microterritório que surge recentemente exige outra pergunta: o que mudou?
Uma nova atividade comercial, alteração no transporte, evento, abandono de imóvel, mudança na circulação de pessoas ou simples deslocamento de um problema de uma área próxima podem produzir um hotspot emergente.
Por isso, o URBIK procura distinguir microterritórios persistentes de focos recentes. A análise de 2024 e 2025 mostra por que essa distinção é importante: existe uma estrutura territorial relativamente estável, mas ela não elimina o surgimento de novos problemas.
Há ainda uma cautela essencial. Um microterritório com alta concentração criminal não deve ser confundido com uma população “criminosa” ou com moradores mais perigosos. O dado descreve lugares onde eventos são registrados, não características das pessoas que vivem ali. Áreas comerciais, terminais, hospitais, escolas e regiões de lazer podem concentrar ocorrências justamente porque recebem grande população flutuante.
A unidade de intervenção é o problema do lugar, não o perfil de seus moradores.
Concentrar atenção para ampliar resultados
A principal mensagem deste estudo é simples: o crime não está igualmente em toda parte.
Nos municípios analisados pelo URBIK, uma parcela relativamente pequena dos microterritórios concentra uma parcela muito maior das ocorrências. Em boa parte das cidades, cerca de 20% a 25% das células ativas são suficientes para reunir metade dos registros. Quando consideramos também a gravidade dos crimes, em vários municípios a concentração torna-se ainda maior.
Além disso, boa parte desses lugares permanece prioritária de um ano para outro. Em Santos, quase 80% dos microterritórios responsáveis pela maior concentração em 2024 continuaram no grupo em 2025. Em Carapicuíba e Araras, aproximadamente 70%. Em diversas outras cidades, mais de 60%.
Para o gestor municipal, isso representa uma oportunidade. Recursos de segurança são sempre limitados. Tempo de equipes, fiscalização, iluminação, monitoramento e capacidade de intervenção não podem ser empregados com a mesma intensidade em todos os lugares.
A gestão baseada em evidências não significa abandonar o restante da cidade. Significa reconhecer que problemas diferentes exigem intensidades diferentes de atenção.
Se poucos lugares concentram grande parte da carga criminal e muitos deles permanecem problemáticos ao longo do tempo, esses microterritórios são candidatos naturais a diagnósticos mais aprofundados e intervenções focalizadas. Ao mesmo tempo, a renovação parcial dos hotspots exige monitoramento contínuo para identificar áreas emergentes.
Essa talvez seja a principal contribuição da análise territorial para a segurança municipal. Em vez de perguntar apenas “quanto crime existe na cidade?”, o gestor passa a fazer uma pergunta muito mais útil:
Onde exatamente está o problema — e ele continua no mesmo lugar?
Responder bem a essa pergunta pode ser o primeiro passo para concentrar melhor os esforços e produzir resultados maiores com os recursos que o município já possui.
Fonte dos dados: base consolidada do URBIK. Os resultados utilizam dados de 2024 e 2025, dependem de registros georreferenciados e devem ser atualizados à medida que novos períodos e municípios forem incorporados.