Nova plataforma brasileira procura aproximar os
municípios das práticas de gestão por resultados, policiamento baseado em
evidências e inteligência territorial
Por Tulio
Kahn
Nas
últimas décadas, os municípios brasileiros passaram a ocupar um espaço cada vez
mais importante na segurança pública. Guardas municipais se profissionalizaram,
centros de monitoramento foram implantados, observatórios foram criados e as
prefeituras passaram a investir em câmeras, viaturas, iluminação, prevenção e
integração entre diferentes órgãos. A própria Secretaria Nacional de Segurança
Pública reconhece atualmente o papel das Guardas Municipais na segurança
preventiva e na aproximação com as comunidades.
Mas
existe uma distância importante entre possuir recursos e informações e
conseguir transformá-los sistematicamente em decisões melhores. Essa talvez
seja uma das principais dificuldades enfrentadas hoje pelos gestores municipais
de segurança.
Uma
prefeitura pode possuir milhares de registros de ocorrências, dezenas ou
centenas de câmeras, dados sobre atendimentos da Guarda Municipal, informações
sobre prisões e apreensões, mapas, planilhas e relatórios. Ainda assim, perguntas
aparentemente simples continuam sendo difíceis de responder.
Onde
exatamente estão aumentando os roubos? Essa elevação representa uma tendência
ou apenas uma oscilação? Em quais bairros o problema está se concentrando?
Dentro desses bairros, quais são os pequenos segmentos territoriais
responsáveis por uma parcela desproporcional das ocorrências? Em quais dias e
horários esses crimes acontecem? O patrulhamento está chegando a esses lugares?
Quantas viaturas seriam necessárias? Uma intervenção realizada há três meses
produziu algum resultado? Estamos cumprindo as metas estabelecidas?
São
perguntas de gestão, não apenas de estatística.
E foi
justamente da tentativa de aproximar esses dois mundos — conhecimento e ação
— que nasceu o URBIK – Inteligência para Segurança Pública.
Do dado à decisão
O URBIK
foi concebido a partir de uma ideia bastante simples: dados de segurança
pública só produzem valor quando ajudam alguém a tomar uma decisão melhor.
Por isso,
a plataforma não foi desenhada apenas como mais um dashboard de criminalidade. Seu
objetivo é acompanhar o ciclo completo da gestão: levantar e organizar
informações, diagnosticar problemas, identificar prioridades, planejar
intervenções, estabelecer metas, orientar a operação e, finalmente, verificar
se as ações adotadas produziram os resultados esperados.
Em outras
palavras:
dados →
diagnóstico → prioridade → intervenção → resultado → avaliação.
A
diferença pode parecer semântica, mas é fundamental. Um painel pode informar
que ocorreram 80 roubos. Um sistema de gestão precisa ajudar a responder o que
fazer diante desses 80 roubos.
Essa
concepção aproxima o URBIK de algumas das transformações mais importantes
ocorridas na segurança pública internacional nas últimas décadas: a gestão
orientada por resultados, o policiamento orientado para problemas, o
policiamento de hotspots e, de maneira mais ampla, o movimento conhecido como Evidence-Based
Policing, ou policiamento baseado em evidências.
A ideia comum
a essas abordagens é abandonar, sempre que possível, decisões fundamentadas
exclusivamente em tradição, impressão ou experiência individual e incorporar
sistematicamente dados e evidências à tomada de decisão.
Isso não
significa substituir o conhecimento do policial ou do gestor por algoritmos.
Significa fazer com que a experiência profissional dialogue com informações que
podem ser verificadas.
O território não é homogêneo
Uma das
descobertas mais importantes da criminologia ambiental contemporânea é que o
crime não se distribui uniformemente pelas cidades. Nem todos os bairros
possuem o mesmo risco. E, mesmo dentro de um bairro considerado problemático,
algumas ruas, cruzamentos ou pequenos segmentos podem concentrar uma parcela
muito maior das ocorrências. É a chamada concentração espacial do crime.
Essa
constatação possui consequências práticas extraordinárias. Se os recursos de
segurança são limitados — e quase sempre são — distribuí-los uniformemente pelo
território pode significar desperdiçar capacidade operacional em locais de
baixo risco enquanto os pontos realmente problemáticos recebem atenção
insuficiente.
A
literatura científica acumulada sobre hot spots policing é
particularmente importante nesse aspecto. Revisões sistemáticas de estudos
experimentais e quase-experimentais encontraram reduções pequenas, porém
significativas, da criminalidade quando esforços policiais são concentrados nos
pequenos locais onde os crimes se acumulam. Outra conclusão importante é que os
estudos não sustentam a ideia simplista de que a intervenção apenas desloca
inevitavelmente o crime para a rua seguinte; em diversas avaliações aparecem
efeitos de difusão dos benefícios preventivos para áreas próximas.
É
exatamente por isso que o território ocupa uma posição central no URBIK.
A plataforma utiliza diferentes técnicas de análise espacial. Mapas de densidade por Kernel Density Estimation (KDE) ajudam a visualizar concentrações de ocorrências. Análises estatísticas espaciais, como Getis-Ord Gi*, ajudam a identificar áreas de concentração que dificilmente seriam percebidas apenas olhando pontos dispersos em um mapa.
A
finalidade, entretanto, não é produzir mapas sofisticados para apresentações. É
responder a uma pergunta operacional: onde devemos concentrar nossos
esforços?
Dos hotspots às ruas: transformando análise em
patrulhamento
Identificar
o problema é apenas metade da tarefa. Uma das dificuldades mais recorrentes dos
sistemas analíticos utilizados na segurança pública é justamente a distância
entre quem produz a análise e quem precisa executar a operação.
Um
analista identifica hotspots. Produz um mapa. O mapa é apresentado em uma
reunião. Mas, no dia seguinte, o comandante ainda precisa decidir por onde suas
viaturas deverão passar. O URBIK procura reduzir essa distância por meio de um
de seus recursos mais inovadores: o roteirizador operacional de viaturas.
Depois de
identificar as áreas prioritárias, o sistema permite considerar hotspots,
quantidade de viaturas, turnos, dias, distâncias, necessidade de revisitas e a
própria malha viária para transformar a análise territorial em circuitos
operacionais.
O gestor pode comparar cenários.
O que
acontece com a cobertura territorial se houver apenas uma viatura disponível? E
com duas? Quanto aumenta a cobertura utilizando três? Qual combinação oferece
melhor equilíbrio entre recursos empregados e hotspots alcançados?
Em uma
aplicação real utilizada no desenvolvimento da plataforma, por exemplo,
diferentes cenários de mobilização puderam ser comparados em termos de
cobertura de registros e hotspots antes da escolha da configuração operacional.
A lógica
é importante porque recursos públicos são escassos. A questão correta não é
simplesmente perguntar quanto seria possível fazer com recursos ilimitados,
mas: qual é a melhor utilização possível dos recursos que efetivamente temos
disponíveis?
Gestão precisa de metas
Existe
outro problema frequente na segurança pública: muitas intervenções são
realizadas sem que esteja previamente definido o que será considerado sucesso.
Aumenta-se
o patrulhamento. Instalam-se câmeras. Realiza-se uma operação. Modifica-se uma
escala. Meses depois, pergunta-se: funcionou? Sem objetivo previamente
estabelecido, linha de base, período de comparação e indicador de resultado,
essa pergunta dificilmente poderá ser respondida de maneira objetiva.
Por isso
o URBIK incorporou um sistema de metas de redução criminal.
O gestor pode selecionar crimes, definir o município ou bairros prioritários como alvo, estabelecer o percentual de redução pretendido e determinar um prazo. A partir daí, o sistema passa a comparar continuamente meta e resultado observado.
A
intenção não é criar uma competição artificial por números. Metas mal
desenhadas podem produzir incentivos perversos, e qualquer sistema de gestão
por indicadores precisa estar atento à qualidade dos dados. A proposta é
diferente: estabelecer previamente uma referência objetiva que permita saber se
estamos avançando na direção desejada.
Se
determinado bairro apresenta persistentemente altos níveis de roubo, por
exemplo, o município pode estabelecer uma meta de redução, planejar ações
específicas, acompanhar mensalmente a evolução e corrigir a estratégia caso os
resultados não apareçam. Isso transforma segurança pública em um processo
contínuo de aprendizado.
Não basta intervir. É preciso saber se funcionou
Essa
talvez seja uma das mudanças culturais mais importantes propostas pelo
policiamento baseado em evidências. Uma intervenção que parece intuitivamente
correta não necessariamente funciona. Da mesma maneira, uma redução da
criminalidade depois de determinada operação não significa automaticamente que
a operação tenha provocado a redução.
Crime
possui sazonalidade, tendências históricas, regressão à média e inúmeros
fatores externos. Por isso o URBIK procura incorporar progressivamente
ferramentas de monitoramento e avaliação de intervenções. A lógica é
registrar o que foi feito, onde, quando e com qual objetivo e depois comparar a
evolução dos indicadores relevantes. Sempre que os dados permitirem, a ambição
é avançar para desenhos de avaliação cada vez mais rigorosos.
Essa
perspectiva dialoga diretamente com o policiamento orientado para problemas.
Revisões sistemáticas dessa literatura encontraram evidências favoráveis à
estratégia de identificar problemas específicos, analisar suas causas,
desenvolver respostas adequadas e avaliar os resultados, em vez de depender
exclusivamente de respostas policiais genéricas.
O ponto
central é que a política de segurança passa a produzir conhecimento sobre si
própria. Cada intervenção deixa de ser apenas uma ação. Pode tornar-se também
uma oportunidade de aprendizado.
Criminalidade de um lado, atividade policial do
outro
Uma
inovação recente do URBIK é justamente aproximar duas informações que
normalmente aparecem separadas. De um lado: onde estão os crimes? Do
outro: onde está ocorrendo a atividade policial? O módulo de
produtividade permite analisar informações como prisões, apreensões,
instituição responsável, período e localização das ações e compará-las
territorialmente com os padrões criminais.
Essa comparação permite formular perguntas extremamente relevantes. As prisões estão ocorrendo nos mesmos locais onde se concentram os delitos? Existe atividade policial intensa em áreas relativamente pouco problemáticas enquanto hotspots persistentes recebem pouca atenção? Um aumento de produtividade é seguido por alguma alteração nos indicadores criminais? Quais instituições estão atuando em cada território?
Não se
trata de presumir causalidade onde ela não pode ser demonstrada. Trata-se de
produzir perguntas melhores — e fornecer aos gestores informações para
investigá-las.
Inteligência artificial como analista auxiliar
Nos
últimos anos, a inteligência artificial generativa abriu uma nova fronteira
para a administração pública. Mas o desafio não é simplesmente colocar um
chatbot dentro de uma prefeitura. A questão mais interessante é descobrir em
quais atividades a IA pode efetivamente reduzir trabalho repetitivo e ampliar a
capacidade analítica das equipes.
No URBIK,
começamos por uma tarefa extremamente concreta: escrever relatórios
analíticos. A plataforma já produz gráficos, tabelas, séries temporais,
mapas, indicadores e filtros. Uma camada de inteligência artificial pode
receber essas informações estruturadas e transformá-las em uma primeira versão
de relatório.
Ela pode
identificar, por exemplo, quais indicadores cresceram, quais diminuíram, quais
bairros se destacam, quais tendências merecem atenção e quais resultados
precisam ser acompanhados.
O relatório produzido pela IA não substitui o analista. Ele funciona como um primeiro analista digital, encarregado de realizar parte do trabalho mecânico de leitura e consolidação das informações. Cabe ao profissional interpretar o contexto, verificar hipóteses, acrescentar conhecimento institucional e decidir.
Esse
princípio é fundamental para nossa visão sobre inteligência artificial aplicada
à segurança pública: IA deve ampliar a capacidade humana de decisão, não
eliminar a responsabilidade humana sobre a decisão.
Tecnologia não substitui uma política de segurança
Talvez
seja igualmente importante explicar o que o URBIK não pretende ser. Nenhuma
plataforma tecnológica reduz a criminalidade sozinha.
Mapas não
prendem criminosos. Algoritmos não conhecem integralmente a dinâmica social de
um bairro. Indicadores não substituem policiais bem treinados, lideranças
competentes, integração institucional, políticas preventivas ou relacionamento
com a comunidade.
Além
disso, sistemas baseados em dados precisam reconhecer as limitações dos
próprios dados. Registros administrativos refletem não apenas a ocorrência de
crimes, mas também padrões de denúncia, registro e atividade das instituições.
A literatura sobre policiamento preditivo, por exemplo, já demonstrou o risco
de ciclos de retroalimentação quando dados gerados pela própria atividade
policial são utilizados de maneira acrítica para determinar onde a polícia
deverá atuar novamente.
Por isso,
nossa concepção é deliberadamente diferente. O URBIK não pretende dizer
automaticamente ao gestor o que ele deve fazer. Pretende oferecer
melhores condições para que ele saiba o que está acontecendo, onde está
acontecendo, como está evoluindo, onde estão sendo empregados os recursos e
quais foram os resultados das decisões anteriores. A decisão continua sendo
humana.
Uma ferramenta também para a população
Embora o
URBIK tenha sido desenvolvido principalmente para gestores e profissionais de
segurança pública, uma gestão orientada por evidências pode produzir benefícios
que ultrapassam as instituições. Transparência é um deles.
Metas
claras permitem que a sociedade acompanhe resultados. Indicadores organizados
tornam mais compreensível a situação da segurança. Relatórios periódicos ajudam
a substituir discussões baseadas exclusivamente em episódios isolados por
diagnósticos mais consistentes.
Existe
também um benefício menos visível. Quando recursos escassos são empregados de
maneira mais racional, aumenta a possibilidade de que a população receba
melhores serviços com a mesma estrutura existente. Uma viatura não precisa
necessariamente circular mais quilômetros. Talvez precise circular pelos
quilômetros certos.
O município como laboratório de inovação
Há razões
para acreditar que parte importante da inovação em segurança pública brasileira
poderá ocorrer justamente nos municípios. As cidades estão próximas dos
problemas. Conhecem suas ruas, escolas, praças, terminais, centros comerciais e
bairros. Guardas municipais possuem contato cotidiano com esses espaços.
Prefeituras controlam políticas urbanas, iluminação, fiscalização, trânsito,
assistência social e diversas outras áreas relacionadas à prevenção.
Além disso,
o ambiente institucional está mudando. A Secretaria Nacional de Segurança
Pública lançou iniciativas específicas para diagnóstico e fortalecimento das
Guardas Municipais, e programas federais recentes passaram a estabelecer
requisitos e mecanismos próprios para adesão dos municípios a políticas
nacionais de segurança.
O desafio
é transformar essa crescente responsabilidade em crescente capacidade de
gestão. Tecnologia pode contribuir para isso. Não simplesmente porque
computadores processam informações mais rapidamente, mas porque sistemas bem
desenhados podem institucionalizar boas práticas.
Um bom
sistema pode fazer com que perguntar "qual é a evidência?" deixe de
depender da iniciativa individual de um excelente gestor e passe a fazer parte
da rotina da organização. Pode fazer com que estabelecer metas, localizar
problemas, documentar intervenções e verificar resultados deixem de ser
atividades extraordinárias. Podem tornar-se o modo normal de trabalhar.
Uma decisão melhor começa com uma leitura melhor
O URBIK
nasce com uma ambição que vai além de construir software. Queremos contribuir
para disseminar uma cultura de segurança pública municipal orientada por
evidências. Uma cultura na qual dados sejam utilizados não apenas para
produzir estatísticas anuais, mas para orientar decisões cotidianas.
Na qual
mapas não sejam apenas ilustrações, mas instrumentos para definir prioridades. Na
qual metas sejam estabelecidas antes das intervenções. Na qual operações sejam
acompanhadas. Na qual resultados sejam avaliados. Na qual aquilo que funcionou
possa ser repetido — e aquilo que não funcionou possa ser modificado. E na qual
inteligência artificial, estatística e geoprocessamento estejam a serviço, e
não no lugar, da inteligência dos profissionais de segurança pública.
O futuro
da segurança pública provavelmente não será determinado por uma única
tecnologia, uma única instituição ou uma única estratégia. Mas dificilmente
construiremos esse futuro sem aprender a utilizar melhor uma matéria-prima que
nossas cidades já produzem diariamente em enorme quantidade: informação.
O desafio
agora é transformá-la em conhecimento. Transformar conhecimento em ação. E
transformar ação em resultados que possam ser medidos. Foi para ajudar a
percorrer esse caminho que construímos o URBIK.
Conheça o
URBIK: www.urbik.com.br
Referências para publicação
BRAGA,
Anthony A.; Turchan, Brandon; Papachristos, Andrew V.; Hureau, David M. Hot
spots policing of small geographic areas effects on crime. Campbell
Systematic Reviews.
WEISBURD,
David; TELEP, Cody W.; HINKLE, Joshua C.; ECK, John E. Is problem-oriented
policing effective in reducing crime and disorder? Findings from a Campbell
systematic review. Criminology & Public Policy, 2010.
SHERMAN,
Lawrence W. Evidence-Based Policing. Police Foundation, 1998.
SECRETARIA
NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA. Diagnóstico Nacional das Guardas Municipais.
Ministério da Justiça e Segurança Pública.
URBIK. Manual
Técnico da Plataforma URBIK – Inteligência para Segurança Pública. 2026.