sexta-feira, 7 de agosto de 2026

URBIK: quando dados, território e inteligência se encontram na gestão municipal da segurança pública

 


Nova plataforma brasileira procura aproximar os municípios das práticas de gestão por resultados, policiamento baseado em evidências e inteligência territorial

Por Tulio Kahn

Nas últimas décadas, os municípios brasileiros passaram a ocupar um espaço cada vez mais importante na segurança pública. Guardas municipais se profissionalizaram, centros de monitoramento foram implantados, observatórios foram criados e as prefeituras passaram a investir em câmeras, viaturas, iluminação, prevenção e integração entre diferentes órgãos. A própria Secretaria Nacional de Segurança Pública reconhece atualmente o papel das Guardas Municipais na segurança preventiva e na aproximação com as comunidades.

Mas existe uma distância importante entre possuir recursos e informações e conseguir transformá-los sistematicamente em decisões melhores. Essa talvez seja uma das principais dificuldades enfrentadas hoje pelos gestores municipais de segurança.

Uma prefeitura pode possuir milhares de registros de ocorrências, dezenas ou centenas de câmeras, dados sobre atendimentos da Guarda Municipal, informações sobre prisões e apreensões, mapas, planilhas e relatórios. Ainda assim, perguntas aparentemente simples continuam sendo difíceis de responder.

Onde exatamente estão aumentando os roubos? Essa elevação representa uma tendência ou apenas uma oscilação? Em quais bairros o problema está se concentrando? Dentro desses bairros, quais são os pequenos segmentos territoriais responsáveis por uma parcela desproporcional das ocorrências? Em quais dias e horários esses crimes acontecem? O patrulhamento está chegando a esses lugares? Quantas viaturas seriam necessárias? Uma intervenção realizada há três meses produziu algum resultado? Estamos cumprindo as metas estabelecidas?

São perguntas de gestão, não apenas de estatística.

E foi justamente da tentativa de aproximar esses dois mundos — conhecimento e ação — que nasceu o URBIK – Inteligência para Segurança Pública.


Do dado à decisão

O URBIK foi concebido a partir de uma ideia bastante simples: dados de segurança pública só produzem valor quando ajudam alguém a tomar uma decisão melhor.

Por isso, a plataforma não foi desenhada apenas como mais um dashboard de criminalidade. Seu objetivo é acompanhar o ciclo completo da gestão: levantar e organizar informações, diagnosticar problemas, identificar prioridades, planejar intervenções, estabelecer metas, orientar a operação e, finalmente, verificar se as ações adotadas produziram os resultados esperados.

Em outras palavras:

dados → diagnóstico → prioridade → intervenção → resultado → avaliação.

A diferença pode parecer semântica, mas é fundamental. Um painel pode informar que ocorreram 80 roubos. Um sistema de gestão precisa ajudar a responder o que fazer diante desses 80 roubos.

Essa concepção aproxima o URBIK de algumas das transformações mais importantes ocorridas na segurança pública internacional nas últimas décadas: a gestão orientada por resultados, o policiamento orientado para problemas, o policiamento de hotspots e, de maneira mais ampla, o movimento conhecido como Evidence-Based Policing, ou policiamento baseado em evidências.

A ideia comum a essas abordagens é abandonar, sempre que possível, decisões fundamentadas exclusivamente em tradição, impressão ou experiência individual e incorporar sistematicamente dados e evidências à tomada de decisão.

Isso não significa substituir o conhecimento do policial ou do gestor por algoritmos. Significa fazer com que a experiência profissional dialogue com informações que podem ser verificadas.

 

O território não é homogêneo

Uma das descobertas mais importantes da criminologia ambiental contemporânea é que o crime não se distribui uniformemente pelas cidades. Nem todos os bairros possuem o mesmo risco. E, mesmo dentro de um bairro considerado problemático, algumas ruas, cruzamentos ou pequenos segmentos podem concentrar uma parcela muito maior das ocorrências. É a chamada concentração espacial do crime.

Essa constatação possui consequências práticas extraordinárias. Se os recursos de segurança são limitados — e quase sempre são — distribuí-los uniformemente pelo território pode significar desperdiçar capacidade operacional em locais de baixo risco enquanto os pontos realmente problemáticos recebem atenção insuficiente.

A literatura científica acumulada sobre hot spots policing é particularmente importante nesse aspecto. Revisões sistemáticas de estudos experimentais e quase-experimentais encontraram reduções pequenas, porém significativas, da criminalidade quando esforços policiais são concentrados nos pequenos locais onde os crimes se acumulam. Outra conclusão importante é que os estudos não sustentam a ideia simplista de que a intervenção apenas desloca inevitavelmente o crime para a rua seguinte; em diversas avaliações aparecem efeitos de difusão dos benefícios preventivos para áreas próximas.

É exatamente por isso que o território ocupa uma posição central no URBIK.

A plataforma utiliza diferentes técnicas de análise espacial. Mapas de densidade por Kernel Density Estimation (KDE) ajudam a visualizar concentrações de ocorrências. Análises estatísticas espaciais, como Getis-Ord Gi*, ajudam a identificar áreas de concentração que dificilmente seriam percebidas apenas olhando pontos dispersos em um mapa.

A finalidade, entretanto, não é produzir mapas sofisticados para apresentações. É responder a uma pergunta operacional: onde devemos concentrar nossos esforços?

Dos hotspots às ruas: transformando análise em patrulhamento

Identificar o problema é apenas metade da tarefa. Uma das dificuldades mais recorrentes dos sistemas analíticos utilizados na segurança pública é justamente a distância entre quem produz a análise e quem precisa executar a operação.

Um analista identifica hotspots. Produz um mapa. O mapa é apresentado em uma reunião. Mas, no dia seguinte, o comandante ainda precisa decidir por onde suas viaturas deverão passar. O URBIK procura reduzir essa distância por meio de um de seus recursos mais inovadores: o roteirizador operacional de viaturas.

Depois de identificar as áreas prioritárias, o sistema permite considerar hotspots, quantidade de viaturas, turnos, dias, distâncias, necessidade de revisitas e a própria malha viária para transformar a análise territorial em circuitos operacionais.

O gestor pode comparar cenários.

O que acontece com a cobertura territorial se houver apenas uma viatura disponível? E com duas? Quanto aumenta a cobertura utilizando três? Qual combinação oferece melhor equilíbrio entre recursos empregados e hotspots alcançados?

Em uma aplicação real utilizada no desenvolvimento da plataforma, por exemplo, diferentes cenários de mobilização puderam ser comparados em termos de cobertura de registros e hotspots antes da escolha da configuração operacional.

A lógica é importante porque recursos públicos são escassos. A questão correta não é simplesmente perguntar quanto seria possível fazer com recursos ilimitados, mas: qual é a melhor utilização possível dos recursos que efetivamente temos disponíveis?

Gestão precisa de metas

Existe outro problema frequente na segurança pública: muitas intervenções são realizadas sem que esteja previamente definido o que será considerado sucesso.

Aumenta-se o patrulhamento. Instalam-se câmeras. Realiza-se uma operação. Modifica-se uma escala. Meses depois, pergunta-se: funcionou? Sem objetivo previamente estabelecido, linha de base, período de comparação e indicador de resultado, essa pergunta dificilmente poderá ser respondida de maneira objetiva.

Por isso o URBIK incorporou um sistema de metas de redução criminal.

O gestor pode selecionar crimes, definir o município ou bairros prioritários como alvo, estabelecer o percentual de redução pretendido e determinar um prazo. A partir daí, o sistema passa a comparar continuamente meta e resultado observado.

A intenção não é criar uma competição artificial por números. Metas mal desenhadas podem produzir incentivos perversos, e qualquer sistema de gestão por indicadores precisa estar atento à qualidade dos dados. A proposta é diferente: estabelecer previamente uma referência objetiva que permita saber se estamos avançando na direção desejada.

Se determinado bairro apresenta persistentemente altos níveis de roubo, por exemplo, o município pode estabelecer uma meta de redução, planejar ações específicas, acompanhar mensalmente a evolução e corrigir a estratégia caso os resultados não apareçam. Isso transforma segurança pública em um processo contínuo de aprendizado.

 

Não basta intervir. É preciso saber se funcionou

Essa talvez seja uma das mudanças culturais mais importantes propostas pelo policiamento baseado em evidências. Uma intervenção que parece intuitivamente correta não necessariamente funciona. Da mesma maneira, uma redução da criminalidade depois de determinada operação não significa automaticamente que a operação tenha provocado a redução.

Crime possui sazonalidade, tendências históricas, regressão à média e inúmeros fatores externos. Por isso o URBIK procura incorporar progressivamente ferramentas de monitoramento e avaliação de intervenções. A lógica é registrar o que foi feito, onde, quando e com qual objetivo e depois comparar a evolução dos indicadores relevantes. Sempre que os dados permitirem, a ambição é avançar para desenhos de avaliação cada vez mais rigorosos.

Essa perspectiva dialoga diretamente com o policiamento orientado para problemas. Revisões sistemáticas dessa literatura encontraram evidências favoráveis à estratégia de identificar problemas específicos, analisar suas causas, desenvolver respostas adequadas e avaliar os resultados, em vez de depender exclusivamente de respostas policiais genéricas.

O ponto central é que a política de segurança passa a produzir conhecimento sobre si própria. Cada intervenção deixa de ser apenas uma ação. Pode tornar-se também uma oportunidade de aprendizado.

Criminalidade de um lado, atividade policial do outro

Uma inovação recente do URBIK é justamente aproximar duas informações que normalmente aparecem separadas. De um lado: onde estão os crimes? Do outro: onde está ocorrendo a atividade policial? O módulo de produtividade permite analisar informações como prisões, apreensões, instituição responsável, período e localização das ações e compará-las territorialmente com os padrões criminais.

Essa comparação permite formular perguntas extremamente relevantes. As prisões estão ocorrendo nos mesmos locais onde se concentram os delitos? Existe atividade policial intensa em áreas relativamente pouco problemáticas enquanto hotspots persistentes recebem pouca atenção? Um aumento de produtividade é seguido por alguma alteração nos indicadores criminais? Quais instituições estão atuando em cada território?

Não se trata de presumir causalidade onde ela não pode ser demonstrada. Trata-se de produzir perguntas melhores — e fornecer aos gestores informações para investigá-las.

Inteligência artificial como analista auxiliar

Nos últimos anos, a inteligência artificial generativa abriu uma nova fronteira para a administração pública. Mas o desafio não é simplesmente colocar um chatbot dentro de uma prefeitura. A questão mais interessante é descobrir em quais atividades a IA pode efetivamente reduzir trabalho repetitivo e ampliar a capacidade analítica das equipes.

No URBIK, começamos por uma tarefa extremamente concreta: escrever relatórios analíticos. A plataforma já produz gráficos, tabelas, séries temporais, mapas, indicadores e filtros. Uma camada de inteligência artificial pode receber essas informações estruturadas e transformá-las em uma primeira versão de relatório.

Ela pode identificar, por exemplo, quais indicadores cresceram, quais diminuíram, quais bairros se destacam, quais tendências merecem atenção e quais resultados precisam ser acompanhados.

O relatório produzido pela IA não substitui o analista. Ele funciona como um primeiro analista digital, encarregado de realizar parte do trabalho mecânico de leitura e consolidação das informações. Cabe ao profissional interpretar o contexto, verificar hipóteses, acrescentar conhecimento institucional e decidir.

Esse princípio é fundamental para nossa visão sobre inteligência artificial aplicada à segurança pública: IA deve ampliar a capacidade humana de decisão, não eliminar a responsabilidade humana sobre a decisão.

 

Tecnologia não substitui uma política de segurança

Talvez seja igualmente importante explicar o que o URBIK não pretende ser. Nenhuma plataforma tecnológica reduz a criminalidade sozinha.

Mapas não prendem criminosos. Algoritmos não conhecem integralmente a dinâmica social de um bairro. Indicadores não substituem policiais bem treinados, lideranças competentes, integração institucional, políticas preventivas ou relacionamento com a comunidade.

Além disso, sistemas baseados em dados precisam reconhecer as limitações dos próprios dados. Registros administrativos refletem não apenas a ocorrência de crimes, mas também padrões de denúncia, registro e atividade das instituições. A literatura sobre policiamento preditivo, por exemplo, já demonstrou o risco de ciclos de retroalimentação quando dados gerados pela própria atividade policial são utilizados de maneira acrítica para determinar onde a polícia deverá atuar novamente.

Por isso, nossa concepção é deliberadamente diferente. O URBIK não pretende dizer automaticamente ao gestor o que ele deve fazer. Pretende oferecer melhores condições para que ele saiba o que está acontecendo, onde está acontecendo, como está evoluindo, onde estão sendo empregados os recursos e quais foram os resultados das decisões anteriores. A decisão continua sendo humana.

Uma ferramenta também para a população

Embora o URBIK tenha sido desenvolvido principalmente para gestores e profissionais de segurança pública, uma gestão orientada por evidências pode produzir benefícios que ultrapassam as instituições. Transparência é um deles.

Metas claras permitem que a sociedade acompanhe resultados. Indicadores organizados tornam mais compreensível a situação da segurança. Relatórios periódicos ajudam a substituir discussões baseadas exclusivamente em episódios isolados por diagnósticos mais consistentes.

Existe também um benefício menos visível. Quando recursos escassos são empregados de maneira mais racional, aumenta a possibilidade de que a população receba melhores serviços com a mesma estrutura existente. Uma viatura não precisa necessariamente circular mais quilômetros. Talvez precise circular pelos quilômetros certos.

O município como laboratório de inovação

Há razões para acreditar que parte importante da inovação em segurança pública brasileira poderá ocorrer justamente nos municípios. As cidades estão próximas dos problemas. Conhecem suas ruas, escolas, praças, terminais, centros comerciais e bairros. Guardas municipais possuem contato cotidiano com esses espaços. Prefeituras controlam políticas urbanas, iluminação, fiscalização, trânsito, assistência social e diversas outras áreas relacionadas à prevenção.

Além disso, o ambiente institucional está mudando. A Secretaria Nacional de Segurança Pública lançou iniciativas específicas para diagnóstico e fortalecimento das Guardas Municipais, e programas federais recentes passaram a estabelecer requisitos e mecanismos próprios para adesão dos municípios a políticas nacionais de segurança.

O desafio é transformar essa crescente responsabilidade em crescente capacidade de gestão. Tecnologia pode contribuir para isso. Não simplesmente porque computadores processam informações mais rapidamente, mas porque sistemas bem desenhados podem institucionalizar boas práticas.

Um bom sistema pode fazer com que perguntar "qual é a evidência?" deixe de depender da iniciativa individual de um excelente gestor e passe a fazer parte da rotina da organização. Pode fazer com que estabelecer metas, localizar problemas, documentar intervenções e verificar resultados deixem de ser atividades extraordinárias. Podem tornar-se o modo normal de trabalhar.

Uma decisão melhor começa com uma leitura melhor

O URBIK nasce com uma ambição que vai além de construir software. Queremos contribuir para disseminar uma cultura de segurança pública municipal orientada por evidências. Uma cultura na qual dados sejam utilizados não apenas para produzir estatísticas anuais, mas para orientar decisões cotidianas.

Na qual mapas não sejam apenas ilustrações, mas instrumentos para definir prioridades. Na qual metas sejam estabelecidas antes das intervenções. Na qual operações sejam acompanhadas. Na qual resultados sejam avaliados. Na qual aquilo que funcionou possa ser repetido — e aquilo que não funcionou possa ser modificado. E na qual inteligência artificial, estatística e geoprocessamento estejam a serviço, e não no lugar, da inteligência dos profissionais de segurança pública.

O futuro da segurança pública provavelmente não será determinado por uma única tecnologia, uma única instituição ou uma única estratégia. Mas dificilmente construiremos esse futuro sem aprender a utilizar melhor uma matéria-prima que nossas cidades já produzem diariamente em enorme quantidade: informação.

O desafio agora é transformá-la em conhecimento. Transformar conhecimento em ação. E transformar ação em resultados que possam ser medidos. Foi para ajudar a percorrer esse caminho que construímos o URBIK.

Conheça o URBIK: www.urbik.com.br

 

Referências para publicação

BRAGA, Anthony A.; Turchan, Brandon; Papachristos, Andrew V.; Hureau, David M. Hot spots policing of small geographic areas effects on crime. Campbell Systematic Reviews.

WEISBURD, David; TELEP, Cody W.; HINKLE, Joshua C.; ECK, John E. Is problem-oriented policing effective in reducing crime and disorder? Findings from a Campbell systematic review. Criminology & Public Policy, 2010.

SHERMAN, Lawrence W. Evidence-Based Policing. Police Foundation, 1998.

SECRETARIA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA. Diagnóstico Nacional das Guardas Municipais. Ministério da Justiça e Segurança Pública.

URBIK. Manual Técnico da Plataforma URBIK – Inteligência para Segurança Pública. 2026.

 

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