quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Afinal, como medir a criminalidade?

 

SEGURANÇA PÚBLICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS


Por que contar ocorrências não basta para comparar tendências e prioridades territoriais

Túlio Kahn  |  Agosto de 2026  |  Seis naturezas criminais · séries temporais e comparação territorial

Quando se afirma que “a criminalidade aumentou” em uma cidade, a frase parece simples, mas esconde um problema importante de medição. Homicídios podem cair enquanto roubos aumentam. Furtos podem crescer ao mesmo tempo que lesões corporais diminuem. Crimes sexuais podem seguir uma trajetória diferente dos crimes contra o patrimônio. Nas estatísticas policiais não existe uma variável chamada simplesmente “criminalidade”: existem diferentes tipos de crime, medidos separadamente.

Para o gestor municipal, isso cria uma dificuldade concreta. Prefeitos, secretários de segurança e comandantes de Guardas Municipais precisam acompanhar muitos indicadores, mas frequentemente precisam responder a perguntas mais simples: a situação geral da cidade melhorou ou piorou? Quais bairros deveriam receber maior atenção?

O índice ponderado de criminalidade (IC) oferece uma alternativa entre usar um único delito e simplesmente somar todas as ocorrências. Sua lógica combina frequência e gravidade: quanto maior o número de ocorrências, maior o índice, mas crimes mais graves contribuem mais para seu valor. A metodologia recupera uma proposta desenvolvida originalmente nos anos 1990 para a análise da criminalidade na Região Metropolitana de São Paulo e a adapta às naturezas atualmente existentes na base do estudo.

Os pesos utilizados pelo IC


 

Evidências em síntese

Indicador

Resultado

Lesão corporal

peso 0,625

Furto

peso 3,5

Roubo

peso 8

Estupro

peso 8

Referência temporal

média da série = 100

Fonte: elaboração do autor com dados públicos indicados na bibliografia.

Os pesos acompanham a legislação vigente. Furto e roubo tiveram suas penas modificadas em 2026. O estupro de vulnerável também teve sua pena elevada recentemente, razão pela qual seu peso médio atualmente é 14, ligeiramente superior aos 13 do homicídio simples. Isso não estabelece uma hierarquia própria do estudo: adota como régua externa de gravidade a valoração expressa pelo legislador.

A pena não é uma medida perfeita do dano social provocado por cada delito. Sua vantagem é oferecer um critério transparente, replicável e independente da frequência com que cada crime ocorre. O índice não substitui os indicadores individuais. Se o IC aumenta, a pergunta seguinte deve ser quais crimes explicam o aumento. Ele funciona como um termômetro: oferece uma leitura geral e permite abrir seus componentes para compreender o diagnóstico.

Uma medida para acompanhar a cidade

A primeira aplicação do IC desenvolvida no estudo mede o nível geral de criminalidade do município. As ocorrências são transformadas em taxas populacionais e ponderadas pelos pesos de gravidade, permitindo comparar cidades de diferentes tamanhos. Nos dados disponíveis para 2024 e 2025, Guarujá apresentou IC médio de 1.689,5, Carapicuíba 1.625,6, Santos 1.567,0 e Botucatu 743,5.


 

Indicadores sintéticos são úteis porque resumem dimensões diferentes em uma mesma escala, mas sua construção envolve escolhas normativas. Um furto e um homicídio não possuem o mesmo impacto social; ao mesmo tempo, pesos excessivamente arbitrários podem produzir rankings pouco transparentes. A solução adotada foi explicitar cada peso e permitir que o leitor reconstrua o resultado.

O índice possui duas aplicações distintas. Na série temporal municipal, mostra se a carga criminal ponderada está acima ou abaixo da média histórica da própria cidade. Na comparação interna, reorganiza prioridades territoriais ao considerar simultaneamente volume e gravidade. As duas leituras não devem ser confundidas com risco individual.

O ganho analítico não está em declarar um número definitivo de criminalidade, mas em tornar explícita a decisão sobre o que conta mais. Contagens simples continuam importantes e devem ser apresentadas ao lado do índice, funcionando como teste de transparência e sensibilidade.

Essa medida sintética simplifica a primeira leitura sem esconder o que existe por trás dela. Os indicadores individuais mostram se a mudança veio de furtos, roubos, homicídios, crimes sexuais ou lesões.

Uma segunda aplicação: dentro do município

A segunda aplicação leva a mesma lógica para dentro do município. A pergunta passa a ser: em quais bairros está concentrada a maior carga de criminalidade? O estudo calcula a quantidade de ocorrências de cada território e aplica os mesmos pesos de gravidade.

O que muda quando olhamos os bairros de Botucatu

Um teste com dados reais de Botucatu em 2024 e 2025 mostra a diferença entre simplesmente contar ocorrências e considerar também sua gravidade. Antes do cálculo, os nomes dos bairros foram padronizados para evitar que diferentes grafias fossem tratadas como territórios distintos.

No sentido inverso, Vila Paulista possui 105 ocorrências e aparece na 11ª posição pelo volume, mas cai para a 22ª pelo IC. Entre os seis crimes considerados predominam furtos e lesões, sem registros de homicídio, estupro ou estupro de vulnerável no período analisado.

Medir, priorizar, intervir e avaliar


 

O IC pode ser integrado à gestão por resultados. A prefeitura acompanha o IC municipal, identifica quais crimes explicam sua evolução, verifica quais bairros concentram maior carga, estabelece prioridades e avalia se as intervenções foram acompanhadas de redução do índice. Forma-se uma sequência simples: medir, priorizar, intervir e avaliar.

O IC não elimina os problemas conhecidos das estatísticas policiais. Subnotificação, alterações administrativas e diferenças na propensão das vítimas a registrar ocorrências continuam afetando os dados. Também não seria correto apresentar o ranking territorial como uma lista dos “bairros mais perigosos”. O indicador mede a carga de criminalidade registrada ponderada pela gravidade, e não o risco individual de cada morador.

Sua principal vantagem é gerencial. A segurança pública produz grande quantidade de informação, enquanto o tempo disponível para analisá-la é limitado. O índice permite começar por perguntas compreensíveis: a criminalidade está aumentando ou diminuindo? Quais crimes explicam a tendência? Onde estão concentrados os problemas? Os bairros prioritários continuam os mesmos?

Esse é o papel do Índice de Criminalidade no estudo: transformar a complexidade da segurança pública em uma medida que possa ser acompanhada, explicada e utilizada para tomar decisões.

Fonte dos dados: base consolidada do estudo. Os resultados são descritivos e podem ser atualizados com a incorporação de novos municípios e períodos.

Referências

SELLIN, T.; WOLFGANG, M. The Measurement of Delinquency. New York: Wiley, 1964.

SHERMAN, L. W. Causes of police behavior: the current state of quantitative research. Journal of Research in Crime and Delinquency, 1980.

RATCLIFFE, J. Intelligence-Led Policing. 2. ed. London: Routledge, 2016.

SÃO PAULO. Secretaria da Segurança Pública. Microdados estaduais de ocorrências criminais, 2024–2026.

Bases públicas: Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, https://www.ssp.sp.gov.br/estatistica/consultas; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, quando indicado.

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