O Brasil costuma ser descrito como um país de contrastes profundos. Desde as interpretações clássicas da sociologia nacional consolidou-se a ideia de que coexistem no território duas realidades distintas — os chamados “dois Brasis”. De um lado, um país mais integrado ao desenvolvimento econômico, com maior presença institucional e melhores indicadores sociais; de outro, um país marcado por desigualdades persistentes, fragilidades estruturais e maior vulnerabilidade social. Essa dualidade foi observada inicialmente em termos econômicos e sociais, mas evidências recentes sugerem que ela também se manifesta de forma clara no campo da violência e da criminalidade.
Uma análise comparativa dos estados brasileiros permite identificar dois regimes distintos de homicídios, que não diferem apenas em níveis de violência, mas também em características sociais, econômicas e institucionais. Essa classificação revela uma divisão territorial relativamente consistente: um conjunto de estados com taxas mais elevadas de homicídios e indicadores sociais mais desfavoráveis, concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste, e outro conjunto com níveis menores de violência e melhores condições socioeconômicas médias, predominante no Centro-Sul do país.
No primeiro grupo encontram-se Acre, Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Sergipe e Tocantins. No segundo grupo estão Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Rondônia, Roraima, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Embora existam exceções e diferenças internas importantes, o padrão geral coincide com desigualdades regionais historicamente conhecidas no Brasil.
As diferenças entre os regimes são marcantes. Estados do primeiro regime apresentam taxas médias de homicídio significativamente mais altas, maior mortalidade em confrontos com a polícia, maior mortalidade em estabelecimentos prisionais e maior uso de armas de maior poder destrutivo nos crimes letais. Também exibem níveis médios de desemprego mais elevados e maior exposição a contextos de vulnerabilidade social. Já os estados do segundo regime apresentam taxas menores de homicídio, menor letalidade policial e melhores indicadores econômicos médios, ainda que também enfrentem problemas relevantes de criminalidade.
Essas diferenças sugerem que a violência letal está profundamente associada a fatores sociais e estruturais mais amplos. Um dos elementos centrais é a desigualdade socioeconômica. Estados com maiores taxas de homicídio tendem a apresentar maior pobreza relativa, menor renda média, maior informalidade no mercado de trabalho e menores oportunidades educacionais. A literatura internacional mostra que desigualdade e privação relativa estão fortemente associadas à violência, especialmente em contextos de urbanização rápida e exclusão social persistente. Quando expectativas sociais crescem mais rapidamente que as oportunidades reais, aumenta o risco de conflitos interpessoais e comportamentos violentos.
Outro fator importante é a dinâmica demográfica. A proporção de jovens do sexo masculino na população é um dos preditores mais consistentes de violência em estudos comparativos. Estados com maior crescimento populacional recente e maior concentração de jovens em áreas urbanas vulneráveis tendem a apresentar níveis mais elevados de homicídio. Esse fenômeno é amplamente documentado na criminologia e está relacionado ao ciclo de vida criminal, no qual a propensão à violência é maior na juventude.
A urbanização também desempenha papel relevante. Regiões que passaram por processos mais rápidos e desordenados de expansão urbana frequentemente apresentam maiores níveis de violência, sobretudo quando o crescimento ocorre sem infraestrutura adequada, serviços públicos suficientes e presença institucional efetiva. A formação de periferias com alta densidade populacional, baixa coesão social e acesso limitado a oportunidades econômicas cria condições propícias para conflitos interpessoais e criminalidade.
Diferenças na capacidade estatal constituem outro elemento fundamental. Estados com maior capacidade administrativa, melhores instituições policiais, maior investimento em políticas públicas e sistemas judiciais mais estruturados tendem a apresentar níveis menores de homicídio. A qualidade das políticas de segurança, a capacidade de investigação criminal e a eficiência do sistema de justiça influenciam diretamente a probabilidade de punição e, portanto, o comportamento criminoso. Além disso, serviços públicos mais amplos — educação, saúde, assistência social — contribuem para reduzir fatores de risco associados à violência.
A disponibilidade de armas de fogo também emerge como variável importante. Evidências mostram que maior circulação de armas aumenta a letalidade de conflitos cotidianos. Disputas interpessoais que poderiam resultar apenas em agressões tornam-se fatais quando armas estão presentes. Estados com maior intensidade de confrontos armados e maior uso de armas de maior calibre tendem a registrar taxas mais altas de homicídio.
Outro aspecto relevante é o contexto institucional do sistema prisional. Estados com maior mortalidade dentro de estabelecimentos prisionais frequentemente apresentam sistemas penitenciários mais precários, com menor controle estatal e maior violência interna. Isso reflete fragilidades institucionais mais amplas e pode contribuir para ciclos de violência que se estendem para além das prisões.
A existência desses dois regimes de violência tem implicações importantes para a análise sociológica e econômica. Muitas pesquisas tratam o Brasil como um sistema relativamente homogêneo, estimando relações médias entre variáveis — por exemplo, entre desemprego e homicídios — sem considerar que essas relações podem variar significativamente entre contextos institucionais distintos. Quando regimes diferentes são ignorados, corre-se o risco de produzir interpretações equivocadas ou políticas públicas inadequadas.
Do ponto de vista econométrico, a presença de regimes implica heterogeneidade estrutural. Modelos que assumem relações lineares uniformes podem mascarar mecanismos causais distintos entre grupos de estados. Em termos sociológicos, isso significa que a violência não segue uma lógica única no país; ela resulta da interação de fatores demográficos, econômicos e institucionais que operam de forma diferenciada em cada contexto regional.
Reconhecer a existência de “dois Brasis” também na criminalidade não implica determinismo regional nem inevitabilidade da violência. Pelo contrário, permite compreender melhor os fatores estruturais que moldam os níveis de homicídio e, consequentemente, formular políticas públicas mais eficazes. Estratégias que funcionam em estados com maior capacidade institucional podem não produzir os mesmos resultados em contextos de maior vulnerabilidade social. Da mesma forma, políticas sociais e econômicas podem ter impactos diferentes dependendo das condições locais.
Em última análise, a principal conclusão é que as diferenças regionais de violência no Brasil refletem desigualdades sociais profundas e trajetórias históricas distintas de desenvolvimento institucional. A criminalidade não pode ser entendida isoladamente como fenômeno policial ou jurídico; ela está intimamente ligada às condições sociais, econômicas e demográficas da população. Assim como existe um Brasil mais integrado ao desenvolvimento e outro mais vulnerável, existem também regimes distintos de violência que expressam essas desigualdades estruturais. Compreender essa dualidade é essencial para análises acadêmicas mais precisas e para políticas públicas capazes de enfrentar, de forma efetiva, a violência no país.
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