terça-feira, 1 de setembro de 2026

O crime está em toda parte?

 Conhecimento URBIK · Estudo 04

O crime está em toda parte?

Os dados do URBIK mostram que a criminalidade se concentra em uma parcela relativamente pequena da cidade — e que muitos desses lugares permanecem prioritários ao longo do tempo

Quando se olha para o mapa de uma cidade, é natural imaginar a segurança pública como um problema distribuído por todo o território. Há crimes no centro, nos bairros residenciais, nas áreas comerciais, nas periferias e nos corredores viários. Para o gestor municipal, essa percepção pode levar a uma conclusão aparentemente razoável: se o problema está em toda parte, os recursos também deveriam ser distribuídos de maneira relativamente uniforme.

Os dados do URBIK mostram uma realidade diferente. A criminalidade não se distribui igualmente pelo espaço urbano. Uma parcela relativamente pequena dos lugares concentra uma parte muito maior das ocorrências. Mais importante: muitos desses lugares continuam aparecendo entre os prioritários de um ano para outro.

Esse fenômeno é conhecido há décadas pela criminologia. A literatura sobre crime and place mostra que crimes tendem a se concentrar em determinados endereços, segmentos de rua e pequenos espaços urbanos. Essa constatação deu origem, entre outras estratégias, ao chamado hot spots policing: em vez de pensar apenas em grandes bairros ou regiões, procura-se identificar os pequenos lugares nos quais os problemas efetivamente se acumulam.

O URBIK permite testar essa ideia com dados dos municípios paulistas que integram sua base. Os resultados de 2024 e 2025 sugerem que a concentração espacial não é apenas uma hipótese teórica. Ela aparece de maneira clara nas cidades analisadas.

Olhar para a cidade em pequenas células

Para estudar o fenômeno, o URBIK não utilizou bairros. A opção por microterritórios é importante. Os nomes de bairros nos registros policiais apresentam variações de grafia, abreviações e subdivisões, além de serem unidades muito diferentes em tamanho e população. Um bairro pode reunir áreas residenciais, comerciais e industriais com padrões criminais completamente distintos.

Em vez disso, o URBIK divide o território em uma grade de pequenas células, da ordem de aproximadamente 250 metros, e associa cada ocorrência georreferenciada ao respectivo microterritório. A mesma metodologia já é utilizada pela plataforma para identificar áreas persistentes e emergentes. Para evitar células baseadas em eventos isolados, foram consideradas na análise apenas aquelas com pelo menos quatro registros.

A pergunta feita aos dados foi simples: que proporção dos microterritórios ativos é necessária para concentrar metade das ocorrências de uma cidade? A resposta varia entre os municípios, mas o padrão geral é bastante claro.

Município20242025
Botucatu18,1%19,9%
Jundiaí20,7%20,7%
Araras22,3%21,2%
Santos21,1%21,5%
Guarujá22,4%22,8%
Marília23,4%23,2%
Assis23,0%24,0%
Caraguatatuba24,8%23,3%
Carapicuíba24,9%24,8%
Vinhedo24,6%25,0%
Várzea Paulista21,2%25,3%
Louveira27,3%27,0%

Os números revelam algo concreto. Em boa parte dos municípios, aproximadamente um quinto a um quarto dos microterritórios ativos concentra metade das ocorrências criminais.

Em Botucatu, por exemplo, 18,1% dos microterritórios concentravam metade das ocorrências em 2024. Em 2025, eram 19,9%. Em Jundiaí, a proporção foi exatamente 20,7% nos dois anos. Em Santos, 21,1% em 2024 e 21,5% em 2025. Araras apresentou 22,3% e 21,2%.

O que chama atenção não é apenas a concentração, mas também a estabilidade dos resultados. Carapicuíba registrou 24,9% em um ano e 24,8% no seguinte. Marília, 23,4% e 23,2%. Guarujá, 22,4% e 22,8%. Louveira, 27,3% e 27,0%.

A distribuição espacial da criminalidade, portanto, não parece se reorganizar completamente a cada ano.

Isso não significa que 20% da área física da cidade concentre metade dos crimes. Estamos falando de 20% dos microterritórios ativos, isto é, das pequenas células que apresentaram quantidade suficiente de registros para entrar na análise. A distinção é importante. Ainda assim, para o planejamento municipal, o resultado é expressivo.

Quando a gravidade entra na conta

Contar ocorrências, porém, não é a única maneira de medir a concentração. Um microterritório com muitos furtos não representa necessariamente a mesma carga criminal de outro com menor número de ocorrências, mas maior presença de roubos, homicídios ou crimes sexuais.

Por isso, repetimos o exercício utilizando o Índice de Criminalidade do URBIK (IC), apresentado em estudo anterior do Conhecimento URBIK. Em vez de simplesmente contar os registros, o IC pondera diferentes crimes segundo sua gravidade relativa.

Em várias cidades, a carga criminal ponderada mostrou-se ainda mais concentrada do que o número bruto de ocorrências. Em Botucatu, em 2025, eram necessários 19,9% dos microterritórios para concentrar metade das ocorrências, mas apenas 16,2% para concentrar metade do IC. Em Jundiaí, a diferença foi de 20,7% para 17%. Em Araras, de 21,2% para 17%. Em Guarujá, de 22,8% para 20,7%.

Isso significa que a concentração espacial encontrada não é simplesmente consequência de muitos delitos de menor gravidade ocorrerem nos mesmos locais. A carga criminal mais grave também tende a se concentrar territorialmente.

O resultado não é idêntico em todas as cidades — e não deveria ser. Há municípios nos quais volume e gravidade apresentam praticamente a mesma concentração e outros nos quais o IC se distribui de maneira um pouco diferente. Para o gestor, justamente aí está a utilidade da análise: conhecer não apenas onde há muitas ocorrências, mas onde se concentra a combinação entre frequência e gravidade.

Muitos dos lugares prioritários permanecem prioritários

Para testar a persistência, identificamos em 2024 o conjunto de microterritórios que, começando pelos de maior incidência, acumulava aproximadamente metade das ocorrências. Em seguida verificamos quantos desses locais continuavam pertencendo ao mesmo grupo prioritário em 2025.

MunicípioPrioritários de 2024 que permanecem em 2025
Santos79,6%
Várzea Paulista72,2%
Carapicuíba71,1%
Araras70,0%
Louveira66,7%
Marília66,2%
Jundiaí64,1%
Guarujá63,2%
Botucatu61,9%
Caraguatatuba60,0%
Assis53,1%

Os resultados mostram considerável permanência. Santos é um exemplo particularmente claro. Em 2024, 93 microterritórios eram suficientes para concentrar aproximadamente metade das ocorrências georreferenciadas. Em 2025, novamente eram 93. Setenta e quatro deles estavam presentes nos dois grupos, o que representa uma permanência de quase 80%.

Em Carapicuíba, 90 microterritórios formavam o grupo de maior concentração em cada ano e 64 permaneciam entre os prioritários, uma taxa de 71%. Em Araras, 40 microterritórios compunham o grupo em 2024, 34 em 2025 e 28 estavam presentes nos dois anos, correspondendo a 70% de permanência.

O Índice de Criminalidade acrescenta outra informação interessante. Em Botucatu, 61,9% dos microterritórios prioritários pelo número de ocorrências permaneceram no ano seguinte. Quando o critério passa a ser a carga criminal ponderada pelo IC, a permanência chega a 73,7%. Nesse caso, os locais que concentram os crimes de maior peso parecem ainda mais persistentes do que aqueles definidos apenas pela quantidade de registros.

Isso não significa que o mapa do crime seja imutável. Se 60% ou 70% dos microterritórios permanecem, uma parcela relevante também deixa o grupo prioritário e outros lugares entram nele. A conclusão correta não é que “o crime acontece sempre nos mesmos lugares”. É mais interessante:

Grande parte da concentração criminal persiste nos mesmos lugares, mas novos focos também surgem ao longo do tempo.

O que o gestor pode fazer com essa informação?

Se os crimes fossem distribuídos de maneira aproximadamente uniforme pela cidade, faria sentido distribuir atenção e recursos também de maneira uniforme. Mas quando uma parcela relativamente pequena dos microterritórios concentra metade das ocorrências, tratar todos os lugares da mesma maneira pode significar desperdiçar capacidade de prevenção.

Isso não quer dizer simplesmente colocar mais viaturas nos pontos com mais registros. O primeiro passo é diagnosticar por que aquele microterritório concentra problemas.

Um hotspot em torno de um terminal de transporte pode exigir medidas diferentes de outro situado numa região de bares. Uma concentração de furtos em área comercial não pede necessariamente a mesma resposta de um microterritório marcado por violência interpessoal. Iluminação, desenho urbano, fiscalização, ordenamento, controle de acesso, horários de funcionamento, videomonitoramento, presença de agentes públicos, articulação com comerciantes e intervenções em estabelecimentos reincidentes são exemplos de respostas que dependem do diagnóstico do lugar.

A análise espacial permite, assim, uma sequência de planejamento:

Identificar o microterritório → compreender o problema → escolher a intervenção → acompanhar o resultado.O foco deve ser o mecanismo que produz o problema em cada lugar.

A persistência acrescenta outra dimensão. Um lugar que aparece repetidamente entre os prioritários merece uma investigação estrutural. Pode existir alguma característica do ambiente que continuamente produz oportunidades para o crime. Já um microterritório que surge recentemente exige outra pergunta: o que mudou?

Uma nova atividade comercial, alteração no transporte, evento, abandono de imóvel, mudança na circulação de pessoas ou simples deslocamento de um problema de uma área próxima podem produzir um hotspot emergente.

Por isso, o URBIK procura distinguir microterritórios persistentes de focos recentes. A análise de 2024 e 2025 mostra por que essa distinção é importante: existe uma estrutura territorial relativamente estável, mas ela não elimina o surgimento de novos problemas.

Há ainda uma cautela essencial. Um microterritório com alta concentração criminal não deve ser confundido com uma população “criminosa” ou com moradores mais perigosos. O dado descreve lugares onde eventos são registrados, não características das pessoas que vivem ali. Áreas comerciais, terminais, hospitais, escolas e regiões de lazer podem concentrar ocorrências justamente porque recebem grande população flutuante.

A unidade de intervenção é o problema do lugar, não o perfil de seus moradores.

Concentrar atenção para ampliar resultados

A principal mensagem deste estudo é simples: o crime não está igualmente em toda parte.

Nos municípios analisados pelo URBIK, uma parcela relativamente pequena dos microterritórios concentra uma parcela muito maior das ocorrências. Em boa parte das cidades, cerca de 20% a 25% das células ativas são suficientes para reunir metade dos registros. Quando consideramos também a gravidade dos crimes, em vários municípios a concentração torna-se ainda maior.

Além disso, boa parte desses lugares permanece prioritária de um ano para outro. Em Santos, quase 80% dos microterritórios responsáveis pela maior concentração em 2024 continuaram no grupo em 2025. Em Carapicuíba e Araras, aproximadamente 70%. Em diversas outras cidades, mais de 60%.

Para o gestor municipal, isso representa uma oportunidade. Recursos de segurança são sempre limitados. Tempo de equipes, fiscalização, iluminação, monitoramento e capacidade de intervenção não podem ser empregados com a mesma intensidade em todos os lugares.

A gestão baseada em evidências não significa abandonar o restante da cidade. Significa reconhecer que problemas diferentes exigem intensidades diferentes de atenção.

Se poucos lugares concentram grande parte da carga criminal e muitos deles permanecem problemáticos ao longo do tempo, esses microterritórios são candidatos naturais a diagnósticos mais aprofundados e intervenções focalizadas. Ao mesmo tempo, a renovação parcial dos hotspots exige monitoramento contínuo para identificar áreas emergentes.

Essa talvez seja a principal contribuição da análise territorial para a segurança municipal. Em vez de perguntar apenas “quanto crime existe na cidade?”, o gestor passa a fazer uma pergunta muito mais útil:

Onde exatamente está o problema — e ele continua no mesmo lugar?

Responder bem a essa pergunta pode ser o primeiro passo para concentrar melhor os esforços e produzir resultados maiores com os recursos que o município já possui.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK. Os resultados utilizam dados de 2024 e 2025, dependem de registros georreferenciados e devem ser atualizados à medida que novos períodos e municípios forem incorporados.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Cada crime tem sua própria geografia?

 


Uma análise espacial dos furtos, roubos, homicídios dolosos e crimes sexuais nos 645 municípios paulistas mostra que a proximidade importa — mas de maneira diferente para cada crime.

Quando os indicadores criminais de um município pioram, uma das primeiras perguntas feitas pelos gestores é se o problema está restrito à cidade ou se acompanha um movimento regional. A pergunta parece simples, mas contém uma dificuldade: de qual crime estamos falando? A região relevante para compreender os roubos pode não ser a mesma dos homicídios. Uma cidade pode integrar um corredor de furtos e, ao mesmo tempo, estar fora das áreas de maior violência letal.

Este estudo examina a distribuição de furtos, roubos, homicídios dolosos e violência sexual nos 645 municípios do Estado de São Paulo em 2024 e 2025. O objetivo é verificar se municípios vizinhos apresentam taxas semelhantes e, sobretudo, se as regiões de maior incidência coincidem entre diferentes crimes.

Resultado principal

Todos os quatro crimes possuem estrutura espacial, mas cada um desenha um mapa diferente. Furtos e roubos são os mais próximos entre si. Os homicídios formam um corredor próprio. A violência sexual apresenta outra geografia, praticamente independente dos crimes patrimoniais e da violência letal.

Dois anos completos e quatro naturezas criminais

A análise utiliza os registros individuais disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo para 2024 e 2025. Foram contabilizados 1.287.124 registros de furto, 411.688 de roubo, 4.955 de homicídio doloso e 29.022 de estupro e estupro de vulnerável, reunidos sob a denominação violência sexual.

As taxas municipais foram calculadas por 100 mil habitantes. Para homicídios e violência sexual foi aplicada suavização empírica bayesiana, reduzindo o peso de flutuações aleatórias em cidades pequenas. A relação entre cada município e seus vizinhos foi representada por uma matriz de contiguidade territorial. Os resultados também foram confrontados com contiguidade queen e com os cinco municípios de sede mais próxima.

O I de Moran global mostra se taxas semelhantes tendem a se agrupar no Estado. Os indicadores locais LISA identificam onde estão os agrupamentos alto–alto, baixo–baixo e os municípios que destoam de sua vizinhança. A significância foi estimada com 9.999 permutações, acompanhada do procedimento de Benjamini–Hochberg para controlar falsos resultados em centenas de testes locais.

A criminalidade paulista não se distribui ao acaso

NaturezaI de Moranp por permutaçãoLeitura
Furto0,1980,0005Dependência espacial moderada
Roubo0,3860,0001Forte padrão metropolitano e regional
Homicídio doloso0,4100,0001Forte concentração regional específica
Violência sexual0,3920,0001Estrutura regional distinta dos demais crimes

As quatro modalidades apresentam autocorrelação espacial positiva e estatisticamente significativa. Municípios próximos tendem a se parecer mais do que municípios escolhidos aleatoriamente. Os resultados permanecem praticamente iguais nas três definições de vizinhança; o que muda substancialmente é onde cada estrutura aparece.

Furtos: metrópoles, litoral e oportunidades móveis

Mapa LISA das taxas municipais de furtos em São Paulo no biênio 2024–2025
Furtos apresentam o padrão espacial mais fragmentado, combinando agrupamentos metropolitanos, litorâneos e turísticos.

Os furtos possuem o mapa mais fragmentado. Os agrupamentos alto–alto encontrados pelo teste nominal abrangem Barueri, Carapicuíba e Cajamar na área metropolitana, mas também Bertioga, Caraguatatuba e Cananéia no litoral, além de Américo Brasiliense no interior.

Essa combinação sugere que a geografia dos furtos não é exclusivamente metropolitana. O crime depende de oportunidades: circulação intensa, atividade comercial, turismo, veículos, imóveis temporariamente desocupados e concentração de bens disponíveis. Municípios litorâneos podem apresentar taxas elevadas porque recebem uma população muito maior do que aquela registrada como residente.

Depois da correção para múltiplos testes, nenhum município permanece individualmente significativo. Isso não contradiz o resultado global. Existe dependência espacial no conjunto do Estado, mas não há evidência suficiente para transformar um município específico em polo excepcional depois do controle rigoroso de centenas de comparações.

Roubos: uma geografia metropolitana persistente

Mapa LISA das taxas municipais de roubos em São Paulo no biênio 2024–2025
Os roubos formam o núcleo regional mais claramente metropolitano e persistente.

Os roubos apresentam o desenho mais claramente metropolitano. O agrupamento alto–alto abrange Arujá, Atibaia, Barueri, Caieiras, Cajamar, Campo Limpo Paulista, Carapicuíba e Cotia, acompanhado por Bertioga no litoral.

Mais importante do que a fotografia do biênio é a persistência: os nove municípios classificados como alto–alto em 2024 permaneceram nessa condição em 2025. Barueri, Cotia e Caieiras continuam significativas mesmo depois da correção de Benjamini–Hochberg.

Furtos e roubos são as modalidades mais parecidas. A correlação de Pearson entre as taxas municipais é 0,565 e a de Spearman chega a 0,604. Ainda assim, os mapas não são equivalentes. O roubo depende de interação coercitiva e tende a responder mais diretamente à densidade de alvos, à mobilidade cotidiana, aos corredores viários e à integração urbana.

Homicídios: um corredor próprio

Mapa LISA das taxas municipais suavizadas de homicídios dolosos em São Paulo no biênio 2024–2025
Os homicídios formam um corredor no Vale do Paraíba e Litoral Norte, separado dos principais polos patrimoniais.

Os homicídios dolosos desenham outro mapa. O agrupamento alto–alto concentra-se em Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas e Caraguatatuba. Campos do Jordão surge como baixo–alto: possui taxa relativamente baixa diante de uma vizinhança mais elevada.

Aparecida e Cachoeira Paulista continuam significativas depois do controle de falsos descobrimentos. A correlação entre homicídio e furto é apenas 0,103; entre homicídio e roubo, 0,081. Nenhum dos principais polos de homicídio coincide com o núcleo metropolitano de roubos.

O resultado contraria a ideia de que a violência letal seria apenas a forma mais grave de uma criminalidade geral. Homicídios podem estar associados a conflitos interpessoais, violência doméstica, disputas locais, mercados ilícitos, armas de fogo e redes sociais que não seguem a distribuição das oportunidades de furto ou roubo.

Violência sexual: uma terceira geografia

Mapa LISA das taxas municipais suavizadas de violência sexual em São Paulo no biênio 2024–2025
A violência sexual apresenta concentração própria, sobretudo no Vale do Ribeira e sudoeste paulista.

A violência sexual apresenta forte dependência espacial em regiões diferentes das demais modalidades. Os agrupamentos alto–alto se concentram principalmente no Vale do Ribeira e sudoeste paulista. Aparecem Apiaí, Barra do Chapéu, Barra do Turvo, Bom Sucesso de Itararé, Cajati, Cananéia, Capão Bonito e Coronel Macedo, além de municípios da região de Avaré.

Barra do Turvo, Cajati e Cananéia permanecem significativas depois da correção de Benjamini–Hochberg. A correlação com furto é 0,077; com roubo, −0,098; com homicídio, 0,016. Não há coincidência entre os agrupamentos alto–alto de violência sexual e os de roubo ou homicídio.

A interpretação exige cautela. Registros policiais de violência sexual são influenciados pelo acesso à delegacia, confiança nas instituições, disponibilidade de serviços de saúde e assistência e atuação da rede de proteção. Uma região com registros mais altos pode possuir maior incidência, melhor detecção ou ambas as coisas. O mapa mostra a geografia dos fatos conhecidos pelo poder público, não uma medida perfeita da prevalência real.

Não existe uma única geografia criminal

Furtos e roubos possuem uma base comum ligada à metropolização e à circulação, mas os furtos se estendem com maior facilidade a polos turísticos e oportunidades dispersas. Os homicídios concentram-se em outro corredor regional. A violência sexual forma um terceiro padrão, com peso do Vale do Ribeira e sudoeste paulista e possível influência das diferenças de notificação.

Comparações regionais específicasO município deve ser comparado com vizinhos diferentes conforme o crime analisado.
Alertas separados por naturezaO crescimento de roubos nos vizinhos pode antecipar risco local de roubo, mas oferece pouca informação sobre homicídios ou violência sexual.
Cooperação orientada pelo problemaFluxos metropolitanos, corredores de violência letal e redes de proteção exigem arranjos regionais distintos.
População efetivamente expostaTurismo, deslocamentos pendulares e centralidade regional precisam complementar as taxas baseadas apenas em residentes.

O mapa é um ponto de partida, não uma explicação

O LISA identifica concentrações e outliers, mas não determina suas causas. Municípios próximos podem apresentar taxas semelhantes porque compartilham urbanização, redes viárias, economia, turismo, características demográficas ou padrões de registro. A autocorrelação espacial não demonstra que o crime se espalhou de uma cidade para outra.

Também é necessário distinguir significância global e local. Os quatro crimes apresentam dependência espacial global robusta nas três matrizes testadas. A identificação de municípios isolados, porém, envolve 645 testes simultâneos. Por isso, os mapas apresentam os agrupamentos nominais, enquanto o texto destaca separadamente os núcleos que resistem ao controle de falsos descobrimentos.

O próximo passo científico é acrescentar densidade, urbanização, população flutuante, deslocamentos pendulares, renda, estrutura etária e regiões metropolitanas, além de ampliar a série histórica. Mesmo com essas limitações, a conclusão é consistente: a proximidade importa, mas importa de maneira diferente para cada crime. Reconhecer essa diversidade é condição para diagnósticos mais precisos e políticas regionais adequadas ao problema que se pretende enfrentar.

Fontes e referências

ANSELIN, L. Local Indicators of Spatial Association—LISA. Geographical Analysis, v. 27, n. 2, p. 93–115, 1995. DOI.
LAW, J.; QUICK, M.; CHAN, P. Bayesian spatio-temporal modeling for analysing local patterns of crime over time at the small-area level. Journal of Quantitative Criminology, v. 30, p. 57–78, 2014.
QUICK, M.; LI, G.; BRUNTON-SMITH, I. Crime-general and crime-specific spatial patterns. Journal of Criminal Justice, v. 58, p. 22–32, 2018.
SÃO PAULO. Secretaria da Segurança Pública. Microdados estaduais de criminalidade, 2024–2025.
IBGE. Malha municipal digital e população dos municípios paulistas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O calendário muda o crime?

 


O que os dados do URBIK revelam sobre Natal, Ano Novo, Carnaval e outras datas especiais — e como essas informações podem ajudar o gestor municipal a planejar melhor a segurança

Datas especiais mudam a rotina das cidades. No Natal, famílias se reúnem e o comércio altera seu funcionamento. No Réveillon, festas avançam pela madrugada e milhares de pessoas celebram simultaneamente. No Carnaval, eventos e encontros ocupam ruas e espaços públicos. Em outros feriados, parte da população viaja, estabelecimentos fecham e a circulação de pessoas diminui. Se as oportunidades e as atividades cotidianas mudam, é razoável perguntar: o crime também acompanha o calendário?

Os dados disponíveis no URBIK indicam que sim, mas não da maneira mais simples. Não encontramos evidências de que datas especiais produzam, indistintamente, “mais criminalidade”. O que aparece é algo mais interessante para a gestão da segurança: algumas celebrações modificam o perfil dos crimes registrados, e diferentes tipos de crime respondem de maneiras diferentes ao calendário.

Como fizemos a comparação

A análise utilizou os registros de ocorrências dos municípios acompanhados pelo URBIK nos anos completos de 2024 e 2025. Para evitar que diferenças normais entre os dias da semana fossem confundidas com efeitos das comemorações, cada data especial foi comparada com dias equivalentes das semanas anteriores e posteriores. Um feriado que caiu em um domingo, por exemplo, foi comparado com outros domingos próximos, e não com a média indiscriminada de todos os dias.

Foram examinados inicialmente Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Corpus Christi, Dia das Mães, Dia dos Namorados e Dia das Crianças. A análise estatística concentrou-se principalmente em furto, roubo e lesão corporal dolosa, crimes com volume suficiente para produzir estimativas mais estáveis. Homicídios, tentativas de homicídio e crimes sexuais também foram examinados, mas não foram utilizados como base das principais conclusões: com apenas duas repetições de cada feriado, poucos casos adicionais poderiam produzir variações percentuais muito grandes.

Também adotamos uma precaução importante. Como muitas datas e diferentes crimes foram testados simultaneamente, aumenta a possibilidade de encontrar alguma diferença significativa apenas por acaso. Por isso, os resultados foram submetidos a correção para múltiplas comparações. Finalmente, verificamos se as tendências apareciam em diferentes municípios e nos dois anos, em vez de dependerem de uma única cidade ou de um episódio isolado.

Essa última verificação revelou-se especialmente importante.

O que acontece nos principais feriados

Data especialFurtoRouboLesão corporal dolosaPrincipal conclusão
Ano Novo↑ 30%↑ 43%↑ 188%Forte aumento, sobretudo da violência interpessoal
Carnaval↑ 30%Aumento concentrado nas lesões
Natal↓ 21%*↓ 19%↑ 74%Mudança do perfil em direção à violência interpessoal
PáscoaNenhuma alteração consistente

Nota: valores representam a comparação agregada com dias equivalentes próximos. Setas em negrito indicam diferenças que permaneceram estatisticamente significativas após a correção dos testes. *A redução agregada dos furtos no Natal foi estatisticamente significativa, mas não apresentou a mesma consistência entre municípios e entre 2024 e 2025; por isso, deve ser interpretada com cautela.

O primeiro resultado que chama atenção é o Ano Novo. Considerando os dois anos conjuntamente, as lesões corporais dolosas ficaram aproximadamente 188% acima do nível observado nos dias comparáveis. Furtos aumentaram cerca de 30% e roubos, 43%.

Em 1º de janeiro de 2024, todos os 12 municípios comparáveis apresentaram mais lesões corporais do que o esperado. Foram 54 ocorrências, diante de aproximadamente dez que seriam esperadas a partir dos dias de controle. Em 2025, o padrão se repetiu: 11 dos 12 municípios apresentaram aumento, com 59 ocorrências diante de cerca de 22 esperadas.

Portanto, o crescimento das lesões no Ano Novo não parece resultar de uma cidade particularmente violenta ou de um único ano excepcional. É um fenômeno bastante disseminado na amostra do URBIK.

Os crimes patrimoniais exigem interpretação mais cuidadosa. Embora furtos e roubos tenham apresentado crescimento significativo no agregado, a distribuição entre municípios é menos uniforme. No caso dos roubos, inclusive, o aumento total está bastante concentrado em algumas cidades. Para o gestor, isso significa que o Ano Novo merece atenção especial, mas o componente mais generalizável do fenômeno é claramente o crescimento da violência interpessoal.

O Carnaval apresenta uma história ainda mais específica. Não encontramos aumento estatisticamente significativo dos furtos ou dos roubos. As lesões corporais, entretanto, ficaram aproximadamente 30% acima do padrão de comparação. Nove dos 12 municípios apresentaram aumento em 2024 e exatamente nove dos 12 em 2025.

Quando examinamos separadamente os dias do Carnaval, a terça-feira apresenta uma elevação particularmente expressiva das lesões. O resultado sugere que falar genericamente em “aumento da criminalidade no Carnaval” seria impreciso. Nos municípios analisados, o sinal mais claro está na violência interpessoal, não nos crimes patrimoniais.

No Natal, menos patrimônio e mais conflitos?

O Natal apresenta talvez o contraste mais interessante do estudo. No agregado dos dois anos, os furtos ficaram aproximadamente 21% abaixo dos dias de comparação, enquanto as lesões corporais dolosas ficaram 74% acima. Os roubos também aparecem em nível inferior, embora a diferença agregada não tenha alcançado a mesma robustez estatística.

A redução dos furtos precisa ser vista com cautela. Ela foi bastante evidente em 2024, quando oito de 12 municípios apresentaram queda, mas não se repetiu da mesma maneira em 2025. Portanto, ainda não temos evidência suficiente para afirmar que “o Natal reduz os furtos”.

Com as lesões corporais, a história é muito diferente. Em 2024, nove dos 12 municípios apresentaram crescimento. Em 2025, o aumento ocorreu em todos os 12 municípios analisados. Naquele ano foram observadas 52 lesões no Natal, diante de aproximadamente 13 esperadas segundo o padrão dos dias equivalentes próximos.

Os roubos apresentaram tendência predominantemente descendente: nove de 11 municípios comparáveis registraram redução em 2024 e oito de dez em 2025.

A interpretação mais prudente, portanto, não é dizer que o Natal produz mais ou menos crime. É dizer que o perfil das ocorrências parece mudar. A criminalidade patrimonial perde importância relativa, enquanto a violência interpessoal aumenta de forma bastante consistente.

Por que isso acontece? Os dados do URBIK não permitem responder diretamente. Reuniões familiares, festas, maior convivência social e consumo de álcool são mecanismos plausíveis e compatíveis com mudanças nas atividades rotineiras, mas não dispomos de informações que permitam demonstrar que sejam as causas das ocorrências observadas. O que podemos afirmar empiricamente é que a mudança existe e é especialmente forte para lesões corporais.

Nem todo feriado muda o crime

A Páscoa oferece um contraponto particularmente útil. Furtos ficaram aproximadamente 9% abaixo do nível de comparação, roubos praticamente não mudaram e lesões corporais ficaram cerca de 5% acima. Nenhuma dessas diferenças foi estatisticamente significativa.

Quando restringimos a análise especificamente ao domingo de Páscoa e o comparamos com outros domingos, o resultado fica ainda mais claro: furto −3%, roubo −9% e lesão corporal −2%. Em termos práticos, o domingo de Páscoa se parece bastante com outros domingos próximos.

Corpus Christi, Dia das Mães, Dia dos Namorados e Dia das Crianças também foram examinados. Surgiram algumas diferenças pontuais — como uma possível redução dos roubos no Dia das Mães —, mas elas não apresentaram robustez suficiente depois de considerados conjuntamente os testes estatísticos e a consistência dos resultados. Por isso, não são tratadas neste estudo como padrões consolidados.

Essa talvez seja uma das lições metodológicas mais importantes do exercício: nem toda diferença observada é uma diferença relevante.

O que isso significa para o gestor municipal?

Os resultados sugerem que o planejamento da segurança para datas especiais não deveria começar simplesmente com a ideia de “reforçar o policiamento porque haverá um feriado”. Feriados diferentes produzem contextos sociais diferentes e, consequentemente, podem exigir estratégias distintas.

O Ano Novo merece atenção especial. É a data em que encontramos a mudança mais ampla e o maior crescimento das lesões corporais. A prevenção de conflitos e da violência interpessoal deveria ocupar posição central no planejamento, sem desconsiderar que determinados municípios também podem apresentar crescimento dos crimes patrimoniais.

No Carnaval, os dados sugerem uma orientação ainda mais específica. Não encontramos evidência de aumento generalizado de furtos e roubos, enquanto o crescimento das lesões se repete nos dois anos e em grande parte das cidades. A prevenção de conflitos em locais de concentração de pessoas e a articulação com serviços municipais ligados a eventos, fiscalização, saúde e ordenamento urbano podem ser mais importantes do que uma estratégia baseada exclusivamente na proteção patrimonial.

O Natal também merece atenção à violência interpessoal. O crescimento das lesões é um dos resultados mais consistentes de todo o estudo, enquanto os roubos tendem a diminuir na maioria dos municípios. Isso significa que simplesmente repetir no Natal a mesma estratégia adotada em períodos de grande movimento comercial pode deixar de contemplar justamente o problema que mais se altera na data.

Já a Páscoa, pelo menos com os dados atualmente disponíveis, não apresenta mudança suficientemente importante para justificar o mesmo diagnóstico aplicado às grandes festas de final de ano e ao Carnaval.

Há, portanto, uma mensagem simples por trás dos números: o calendário importa, mas importa de maneiras diferentes para crimes diferentes.

Para a gestão municipal, conhecer essas regularidades permite substituir parte do planejamento baseado em impressões por planejamento baseado em evidências. À medida que novas séries anuais forem incorporadas ao URBIK, será possível verificar se esses padrões permanecem, identificar diferenças entre tipos de município e aumentar a precisão das estimativas.

Os resultados apresentados aqui ainda correspondem a dois anos completos de observação e, por isso, devem ser entendidos como evidências iniciais, não como leis imutáveis do comportamento criminal. Mesmo assim, a repetição de alguns padrões em 2024 e 2025 e em diferentes municípios — sobretudo o crescimento das lesões corporais no Natal, Ano Novo e Carnaval — é suficientemente clara para merecer atenção.

A principal conclusão talvez seja justamente que perguntar “a criminalidade aumenta nos feriados?” não é a melhor pergunta. Para quem precisa planejar a segurança de uma cidade, a pergunta mais útil é outra:

Que tipo de problema tende a mudar em cada data — e como podemos nos preparar para ele?

É essa mudança, de uma preocupação genérica com “mais crime” para um diagnóstico específico do que muda, quando muda e com que consistência, que permite transformar dados criminais em decisões de gestão.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK. A análise utiliza os anos completos de 2024 e 2025 e deverá ser atualizada à medida que novos anos forem incorporados.

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